Coração de Porcelana
3 Capítulo 2 - Near Toy
Notas iniciais
Capítulo 2 – Near Toy
Seu corpo moveu-se antes que eu pudesse contê-lo. Saltou e acabou acertando o rapaz/boneco com o taco de baseball de Josh enquanto ele se levantava. Ele tropeçou e se apoiou em sua cama com um gemido dolorido, e estava tão assustada que apenas continuou batendo nele, embora certamente não com força. Não sabia de onde viera a coragem para aquilo, talvez seu corpo só continuou se movendo como se houvesse ativado algum mecanismo de defesa. Ele grunhiu e pegou seus pulsos com uma força inacreditável e se levantou, a forçando a recuar.
– Ei... Para... Para! – gritou para ela, que se debatia enquanto ele a segurava pelos pulsos.
Claire acabou parando, mas fizera tanto esforço que sentia uma fina camada de suor cobrindo seu rosto e estava ofegante, mas parecia que havia dado trabalho o suficiente para ele se encontrar na mesma situação.
E apesar daquela situação, não teve como não reparar o quanto ele era lindo.
Mas então o gato saltou sobre ele, garras em riste e com um miado furioso. O boneco praguejou, tropeçou em seus próprios pés e caiu enquanto o gato o arranhava furiosamente. Antes que Claire tivesse qualquer reação, ele arrancou o felino de si e jogou-o na cama, mas este contorceu-se em pleno ar e pousou de pé. Chiou de maneira ameaçadora, mostrando os dentes, antes de dar as costas e sair correndo pela janela.
Recuou alguns passos enquanto ele se levantava com um gemido de dor e de esforço, seu coração batendo forte. Sentia suas pernas bambas, era como se suas forças houvessem se esvaído após aquela reação inicial. Os olhos castanhos do boneco pareceram perceber aquilo, e quando pensou que ia desabar, ele a segurou.
– Ah droga, droga... – Claire começou a praguejar. – Mas que droga está acontecendo?!
O boneco franziu o cenho, sem entender, então ele olhou envolta, como se só então estivesse percebendo onde estava. Com um movimento rápido de sua mão, se soltou dele, porém acabou o empurrando, mesmo que de leve.
Certo, o boneco se transformara naquele rapaz. Ele parecia ser uns dois anos mais velho que ela, três no máximo. Mas como?! Aquilo era ainda mais inusitado do que a bendita caixa aparecendo em sua cama!
– Onde... Onde estou? – O boneco acabou por questionar.
– No meu quarto. – foi a resposta pronta.
– E... Quem seria você?
– Claire Hayles, mas isso não vem ao caso. Quem é você?!
Ele abriu e então fechou a boca rapidamente. Ele olhou envolta mais uma vez antes de responder.
– Near. Near Toy.
Toy. Brinquedo. Ó ironia. Ele era um boneco que se transformava em humano e seu sobrenome era Toy. Talvez riria caso sua cabeça não estivesse tão bagunçada. E ele parecia nervoso. Muito nervoso.
– Como vim parar aqui?
– Também é o que quero saber. – retrucou. – Você tecnicamente é o boneco, certo?
– Boneco? – questionou num tom confuso. – Que boneco?
– O boneco que estava dentro da maldita caixa que apareceu do nada encima da minha cama e que virou um cara depois de eu dar corda nele!
Near a olhou como se fosse uma completa louca. Não era possível que ele não estava ciente de sua própria situação, seria?!
– Cara, olhe para suas roupas. Você sairia com elas na rua?!
Ele abaixou o olhar e viu os olhos castanhos se arregalando, o que certamente lhe valeu mais que uma resposta verbal.
– Certo, o que aconteceu com as minhas roupas?!
– Como é que eu vou saber?!
Ele pegou o tecido, olhando-o com claro desgosto, enquanto o analisava. Near era alto e esguio, e Claire batia aproximadamente na altura de seu ombro. Não dava para ver muito de seu corpo devido ao volume das roupas, mas tinha quase certeza que ele deveria ter um físico semelhante ao de seu irmão. Seu cabelo dourado era do mesmo jeito que o do boneco, mas ficava ainda mais belo daquele modo, era mais natural. Duas mechas lhe caíam sugestivamente sobre seus olhos, além de parte do cabelo cair em frente a orelha até um pouco acima do queixo e atrás de sua cabeça era repicado gradativamente. Os olhos castanhos claros num tom quase cor de mel pareciam brilhar com a chama da vida que antes não existiam nos olhos fechados do boneco. Possuía uma pele de alabastro, e o seu rosto tinha feições que eu só pensava que existia em livros: rosto anguloso, nariz um tanto orgulhoso e faces altas. Não tinha como tentar dizer que não, mesmo que ele estivesse usando tecnicamente ridículas para qualquer um, Near era tão lindo que quase lhe dava vontade de chorar.
– Hã... Desculpe por tirá-la de seus... Er, Devaneios... – chamou sua atenção. – Mas em que dia estamos? Ou ano, não sei...
– ...O-o quê? – piscou, saindo do transe em que havia se posto e sentiu seu rosto esquentando. Havia ficado o encarando como uma completa retardada enquanto seu cérebro escorria pelas orelhas?
– Em que dia, mês e ano estamos? – Repetiu a pergunta num tom de quase desistência.
Quando Claire lhe disse a data, viu sua expressão transformar de tal modo que quase arrependeu ter respondido. Por seu rosto era visível que aquilo não estava certo para ele. Quanto tempo ele deve ter ficado no escuro daquela caixa? Será que ele tinha consciência de seu estado? Ele praticamente se jogou sentado no chão em frente à sua cama e cobriu os olhos com as mãos e murmurou algo para si mesmo que não conseguiu escutar.
– Está... Tudo bem? – indagou hesitante.
– Não, não está! – exclamou e com um suspiro pesado, a mão que estava em seu rosto foi para sua perna e fechou-se com a outra e disse de maneira extremamente brusca. – Eu saio de casa para ir encontrar com uma amiga, prometo voltar para o jantar, e quando vejo, a garota me leva para uma floresta nevoenta do nada e depois sinto muita dor, várias luzes e depois tudo fica escuro, quando pareço voltar a mim, estou no quarto de uma garota desconhecida que disse que eu era um boneco, com roupas ridículas, e décadas depois do último dia que me recordo. – Near desabafou. – Não está tudo bem!
Ficou atônita com o que ele dissera e logo após a irritação veio misturada com a surpresa. Ora, ele que havia sido transformado num humano – ou melhor dizendo, transformado num boneco – e fora mandado para sua casa, ambos sequer se conheciam e ele falava daquele jeito com ela?! Mas também fiquei confusa com uma coisa: Ele dissera décadas? Ele aparentava uns dezoito anos, então... Bem, era talvez normal nada fazer sentido dada a situação, mas tudo o que conseguiu pensar foi em resmungar:
– Ah que ótimo, quando eu ganho um presente de aniversário, eu ganho um velho no corpo de um jovem que está vestido de maneira mais ridícula impossível, e ele começa a reclamar das suas velhices.
Seu corpo enrijeceu e ele me olhou pelo canto do olho. O comentário saíra mais alto do que deveria, e ele ficou claramente incomodado com aquilo.
– Ah claro, como se eu estivesse morrendo de vontade de perder sabe-se lá os quantos anos da minha vida perdi!
– É, mas eu não tenho nenhuma culpa quanto a isso, então pare de descontar em mim! – rebateu.
– Eu não estou descontando!
– Está sim, veja o tom que fala comigo!
Ele se calou, mesmo parecendo completamente contrariado, e Claire já estava bufando. Parecia que assim como ela, Near possuía uma personalidade forte o suficiente para bater de frente com a sua.
– Certo, quantos anos você tem para poder justificar esse ataque?
– Até onde eu lembro, dezoito.
– Reformulemos a pergunta. – disse com impaciência. — Em que ano nasceu?
– Ah. – ele desviou o olhar antes de responder. – 1934.
Dessa vez, Claire nem tentou fingir que não o encarava como uma completa retardada enquanto seu cérebro escorria pelas orelhas. Aquele cara nascera antes da Segunda Guerra Mundial! Se a meleca que chamava de cérebro estivesse correta, então para Near, o tempo parara em torno de 1952, que era há mais de cinquenta anos!
– Bem, ao menos está conservado.
Near olhou-a como se duvidando que ela proferira aquelas palavras, mas Claire foi capaz de ao menos de consertar seu erro.
– Não acho que seria muito agradável acordar velho de repente, certo?
Ele pareceu ponderar, antes de assentir, embora não parecesse totalmente convencido. Na realidade, ele estava claramente perdido e sem chão, e sinceramente, o que deveria estar passando em sua cabeça?
Antes que pudesse falar qualquer coisa, contudo, Near pareceu congelar, seu olhar se tornando vidrado antes da vida sumir de suas orbes e parecer que fossem de vidro. Então a mesma luz que surgira anteriormente o rodeou, e quando se apagou, só havia o boneco novamente.
Claire o encarou demoradamente, antes de pegá-lo do chão e analisa-lo novamente, sua mente num branco. Depois engoliu o seco, o pôs juntamente com sua chave de corda dentro da caixa, a trancou, e a pôs escondida entre suas roupas em seu closet.
Passou as mãos nervosamente nos cabelos, então acabou pegando sua toalha e foi tomar banho, o banheiro sendo numa porta anexa ao closet. Enquanto a água caía, finalmente conseguiu formular um pensamento coerente: Bem, o boneco que ganhara de aniversário era... Amaldiçoado? Ou melhor dizendo, Near era amaldiçoado a ser um boneco? Não conseguia pensar em nada que pudesse descrever melhor a situação. Só conseguia pensar no fato dele ser amaldiçoado.
– Tudo bem. – repetiu para si mesma pela enésima vez. – Você chega em casa, não tem nada nem ninguém estranho, mas tem uma caixa com um boneco de porcelana e uma carta endereçada para o seu nome, e quando você dá corda no boneco, ele se transforma em um cara lindo que é 60 anos mais velho que você. – Suspirei. – Isto não faz o mínimo sentido! Se contar a alguém, serei internada em uma cela de hospício!
Quem poderia ter mandado aquilo a ela? Sabia seu nome e sabia que era seu aniversário, então tinha que ser alguém que ao menos conhecesse ela ou algum parente seu. E sua família sempre fora resumida em ela, seu irmão e seus pais. Os pais de sua mãe haviam falecido antes de Claire nascer e seu pai nunca comentava sobre a própria família. Também nunca se importara em questionar.
Nunca mais tivera contato com nenhum dos amigos de seu pai após sua morte, então duvidava muito que algum deles fosse querer voltar a ter contato, sem contar que sua mãe não gostava de nenhum dos amigos de seu pai, então para pôr o bendito presente sobre sua casa precisaria no mínimo arrombar a porta – mas havia o alarme em sua casa -, ou enfrentar a ira de sua mãe.
Nenhuma daquelas alternativas parecia a correta para si.
Quando saiu do banheiro, constatou que Near havia passado aproximadamente uma hora como um... Bem, humano. Recordava-se no 10 inscrito na chave, e lembrava de haver dado seis voltas. Dez vezes seis, sessenta. Sessenta minutos davam uma hora. Era assim então que a chave funcionava? Mas como?
Vestiu uma camisola de alças, então deitou em sua cama e se enroscou ali. Com certeza o fato de Near ser um boneco não era algo natural, mas ele também não era um espírito. Durante o breve momento em que ele a segurara, ele era tangível, sólido, quente, vivo. Não era... O espírito de Near Toy que estava dominando o boneco de porcelana, mas então... O que poderia transformar uma pessoa em boneco? Novamente, só pensava em maldições.
E o que poderia amaldiçoar Near? Quais seus motivos? Ele aparentava – apesar da curta discussão que tiveram. – ser uma boa pessoa, então por quê?
Revirou um pouco, tentando não pensar naquilo e dormir logo, mas estava difícil. Sua mente sempre acabava vagando em direção ao boneco, mas não era nada em relação ao boneco propriamente dito, era para Near, em sua forma humana. Ele... Não tinha como não dizer, ele era muito bonito, o tipo de beleza que só pensava que iria ver em algum livro, ou quem sabe, numa história em quadrinhos. Ele era o mais próximo que já vira da perfeição no quesito aparência, Mas não, ele não era perfeito em sua personalidade – afinal, ninguém é perfeito... -, porém ficara completamente maravilhada ao vê-lo, por mais que odiasse ter que admitir. Ele era tão... Não tinha outra palavra, ele era lindo, completamente lindo.
Ali, deitada em sua cama, ficou tentada a ativá-lo novamente, mas ao mesmo tempo tentava afastar a ideia de sua mente, por dois motivos: haviam batido de frente logo na primeira vez que se viram e acabaram discutindo. Segundo: estava com medo que, como quando ele se ativou, houvera aquela bola de luz, que a sua mãe ou Josh passassem em frente ao seu quarto e vissem aquela luz. E também tinha o fato de Claire estar de camisola.
Nem percebeu quando dormiu, apenas fechou os olhos por um momento e o sono veio, assim, não viu o gato preto encarando-a com seus olhos verdes penetrantes.
Fale com o autor