O Sol estava quase se pondo sobre Box Hill quando Maximilian terminou de escrever a lista com os planos futuros do grupo. Ele depositou a caneta sobre a mesa de centro e estendeu a folha preenchida de ambos os lados para que Jane pudesse analisá-la.

A vampira estava sentada em sua nova poltrona favorita e avaliou as opções com bastante interesse. Uma semana e meia já havia se passado desde que partiram de Volterra, e ela já os considerava devidamente instalados na casa do camaleão, o local que agora chamariam de lar. Eles já estavam prontos para traçar novas metas para a liberdade que acabavam de conquistar.

— Eu gosto da ideia de visitar todos os grandes monumentos do planeta. Não posso dizer que os apreciei adequadamente durante minhas missões – comenta Jane. – Mas não entendo a necessidade de passarmos cada Ano Novo que vier em uma capital diferente do mundo...

— Está brincando? É um crime vocês terem assistido apenas às comemorações de fim de ano de Volterra. Há tanto para se ver no mundo, nós podemos participar das festividades que quisermos em qualquer parte do planeta – explica ele empolgado, fazendo os gêmeos perceberem o quanto ele estava interessado em aproveitar essa nova fase de suas existências.

Alec caminhou para perto da irmã, analisando a lista por cima de seu ombro e percebendo que havia mais sugestões ali do que eles haviam mencionado em voz alta, todas inseridas secretamente por Maximilian.

— Gostei da ideia de matar um presidente só para ver o que aconteceria. Será que entraremos nos livros de história?

— Seremos odiados como assassinos desconhecidos e cruéis, ou aclamados como libertadores de uma pátria? – Pergunta o camaleão, concluindo a linha de raciocínio de Alec. – Interferir na história política dos humanos é uma proposta tentadora...

— E quando partiremos? – Questiona Alec, tentando parecer casual, mas repetindo a mesma pergunta que fizera horas antes. Maximilian encarou Jane com expectativa, ansioso pela resposta e por começarem a se divertir juntos.

— Amanhã. Vamos caçar esta noite e nos prepararmos para a viagem.

— Para onde vamos primeiro? – Novamente Alec.

— Estive pensando em cada um escolher um destino para começarmos – comenta Jane, tamborilando os dedos no braço da poltrona. – O que gostariam de visitar primeiro?

— A Torre Eiffel – começa Maximilian.

— O Penhasco de Dover – emenda Alec.

— Excelente. Começaremos com uma parada em Londres para vermos o Big Ben, depois seguiremos para Dover, que é caminho para a França. Por último iremos à Torre Eiffel.

— Você quer conhecer o Sino Big Ben? – Pergunta o camaleão.

— Não descreveria como querer, estou apenas tentando fazer as pazes com esta terra, já que escolhemos fazer dela o nosso lar novamente...

O camaleão sorri empolgado, falando uma ou outra coisa que Alec não fez questão de ouvir, pois tratou de se retirar silenciosamente do cômodo em direção ao seu novo quarto.

A princípio, quando chegaram a Box Hill, ele ficou empolgado em agir e viver de forma diferente. Depois de explorar toda a residência de Maximilian e de remexer em tudo sem autorização, o vampiro apossou-se do maior quarto da casa e mudou todas as coisas de lugar, desfazendo-se de itens velhos e adquirindo novos com o auxílio do cartão de crédito internacional do clã Volturi.

Mesmo tendo poucas coisas suas em seu novo quarto, Alec nunca imaginou que ter um "quarto normal" fosse tão interessante. Havia cores nas cortinas e na parede, delicadeza nas curvas dos móveis antigos e na forma como a luz atravessava a janela e batia sobre a cama. Tudo, absolutamente tudo, parecia mais vivo fora de Volterra, e tal pensamento instintivamente o fez se lembrar dela.

Alec caminhou até a mesa de cabeceira, onde mantinha uma caneta e uma solitária folha de papel cartão preto. Com movimentos rápidos, ele dobrou a folha ao meio e escreveu uma única palavra em seu interior: "Londres", junto ao desenho de um sino. A caneta azul mal se distinguia da cor do papel; no entanto, para a visão acurada de um imortal, ler aquela mensagem não seria nenhum desafio. Do lado de fora, ele ameaçou escrever o nome do destinatário, mas recuou, preferindo deixar um detalhe tão importante para o último minuto.

Caneta e papel retornaram para seus esconderijos e, com suas longas passadas de pernas, o vampiro levou apenas alguns segundos para retornar à sala, aproximando-se silenciosamente das costas de Jane, como se nunca tivesse deixado aquela posição.

— Nós teremos nosso próprio clã agora? – Pergunta Maximilian, surpreendendo Jane e chamando a atenção de Alec instantaneamente. – Seria legal termos um nome, para nos apresentarmos adequadamente quando cruzarmos com outros clãs...

— De onde tirou essa ideia? – Acrescenta o gêmeo, tentando pegar a linha de raciocínio da conversa.

— Bem, eu posso ser um desconhecido para a maioria dos clãs vampiros, mas vocês... – Faz uma pausa dramática. – Vocês são Alec e Jane! Acho que seria um insulto às suas reputações se apresentarem como meros nômades.

Os gêmeos ponderam o questionamento em silêncio, percebendo que eles realmente não eram como simples nômades. O trio havia deixado Volterra e o clã Volturi, porém agora tinham uma nova morada, um novo local para retornar depois de cada viagem. A Inglaterra era a terra natal de todos os três e tornou-se seus domínios. Além disso, eles sabiam que podiam contar uns com os outros para tudo, porque os laços que os juntaram não eram de interesse, controle ou poder, mas de irmandade e amor.

— Acho que a resposta é bastante clara, apesar de não a termos admitido até agora – começa Alec.

— Sim. Nós já somos um novo clã! – Conclui Jane, fazendo Maximilian esboçar um sorriso torto. Ele estava adorando o novo cenário de sua segunda vida e em pensamento começava a formular o brasão perfeito para os representar.

— Acho que precisamos de um nome!

— Decidiremos isso mais tarde. O nome de um clã deve exalar sua essência e será algo que carregaremos conosco para sempre, não é bom que seja decidido às pressas – decreta Alec de repente.

Maximilian o encara por alguns segundos, deitando a cabeça levemente para o lado como se admirasse um quadro bizarro. Seus olhos vermelhos encaram os de Jane de forma interrogativa, mas a vampira nada disse, apenas retirou a adaga de seu cinto e a passou por cima do ombro, em direção ao seu gêmeo.

— E-eu vou caçar primeiro – diz o vampiro sem jeito, percebendo tarde demais que havia feito algo fora de seu normal.

Alec se retira da casa rapidamente, sacudindo a cabeça e se perguntando por que Jane não o tinha punido por aquele lapso de opinião, quando já tinha punido os membros da Guarda Volturi por muito menos.

— Foi apenas uma miragem ou ele tomou aquela decisão e encerrou a conversa no seu lugar? – Pergunta Maximilian após a saída do vampiro, evidentemente surpreso.

— É curioso, não é? – Questiona Jane, realmente achando aquela situação divertida. – Alec tem opiniões próprias, mas raramente teve espaço para expressá-las. Eu sempre fui o seu freio: "não diga isso, não fale aquilo, não tome essa decisão". Mesmo tendo seu próprio ponto de vista sobre as coisas, ele sempre as soterrou para acatar a minha forma de pensar...

— E o que mudou agora?

Jane fecha os olhos por um momento, pensando. Seu irmão sempre teve dificuldade em reprimir sua humanidade, necessitando desesperadamente de seu punho forte para ajudá-lo a ser o que os Volturis queriam. No entanto, eles não pertenciam mais ao clã italiano e não faziam mais uso daquele sobrenome, então qual seria o comportamento certo a seguir?

Alec não tinha mais que "andar na linha", porque não havia mais nenhuma linha a ser seguida. Eles estavam livres e poderiam ser quem quisessem ser, poderiam sentir o que quisessem sentir, contanto que não abaixassem suas guardas e jamais mostrassem suas verdadeiras naturezas aos humanos.

A vampira abriu os olhos e encarou Maximilian novamente. Ela havia mudado por causa dele, entretanto nunca seria tão boa para transmitir emoções como Alec era, porque, se ela era a metade controlada e forte daquela irmandade, seu gêmeo era a sentimental e expressiva. No fim das contas, tudo neles parecia ter nascido para se completar, e Jane não podia mais proibir ou impedir a sua metade mais nobre de ser aquilo que foi criado para ser.

— Eu decidi deixar Alec ter suas próprias opiniões – responde de forma simplista, não querendo revelar o quanto já tinha pensado sobre aquele assunto.

— Então tudo bem para você, ele dar a última palavra?

— Estranhamente, sim – concorda, percebendo que realmente não ficou incomodada com a situação. – Isso também é curioso, não é?

— Acho que suas memórias te trouxeram mais do que recordações sobre mim... – sugere o camaleão. – Você pode ter resgatado também o seu antigo relacionamento com Alec.

— Possivelmente – concorda ela, tamborilando novamente os dedos sobre a poltrona e pensando no assunto.

Como era o relacionamento deles no passado, afinal? Alec era o irmão mais velho, então como eles chegaram ao ponto em que estavam na imortalidade, com ela na liderança e ele atuando como seu braço direito?

A única coisa que Jane tinha certeza era que, dali em diante, não haveria mais freios ou barreiras; seu irmão seria livre para ser ele mesmo e demonstrar quem realmente era.

Notas finais
Olá pessoal. Primeiramente, peço desculpas pelo sumiço de anos. Sei que muita gente espera um sinal de que eu estou viva, já que a última mensagem que publiquei aqui foi há dois anos, mas aqui estou para lhes dar um posicionamento... Ser adulto é muito difícil. Atualmente estou numa rotina maluca de trabalho e estudo, e isso é tão cansativo que já não consigo sentar e escrever como antes. Me sinto esgotada e completamente bloqueada. Isso me deixa muito triste, pra falar a verdade. Escrever, criar histórias, passar emoções, gerar entretenimento, eu adoro tudo isso, é algo que me realiza. Não conseguir produzir me deixa de coração partido... Decidi iniciar a publicação de Coração Gelado 2 mesmo sem a história estar concluída. Esse vai ser um ato de fé, na verdade. Minha esperança é de que as energias de vocês me ajudem a sair desse bloqueio infindável. Espero que gostem do que já preparei. ❤️