"There's a circle of witches, ambitiously vicious they are
Our attempts to remind them of reason won't get us that far
I don't know what it is that they want"

If You Were There, Beware — Arctic Monkeys

–É UMA MENINA!

O grito de comemoração foi geral.

–Eu sabia! –Ju disse abraçando Fatinha e o irmão ao mesmo tempo.

No meio de tanto barulho, uma voz muito conhecida para Fatinha se sobressaiu:

–Eu disse que era uma menina, Vilma! Perdeu a aposta!

Quem falava era Adolfo, o pai de Fatinha. Ele estava mais do que feliz com a notícia de que teria uma neta.

–Pai? Mãe? –A loira foi correndo até eles para abraça-los. –O que vocês estão fazendo aqui?

–Nós não perderíamos por nada essa surpresa minha filha. –Adolfo disse. –Maria de Fátima, eu tinha certeza de que era uma menina. A sua mãe insistia que era um menino por causa da lua e outras coisas sem sentido, mas no fim eu estava certo.

Fatinha estava surpresa com a aceitação do pai. Até onde ela sabia Adolfo ainda a considerava uma perdida, indigna de ser filha dele.

–Como vocês ficaram sabendo da festa? –A garota perguntou.

–A Juliana ligou para nos convidar. –Vilma explicou mal contendo o sorriso.

Bruno que estava cumprimentando o pessoal, chegou aos pais de Fatinha.

–Dona Vilma! Seu Adolfo! Bom ver vocês aqui.

–Eu já disse Bruno, nada de dona. Só Vilma! –A mulher respondeu.

–Então finalmente estou sendo apresentado para o outro responsável dessa gestação. –Adolfo disse com a aparência séria.

–Hn... É, eu sou o Bruno. –O moreno estendeu a mão para se apresentar, constrangido.

Adolfo pegou a mão de Bruno em um aperto forte e o puxou para um abraço. O homem agora estava rindo, e Bruno percebeu que ele só estava brincando.

–É um prazer te conhecer Bruno, minha esposa tem falado muito bem de você.

Fatinha aproveitou o entrosamento entre o pai e o rapaz, e puxou a mãe para a cozinha.

–Mãe, que milagre a senhora fez? –A loira perguntou confusa.

–Eu não fiz milagre nenhum, minha querida. Isso tudo é obra do tempo.

–Me explique tudo em detalhes, por favor.

–Então, nos primeiro mês que eu ligava para você, o seu pai continuava irredutível. Não queria ouvir o seu nome ou qualquer coisa a seu respeito. Depois de algumas semanas ele parou de deixar a sala quando eu fazia as ligações, não fazia nenhum comentário, mas estava sempre escutando. E foi então que tudo aconteceu.

–Tudo o que? –Fatinha perguntou curiosa.

–A Juliana ligou e conversou com o seu pai, pois eu não estava em casa. Foi só eu voltar da missa para que ele me falasse: “Vilma, vamos para o Rio de Janeiro hoje”. Seu pai, orgulhoso como é, contou o que a sua amiga disse secamente, mas foi só eu falar que tinha certeza de que era um menino para ele inflamar todo. Foi só então que eu percebi, que mesmo ele tentando esconder ele sempre esteve muito preocupado com você. E com uma convicção de quem já havia pensado muito no assunto ele me disse: “É uma menina”. E não é que o velho estava certo?! –Vilma contou entre risadas e lágrimas.

–É tão bom saber que ele finalmente me perdoou. –Fatinha disse limpando as lágrimas.

–Minha filha, você nunca precisou no meu perdão. –Adolfo disse.

Foi só então que as duas perceberam que ele tinha escutado quase toda a conversa. Fatinha foi até o pai e o abraçou.

–Pai eu sinto tanto por ter te decepcionado. Nunca quis te magoar ou te envergonhar. Eu senti tanto a sua falta.

Adolfo retribui o abraço.

–Eu fui orgulhoso e me arrependerei pelo resto da vida por ter virado às costas para você pela segunda vez. Se alguém precisa de perdão aqui, esse alguém sou eu. –Ele disse. –Eu te amo, minha filha.

–O seu amor ainda é maior que todos os universos? –Ela perguntou, se lembrando do que ele a tinha dito na infância.

–A cada dia que passa, eu penso que nem todos os universos podem expressar o meu amor. –Adolfo respondeu sorrindo.

–Achei a mamãe! –Ju anunciou, entrando na cozinha. –Ah, desculpa. Estou atrapalhando né?!

–Nunca minha querida. –Vilma disse abraçando a garota. –Tudo o que está acontecendo aqui é graças a você.

–Graças a mim? –Ju estava confusa.

–É Ju, obrigada por tudo! Você é a melhor amiga que eu poderia ter. –Fatinha agradeceu à amiga.

–Cadê a Fatinha? –Olavo perguntou chegando à cozinha, e foi então que a viu. –Eu disse que era uma menina!

–E depois dizem que as mulheres tem um sexto sentido. –Adolfo disse em concordância com o outro.

–Então vamos comemorar! –Ju disse puxando Fatinha para a sala. –Tem várias pessoas querendo te ver.

A loira cumprimentou todos que estavam na sala. A galera do colégio, os professores, Nélio e Rasta, Nando e Tizinha, Paulina e Romulo, Lorenzo e Tatá, e até a dona Rosa e o Severino estavam presentes.

Depois de algum tempo conversando com o pessoal, Fatinha foi novamente puxada por Juliana até uma rodinha onde estavam: Marta e Olavo, Vilma e Adolfo, e agora ela, a Ju e o Bruno.

–Pronto, trouxe o casal mais concorrido. –Ju disse.

–Casal? Vocês estão juntos? –Vilma perguntou curiosa.

–Nós somos só amigos. –Fatinha esclareceu.

–Mas formariam um belo casal se estivessem juntos, não é?! –A it-girl atiçou e todos concordaram.

–Mãe, o Francisco não veio por quê? –A loira perguntou mudando de assunto.

Vilma ficou calada, sem saber o que responder, e Adolfo acabou intervindo:

–Seu irmão está viajando. Foi passar o ano com o seu tio Camilo, lá nos Estados Unidos.

–Sério? Vocês realmente deixaram ele viajar só com o tio Camilo? –Ela perguntou espantada.

–E por que não deixaríamos? Só porque ele é a ovelha negra da família? –Adolfo brincou. –Muita coisa aconteceu nesses últimos dois anos, minha filha.

–Desculpe a intromissão, mas eu tenho uma pergunta. –Marta disse. –Já escolheram o nome da minha neta? Por favor, que não seja Geórgia.

–Para de implicância Marta. Geórgia é um nome muito bonito! –Olavo disse.

–Pode até ser, mas não vai combinar com a minha neta. “Geórgia dos Prazeres Menezes” não fica bem.

–Mãe, pai, menos. –Bruno pediu. –Nós não escolhemos o nome ainda.

–Essas últimas semanas tem sido uma loucura, mas assim que o nome for decidido vocês serão informados. –Fatinha disse.

–Ótimo! –Adolfo disse. –Eu fiquei sabendo que a minha neta está mexendo. Posso sentir?

–Claro pai, só não sei se ela vai cooperar com você. Sua neta é preguiçosa.

Por fim o bebê chutou, e de repente Fatinha estava rodeada com várias mãos na barriga. E assim a festa foi correndo, com uma boa música sendo tocada por Nando e Gil. Eles estavam rodeados de amigos, não tem como não ser feliz.

Aos poucos o pessoal foi indo embora, e antes das dez Fatinha e Bruno já estavam em casa disputando o uso o chuveiro.

Foi realmente um dia muito feliz.

(...)

–Fatinha, hoje eu preciso que você fique até às oito da noite. –Michel disse quando ela chegou no Hostel.

–É claro Michel. Obrigada por ter me liberado ontem mais cedo. –Ela agradeceu.

–Por nada. Fiquei sabendo que é uma menina, é verdade?

–É sim. Quem foi o passarinho que te contou?

–Foi um passarinho muito fofoqueiro chamado Severino, conhece?

–Quem não conhece esse passarinho né?!

Michel saiu e Fatinha aproveitou para avisar Bruno da mudança de horário.

Tenho plantão no Hostel até as oito hoje. –Ela escreveu na mensagem.

Em pouco tempo ela obteve a resposta.

Que pena, hoje vai ter aquela reunião do C.R.A.U. lá em casa.

Droga, infelizmente hoje eu não vou ver o famoso C.R.A.U. em ação.

–Pois é, mas outras oportunidades virão.

–Hallo Little Fátima, como chegar no Copacabana? –Um dos hóspedes alemão perguntou, tirando a atenção dela das mensagens.

–Hallo Walter! –Fatinha cumprimentou o rapaz e logo explicou como chegar a Copacabana.

Assim a tarde foi passando, e às cinco e meia da tarde Rasta, Nélio e Rita já estavam no apartamento de Bruno e Fatinha.

–Então galera, alguma ideia de ação para o C.R.A.U.? –Bruno perguntou.

–Eu encontrei a Dona Filó ontem, da Balaiada sabem? –Nélio contou. –Ela estava falando da construção do ambulatório, e alguns problemas que eles estão tendo, então pensei que o C.R.A.U. poderia ajudar.

–Que tipo de problemas eles estão tendo? –Rita perguntou.

–Por incrível que pareça, falta de mão de obra. O ambulatório precisa ficar pronto o mais rápido possível, porém a maior parte dos pintores já estão com trabalho em andamento.

–A minha experiência com pintura não é nem um pouco profissional, mas eu adoraria ajudar. –Rasta disse.

–Eu posso chamar o Gil também. Ele sim, entende de pinturas. –Bruno sugeriu.

O assunto foi cortado pela campainha que tocava.

–Vocês chamaram mais alguém? –O moreno perguntou.

Todos negaram. Bruno foi até o olho mágico e se surpreendeu com quem viu.

–É a Ana! –Ele sussurrou para os outros.

–Ana, a ex? –Nélio perguntou e Bruno acenou confirmando.

–Abre a porta Bruno. –Rita disse e o moreno obedeceu.

–Oi Bruno! –Ana cumprimentou já entrando no apartamento. –Oi pessoal!

–E aí Ana?! –Eles a cumprimentaram.

–Estava passando por aqui e resolvi ver a quantas anda o C.R.A.U., pelo visto cheguei em uma reunião. –Ela explicou sentando ao lado de Rita no sofá. –Ah, o Severino disse que você tinha mudado. Morando sozinho Bruno, que avanço! Fico feliz por você.

–Pois é, aos poucos estou conquistando a minha independência. –Bruno disse.

–Que bom. Então, o que o C.R.A.U. está planejando dessa vez? –Ana perguntou.

–Estamos pensando em ajudar em uma comunidade. –Rasta começou a explicar.

A conversa foi rendendo. Sugestões eram dadas, decisões eram tomadas e cada um estava ficando responsável pela sua parte. Se dependesse deles, o ambulatório ficaria pronto em um final de semana.

Às oito horas como previsto Fatinha foi liberada. No elevador ela encontrou Marta que a arrastou para a casa dela.

–Fatinha, desde o fim da festa de ontem eu fiquei pensando em possíveis nomes para a minha neta e tenho várias sugestões. Comprei até um livro com os significados dos nomes, vou pegar para você ver. –A mulher disse entrando em casa.

–Fatinha, que bom ver você por aqui. –Olavo disse assim que a viu.

–Oi Olavo. –Ela o cumprimentou.

–Pronto! –Marta disse voltando com cinco livros em mãos.

–Todos esses são sobre nomes? –Fatinha perguntou assustada.

–Não querida, os outros são sobre a gestação. Comprei todos para você. –Ela disse colocando a pilha na mesinha. –Agora vamos ao que interessa. Deixe-me ver... Clarice: significa claridade.

–Bonito.

–Ou então Eduarda a próspera guardiã.

–Acho que não.

–Estão escolhendo o nome da minha neta? –Olavo perguntou. –Helena! Procura o significado aí.

–Helena: tocha, luz. –Marta disse. –Prefiro Clarice. Ah! Que tal Catarina? Significa: pura, casta.

–São todos nomes lindos, mas não posso escolher sem a opinião do Bruno. –Fatinha disse.

–É claro querida. Faz o seguinte, leva os livros para casa e dá uma olhada. –Marta sugeriu.

–É exatamente isso o que eu vou fazer. –A loira disse pegando os livros. –Tchau Olavo!

–Tchau Fatinha!

Marta a acompanhou até a porta e se despediu com dois beijinhos. Novamente no elevador, Fatinha agora pode ir direto para casa.

Foi com dificuldade que ela abriu a porta, graças aos livros de Marta, mas com algumas manobras conseguiu.

–Oi pessoal! –Ela cumprimentou a galera que estava na sala deixando os livros em cima da mesa de jantar. –Sem querer atrapalhar, mas vocês já pediram algo para comer? Estou morrendo de vontade de comer um temaki de salmão com cream cheese. Só de pensar já me dá água na boca.

–Que delicia! –Nélio comentou. –Ainda não pedimos nada, mas agora eu também quero um temaki.

–Ótimo! Mais alguém vai querer uma japonesa? –A loira perguntou.

Antes que alguém pudesse responder uma garota que Fatinha nunca tinha visto se levantou do sofá furiosa.

–O que essa piriguete desclassificada esta fazendo aqui?

Notas finais
Comentários?