Coração de Porcelana

2 Capítulo 1 - Birthday Gift


Notas iniciais
Essa é a quarta vez que tô tentando postar esse capítulo hoje -.- Ainda tem mais as milhares de vezes que tentei ontem e a minha internet faz questão de me trollar. Bem, vocês vão ver que várias mudanças ocorreram desde a versão passada, então espero que gostem

Capítulo 1 – Birthday Gift

A perspectiva de passar seu aniversário sozinha, sem nem mesmo seus familiares se recordarem era certamente desanimadora.

Mas foi assim que Claire comemorou seus dezesseis anos.

Olhou novamente para a tela de seu celular, esperando que Zoey ou Sandy lhe mandassem uma mensagem, já que as duas eram sua última esperança de receber algum parabéns. Mas Zoey estava de férias em outro país e Sandy ainda não dera sinal de vida desde o início das férias.

Suspirou, pondo o objeto sobre a mesa e se afundou na cadeira. Estava numa cafeteria e comprara para si cookies gigantes do tamanho da palma de sua mão, repletos de chocolate e um cupcake lilás de confeitos rosa apenas para “comemorar”.

Sua mãe saíra de manhã cedo para trabalhar em seu escritório de advocacia e seu irmão mais velho saíra com os amigos. Como acontecera no ano anterior, ninguém lembrara. Já antecipava o fato, mas a realidade doía.

– Não sei porque me importo... – murmurou emburrada, dando uma generosa mordida em um dos cookies, porém não se impediu de pensar em como poderia estar passando aquela data se seu pai estivesse vivo. Repreendeu-se ao pegar-se pensando naquilo.

Quase naquele momento seu celular apitou, fazendo-a dar um pulo. Pegou-o, vendo que era Sandy. Ela se desculpava por não ter enviado nenhuma mensagem anteriormente, pois estava visitando a família em Washington e sua mãe e sua irmã não lhe davam folga, já que fazia quase um ano que não se viam. Seguia lhe desejando um feliz aniversário e que tivesse um bom “doce dezesseis”.

– Como se eu fosse ter uma festa de aniversário de dezesseis anos...

O celular apitou novamente, e era mais uma mensagem de Sandy, que dizia que se ela ficasse se remoendo que não teria festa ou algo do tipo, quando voltasse para Atlanta ela faria questão de torturar Claire por seguidas horas de compras no shopping e acabaria lhe arrumando um encontro com algum jogador do time de futebol. E para Claire, aquela era uma séria ameaça, já que a loira passava horas e horas atenta a cada mínimo detalhe de cada peça de roupa de cada loja que entravam e ficava discutindo com vendedores de cosméticos a qualidade de suas maquiagens. E quanto ao jogador de futebol, pelo menos até a última vez em que conseguira conversar com um de sua escola, seu cérebro parecia ser movido a testosterona: músculos, brigas, xingar o time adversário, brigas, urr durr.

E certamente não queria ter nenhum primeiro encontro com um cara daquele tipo.

E falando sério, quem iria olhar para ela com Zoey e/ou Sandy por perto?

Respirou fundo, resignada. Não, não iria passar seu aniversário se remoendo. Tinha dinheiro tanto de um trabalho de meio período que havia largado por conta das provas finais quanto da mesada que sua mãe dava – o que na sua opinião era uma das únicas coisas que ela fazia para ao menos fingir que se importava com os filhos, assim como pagar a escola particular de ambos. -. Ao invés de se entupir de doces, poderia muito bem andar pelo shopping e procurar por qualquer coisa que lhe interessasse e comprar um bom presente de aniversário.

– Sim, isso mesmo. – disse num tom decidido, dando uma última mordida no delicioso cupcake antes de amassar o papel e pô-lo dentro do prato dos biscoitos, levantando-se e saindo da padaria. – Eu vou aproveitar meu aniversário, mesmo que sozinha. Isso mesmo. Estou de férias, tenho o dia todo livre, e inferno, ainda é dez da manhã!

Pegou um táxi, seguindo para o Sugarloaf Mills. Chegando ao shopping, simplesmente perambulou pelos corredores durante algum tempo, perguntando a si mesma se faria uma rota usual de “Claire Hayles” ou se levaria sua ideia a sério.

Bem... Iniciou sua rota bem ao estilo “Claire Hayles” mesmo. Antes que percebesse, seus pés já haviam a levado à Books-a-Million, então entrou na livraria e acabou se perdendo em meio às centenas de livros dispostos ali, enquanto sentia o cheiro das guloseimas do Joe Muggs Café, o que para si era uma deliciosa combinação enquanto olhava os exemplares que chamavam sua atenção.

Recordava-se de haver feito uma nota mental para comprar o terceiro livro da série Invocação da Deusa, de PC Cast, após haver devorado Deusa da Primavera, assim, logo de certeza agarrou seu exemplar de Deusa da Luz, enquanto procurava por mais um ou dois... Por fim, também levou um que chegava a até mesmo destoar do romance que levava, Prince of Thorns. Um personagem com sede de vingança e poder era certamente diferente, ao contrário dos usuais mocinhos dos livros, então acabou chamando sua atenção.

Quando “acordou”, já era em torno das 13h, então foi até o Panda Express onde almoçou a deliciosa comida asiática do local, para então retornar a andar pelo shopping. Acabou por comprar algumas poucas maquiagens, roupas e sapatos novos, mas ao entrar numa específica loja para dar uma olhada em seus CDs, encontrou-a apinhada de garotas. Via um anúncio o qual dizia que era basicamente “o novo CD do Magick”, então simplesmente deu de ombros. Havia ouvido falar – e muito, graças à Zoey e Sandy – daquela nova boy band, mas simplesmente não havia conseguido prender sua atenção à ponto de ir atrás de suas músicas.

Quase ouviu as duas amigas berrando em sua mente “Dê uma chance a eles!”, e com um suspiro, acabou conseguindo se esgueirar entre as fãs e pegou um sorrateiramente. Ser pequena e magrinha realmente tinha suas vantagens.

A capa do CD era criativa, tinha de admitir. Era negra e havia diversos desenhos como se feitos de giz, e no centro havia a cabeça de um ser de capuz laranja, óculos azuis e um bigode verde. Não prestou muita atenção na capa no momento, no entanto. Não com aquelas meninas histéricas ao seu lado. Assim, pegou o seu há muito desejado 1000 Forms of Fear, pagou a ambos e foi terminar seu dia no Medieval Times.

Depois de muito babar no cavaleiro azul – que coincidentemente era o cavaleiro de seu time, que novamente coincidentemente fora o vencedor -, retornou para casa bastante satisfeita com o jantar oferecido pelo show, pensando que talvez estivesse com o clima perfeito para assistir O Senhor dos Anéis e ficar admirando Aragorn e Legolas. Mesmo que não fosse exatamente medieval, poderia também assistir Entrevista com o Vampiro...

Como sua mãe era uma advogada dona de seu próprio negócio, muito bem sucedida, e seu pai também fora um repórter de renome, morava no Buckhead, o bairro caro de Atlanta. Sua casa possuía dois andares visíveis, um porão, com um design moderno e formatos geométricos. A frente da casa era quase totalmente envidraçada e a garagem era amadeirada, cor de canela, com as paredes exteriores brancas.

“Bem, agora que fiz dezesseis posso tirar minha carteira de motorista”. – pensou. – “Embora tenha certeza que vou ter que trabalhar muito para conseguir meu próprio carro”.

Pagou o táxi e foi para casa, que ainda estava às escuras como havia deixado ao sair, indicando que nem sua mãe nem Joshua haviam retornado. Entrou e ligou a luz da sala, subindo para seu quarto, que como se encontrava mais na parte posterior, não possuía nenhuma vidraça reveladora – e fora exatamente por isso que o escolhera.

No momento em que entrou em seu quarto imediatamente viu o taco de basebol de seu irmão jogado no chão, fazendo com que seu interior gritassem em irritação, porém, seus olhos viajaram imediatamente a um objeto estranho sobre sua cama. Uma caixa de mogno que se destacava sobre os lençóis rosa claros de sua cama, seu tampo era decorado com arabescos dourados, em cada uma das extremidades havia uma estrela de cinco pontas prateadas e de cada uma delas saíam uma linha curvilínea, interligando-se a outra estrela, que depois se voltavam a decorar com precisão o espaço dentro da moldura que acabara sendo formada com formas circulares e onduladas, as quais montavam uma flor exótica.

Claire franziu o cenho, aproximando-se da cama e deixando suas sacolas sobre ela. Sentou-se e pegou a caixa, que era mais leve do que aparentava. Não havia dúvidas que era belíssima, mas não parecia ser do feitio nem de sua mãe nem de Josh comprarem algo do tipo para si.

Seus olhos seguiram para então o que lhe parecia ser um pedaço de papel caro e antigo. Pegou-o, vendo ali uma elegante e linda letra, a qual nunca havia visto antes. Estava simplesmente escrito:

“Para Claire Hayles: Minhas felicitações por seu aniversário de 16 anos, espero profundamente que goste do presente.

PS: A chave está no bolso.”

Piscou, virando a caixa até encontrar uma um bolso de couro discretamente pregado à caixa, onde encontrou uma chave dourada a qual trazia delicados adornos de um translúcido tom de azul e lilás em formatos de asas de fadas.

Olhou para a chave e então para a fechadura dourada da caixa, desconfiada. Como diabos aquilo fora parar em sua cama? Havia algo gritando dentro de si que certamente não fora nenhum de seus familiares que comprara aquilo, então quem quer quem fosse, havia entrado em sua casa – trancada – e pusera-o sobre sua cama.

Mas como?

Um miado chamou sua atenção fazendo com que se virasse imediatamente para a janela e um sorriso aliviado acabou tomando conta de seus lábios. O gato preto estava lá, andando de um lado para o outro, certamente impaciente.

Deu mais uma olhada desconfiada à caixa, antes de deixa-la sobre a cama e abrir a janela para deixar o gato entrar.

– Oi menino bonito. – disse, e o gato imediatamente pulou para seus braços. – É, eu passei o dia todo fora. Te deixei plantado aí o dia todo? – o felino miou num tom indignado. – Você é um gato estranho, sabia? Normalmente gatos ficam com aquelas caras esnobes pra gente e quando não damos atenção o suficiente, eles vão pra outro lugar, sabe?

Continuou tagarelando enquanto o gato permitia-se ser carregado preguiçosamente, voltando a sua cama. O bichano não era seu: ele surgira em seu quarto no dia em que soubera do falecimento de seu pai. Recordava-se muito bem que estava chorando desesperada contra sua porta quando o vira sentado na janela aberta, então ele entrara sem preâmbulos, para então pular em seu colo e pousar as patas dianteiras em seu ombro juntamente com a cabecinha, agindo como se fosse seu gato há anos. Desde então ele a visitava todos os dias.

E isso já fazia dois anos.

Não fazia ideia de onde ele aparecera. Poderia muito bem ser um gato de rua, mas... Seu pelo era negro, escuro e brilhante, muito bem escovado. O felino possuía grandes olhos verde-água e parecia ser bem cuidado e limpo demais para ser um bicho abandonado, então seu verdadeiro dono deveria deixa-lo solto para seus passeios.

Pousou-o na superfície macia da cama, acariciando delicadamente a extensão de sua coluna enquanto ele se contorcia prazerosamente na direção em que ela coçava. Com um suspiro, porém, Claire o soltou, fazendo-o soltar outro miado indignado.

– Desculpe, mas... – pegou novamente a caixa e a chave. – Vejamos o que é isso...

Destrancou-a, e quando a abriu, sentiu-se prendendo a respiração. O tampo continuou suspenso por correias de couro negro que o ligavam com a caixa, que por dentro era completamente revestida com cetim branco e brilhante, além de ser estufada e pousado nela estava um boneco de porcelana.

Maravilhada, pegou o objeto, analisando-o enquanto o virava em suas mãos. Ele tinha uma pele bem branca e cabelos dourados. O seu cabelo aliás era bonitinho... Ele poderia ser penteado para os dois lados, mas uma mecha do lado direito de sua cabeça era penteada para o lado esquerdo e por baixo dela vinha uma mecha do lado esquerdo direcionada para a direita, formando um ligeiro padrão cruzado, e todo o seu cabelo era penteado desse modo, mecha por mecha.

Suas roupas eram brancas e cor de creme, ligeiramente etéreas. Sua túnica e calça compridas eram da maneira que imaginaria para a versão masculina de uma fada, e seus olhos estavam fechados, como se dormisse. Era tão perfeito que parecia que segurava um minúsculo humano em suas mãos.

Mas de algum modo também lhe parecia aterrador.

Seus olhos voltaram-se até a caixa enquanto o gato farejava o boneco de maneira desconfiada, vendo ali outra chave, mais precisamente uma chave de corda, como se ele fosse um boneco que possuísse algum mecanismo para se mover.

A primeira coisa que pensou foi que tipo de mente brilhante faria um boneco de corda feito com porcelana, pois qualquer movimento poderia acabar por quebrá-lo, porém a pegou, analisando-a também. Como tudo mais, ela era extremamente decorada, sendo da cor do cobre decorada com uns entalhes brancos e entre suas curvas estava entalhado um “10”. Virou o boneco com cuidado em sua mão e vi um orifício em suas costas, que provavelmente era para pôr a chave. A encaixou ali e a girou três vezes, escutando o usual estalo das engrenagens dentro.

Não aconteceu nada.

Franziu o cenho e tentou mais três vezes, porém foi como se atingisse uma barreira, indicando que não poderia dar mais corda do que seis voltas. E ele continuava imóvel.

– Bom... – disse enquanto o retirava a chave do boneco. – Deve ser apenas pra decoração, ou então ele está quebrado...

O boneco começou a tremer em suas mãos, quase como se estivesse tendo uma convulsão epiléptica, para seu susto. Achou que seu coração ia parar com aquilo, e assustada, jogou-o no chão. Apesar de ser de porcelana, ele não trincou ou quebrou, apenas continuou se convulsionando, para que então vários feixes de luz começaram a sair de sua cabeça, tronco e pés, então rodearam-no e engrossaram, formando uma bola de luz cada vez mais brilhante e maior.

O gato chiou e Claire levantou-se num salto, pegando o taco de Josh no chão e empunhando-o como uma espada, com os olhos cor de chocolate arregalados encarando aquela cena, entretanto a luz a cegava. Fechou os olhos com força, sentindo-se trêmula e profundamente amedrontada, até que repentinamente a claridade sumiu.

Abriu os olhos, e piscou algumas vezes para ter certeza de que o que via era real. Não havia mais um boneco ali, mas sim um rapaz. As mãos dele foram trêmulas até sua cama, enquanto tentava se levantar, e finalmente o fato conseguiu entrar em sua cabeça.

O boneco se transformara num humano.

Notas finais
*O "doce dezesseis" mencionado pela Sandy é o equivalente deles aos nossos 15 anos, só uma curiosidade pra quem não sabe. Bom, mudei bastante coisa, a começar pelo estilo e visual da Claire .-. Tenho motivos para isso, mas explicar agora seria spoiler. E esse foi o capítulo, espero que tenham gostado e ESPERO QUE A INTERNET NÃO ME TROLLE MAIS.