Coração de Porcelana
4 Capítulo 3 - Uma Pequena Conversa
Notas iniciais
Capítulo 3 – Uma Pequena Conversa
Acordou às oito da manhã. Sabia que a sua mãe já havia saído para trabalhar, e que provavelmente Joshua também havia saído cedo, para fazer sabe-se lá o quê, como fazia todos os dias. Questionava-se se sua mãe continuaria tão indiferente caso alguma garota aparecesse grávida – embora certamente seu irmão não fosse tão irresponsável. Ou pelo menos gostava de pensar assim.
Trocou sua camisola por uma camisa e um short, e sua mente acabou vagando novamente para o seu closet, no objeto que estava lá dentro quando ia descer para fazer o café da manhã. Ficou parada durante um tempo, recordando que ele possuía mais ou menos a altura do seu irmão. Então, devagar, saiu e experimentou abrir a porta do quarto de Josh, só para ter certeza de que ele não estava lá.
A porta estava destrancada, portanto, ele não estava no quarto. Entrou e estava escuro, com as cortinas fechadas, a cama toda revirada, várias roupas pelo chão, pela cama e pela cadeira do computador, todas amarrotadas e algumas sujas. Haviam pacotes de fast food, salgadinhos e restos de comida num pequeno monte perto de sua cama, e a tela do computador estava ligada e mostrava que ele estava vendo um site... Impróprio para menores de 18 anos. Mas ele tinha 18, então...
– Ai ai Josh... Você realmente perdeu seu cérebro nesses dois anos? – gemeu, recordando-se de como ele era organizado anteriormente. Por vezes sentia como se houvessem substituído seu irmão por alguém totalmente novo.
Desligou a tela do computador e fui até seu guarda roupa em passos largos e cuidadosos para não pisar em nada, principalmente pelo fato de estar descalça, ainda mais quando viu os restos de comida que ao seu ver pareciam mofados. Abriu as portas do guarda-roupa e viu poucas roupas lá dentro, mas todas estavam em perfeito estado, até passadas.
– Pelo menos alguma coisa – murmurou.
Pegou uma camisa acinzentada de mangas curtas que estava ali e um jeans meio escuro, mas não havia nenhum sapato, apenas meias. Pegou um par e vasculhou o quarto até achar um par de All Stars, retornando para o seu.
Pousou as roupas na cama e foi até o closet, e como se um bicho fosse pular de dentro dele, abriu-o, pegando a caixa de mogno, destrancando-a. Tirou Near de dentro dela, pegou a chave, deu as seis voltas no orifício em suas costas. O pôs no chão quando este começou a tremer e foi pegar as vestes.
Teve certeza de que jamais iria se acostumar com a transformação do boneco em homem; era muito estranho. Novamente, Near estava no chão, mas dessa vez ele estava deitado de lado, como o colocara. Ele piscou e resmungou um pouco enquanto se levantava, esfregando a cabeça.
– Tome. – praticamente enfiou as roupas em seus braços. – Aposto que essas roupas são melhores que as suas.
Saiu do closet, dando-lhe privacidade. Será que Near ainda podia comer? Bem, talvez ele merecesse comer depois do dia horroroso – sem contar os anos – que tivera. Só que não poderia garantir que houvesse alguma coisa em casa, pois normalmente quem fazia as compras era ela, já que todo mundo comia fora.
Era difícil ser alguém que gosta de cozinhar assim.
Ouviu o som de algo arranhando a janela e viu o gato lá. Sorriu e foi abri-la, mas ele saltou direto e foi farejar o chão em frente ao closet, desconfiado, sua cauda erguida enquanto ondulava.
– Ei, fique calmo, ele não vai me fazer mal nenhum... Acho. – ele a olhou com seus grandes olhos verde-água. – A menos que ele seja uma versão mais bonita do Chuck, certo?
Ele emitiu um som que não conseguiu identificar, mas saiu de perto do closet e começou a se esfregar nas pernas de Claire, que o pegou no colo. Mesmo que ele estivesse todo molenga, ele continuava encarando para o local, até que Near abriu a porta.
E não é que as roupas haviam ficado boas nele...?
– Hm... – ele olhou para o bichano, certamente recordando do modo furioso que ele o atacara. – Esse gato é seu?
– Não, — respondeu – mas ele aparece todo dia. Talvez deva considera-lo meu?
– Talvez. – concordou e se aproximou, estendendo a mão sobre o gato, que chiou, mostrando-lhe os dentes, antes de tentar golpeá-lo com uma pata, mas Near rapidamente tirou a mão do caminho. – Bom, mas ele não gosta de mim.
– Ele não deve ter ido com a sua cara depois... Da cena de ontem. – Como se para confirmar suas palavras, o gato chiou novamente. – Você ainda pode comer? – ele a olhou em tom de dúvida. – Eu vou tomar café da manhã, então acho que pode ser bom pôr alguma coisa no estômago depois de uns sessenta anos, certo?
Near deu uma risada sem muito humor, mas assentiu, acatando a ideia. Assim, saíram de seu quarto e desceram. Como foi na frente de Near, não viu sua expressão quando este viu todos os apetrechos da sala de estar, além da estrutura da casa.
Ele não pode deixar de pensar que era bem diferente de sua mansão em Nova York. Sua mãe parecia farejar – e inspecionar – cada mínimo detalhe de maneira que toda vez que ela ia pôr um defeito ou dizia que algo estava fora do lugar, quase escutava os suspiros de exasperação de seus irmãos misturados ao seu.
Claire marchou para a cozinha e pôs aquele gato – antipático – no chão. Ela era pequena, de pele clara, com cabelos grossos e lisos, castanhos médios até o meio das costas com uma franja reta e grandes olhos cor de chocolate. Bem, ele a considerara bonita e deveria ter a idade de Mihael...
A sua mente obrigou-o a perceber que àquela altura, Mihael já deveria ser avô.
Tentou disfarçar aquela pontada de desespero quando percebia o quanto certamente havia perdido vistoriando a cozinha. Era ampla, com armários altos – já que viu Claire pegando uma cadeira para procurar um... Se bem que ela não era um grande exemplo de altura. – tudo era de cores claras e metálicas. As bancadas formavam um quadrado e no centro havia uma “ilha” que também servia de balcão e trazia o forno, além de alguns eletrodomésticos que não identificou. A geladeira também era bem diferente das que estava acostumado.
Claire pegou a tigela de gato que mantinha escondida antes de pegar leite na geladeira, e mesmo quando o felino começou a toma-lo, suas orelhas e cauda indicavam o quão atento ele estava a qualquer movimento do loiro.
– Hm... Não sei o que fazem nessa casa, que a comida some... – Claire murmurou num tom emburrado enquanto encontrava uma caixa de Count Chocula num armário vazio em quase via as teias de aranha como se num filme de comédia. Desceu da cadeira com cuidado para não pegar uma queda, pôs o cereal sobre a mesa e pegou a cadeira novamente, pondo-a no lugar. — É... Isso. Eu vou ter que comprar mais coisa depois.
– Todos comem fora?
– É, basicamente eu sou a única pessoa que fica nesta casa antes da hora de dormir. Vamos nos empanturrar com tigelas de cereais e um resto de leite. – Ela olhou para o gato, que ergueu a cabeça, demonstrando o rastro branco em seu pelo. – Pelo menos alguém vai se alimentar bem.
Near sentou-se também, e de novo ficou em silêncio enquanto comiam, incomodando a Claire. Deixava o local com um clima constrangedor.
– Fale alguma coisa! – exclamou de repente fazendo Near se assustar.
– O que eu poderia falar?
– Alguma coisa? Manter uma conversa normal para que não fique um clima estranho?!
– Que tipo de assunto um cara de 1952 pode manter com uma garota sessenta anos mais nova?!
– Creio que assuntos genéricos adolescentes sempre foram os mesmos, certo? Casa, escola, amigos...
– Hm... – ele pareceu parar para pensar em algo, e disse a primeira aleatoriedade que lhe veio à mente. – Em que ano está?
– Vou pro segundo ano. – Claire esfregou os olhos. – Mas primeiro tenho que sobreviver às férias de verão.
– Por quê? Fica sozinha as férias todas?
– A não ser que considere um gato como companhia – o bichano soltou um miado indignado como se houvesse entendido. – Sim, passo o dia todo sozinha. Acho que ficou subentendido quando falei que todos comiam fora.
– E amigos?
– É... As minhas duas amigas estão viajando de férias com as famílias, já que as delas são muito mais ajustadas que a minha.
– Toda família tem problemas.
– Bem, a minha tem um sério problema de comunicação.
– A minha tinha um sério problema de autoritarismo paternal.
–... Autoritarismo paternal?
– É. – respondeu simplesmente. – Uma maneira bonita de se dizer que eu tinha um pai violento e dominador.
– Ah... – Claire percebeu que ele se referira a seu pai no passado, como se já houvesse o perdido, porém decidiu se manter quieta. Sabia que aquele não era um assunto que deveria se ser tocado tão repentinamente, então decidiu mudar de assunto. – Ahn... Amigos? Você tinha muitos?
– Está percebendo que nossos assuntos são totalmente sem graça, certo?
– Sim, mas estamos tentando nos comportar como pessoas sociáveis, certo?
– Sem golpes de tacos de baseball na nuca, certo? – ele questionou e Claire sentiu seu rosto esquentando.
– Aquilo foi uma reação! – protestou. – Como você esperava que eu agisse com um boneco se tornando um cara na minha frente?
– Eu entendo, só que doeu pra caramba, sabe?
– Se eu tivesse batido com força você teria desmaiado! E está mudando de assunto!
– É, eu sei. – ele riu, e cruzou os dedos de modo pensativo. – Bom, eu tinha muitos colegas, amigos mesmo creio que apenas meus irmãos, Jake e... Haydée.
– Porque hesitou em falar dela?
– Como eu poderia dizer...? – ele hesitou novamente. – Pode parecer loucura, mas como toda a minha situação é loucura, então acho que você vai acreditar. Eu hesitei porque foi ela que fez isso comigo.
Claire engasgou e se esforçou para não regurgitar uma mistura de cereal meio engolido com leite, fazendo com que tanto Near quanto o gato a olhassem preocupados. Depois de ter se recuperado – embora não tenha conseguido restaurar sua compostura -, pôs sua melhor expressão de choque misturada a surpresa e questionou:
– Como assim?!
– Eu não sei! Ela me convidou para irmos a um restaurante depois da aula, o que era algo bem normal, e quando estava saindo, percebi que estava numa floresta com ela...
– Uma floresta? Onde você morava não tinha nada... – o interrompeu, mas logo foi cortada.
– Não, eu sou nova iorquino. – respondeu rapidamente. – E o Central Park nunca teve árvores como aquelas, não sei explicar... Estava bem nevoento. – continuou. – Ela começou a falar um monte de coisas que... – ele parecia decepcionado consigo mesmo. – Não lembro. Então houve muita dor e luzes e tudo ficou escuro. Só “acordei” quando você... Me ativou?
– Você meio que dormiu durante todo esse tempo?
– Não, eu... Eu estava consciente.
– Dor? Dói ser ativado? – perguntou com preocupação. Conhecera-o há pouco tempo e haviam brigado logo que se conheceram, mas acreditava que qualquer sentiria preocupação no meu lugar.
– Não, não dói... – respondeu, olhando para as próprias mãos pousadas sobre a mesa. – Só é... Estranho. Eu de certa forma fico consciente, mas não consigo me mover, respirar, nem abrir os olhos, nem nada do tipo. É uma situação bem agonizante.
– E... Como foi passar todo esse tempo assim?
– Não sei explicar. Havia o estado de confusão eterna, não sabia o que estava acontecendo, depois foi a preocupação sobre o que havia acontecido, que bom, era quase a mesma coisa, já que não conseguia pensar em nada coerente. E tudo continuava escuro. Por que estava assim? Era algum estado estranho de inconsciência? Há quanto tempo estava assim? Minutos, horas, dias?
– Acabou que foram anos.
– Sim. – suspirou. – Fiquei preocupado com o que minha família poderia pensar, já que a situação em casa não estava das melhores. Cheguei a me perguntar se estava morto, e se era por aquele motivo que tememos tanto a morte... Mas estou bem vivo. Agora falta uma explicação plausível para como ela conseguiu fazer isso comigo.
– O que acho que vai ser difícil. – ele assentiu. – Talvez ela nem esteja mais viva...
– Sessenta anos é tempo o suficiente para muita gente nascer e morrer.
O gato saltou sobre a bancada, sentando-se bem na frente de Near e o encarando de maneira intensa enquanto sua cauda se movia de um lado para o outro. O loiro sustentou seu olhar por algum tempo e voltou para Claire.
– Esse gato realmente não gosta de mim.
– É... Ele cismou com você.
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