Coração de Porcelana
18 Capítulo 17 – Meio Tempo
Notas iniciais
Capítulo 17 – Meio Tempo
Near não estava confiando muito em Marc e Vincent desde quando ouvira toda a conversa deles quando entraram com Claire inconsciente. Não deixara de se preocupar com a garota, e, afinal, como poderia? Não estava muito feliz ou confiante consigo mesmo ou com toda aquela situação, e ter de depender de totais desconhecidos era extremamente desconfortável, ainda mais daquele modo. Mas sinceramente, depois de presenciar toda a destruição que o bruxo mais novo causara sabe-se lá pelo quê – pelo menos fora o que Marc dera a entender -, talvez pudesse dizer que antes não gostava de Vincent.
Agora estava aterrorizado com Vincent.
Inferno, Marc parecia alguém que sempre mantinha a compostura, e vira o rosto pálido completamente estarrecido e amedrontado do outro no meio da confusão. Tinha certeza de que era o fim e os três iriam morrer.
Não soube como, mas Vincent realmente pareceu cumprir sua promessa e tudo literalmente foi voltando ao seu lugar, e até mesmo os cacos das vidraças que estavam flutuando em gravidade zero voltaram aos seus lugares.
Quando tudo retornara ao seu devido lugar, Marc foi atrás da chave de Near, ativando-o e o deixando tomando conta de Claire, enquanto arrastava Vincent para algum lugar enquanto ele ria como um completo louco. Aquilo lhe deu ainda mais calafrios do que a destruição em si, pois desde que conhecera o moreno, ele sempre mantivera a carranca e cara fechada, portanto aquelas risadas descontroladas pareciam entrar por seus ouvidos e abalarem sua espinha de modo assustador.
Falando em loucura, a própria Claire não parecia estar em seu melhor estado mental. Ela estava com pelo menos quarenta graus de febre e alucinava, e assim como Vincent, as veias estavam saltando contra a pele rosada, os lábios estavam ligeiramente roxos. Mas ela nem de longe estava na mesma situação que o outro rapaz. De vez em quando ela revirava na cama e estava molhada de suor, mas se Near tentasse se afastar, ela literalmente se agarrava nele de uma forma que ele tinha medo de levantar e levar a garota ao chão.
O que lhe doía um pouco era que ela falava enquanto alucinava, e quase tudo que conseguia discerni-la – entre palavras que pareciam vir de um idioma próprio – era o fato de ela chamando por seu pai. Sabia que o mesmo estava morto, mas o que lhe doía era o fato de aquilo fazê-lo recordar de sua própria família: sua mãe e seus irmãos. Como deveriam ter reagido quando desaparecera? O que haviam feito durante todos aqueles anos? Será que ao menos se lembravam dele? Já havia passado mais de sessenta anos desde que tudo iniciara, e aquilo era algo desesperador de se recordar.
E também havia a preocupação com a garota em si. O que havia acontecido com Claire? Vincent a trouxera inconsciente no dia anterior com a calça rasgada, e depois ela começara a alucinar enquanto visualizava a tudo, impotente.
Era impossível também não perceber que havia algo pulsando. De vez em quando era como se houvesse um organismo vivo dentro de seu cérebro, movendo-se e latejando, e só sabia que aquilo vinha da garota também. Era uma mistura de um mal pressentimento com um calafrio conhecido.
Haydée usara aquilo nele, não usara? Só que naquele caso, era algo muito mais direcionado e muito menos aleatório. Era algo com controle.
Depois de ter perdido as contas de quantas vezes ela o chamara de pai, agarrada a ele, Marc entrara no quarto, com feições completamente acabadas. Teve até pena do bruxo, o cansaço parecia sair de cada poro e o fazia parecer bem mais velho.
— Está tudo bem com a Claire, Near?
— Ela está alucinando e acho que ela pensa que eu sou o pai dela. Fora isso... O que está acontecendo?
Marc se arrastou até a cama, observando-a melhor. Era fácil fazê-la soltar o loiro, porém ela esperneava e começava a dizer para ele não ir para alguma viagem, pois ela tinha um mal pressentimento. Era um tanto doloroso ter que assistir aquilo.
— Há magia correndo...
— Tem algo fazendo isso com ela?
— Ela mesma. – foi a resposta. – Tecnicamente, uma pessoa precisa sofrer contato direto com magia por muito tempo para começar a desenvolver magia. Não é o caso.
— Espera, você está me dizendo que a Claire está virando uma bruxa?!
— É o que parece... – Marc passou a mão pesadamente pelo rosto, passando os cabelos que haviam caído sobre sua testa para trás. – Mas até onde eu sei, ela entrou em contato direto com magia apenas duas vezes. É impossível, tecnicamente. Mas está acontecendo.
— O que dá para fazer? Quer dizer, ela está sofrendo. Alucinando.
— Normalmente, fazer a temperatura cair. Nunca me esqueci que quando me tornei um bruxo, a mulher que me ensinou magia literalmente me jogava numa bacia de água com gelo. Foi o que eu fiz com a Luiza também.
Near olhou para Marc questionando sua sanidade mental.
— E o choque térmico?!
— A magia. – foi a simples resposta. — A febre não passa por meios normais, só com extremos.
— Ora, não existe uma poção pra isso ou coisa do tipo?
— Existir, existe. Conseguir é outra história. Vá por mim, febre mágica não é algo fácil de tratar. Temos que fazer algo logo, porque a mãe da Luiza está vindo deixa-la aqui, e mais tarde uma... Conhecida minha vem aqui. Temos que tentar deixar tanto Claire quanto Vincent em um estado minimamente normais e eu tenho que arranjar alguma coisa para me manter acordado.
— Conhecida? – Near questionou num tom cansado.
— Ela com certeza sabe alguma coisa sobre o que Haydée veio fazer aqui, então ela possui pelo menos uma luz da localização exata de sua chave. Vai ser uma troca, por assim dizer.
O loiro teve vontade de questionar o que era aquela troca, porém algo lhe dizia que era melhor não saber. Teve que concordar com a loucura de Marc de pôr a garota na água, e a carregou para fora onde o bruxo literalmente conjurou uma bacia de madeira grande o suficiente para caber alguém dentro, e a encheu de água – processo que demorou algum tempo. Não quis perguntar onde Marc arranjou umas pedras de gelo do tamanho de limões, mas literalmente sentia-se mal quando ele o mandou por a garota dentro, ainda totalmente enrolada nos lençóis.
Claire esperneou e se debateu quando Near a ergueu, seus braços reclamando diante o peso. Não que ela fosse pesada, mas tinha de erguê-la a uma altura considerável para pô-la dentro da bacia.
— Eu não consigo fazer isso. – constatou agoniado quando o tecido do lençol começou a entrar na água. – Parece crueldade!
— Pelo amor de Deus garoto... – Marc emitiu um suspiro cansado e irritado. – Ponha-a dentro!
— Eu não sou um garoto. – Near resmungou baixo, sem perceber que o francês ouvira.
— Para a minha idade, você é quase um espermatozoide, agora a ponha dentro da bacia e espere a mágica acontecer, por favor?
Quando os pés dela entraram em contato, Claire esperneou com tanto vigor que Near não conseguiu segurá-la, fazendo-a cair na água. O próprio rapaz se encolheu quando o líquido espirrou em si, estava gelado demais. A garota se debatia na água, e Marc ignorou totalmente a temperatura, enfiando as mãos na água e a puxando pelos ombros para fora, a fazendo ficar sentada na bacia.
Depois foi como se Near levasse um soco na cara, o que o fez cair sentado no chão.
— Tenho quase certeza que ela faz isso de propósito.
— Ela?
— Foi um desses que desestabilizou o Vincent. – Marc rangeu os dentes enquanto Claire se mexia mais minimamente. Foi visível a olhos nus quando, a partir da raiz até as pontas, o cabelo da garota foi assumindo um tom de lilás num processo até demasiadamente lento. Nunca fora uma das suas cores preferidas, mas tinha de admitir que o tom era bonito contrastando com a pele de Claire. Além disso, as veias até então tufadas contra a pele voltavam a se retrair, embora ainda houvessem marcas como gavinhas arroxeadas contra sua pele. – É, oficialmente, ela está virando uma bruxa.
— Foi algo meio repentino. – constatou.
— Muito repentino. Mas tem que ter um motivo... – Ele mais uma vez enfiou a mão na bacia, mas dessa vez para tirar a garota da água, o lençol molhado caindo estrondosamente. Marc não se importou em se molhar, apoiando-a em seu corpo. – Near, tem uma toalha bem ali, pegue-a.
Havia uma espécie de prateleira na área de serviço, e realmente havia algumas toalhas dobradas ali. A envolveu, percebendo sua temperatura realmente mais baixa, porém sendo um tanto assustador perceber que ela sequer tremia, como deveria estar acontecendo – na realidade, em sua opinião, levando-se em conta o tempo em que ela se mantivera na água, Claire deveria estar com pelo menos um início de hipotermia.
Levaram-na para o seu quarto, onde Marc trocou suas roupas magicamente – ele literalmente esticou as mãos sobre ela e a garota já se encontrava com outro vestido. Um som alto na parede que dava para o outro quarto o fez pular, mas o francês apenas soltou um suspiro cansado.
— Vincent. – explicou.
— Ele não pode quase destruir a casa de novo?
— Pode. – confirmou, para o seu desespero. – Esperemos que ele não o faça.
— Então é isso? Temos que depender da vontade dele de nos matar ou não?! Você não pode fazer nada?
— Eu poderia, mas Vincent é um bruxo mais poderoso do que eu. – foi a resposta, então Marc entortou a boca. – É de família. O pai dele era um bruxo... Excepcional, em todos os sentidos. Nunca vi a sua mãe, mas sei que ela vinha de uma linhagem bem antiga. Toda essa história de sangue é real com magia. – ele esfregou os olhos. – Bem, mas agora: Eu vou subir e ver se eu tenho alguma coisa para repor energia. Se você quiser comer ou algo do tipo, fique a vontade.
— E Claire?
— Ela está bem agora. Uma vez que a febre baixa, ela não volta. Qualquer coisa, se Luiza chegar, as chaves estão no balcão lá fora.
Assim, ele saiu, deixando Near sem saber o que fazer. Bom, ele ainda sentia fome, isso sabia. Também sabia que ainda poderia comer, embora houvesse comido no máximo umas duas refeições desde então. Parecia que os horários e ciclos que qualquer corpo normalmente teria haviam se tornado totalmente bagunçado em seu caso. Não sentira sono até então, mas considerando-se que se mantivera ativado por períodos de uma a duas horas, talvez sua energia retornasse cada vez que o fato ocorria.
Ficou um tempo com Claire, mas como ela realmente agora apenas aparentava estar adormecida, saiu, sem antes perceber que quase todo o cabelo da menina se encontrava lilás.
Encolheu-se ligeiramente quando passou em frente ao quarto de Vincent e ouviu um estrondo vindo de dentro. Por mais que sua mãe fosse católica assídua, jamais fora exatamente religioso, mas ainda assim, o sinal da cruz foi um reflexo dado por seu cérebro já extremamente estressado com os últimos acontecimentos.
Na cozinha procurou apenas por algo que pudesse comer rápido, sem ter de esquentar ou algo do tipo. Era o que fazia quando estava nervoso, mas seu metabolismo estupidamente rápido o impedia de engordar. Acabou achando um pão que trazia um rótulo de “naturalmente fermentado”, o qual tinha de ir cortando as fatias para comê-lo.
Quando já estava quase no fim – sendo que o pão não era nem de longe pequeno, tendo mais ou menos o tamanho de um bolo médio – a campainha tocou. Pegou as chaves sobre o balcão e foi abrir o portão para conseguir ver quem era, já que devido ao muro não conseguia enxergar o lado de fora.
Era realmente a afilhada de Marc, e por Deus, não conseguia nem entender as roupas que ela estava usando. Era um casaco amarelo com um rostinho de bochechas que eram círculos vermelhos e umas orelhas compridas de ponta negra e havia uma... Cauda? Dependurada em forma de raio, uma calça cor de rosa rasgada e All Stars pretos com caveiras. Foi efetivamente a primeira vez em que seu cérebro pedia ao menos um pouco por um visual conhecido.
— Ah, olha, é o boneco! – ela exclamou. Near quase bufou. – E aí, tudo bom? – Ela foi entrando na casa e só então reparou no carro cinza do lado de fora que apenas saiu quando a menina entrou.
— Er, mais ou menos. – murmurou, fechando a porta. Foi preciso um empurrão adicional para conseguir fechá-la realmente.
— Tem alguma coisa esquisita... – Luiza parou na frente da casa. – Quebraram uma parede ou algo do tipo aí?
— Como assim?
— Como explicar... Sabe o vapor que sai de uma comida quente? – o loiro assentiu. – Tá tipo assim. Só que é magia.
Não era exatamente algo que pudesse entender completamente, mas ele era um boneco amaldiçoado agora, afinal. Ele trincava. Ele ficava congelado, vendo e ouvindo tudo enquanto tinha de depender da boa vontade e a memória de Claire. Não era a melhor situação em que poderia se por.
Não muito após, Marc desceu e explicou por altos o que acontecera: Claire se tornando bruxa e Vincent com “febre mágica”. A única coisa que parecera realmente abalar a menina fora o tratamento do caso.
— Eu odeio água fria até hoje. – ela estremeceu. Só então Near percebeu a cabeça de seu gato – Raito? – dependurado para fora da mochila num ponto onde o zíper não havia se fechado.
O bruxo continuou dizendo onde estava a chave de Near, pois iria sair para comprar comida, enquanto o rapaz encontrava-se tão cheio devido ao pão – e incerteza, nervosismo, e medo de que Vincent surtasse e decidisse explodir a casa de novo — que pela primeira vez na vida não estava muito animado ao ouvir a palavra “comida”.
Marc saiu, enquanto Near perguntava-se se ele não iria dormir sobre o volante ou algo do tipo, além de se questionar como ele era capaz de deixa-los sozinhos ali.
E era um tanto constrangedor ficar sozinho com a Luiza. Claire era quieta e de certa forma gentil. Pelo que vira, Luiza era tagarela e ela provavelmente era a pessoa que poderia finalmente o tapa na cara final com tecnologia e uma onda de informações que ele provavelmente não entenderia.
Ela marchou para dentro da casa e tirou aquele casaco esquisito, revelando que estava com uma camisa negra com um símbolo que era um colete à prova de balas em contorno branco, cujo na área do peito estava escrito “BTS”, uma granada num dos bolsos e dois raiozinhos, um de cada lado. Não fazia a mínima ideia do que aquele símbolo significava, mas aquela camisa fazia o resto das roupas funcionarem juntas.
Não conseguiu reprimir de imaginar os comentários de sua mãe, vendo como as garotas do mundo atual se vestiam. Ela já reclamava do fato sua irmã gêmea, Far, usar calça em casa.
— O que foi?
— Hã, nada... – reparou que sua resposta não fora muito convincente. – É só difícil não reparar como você se veste, e tipo, eu fui praticamente jogado da década de 50 pra cá.
— Ah, tá! Caramba, tipo, você é a cara de um dos meus cantores favoritos, então é meio difícil lembrar que você tem uns... Oitenta e poucos anos?
— Muito obrigado por me lembrar disso. – resmungou. É, certamente precisava lembrar que tinha mais de oitenta anos agora.
— Olha pelo lado bom, pelo menos você tá conservado.
De novo aquilo. Bom, mas era uma verdade. Concordava com Claire dissera dias antes, que era melhor estar “conservado” do que acordar como um velho decrépito. Só que a brasileira era bem mais direta, pois Claire tentara se corrigir logo depois.
— É, talvez.
— Qual é cara, tu tens cara de uns dezoito anos...
— Eu tenho dezoito... Quer dizer, há, você entendeu.
— Claro, claro. – o gato dela saltou de sua mochila, soltando um miado indignado. Near gostava de animais, no geral, mas o incidente com o gato de Claire o deixara um tanto quanto...
Espera... O gato de Claire não era Vincent? Parecia loucura, mas tinha certeza de que escutara algo do tipo enquanto era obrigado a segurar vela para os dois mais cedo.
Luiza não tentou espiar como os dois estavam ou coisa do tipo. Ela simplesmente se jogou no sofá, tirando um tablete de aço preto dentro de uma capa que Near não fazia a mínima ideia do que era, mas ela conseguia assistir coisas mais ou menos como uma televisão, e ela ficou vendo uns vídeos de uns asiáticos que também não sabia o que era exatamente – parecia uma banda e conseguiu captar uns nomes estranhos com as legendas em inglês, como Rap Monster, Suga e Jung alguma coisa.
Depois de algum tempo desistiu e tentou pensar em alguma coisa para fazer. Ler? Quando percebeu que estava pondo-o no vácuo, Luiza tentou lhe oferecer um livro que ela tinha para ler – Harry Potter? Era isso? – só que pelo que conseguiu entender, aquele era o sexto livro de uma saga, então nem tentou. Ela achou então um livro bem mais fino chamado “Botos, Sátiros e Dragões”, que era de uma autora regional, e era uma coletânea de contos e poesias, tanto locais quanto de outras regiões, já que trazia um conto sobre Banshees e outro sobre Orixás.
Teve um que particularmente o chamou a atenção, sobre um tipo de golfinho, o boto, que se transformava em um homem bonito, seduzia e engravidava a moça mais bonita de qualquer festa que ele fosse e a abandonava no fim da comemoração, deixando-a apenas com o bebê de lembrança. Por algum motivo, aquilo lhe dava um péssimo pressentimento.
Sua cabeça se moveu automaticamente quando Marc retornou, a porta da garagem se abrindo sozinha. Mas quando ele saiu do carro, sentiu como se seu estômago se fechasse quando alguém entrou pela garagem aberta.
Era uma mulher. Ela não era muito alta, batendo no ombro do francês, usava um vestido comprido de estampas ciganas e um xale sobre seus ombros. Seu rosto estava todo coberto por lenços, apesar do calor, mas conseguia ver os olhos bem delineados de longe.
Ora. Quase gritou quando a voz ressoou dentro de sua mente. Faz muito tempo desde que Madame Rosa viu alguém amaldiçoado além dela mesma.
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