Coração de Gelo
2 Jon
Notas iniciais
Jon andava com tantos problemas na cabeça, tantas intrigas e traições que já estava cansado de ter que agir como um político e esperava que esse jogo dos tronos permanecesse apenas em Porto Real. Mas os Deuses eram sempre cruéis e não atenderam seu pedido; Ramsay derrotara o exército de Stannis e ainda ameaçara tomar a Muralha caso não se ajoelhasse perante os Bolton.
E embora tantos problemas, ali estava Jon, beijando um homem. Ele sabia que deveria achar isso repugnante e uma abominação contra a natureza, mas estava estranhamente bem com o beijo que Cetim lhe dera. Embora negasse, no fundo da sua consciência tinha gostado da sensação e isso o deixava preocupado; um homem deve sentir prazer apenas com uma mulher.
O Senhor Comandante tinha ficado paralisado mais por surpresa do que por repulsa, ainda que estivesse confuso com o ocorrido, não era a primeira vez que beijava outro homem. Certa vez quando mais novo, Jon havia trocado carícias com Theon. Deuses, logo com Theon. Rezo para o que aconteceu naquela floresta vá para o túmulo comigo e com Theon.
~
Era uma tarde de primavera em Winterfell e Jon, Theon, Robb e mais outros tantos rapazes caçavam pela Matadelobos. Eddard tratava de assuntos diplomáticos com Lorde Manderly em sua casa, então não pudera comparecer na comitiva.
Atracaram no rastro de um alce que não estava longe; suas pegadas na terra úmida ainda eram recentes. Os cavalos corriam velozes entre as árvores, e Jon de relance vira Theon se equilibrando nas costas do animal para puxar a corda de seu arco-e-flecha. Ele não contava que o cavalo tropeçaria na raiz de uma árvore e o jogaria a metros de distância, caindo com um baque no chão. Quebrara o braço e seu garanhão também torcera a pata. Por toda Matadelobos se ouvia o berro de dor de Theon.
– Jon, se importa de levá-lo de volta para Winterfell? Já estamos tão perto do alce, seria um desperdício de tempo todos nós voltarmos agora. – Dissera Robb, altivo e esguio sobre seu cavalo.
– É bastardo, faça isso. Não é necessário que todos nós voltemos. – Era a voz de um rapaz filho de algum vassalo de Eddard.
Jon acatara o pedido sem nenhuma reclamação, absorto em seu silêncio. Jogara Theon com cuidado sobre as ancas de seu cavalo e partira rumo a maior cidade do Norte. O Greyjoy resmungava com um tom de voz jocoso por todo o caminho, enquanto com uma mão se apoiava na cintura do bastardo. O que não contavam é que a noite cairia tão cedo.
– Não fazia ideia de que tínhamos cavalgado tão a fundo na Mata – Falara Jon, pensando alto.
– Meu braço está tão inchado quanto as minhas bolas, vá mais depressa, bastardo.
– Já é noite e os lobos começaram a uivar. Posso senti-los nos observando agora, estão assustando o meu cavalo.
– O quê? Não tem lobo nenhum aqui. Açoite a porra desse cavalo e vamos embora antes que meu braço caia de infecção.
– É melhor acamparmos aqui. Partiremos ao amanhecer. – Jon murmurou com um tom que não admitia discussões, mas Theon questionara por toda a noite mesmo assim.
Snow fora procurar lenha para uma fogueira. Em poucos minutos tinha trago vários tocos de madeira secos que serviram para uma grande pira. Amarrou o seu cavalo em uma árvore ali perto e se apoiou em um tronco para dormir.
Os chorinhos de Theon acabaram por espantar seu sono e teve que se obrigar a levantar para avaliar o braço do Greyjoy mimado.
– Deixe-me ver como está seu braço.
– Foda-se bastardo, não vou te mostrar nada.
Mas Jon fora até Theon checar o machucado e o protegido de Ned não protestou. Desabotoou seu casaco e puxara todas as suas blusas para fora de seu tronco, deixando-o nu da cintura pra cima.
– Chegue mais perto do fogo, irá congelar sem as roupas. – Dissera Jon, inexpressivo. As chamas dançavam em seu rosto deixando sua expressão um tanto sombria.
No final das contas o machucado não estava tão mal assim; o osso estava no lugar certo e parecia só ter trincado. O inchaço deveria ser resultado da torção de algum músculo. Jon jogou um cantil de água inteiro na pele do rapaz para limpar a sujeira de folhas e terra que estavam no machucado. Rasgou um pedaço da camisa de Theon e fez uma atadura improvisada para que seu braço não se movesse demais. Enquanto fazia um nó com o tecido em torno das costas do Greyjoy, Jon ficou com o rosto bem próximo do de Theon. Podia sentir o cheiro de sua pele e de seu cabelo.
– Obrigado, Jon – Agradeceu o príncipe das Ilhas de Ferro, a guisa do deboche de chamá-lo de bastardo. Por um instante apenas ficaram encarando um ao outro, ambos se olhando nos olhos.
E então aconteceu. Beijaram-se ali mesmo, sem cerimônia alguma. De inicio os dois estavam tensos, era novidade para eles o que estava acontecendo. Mas Jon fechou os olhos e deixou que a língua do Greyjoy dançasse com a sua, puxando os lábios de Theon com ternura, enquanto tentava afastar a explosão de sentimento, culpa, repulsa, vergonha e prazer que estava sentindo. Theon colocara sua mão boa nos cabelos de Jon, acariciando sua nuca. Snow logo sentiu que seu membro estava enrijecendo, e notou que o do rapaz também.
Alguns minutos depois, quando acabaram com o beijo profano, abriram os olhos e não se falaram mais. Cada um virou para um canto e tentou dormir, embora a cabeça de ambos estivesse cheia de coisas para pensar. Quando o sol despertou no horizonte, Jon levantou e acordou Theon.
– Acorde Greyjoy. – O garoto se remexeu um pouco e com um bocejo se levantou ainda trôpego de sono.
– Jon, sobre ontem à noite, eu...
– O que aconteceu ontem deve ficar somente entre nós e também não tornará a se repetir. Está me ouvindo?
– Sim. – Montaram no cavalo e não conversaram pelo resto da viagem. Quando estavam próximos dos arredores do castelo Theon acabou por dizer: – Foi bom.
~
A lembrança lhe ocorrera em questão de segundos e antes mesmo que o rapaz fechasse a porta já tinha tomado sua decisão.
– Fique, Cetim.
Jon notou que o garoto hesitou na porta, indeciso se entrava ou ignorava o comando e saia correndo escada abaixo.
– Senhor? – Dissera ele tímido, ainda atrás da porta.
– Vamos, entre Cetim. Tenho algumas coisas para te falar.
O esguio rapaz entrou pelo quarto tremendo, o rosto tão vermelho quanto um pimentão. Postou-se de frente para Jon e deixou cair no chão os baldes vazios.
– Irá contar para os outros o que aconteceu aqui hoje, Senhor Comandante? – Snow viu que o besteiro estava prestes a chorar novamente. – Por favor, não faça isso!
– Claro que não. Isso só traria problemas para nós dois. – Uma imagem de vários irmãos negros estuprando Cetim cortou seus pensamentos. Se o que aconteceu aqui chegar aos ouvidos de algum outro patrulheiro, em menos de um mês ele terá se tornando o putinho particular de Castelo Negro. Suspirou fundo criando motivação para perguntar o que tinha em mente. – Você ficava com outros homens em Vilavelha?
– Com homens e mulheres, senhor. Não tinha escolha. Se negasse me deitar com alguém era castigado.
Jon ficou calado por algum tempo, não sabia o que dizer, embora sua mente estivesse bombardeada de pensamentos. Percorreu o quarto e se sentou em sua cama.
– Sente-se. – Esperou que o garoto de Vilavelha se acomodasse e perguntou: — E você gostava? Digo, gostava de... ficar com esses homens?
– Não. – Ele respondera de imediato, surpreendendo o bastardo.
– Então porque você...
– São situações diferentes, senhor. –Interrompera Cetim, já respondendo sua pergunta. – Aquilo que fazia era meu trabalho. Eu o beijei a força por que... porque eu gosto de você, não como um cliente mas como um...
– Amante? – Completara Jon por ele. Cetim quase explodira de tão vermelho, mas Jon apenas riu. – Você não me forçou a nada. Eu poderia tê-lo esmurrado quando quisesse. Deixei que fizesse aquilo porque quis.
Jon percebeu que a afirmação que acabara de fazer deixou Cetim chocado e confuso ao mesmo tempo. Não era de se espantar, afinal, a ideia de um Comandante da Patrulha da Noite que não se importava de ter outro homem o beijando era no mínimo... inusitada. O bastardo sentiu o cansaço que o perseguia nos últimos dias atingir-lhe em cheio. Esfregou os olhos com o polegar e o dedo indicador. Levantou-se novamente e serviu-se de vinho, engolindo todo o líquido em um único gole.
– Aceita?
– Não, senhor.
Bebeu mais duas taças de vinho, até que a garrafa se esvaziou e jogou-a no chão. Sentou novamente na cama virando de frente para Cetim.
– Isso não é tão incomum quanto pensa, vários outros irmãos negros já se relacionaram uns com os outros. Afinal de contas isso aqui é um fim de mundo e estamos forçados ao celibato, não é de se espantar que alguns de nós acabemos por recorrer a atitudes extremas.
A recordação de Theon o beijando na floresta veio à tona em sua cabeça. Não estava preso a nenhum voto de celibato naquela época, fiz aquilo porque quisera. Estaria eu tentando enganar a mim mesmo? Tentando evitar a verdade? Suspirou profundamente, olhando para o vinho no fundo da taça. Não, isto é ridículo, eu não sou como ele, sou um homem de verdade.
– Eu não sou o que pensa que sou, Cetim. Não sou como você. – Dissera por fim o que estava pensando, engolindo o resto do vinho escuro que estava em seu copo.
– E o quê eu sou, senhor? – O rapaz tinha uma visível expressão de incredulidade no rosto.
– Um pederasta qualquer.
Cetim abriu a boca para falar alguma coisa, mas tornou a fechá-la e continuou em silêncio. Jon se levantou e ficou de frente para a parede, dando as costas para o rapaz.
– Se me permite senhor, vou me deitar agora. Se precisar de mais alguma coisa estarei em meu quarto. – Pegou seus baldes no chão e saiu rapidamente do quarto sem nem ao menos olhar pra trás.
Jon continuou a fitar a porta por um longo tempo. Colocou os dedos onde Cetim o tinha beijado. Lambeu os lábios e continuou a escrever suas cartas.
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