Notas iniciais
Faz muito tempo desde que li A Dança dos Dragões, tipo, um ano e meio. Então alguns acontecimentos podem ter ficado fora da real linha de tempo que aconteceram. Mas acho que está tudo certinho. Boa leitura!

Por duas semanas inteiras Cetim se manteve reservado. Só conversava com o Senhor Comandante quando era necessário, apenas o procurava para saber se precisava de alguma coisa. Afinal, era seu trabalho. Por mais que estivesse magoado, suas obrigações como Intendente continuavam de pé. Jon vez ou outra puxava assunto com o rapaz, mas só recebia como resposta um ‘sim’, ‘não’ ou um meneio de cabeça.

Jon chegara inclusive a pedir desculpas e tudo que conseguiu foi um sorriso triste. Um pedido de desculpas deveria bastar, mas por que não se dava por satisfeito? O que queria mais? Um beijo roubado ou que Jon lhe confessasse um amor secreto? Não, sabia que era esperar demais e que estava sendo demasiado estúpido. No entanto, não conseguia quebrar o gelo que encobria seu coração, as coisas já não eram como antes.

~

A travessia dos selvagens começara cedo, antes mesmo da alvorada milhares de homens livres já se esgueiravam em filas para passar pelo portão da Muralha. A passagem era estreita demais e não comportava tanta gente, sendo assim, o cruzamento levaria o dia inteiro.

Jon estava montado em seu cavalo observando o povo livre, e a seu lado estava Tormund, o Terror dos Gigantes. Cetim estava ajudando os selvagens a se livrar de seus bens para que passassem para o outro lado da Muralha. Espadas, facas e machados enferrujados, pulseiras desbotadas e brincos quebrados; tudo isso seria coletado.

– Venha aqui um minuto, Cetim. – Gritou Jon exigindo sua presença, aumentando sua voz para que fosse ouvido por cima da barulhada de insultos, pés, gritos e choro de bebês. O rapaz foi até lá ouvir o que ele tinha pra dizer, parando ao seu lado. – O que já conseguiu deles?

– Nada de muito valor, senhor. A maioria é tralha inútil e enferrujada.

– Há! Esperava encontrar o quê, Jon? – Interveio Tormund, ignorando completamente a presença de Cetim. – Ouro? Prata? Metal de boa qualidade? Vivemos na porra de um lugar sem nenhum recurso, isolados de tudo e todos. É com essa tralha que nós vivemos.

– Vamos precisar de tudo o que conseguirmos para vender ou trocar por comida. Logo o inverno chegará e não teremos comida para sustentar tantas bocas. – Refletiu Jon.

– É como diz, senhor. Nossos estoques ainda estão cheios, mas não serão suficientes. A carne de sol já está acabando e os animais que matamos ao longo do verão já estão no fim de se esgotarem. – Anunciou Cetim em tom cordial e distante.

– Em pouco tempo todos os animais estarão hibernando. Ou então mortos. Diria que daqui quatro quinzenas não será visto nem mais um alce ou veado por essas bandas; a caça já era. – Tormund deu um suspiro sério, olhando para a interminável fila de famílias que caminhava lentamente.

Jon nada disse. Parecia estar refletindo sobre alguma possível solução. Alguns murmuravam que o Senhor Comandante estaria pretendendo pedir empréstimo ao Banco de Bravos, o que certamente era uma loucura imensurável. A Patrulha da Noite não tinha dinheiro suficiente para cotar suas divididas e todos muito bem conheciam a reputação que esse banco tinha. Além do mais, nenhum outro Comandante havia negociado com Bravos, os patrulheiros tinham razão de estarem inseguros. Mas eu confio nele. Pelo pouco que conheço de Jon, sei que ele é uma pessoa racional e que arquiteta muito bem suas ações. Se ele realmente decidiu fazer o tal empréstimo é porque ele tem todos os seus próximos passos pensados.

O cruzamento durou todo o dia e já estava escuro quando o último homem atravessou através da Muralha para uma promessa de vida nova na Dádiva. Cetim empertigou suas costas para movimentar seus músculos já dormentes de frio. Tormund e Jon se foram. Além dele próprio restava apenas alguns poucos irmãos negros.

Cetim pegou o elevador para pessoas e subiu lentamente, observando através da grade aquele horizonte de árvores cobertas por neve. Quando finalmente a cabine de ferro parou de subir e pôde saltar para fora, viu Jon escorado nos estribos da Muralha. Foi até lá se juntar a ele, não sabia bem o por que, talvez apenas quisesse ficar um pouco mais com seu Comandante.

– Acha que ficarão bem, Cetim?

– Ficarão melhores do que se estivessem do lado errado da Muralha. – Bem ao longe se via várias fogueiras e aglutinados de cabanas erguidas às pressas. – Você fez o certo, senhor.

– Uma pena que apenas você consegue ver isso. – Jon virou seu rosto para fitar Cetim, deu um sorriso triste para ele e voltou a encarar o horizonte. – Andei pensando na conversa que tivemos.

– Mesmo? – O garoto de Vilavelha ficou atento com a menção da tal conversa.

– Sim. – Por muito tempo ele não respondeu, Cetim chegou a pensar que era isso tudo o que tinha para dizer. Quebrou o silêncio jorrando suas palavras pra fora com relutância, como uma mãe que não consegue se livrar de seu bebê natimorto. – Eu fui um tremendo idiota contigo naquela noite. Apenas estava sendo covarde tentando evitar o inevitável. O problema nunca foi o beijo e nem você. O problema era comigo. Por muitos anos tentei reprimir esse sentimento, esperando que um dia finalmente deixasse de existir.

Ele está se assumindo pra mim, pensou Cetim, surpreso com a situação em que estava. Não sabia o que falar, então preferiu continuar calado e escutar o que seu Comandante tinha a dizer. Ele precisava desse momento para desabafar com alguém. Olhou em volta para ter certeza de que ninguém os ouvia; estavam sozinhos.

– Desde criança eu sabia que era diferente, afinal, era um bastardo. Porém quando cheguei à pré-adolescência, muito antes de me tornar um homem-feito, eu senti que era diferente de outro jeito. Eu me atraia por garotas e garotos. Por toda minha vida tentei ignorar essa parcela que gostava de meninos, mas nunca funcionou, sempre estava ali como um fantasma a espreita. – Calou-se por uns segundos, pensativo. – Cheguei inclusive a beijar um garoto.

‘’Vi meus amigos irem a bordéis junto de seus pais para perderem a virgindade e riam de mim quando me negava a ir junto. Usava a desculpa de que não queria engravidar nenhuma prostituta, para que a criança nunca tivesse o mesmo destino de bastardo que eu. Na verdade eu só tinha medo de não conseguir ter nada com elas. Quando meu pai me mostrou a oferta de vir para a Patrulha da Noite eu percebi que era o caminho certo para mim. Votos de nunca se envolver com alguma mulher e também nunca tomar terras, era um bastardo e jamais teria Winterfell.

‘’Porém tudo o que sabia sobre mim mesmo desabou quando conheci Ygritti, a selvagem. Seus cabelos ruivos, seu sorriso cheio de dentes entortados, sua força e coragem... tudo isso me conquistou de um jeito que nenhum outro homem havia feito comigo antes. Sentia-me a pessoa mais feliz do mundo, afinal a tal parte de mim que gostava de garotos tinha ido embora. Estava apaixonado. Finalmente fiz amor com uma mulher. Mas ela acabou morrendo e com ela se foi meu primeiro amor de verdade, minha centelha de esperança para conquistar minha dignidade como homem. ’’

Cetim ouvia tudo atentamente, olhando Jon com intensidade. Não o interrompeu nem fez nenhum comentário.

– Então eu conheci você. – O garoto estacou quando fora mencionado, virando o rosto para fitar o Senhor Comandante. – Seu rosto tão bonito e delicado, seus cachos negros, sua boca como um botão de rosa, seu otimismo contagiante mesmo estando preso à Patrulha da Noite para sempre, isso tudo foi suficiente para entender que aquela parte horrível de mim nunca foi embora, apenas estava adormecida. O que sentia por Ygritti agora sinto também por você. Então me diga Cetim, o que eu sou?’’

– Um homem. – Cetim se esforçou para ignorar a parte que Jon confessava gostar dele. – Um homem tal como qualquer outro que repousa em Castelo Negro agora. Você luta como qualquer outro homem, ama, se enfurece, se entristece, se preocupa, briga e discute sobre batalhas como qualquer outro homem. Tem barba, tem pelos no peito, tem um pau e tem uma espada como qualquer homem. A única diferença é que você pode ser mais feliz do que eles já que pode se apaixonar por um homem e por uma mulher. Pode foder os dois, amar os dois, abraçar e beijar os dois. Você vê algum problema nisso, senhor?

Jon Snow ponderou o que o rapaz tinha dito, absorvendo suas palavras no silêncio negro da noite. Por fim acabou respondendo agarrando Cetim bem firme com os dois braços, o encarou por alguns instantes antes de beijá-lo com toda a sua alma. Em algum lugar um lobo uivou profundamente. Suas línguas estavam entrelaças e quentes, o Comandante usava-a para explorar todos os cantos da boca do ex-prostituto. Por tantos anos beijei outros homens por dinheiro, mas agora finalmente posso beijar por amor. Cetim espremeu seu corpo contra o de seu senhor, ficando na ponta dos pés para poder alcançar seus lábios. Envolveu os braços em torno da cintura dele e pode sentir que Jon deslizava os dedos por suas nádegas.

– Não, Cetim, problema nenhum. – Jon sorriu e o rapaz sentiu que esse era o sorriso mais verdadeiro que já tinha visto.

– Senhor Comandante, os homens querem explicações sobre... MAS QUE PORRA É ESSA? – Berrou indignada uma voz estranha, ambos se viraram incrédulos para saber quem era.

Notas finais
E aí, moçoilos e moçoilas, o que acharam? Hã? Esse capítulo escrevi com muito carinho, então espero que tenham gostado. Comeeentem aí.