Coração de Porcelana

19 Capítulo 18 - Coroa Dourada


Capítulo 18 – Coroa Dourada

Claire acordou como se tivesse um bloco de concreto no lugar da cabeça.

Era estranho. Lembrou-se de que havia acordado passando mal antes, mas agora era como se as cores explodissem diante seus olhos quando os abriu. Roxo, azul, verde, como um caleidoscópio misturado com um vitral de cores extremamente escuras. Gemeu, sua cabeça doendo com tudo aquilo.

O que tinha acontecido...?

Tentou se levantar, mas não tinha exatamente muito controle sobre seu corpo. Soltou um gemido. Lembrava-se de ter acordado passando mal, mas... Desmaiara de novo? Parecia que perder a consciência mais uma vez fora demais para seu corpo.

Desmaiara por que...?

Pensando agora, sonhara. E algo lhe dizia que estes sonhos poderiam ser remotamente importantes, mas... Como imagens formadas por seu subconsciente poderiam ser importantes, não fazia a mínima ideia. Respirou fundo algumas vezes, tomando coragem para levantar, então puxando as forças da profundeza de seu ser, conseguiu se por sentada.

O mundo girou, fazendo-a morder os lábios, bambeando mesmo sentada. Esperou tudo se normalizar para poder tentar se levantar.

Não esperava que suas pernas houvessem se transformado em gelatina. Assim só lhe restou choramingar de dor quando deu de queixo no chão.

Passou aproximadamente cinco minutos jogada sobre o tapete antes de conseguir se arrastar de volta até a cama, usando-a como apoio para se levantar. Respirou fundo, com força, e ficou de pé, segura na cabeceira até que suas pernas parassem de tremer. Quando ocorreu, foi até a porta lentamente, firmando-se em cada passo, o que a fez demorar absurdamente até chegar à maçaneta.

Quase foi cegada pela luz, o que a fez tropeçar nos próprios pés. Ia cair novamente, porém alguém a segurou. Quando os pontos brancos sumiram de seu campo de visão, percebeu que era Near.

— Ei, você está bem? – questionou num tom cauteloso.

Abriu a boca para soltar um “sim”, mas, seriamente, a luz doía. Os pontos brancos haviam sumido, restando umas manchas negras.

— Mais ou menos... – conseguiu responder ao fim.

Near a olhou com uma expressão preocupada, antes de permitir que ela o usasse como apoio para cambalear até o sofá. Ele conseguiu fazê-la sentar até delicadamente, mas a visão de Claire parecia pulsar. Olhando com atenção, as cores continuavam a explodir diante de seus olhos, mas percebeu que elas saiam da parede, como vapor de gelo. Azul, roxo, verde, as cores que vira antes, suas tonalidades variando entre muito escuro e o preto. Entremeado aos véus de cor, brilhavam algumas partículas douradas, como se apenas se revelassem quando a iluminação batia nelas.

— O que é...

— Caramba! Amei a cor do seu cabelo! – pulou, agarrando a coisa mais próxima – que, no caso, era Near — no susto quando Luiza exclamou, saída do nada.

— Hã?! – acabou exclamando também. Sentiu o corpo do loiro tenso, desconfortável com a proximidade.

— Luiza, ela acordou agora, acho que... – Near começou num tom estranhamente educado, afastando Claire delicadamente. Era como se ele estivesse disfarçando sua irritação.

— Ai é, foi mal. Mas a cor do seu cabelo continua linda!

Como assim? Pensou. Olhou para os ombros, verificando as mechas que caíam por ele.

Quase gritou. Estavam lilases. Lilases!

— O que aconteceu?! – exclamou com a voz esganiçada. Os olhos de Luiza brilharam.

— Ulha, os seus olhos mudaram de cor também! Cara, isso é muito raro! – ela puxou o celular do bolso – um Samsung branco -, e abriu a câmera, invertendo-a para que a outra pudesse usar como espelho.

Pegou-o com as mãos trêmulas, e de novo sentiu vontade de gritar. Era como se visse alguém muito parecida com ela, mas não conseguia aceitar o reflexo como sendo ela mesma, Claire. Seu cérebro não aceitava a informação.

Seus cabelos estavam lilases, isso já havia percebido. Não sabia se era ilusão criada pela cor, ou se era coisa de sua cabeça, ou se ela estava tão doentiamente pálida quanto aparentava naquele reflexo.

E havia os seus olhos.

Eles estavam... Prateados. Literalmente, como prata derretida. A luz refletia neles, dando-lhes tonalidades claras e escuras, fazendo com que parecessem brilhar.

— Hã, bem... Ontem alguma coisa aconteceu e você desmaiou. Aí hoje de manhã você começou a... Delirar? Eu sei que você passou bem mal... – Ouviu Near falando, embora não realmente prestasse atenção. A voz dele falhou no final. – O Vincent foi chamar o Marc e... Bom, ele disse que você estava virando bruxa.

Como assim?!

— Eu não sei! Você passou o dia todo apagada – a voz dele falhou de novo. Near não parecia muito à vontade. – E... bom, deu pra sentir você usando magia. Mesmo eu não sendo bruxo nem nada.

Claire não sabia o que responder, só ficava encarando Near enquanto seu cérebro escorria pela orelha. Luiza continuou.

— É verdade! Acho que você é uma bruxa de magia mental, porque tipo... Toda vez que a gente tentava entrar no seu quarto ou passar na frente dele, dava pra sentir. Tipo, alguma coisa pulsando. Só que você é troll e de vez em quando derrubava a gente. Aí dava pra sentir mesmo.

— E ensinou o gato da Luiza a voar.

— É, isso também. Ele não gostou muito, mas foi engraçado. – admitiu. Do quarto vazio próximo ao de Claire, um miado indignado soou.

Virar bruxa... Ela havia virado uma bruxa? Quer dizer, ela se sentia horrível, com o corpo pesado e tudo mais, mas não como se pudesse sair levitando coisas ou derrubando os outros, ou ainda, fazendo gatos voarem.

Era... Era um pouco demais.

— Acho que você precisa comer alguma coisa. – Near observou.

— Eu vou pegar! – Luiza exclamou, levantando-se num salto. – O titio trouxe um camarão ao molho branco que tá uma delícia!

— Luiza, eu não acho que seja bom pra... – o loiro começou.

— Ah, bobagem! – ela o cortou, antes de sair pela porta rapidamente, sendo seguida por seu gato, que fulminou Claire com os olhos.

Sentiu algo esquisito... Um arrepio. Como uma onde de eletricidade leve sendo lançada em sua direção, fazendo sua pele formigar. Franziu o cenho, percebendo que aquilo saíra do quarto de Vincent.

— Eu tenho certeza de que isso está sendo demais para sua cabeça. – Near sussurrou, sentando-se ao seu lado. Claire quase não o escutou. – Mas olhe: Quando você começou a delirar e... Bom, atacou a primeira vez, você acertou o Vincent – Ele ficou claramente nervoso. – e... Não sei dizer se essa é a palavra certa, ou se você fez algo com ele, mas eu sei que ele surtou.

— Surtou...? – Sentia um nervosismo esquisito. Havia atacado os outros, e esse era o tipo de coisa que nunca fizera na vida. Claro, estava inconsciente, delirando, como Near dissera, mas ainda assim... Era como se de novo escutasse aquela voz em sua cabeça, falando coisas sem sentindo.

Voz...?

— Ele destruiu a casa. Tipo, literalmente. E quase matou o Marc no processo, só que conseguiu se controlar um pouco depois, aí ele consertou tudo. – Near mordeu os lábios. – A última vez que eu o vi hoje foi quando Marc o arrastou pra fora e, de verdade, ele parecia louco.

Ele o quê?!

— Destruiu a casa. – os olhos castanhos desviaram-se dos seus, nervosos. – Foi a coisa mais assustadora que eu vi na minha vida. Tipo, quase tudo foi pelos ares.

— E ninguém percebeu?

— Não, Marc disse que ele concentrou um tipo de magia, esqueci o nome, para meio que nos “isolar” enquanto o resto acontecia. Isso quase o matou. Depois, quando Vincent pareceu ter um momento de lucidez, ele parou, pôs tudo no lugar e ficou dando aquelas risadas de louco. – estremeceu. – Não dá para perceber de cara, mas Luiza disse que tem magia saindo das paredes, como se houvesse reposto elas, só que Marc não explicou direito o que aconteceu pra ela...

— Aqui! – ele pulou quando a garota entrou, com um prato em mãos. Ela olhou para os dois. – Ih, interrompi alguma coisa? – os olhos delas brilharam. – Posso shippar?

— Quê? – Near questionou sem entender. Claire, em compensação, sentiu o rosto queimar.

— Ele só estava me explicando o que aconteceu. – Murmurou, recebendo o prato que Luiza fizera. Aparentemente, ela escutara o conselho interrompido de Near de não lhe entupir com coisas gordurosas ou muita comida, assim havia apenas uma boa quantidade daquele camarão ao molho branco que ela mencionara e arroz branco. – Mas já que estávamos falando sobre o Marc, cadê ele?

Foi a vez de Luiza estremecer.

— Ele ainda tá falando com a Nossa Senhora das Múmias lá encima. Parece que eles estão negociando alguma coisa.

— Nossa Senhora das Múmias?

— Madame Rosa. – Near respondeu. – Ela é bizarra.

— E assustadora.

— E estranha.

— Exatamente. Já um conselho Claire, se você for ser realmente uma bruxa mental, não pegue o costume de ficar xeretando a cabeça dos outros, falando dentro delas, ou revelando tudo o que já fizeram ou não fizeram na vida, ok? Eu não precisava saber como o Near perdeu a virgindade!

Claire olhou de relance para Near, e viu seu rosto assumindo um tom de vermelho cereja.

— Eu também não precisava saber como era o último romance gay explícito que você leu nem todas as coisas que a sua namorada tentou fazer com você.

Dessa vez, Claire quase engasgou, enquanto Luiza deu uma risadinha sem graça.

— Luiza, você é lésbica?

— Bi, na verdade. E eu terminei com a minha namorada faz tempo, ela era... – ela sacudiu a cabeça, como se tentando expulsar memórias desagradáveis. — E quanto ao yaoi...

— Yaoi? – Near questionou.

— É, o romance gay. É um vício, ok? Eu gosto de ler coisas sobre dois homens se pegando, pode ser ficando só na fofura ou partindo pro hardcore.

— Você tem idade pra isso?! – o rapaz questionou.

— Pra algumas sim, para outras não. Mas leio mesmo assim!

— Ok... Pelo que percebi, houve algumas revelações bem... – Claire engoliu um camarão e continuou. – O que essa mulher veio fazer aqui?

— Ela sabe onde a Haydée deixou a possível localização da chave.

— A localização?

— Aham. – Luiza franziu o cenho. – Num dos templos dos anjos.

Recordou-se do que Vincent lhe dissera no dia anterior. Sete anjos e onze demônios.

— Sete anjos e onze demônios, é isso?

— Ah, a Dona Múmia falou sobre isso. Ela disse que na verdade são dezoito anjos, maaass... A maioria das pessoas pensa que existem demônios porque o certo seria dizer que são sete anjos bons, e onze anjos neutros.

— Hm... Então no caso, como eles não tem um lado específico...

— Aham. Ela inclusive falou sobre ser devota de Lady Lilith ou coisa assim.

— Ailith. – Near corrigiu.

— Você me entendeu. Senhora dos ladrões?

— Patrona da noite e escuridão, das memórias e sorte. Por isso, a maioria das vezes é vista como uma padroeira para ladrões, o que lhe rendeu a fama de ser um dos demônios.

As duas garotas olharam para o boneco.

— Cara... Você falou nas exatas palavras dela. – Luiza disse, abismada.

— Mas, continuando... Parece que há pelo mundo vários templos de um anjo chamado Alim, “o patrono de todo o conhecimento e aquele que rege todos os segredos”. – disse, imitando um tom sibilante. – Pelo visto, a Haydée deixou ou uma nota, ou uma memória sobre onde está a chave. Não ela em si.

— Claro, pois qualquer um poderia ir ao templo e pegar. – Claire deduziu. – Mas já é alguma coisa.

— Sim... Agora a questão se torna o seguinte: pelo que entendi, o local não é exatamente organizado. Madame Rosa deu a entender que você tem que estar bem focado no que você quer achar ou...

—... Podemos usar o Near como um imã gigante! – Luiza exclamou enquanto o loiro fechava a cara para ela. – Tipo, ele foi amaldiçoado pela doida de nome francês aí...

— Haydée.

—... Então ele ainda guarda resquícios da magia dela. Aí isso, e se ele se focar totalmente em achar a chave, bum! Imã gigante!

— É, ok. – ele murmurou em resposta. – Muito fácil.

— Olhando por essa perspectiva, parece ser o mais fácil que podemos chegar.

— Parece, ninguém garante que será.

— Ai credo, cara. Tu és beeeem pessimista, hein?

— Estou sendo realista, é diferente. – Near defendeu-se. – Nós não sabemos como é lá dentro, já que nenhum de nós foi.

— Ok, Senhor pra baixo. – ela pegou o prato que Claire havia acabado de esvaziar, e saiu da sala.

Near suspirou, pressionando as têmporas com um ar cansado.

— Foi um longo dia?

— Se foi. Além de a Luiza ter me dado o tapa final quanto a tudo o que eu perdi nesses sessenta e poucos anos, ainda teve a “Nossa Senhora das Múmias” jogando nossa vida íntima na cara um do outro. Ela só não saiu falando sobre o Marc, e isso porque ela parece ter medo dele. Além disso, me ativaram a cada duas horas o dia todo. É cansativo.

Claire franziu o cenho. Algo quanto alguém ter medo de Marc não parecia entrar na sua cabeça, porém, algo na expressão de Near era muito sério e nunca havia parado para pensar que os lapsos de boneco/pessoa poderiam cansá-lo remotamente, mas parando para pensar – de novo -, ela basicamente só o ativara umas três vezes ao dia, no máximo, até então.

— O seu tempo está acabando?

— No momento sim. Acho que eu tenho... Dois minutos? Enfim, só uma coisa – disse, realmente logo antes de voltar a se transformar em boneco. – Tome cuidado.

Claire ficou olhando para o boneco, e quase levantou apenas para ir atrás de sua chave e perguntar quanto ao quê ele pedia que ela tomasse cuidado. Quanto ao que veriam pela frente, pelo fato de ter se tornado bruxa, pela “Dona Múmia”, ou por outra coisa – Vincent? -. Mas decidiu que era melhor deixa-lo descansar, então levou o brinquedo para dentro.

Sentia-se melhor e agradeceu não ter passado mal com a comida. Agora... Virar bruxa? Aquilo nunca havia passado por sua cabeça, mesmo quando decidira se meter naquela situação. E ainda assim, continuava se sentindo como sempre, com apenas um pouco de estranheza. Na realidade, não sabia nem como deveria se sentir.

E falando em Vincent... Ele havia destruído a casa. Nossa.

Ela poderia ter passado a maior parte do dia delirando e inconsciente, mas ainda recordava parte da conversa que haviam tido mais cedo.

— Ah caramba! – quase pulou quando ouviu a voz de Luiza soar alta da sala. – Claire, a mamãe tá aí na frente, eu já vou indo!

— T-tá. – gaguejou e só viu então a menina passando, já do lado de fora – visível diante a parede de vidro.

Marc ainda estava conversando com a mulher no andar superior? Pelo que parecia, sim.

Certamente não era o melhor a se fazer, mas Claire deixou então Near encima da mesa – questionava-se se ele estava dormindo -, apagou a luz, e quando deu por si já estava na frente da porta do quarto de Vincent. As ondas de eletricidade continuavam saindo, e como estava muito próxima da clara fonte, sentia sua pele se arrepiando.

Vá... Tencionou-se ao ouvir a voz lírica soando nas profundezas de sua mente. Talvez o que devesse fazer fosse justamente girar os calcanhares e sair dali, porém seu corpo se moveu sozinho e girou a maçaneta, abrindo a porta.

O local estava escuro, e tudo o que Claire conseguia ver era devido a iluminação que provinha da sala. A cama estava com os lençóis revirados, e o edredom fazia um rastro no chão. Sobre a mesa via a mala de Vincent – ele havia a posto lá no dia anterior, não? -, jogada de lado, o conteúdo espalhado pelo piso. Localizou alguns frascos e potes que não identificou (talvez fossem poções).

Ao fim, localizou o rapaz no canto mais distante e escuro do quarto. Ele parecia estar abraçado a si mesmo, tremendo visivelmente.

E de longe, Claire via as veias saltadas contra a pele dele, exposta pelo fato dele estar trajando uma regata preta. Elas eram roxas, mas não o roxo “saudável” que ficava usualmente exposto. Não, elas brilhavam fracamente, como neon depois de muito usado.

—... Vincent?

Ele não respondeu, mas via os dedos como garras, fincados em seu cabelo. Conseguia ver totalmente os caminhos das veias e artérias nas costas de suas mãos.

Aquilo era horrível.

Fechou a porta e ligou a luz. Ele não reclamou, apenas pareceu se encolher um pouco mais.

Ele é seu.

Mal escutou a voz, foi até Vincent com os passos mais largos que o corpo pequeno permitia. Percebeu ao seu lado frascos vazios, o mais próximo dele ainda tinha parte do conteúdo, e estava virado, com o líquido azulado vazando minimamente ao chão. Soube instintivamente que ele tomara aquilo para tentar apaziguar a dor. Inferno, dava para ver que ele estava sofrendo, como não?

Abaixou-se ao chegar ao seu lado, escutando a respiração pesada. Ficou um pouco mais horrorizada ao perceber os rastros de sangue descendo por onde as unhas curtas haviam perfurado o couro cabeludo.

— Vincent, você está se... – começou, estendendo a mão para tentar fazê-lo se soltar. Acabou gritando (mais de susto) quando sentiu um choque. Não o choque de brincadeira do dia anterior, mas sim um real, que doera. Nada que não pudesse aguentar, mas...

Ele soltou um gemido em resposta. Foi um som quase gutural.

— Ai... Isso...

Vincent murmurou algo que lembrou remotamente um “Perdoe-me”, mas não conseguiu ouvir muito bem.

— Ir... – teve certeza dessa vez que ouvira algo.

— O quê?

Ele soltou a própria cabeça, e Claire teve um vislumbre das unhas sujas de sangue, os dedos enganchados. Vincent fez um movimento que deu a entender que iria cravá-los no próprio rosto – perigosamente próximo aos seus olhos -, o que a fez saltar contra ele, segurando-o por reflexo para impedi-lo de fazer algum estrago real.

Não esperava que ele tivesse força o suficiente para que, mesmo que ela tenho posto quase toda sua força naquele ato, o inglês simplesmente a puxasse junto. Conseguiu impedi-lo de um meio diferente do que planejava, pois acabou caindo sobre Vincent, que também se assustou. Seu nariz bateu na testa dele, e acabou levando um choque de presente da ponta que pareceu se estender até seus lábios.

— Ai!

— Descul... – Ele por reflexo pegou-a pelos braços, e Claire se encolheu tanto devido à nova onda de eletricidade quanto ao fato dele tê-la agarrado com força o suficiente para ter certeza que sentira os ossos estalando. Percebendo aquilo, Vincent a soltou.

Suas mãos tremiam, e garota verificou os próprios braços, percebendo que as mãos do rapaz ficaram marcadas em vermelho na pele rosada, que latejava.

— Des... Desculpa... – ele disse simplesmente, abaixando ainda mais sua cabeça. Sua voz quase não saíra, e tudo o que vocalizar saíra estranhamente rouco.

— Meu Deus Vincent... O que aconteceu com você?

Ele se retraiu em resposta, como se aquilo fosse fazê-lo evitar responder. As faíscas se formaram visivelmente em sua nuca, desaparecendo logo após, enquanto ele parecia esconder ainda mais seu rosto. Claire sentiu vontade de pegar seu rosto e fazê-lo olhar para ela para ver o que havia de errado, embora estivesse obviamente receosa devido aos choques recentes.

Então reparou na falta da corrente com o pingente de ônix que ele sempre usara desde que se conheceram.

Deveria ser apenas acessório que ele gostava de usar, entretanto, Claire sentia como se houvesse alguma coisa muito errada. Parecia loucura, mas a sua intuição lhe dizia – gritava – que o “algo errado” poderia estar sendo relacionado com a falta do cordão.

— O seu colar. — começou, e ele se retraiu mais uma vez, dando-lhe certeza de que havia acertado. Seus braços e nariz latejaram um pouco mais. – Você está assim por que... Ele fazia algo você?

Vincent parecia estar disposto a colar o rosto no joelho ou na lajota de porcelanato do chão.

— Vincent, por favor, olhe para mim.

Viu a boca dele se tornar uma linha apertada e pálida, enquanto o rapaz parecia estar travando uma luta interna. Não conseguia entender exatamente o que estava acontecendo, mas Vincent não podia se manter naquele estado por mais muito tempo, isso era certeza. Talvez estivesse receoso de causar mais destruição, ou ainda, estivesse com vergonha do que havia feito?

Por favor, Vincent.

Vincent ergueu o olhar, que se arregalou de sincera surpresa quando a viu, e Claire ofegou.

Os olhos de Vincent eram lindos, sempre achara. O modo que formavam o verde-água, com diversas facetas tanto de azul quanto de verde que davam a aparência exótica enquanto formavam a perfeita mistura de ambas as cores, mas naquele momento, suas pupilas estavam dilatadas e envolta delas estava o que deixou a garota ainda mais embasbacada.

O que conseguiu pensar primeiro foi que parecia um sol. Uma coroa dourada envolta do negror das pupilas, que se lançavam em fios dourados em direção à íris, fazendo com que o seu olhar parecesse brilhante. Não era um dourado simples, e sim uma variação que trazia várias facetas, assim como o verde dos olhos dele. Dourado pálido, ouro, alaranjado.

Percebeu então que não fora impressão sua, e que sim, o dourado brilhava. Quase como as veias na pele pálida. E então se recordou do que o próprio Vincent lhe dissera no dia anterior:

“Dizem que eles tinham “coroas” em seus olhos. Coroas douradas envolta da pupila. Todos eles. Era o método de reconhecê-los.”.

— Você... Você é da família real... – começou num tom aterrado. Então os pontos se ligaram: A idosa no aeroporto e como ele parecera aterrorizado. Vincent possuía dois irmãos... Sendo assim três filhos, e havia três príncipes desaparecidos.

Príncipes.

— Eu sou um tremendo mentiroso, não sou? – ele questionou de repente, assustando-a.

— Eu... Eu... – Claire realmente não sabia o que responder. Acabou falando a primeira coisa que lhe veio à mente. – Seu nome não é Vincent Novak. – constatou.

— Alastair Rockstone. – lhe respondeu, estremecendo logo após, como se fosse errado dizer aquele nome. – Alastair Vincent Rockstone.

— Um dos príncipes dos bruxos era o meu gato. – acabou soltando, e ele ergueu as sobrancelhas para ela, como se não acreditasse que ela fosse falar aquilo, de tantas coisas.

— Não vai ficar brava comigo? – ela o olhou sem entender.

— Por onde devo começar?!

— Do gato stalker? – ele se crispou de dor por um momento. Claire visualizou outras faíscas.

— Eu gosto do gato... – sacudiu a cabeça, dando-se conta do que estava falando. – Mas quando você estiver melhor, tem que me explicar essa história direito. Céus Vincent, o que você... Você aqui... – não conseguia formular um pensamento coerente. — O Marc sabe?!

— Sabe. – fez uma careta. O dourado pareceu brilhar mais intensamente. – Eu não sabia que ele sabia. Ontem ele comentou que conheceu meu pai, então...

— Você se parece com ele?

— Cópia.

— Hã... – de repente, não sabia mais o que poderia dizer. Parecia informação demais, finalmente. Curto circuito no cérebro. Passou as mãos pelo cabelo, erguendo-os e bagunçando levemente no caminho. – Mas por que você...

Ia questionar por que ele escondia a própria identidade, porém parou no meio do caminho, recordando-se mais uma vez da conversa do dia anterior.

A família dele havia sido morta.

— Eu...?

— Esquece. – suspirou, olhando mais uma vez para os olhos mergulhados em dor. Percebeu então que sua pele formigava pela proximidade, e a névoa de cor que via anteriormente, vinha, na verdade, dele. – É idiota.

Os olhos dele pareceram se apaziguar por um momento, e Claire percebeu naquela hora exata, ele pareceu ir do quase-morrendo-de-dor para um quase-rindo-ai-é-estou-morrendo.

— Mas eu acertei? Tem algo a ver com o seu colar? – Vincent a olhou surpreso. – Você estar assim?

— Eu... É, tem sim. Era um retensor.

— Retensor? – ele abriu a boca para explicar, mas fez então outra careta. – Ah não! Não precisa explicar agora, eu que não deveria estar fazendo perguntas!

— Ele retém magia de quem usa. – continuou mesmo assim. – Você o quebrou hoje de manhã e... Bom, tudo saiu.

Eu quebrei? Você está assim por minha causa?!

— Não por sua. Primeiramente, é minha, pois os retensores são proibidos justamente pelo risco que o usuário passa ao retirá-lo. Eu não deveria estar usando isso.

— Parece que você está inventando uma desculpa para que eu não me sinta culpada.

— Mas é a verdade. – Ele apertou os olhos mais uma vez, e mordeu os lábios, que se avermelharam rapidamente, fazendo-a temer que ele houvesse rompido a pele. Reprimiu-se silenciosamente quando uma parte de sua mente constatou que aquele pequeno ato era ridiculamente atraente.

Afastou aquele pensamento. Não era hora para aquilo.

— Você precisa de alguma coisa? Água, comida?

Ele fez uma careta, como se a ideia fosse repulsiva. Recordou-se como estava de manhã, então ele deveria estar de maneira semelhante. Mesmo que Vincent não tenha a respondido, saiu, indo buscar água. Ora, ele passara o dia todo lá dentro, então não contaria aquelas poções – ou achava que fosse – contassem como algo para mantê-lo hidratado.

Mas ela não se arriscaria a dar a água com a eletricidade correndo.

Escutou as vozes no andar de cima, porém decidiu ficar quieta, pegando o copo, enchendo-o, e logo retornando. Vincent estava do mesmo jeito.

Quando lhe estendeu o copo, ele o pegou. E quebrou.

Claire pulou para trás quando os cacos começaram a cair, mas quando eles estavam quase para tocar o chão, pareceram retornar, se formando novamente no objeto na mão esquerda do rapaz. Mas isso não o livrou de se encharcar.

— Sua mão... – a garota realmente ia exclamar ou algo do tipo, mas a resposta foi mais rápida do que isso.

— Desculpe por isso. – a voz dele soava mais baixo que o normal. Sua mão esquerda estava vermelha de sangue que estava começando a pingar juntamente com a água. Mesmo que os cacos não houvessem se alojado em sua pele, era óbvio que haviam a cortado profusamente.

— Desculpa?! O copo quebrou na sua mão, temos que... – olhando com atenção, percebeu os cortes se fechando a olho nu, restando apenas o sangue que parecia provindo de lugar nenhum. Calou-se ao perceber a cena. – Você está realmente disposto a me deixar sem fala hoje?

Vincent pareceu ficar sem graça, olhando para a própria mão. Pela sua expressão, soube que cura acelerada não era exatamente algo comum no dia a dia do moreno.

Mais por reflexo, esquecendo momentaneamente dos choques anteriores, pegou a mão suja, aliviando-se quando não recebeu outro choque. Enquanto conversavam, as veias iam retornando ao tamanho normal, entretanto, elas ainda brilhavam ligeiramente roxas sob a pele. Mesmo assim, ainda havia leves cócegas causadas por uma eletricidade de pouca intensidade.

O sangue parecia horrendamente vermelho contra a tez pálida. Franziu o cenho.

— Você me parece alguém com uma séria deficiência de vitamina D. – Claire não conseguiu evitar o comentário. Sua pele era clara e parecia rosada e meio escurecida, comparada a dele.

— Talvez. – admitiu. – A palidez é de família, mas eu estou...

— Um pouco além.

— É. Meu irmão consegue ser um pouco pior até do que eu.

— Sinceramente... – murmurou, indo até o banheiro, pegando a toalha de rosto e ao voltar se pôs a limpar a mão sangrenta. – Aí você fica mais propenso a infecções, esquizofrenia e depressão, além de ter mais chances de contrair uma osteoporose quando ficar velho.

Vincent pareceu achar graça dela, mesmo que seu sorriso ainda tenha sido fortemente embotado pela dor.

— Quanto à parte do ficar velho... Eu tenho chances de não ficar. – ela o olhou. – Você viu o Marc. Ele nasceu no século 12.

Claire havia sinceramente esquecido daquilo. Olhou para os próprios cabelos, agora lilases, e sentiu um calafrio percorrendo sua espinha acompanhada pelo nervosismo.

— Existem casos de osteoporose precoce. – disse apenas, vendo os olhos dele parecerem cintilar. Não teve certeza se fora realmente aquilo, ou se fora apenas uma ilusão causada pela coroa dourada.

— Claro. – foi a resposta, e soube que fora pega.

Terminou de limpar os últimos resquícios de sangue, parando então para pensar um pouco. O dia fora tão... Cheio? Passara a maior parte inconsciente, mas ainda assim, nas poucas horas que passou acordada, literalmente foi bombardeada de informações. Fora atacada por um familiar; Vincent era seu gato; tecnicamente falando, se tornara uma bruxa – mesmo não tendo feito nada conscientemente -; iriam ter de ir num templo de anjos, e para coroar tudo, Vincent não era quem ele aparentava ser.

Príncipe dos bruxos. Uau. Aquela era o tipo de informação que demorava a descer – talvez ainda mais que a do gato.

— Eu ainda acho que devo pedir desculpas. – Claire se assustou quando o moreno falou de repente.

— Você costuma se desculpar tanto assim?

— Normalmente, já que costumo estragar tudo. – respondeu, antes de uma fazer uma clara dose de esforço e se apoiar em seus joelhos, tentando se levantar. A garota ficou com um medo sincero de ele cair sobre ela, porém isso não, conseguindo se firmar.

Ele parecia... Pesaroso. “Costumo estragar tudo”, cinco pedidos de desculpas. Além de todo o resto da situação. Era claro que ele parecia carregar um peso nas costas – um peso extremo -, mas também ele não se sentia muito impelido a falar. Mesmo com a situação do gato, não era como se fossem próximos o suficiente para que ela pudesse pedir que ele desabafasse ou algo do tipo, não era mesmo?

Mas ele era o gato, no fim das contas. Ele fora capaz de ouvi-la se lamuriar por dois anos, então aquele era o mínimo que ela poderia fazer.

— Vincent, é... – tocou o braço dele, fazendo-a olhá-la. – Quero que você saiba, que se quiser falar alguma coisa, eu estou aqui.

Não conseguiu decifrar o olhar que ele a dirigiu. Não era exatamente composto, era apenas... Foi como se muita coisa passasse ao mesmo tempo no fundo daqueles olhos. Tanta coisa, tão misturada, que não conseguiu discernir um isoladamente. Era estranho como Vincent conseguia ser tão estoico, mas ao mesmo tempo seus olhos serem tão expressivos.

— Acho melhor não Claire. Vai... É muita coisa.

Admitiu estar um pouco decepcionada. Uma vozinha no interior de sua cabeça – não aquela voz profunda que lhe fazia questionar sua própria sanidade. – acusou que ele não confiava nela, e que Claire não poderia reclamar de nada.

— Mesmo que você tenha me ouvido falar por dois anos? Lembrando que você...

Claire tropeçou nas palavras quando Vincent pegou-a pelos ombros, tocando-a com tanta delicadeza como se tivesse medo que quebra-la. Ele estava tão próximo assim antes? Sentiu suas pernas tremerem enquanto o nervosismo lhe atingia como uma avalanche antes de Vincent a beijar.

Apertou a toalha entre seus dedos, sem saber o que fazer, sem saber sequer onde pôr as mãos. Não era apenas um selar de lábios, era um beijo de verdade, de língua. Sua mente parecia em branco enquanto a sua pulsação soava como um tambor em seus ouvidos, e estava quente, muito quente. Sentia o rosto queimando, sua cabeça deveria ter virado uma bola vermelha.

Os lábios estalaram quando se separaram. Parecia que o mundo girava e Claire torcia para não estar parecendo um peixe tentando respirar numa cena ridícula, sem conseguir registrar a expressão de Vincent, se ele estava rindo da cara dela ou não – torcia para ele não estar se arrependendo ao ver sua cara.

— Talvez depois. – Vincent disse apenas.