Coração de loba
15 Decisão
Narrado por Nessie
Corri pelas ruas de La Push com o rosto molhado de lágrimas. O vento cortava meu rosto, mas nada doía mais do que o que eu sentia por dentro. Quando atravessei a porta da casa dos Clearwater, Sue me chamou, mas eu nem respondi. Subi as escadas correndo e me tranquei no quarto.
Desabei no chão, encostada à porta.
Meus soluços ecoavam pelo cômodo como se estivessem tentando preencher o buraco que Jacob havia deixado dentro de mim. A dor era física, como se meu peito estivesse sendo rasgado de dentro pra fora. Eu me encolhi ali, abraçando os joelhos, tentando manter os pedaços de mim ainda juntos.
Eu só conseguia pensar em uma coisa: por quê?
Por que ele prometeu me amar e depois me deixou?
Um nó subiu pela minha garganta quando lembrei da minha mãe. Ah, se a minha mãe estivesse aqui... Ela sempre sabia o que dizer. Sempre me segurava quando o mundo desabava. Eu sentia tanta falta dela. Tanta. Era como se tê-la perdido de novo abrisse uma ferida que nunca cicatrizou.
Alguém bateu na porta com cuidado.
— Nessie? — Era a voz do tio Harry. — O que aconteceu, minha querida?
Logo depois, ouvi Sue sussurrando, preocupada:
— Abra, por favor. Estamos aqui pra você.
Tentei respirar, mas estava sufocando. Minha voz saiu embargada, quase inaudível:
— Eu só preciso... ficar sozinha.
O silêncio do outro lado confirmou que eles entenderam. Ou, pelo menos, respeitaram.
O quarto escurecia conforme a tarde caía. As sombras aumentavam no teto e meu coração parecia cada vez menor. Eu chorava sem controle, com o rosto escondido entre as mãos.
Foi então que ouvi passos leves do lado de fora. Depois, uma voz conhecida:
— Nessie... sou eu, Leah.
Me levantei devagar, sem entender por que ela estava ali. Mas alguma coisa na sua voz me fez abrir a porta.
Ela estava de pé, com os olhos suaves, mas cheios de memórias.
— Eu sei como você se sente. — disse ela, sem cerimônia. — Quando o amor vai embora como se nunca tivesse existido... parece que a gente morre por dentro.
Olhei pra ela, surpresa com a franqueza. Leah nunca foi de gestos suaves. Mas, antes que eu dissesse qualquer coisa, ela me puxou para um abraço apertado.
E eu chorei. Chorei como uma criança.
— Ele me traiu, Leah... — sussurrei. — Ele transou com ela.
— Eu sinto muito Nessie— Ela passou a mão pelas minhas costas. — Mas você ainda tem a si mesma. E isso... isso é muito.
Ficamos ali, abraçadas, no silêncio que só quem já teve o coração partido entende. Pela primeira vez naquela noite, senti que não estava completamente sozinha.
Claro! Aqui está a continuação narrada por Renesmee, com a cena da manhã seguinte:
Acordei com os olhos pesados, como se o travesseiro tivesse sugado cada pedaço da minha alma enquanto eu dormia. O quarto ainda estava mergulhado em sombras suaves, e por um segundo, não consegui lembrar como tinha ido parar ali. Então, a lembrança veio como uma onda fria: Jacob, a praia, o silêncio dele... a confirmação cruel.
Levei a mão à cabeça e suspirei fundo. Lembrei do chá quente que Sue me trouxe antes de eu apagar completamente. Ela sempre foi carinhosa, mas naquele momento, parecia que ela só queria desligar minha dor por algumas horas. E funcionou.
Sentei na cama devagar, o corpo doía como se eu tivesse corrido uma maratona. Meus olhos pousaram na pequena caixa no canto do quarto. A caixa que minha mãe deixou pra mim. Me aproximei e passei a mão sobre a tampa e naquele instante, percebi que talvez estivesse na hora de tomar uma decisão.
Ouvi patinhas leves no corredor e, segundos depois, Salém entrou no quarto com um miado choroso. Sorri fraco. Me agachei e o peguei no colo, enterrando o rosto no seu pelo macio. Ele ronronou como se sentisse minha dor e quisesse curar um pedaço dela.
Saí do quarto em passos lentos. Sue estava na cozinha e, ao me ver, colocou a caneca de café sobre a mesa e veio ao meu encontro.
— Bom dia, querida — disse ela, suavemente. — Como você está?
Segurei o gato com mais força e tentei manter a voz firme, mas saiu um pouco trêmula.
— Como se eu tivesse sido virada do avesso.
Ela assentiu com um olhar compreensivo, mas não insistiu. Apenas alisou meus cabelos com delicadeza.
— Seu tio Harry precisou sair bem cedo. Mas ele pediu pra você comer alguma coisa, se quiser.
Assenti distraída, olhando para a janela por um momento antes de me virar para ela.
— Sue... assim que terminar esse semestre na escola, eu vou embora de La Push.
Ela congelou por um segundo. Depois respirou fundo e segurou minha mão.
— Tem certeza disso querida? Noa somos sua família.
— Tenho. Preciso encontrar um lugar onde eu possa recomeçar. Onde não veja ele em cada esquina, em cada árvore, em cada lembrança.
Sue me puxou para um abraço e eu fechei os olhos por um momento, sentindo seu carinho. Mas minha decisão estava tomada. Eu não podia mais viver sob as ruínas de algo que, claramente, só eu ainda segurava com fé.
Era hora de me reconstruir. Longe dali.
Narrado por Jacob
O som metálico das ferramentas batendo nos motores era tudo o que eu queria ouvir. O cheiro de óleo, graxa e fumaça de escapamento me ajudava a manter os pensamentos longe… longe demais. Eu precisava me manter ocupado, focado, e o trabalho na oficina era o único lugar onde eu conseguia calar a culpa dentro de mim. A lembrança de Nessie destruída. Ferida.
Estava debruçado sobre o capô de um sedã, quando ouvi passos pesados se aproximando. Levantei o olhar e vi Harry Clearwater parado na entrada da garagem.
— Precisamos conversar — ele disse com a voz carregada de tensão.
Me endireitei lentamente, limpando as mãos em um pano velho. Ele entrou sem esperar convite, com os olhos firmes e escuros como tempestade.
— Isso vai ser entre homens — continuou ele. — E não espere que eu pegue leve só porque você é filho do Billy.
Senti os músculos do meu maxilar endurecerem. Eu já sabia o que vinha. O julgamento. A condenação.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, tentando manter a calma.
— Quero dizer que você é um moleque. Um moleque inconsequente, que quebrou o coração de uma garota que merecia o mundo — disparou Harry, se aproximando. — Só não mando um dos meus te dar uma lição porque respeito o sangue do seu pai. Mas saiba que você não é metade do homem que ele é.
Meu peito inflou com a raiva que vinha crescendo dia após dia. Mas antes que eu explodisse, vi Sam entrando pela porta dos fundos da oficina, como se já soubesse que precisava estar ali.
— Jake, respira — disse ele, se aproximando devagar.
Mas Harry não parava.
— Você nunca mereceu o posto que tem, Jacob. Você se esconde atrás do seu nome, mas age como um covarde. Um fraco. E um dia… — ele me olhou fundo, os olhos marejando com uma mistura de decepção e fúria — …um dia, você vai se arrepender de tudo isso. De cada escolha. Porque ela vai se levantar mais forte. E você vai perceber tarde demais o que perdeu.
Meu corpo inteiro tremia. Sam ficou entre nós, colocando a mão no meu peito, como se já soubesse que eu estava a ponto de quebrar tudo.
— Chega — ordenou ele. — Quil. Embry.
Os dois surgiram quase que do nada, firmes como pilares. Sam fez um gesto com a cabeça e eles se aproximaram de Harry.
— Levem ele pra casa. Ele já disse o que precisava.
Harry não resistiu. Apenas olhou para mim com os olhos de quem um dia teve orgulho, e agora só via desprezo.
Assim que ele saiu, joguei a chave inglesa contra a parede com um grito abafado.
— Que porra foi essa, Sam?!
Sam não respondeu de imediato. Cruzou os braços e ficou me encarando por alguns segundos.
— Sua hora chegou.
— Que merda você tá dizendo?
— A hora de aceitar o seu destino, Jacob. O destino que você desconhece é que está prestes a explodir. Você sente. Está queimando. Chega de fuga. Chega de se esconder atrás de desculpas. O seu lugar é mais alto do que essa oficina. E você sabe disso.
Minha respiração estava pesada. O mundo girava rápido demais. Eu me sentia culpado, perdido, agora julgado… e pressionado.
— Não sei do que esta falando, Sam — murmurei sentindo meu corpo queimar.
— Vai saber em algumas horas...
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