Coração Gelado 2

2 Da Torre eu Vejo...


Londres parecia tranquila e plácida quando vista do alto da torre do Big Ben. A escuridão da madrugada havia ocultado quase todas as formas dos edifícios da cidade, e, daquela altura, um humano comum não enxergaria mais do que os pontos luminosos que as ruas poderiam mostrar. No entanto, como Alec era um imortal e possuía uma visão muito mais aguçada, seus olhos cor de sangue passeavam ansiosamente por todos os cantos escuros das ruas e dos telhados, procurando algum sinal em meio à penumbra que denunciasse a aproximação de alguém.

Os 334 degraus que tivera de subir para chegar ao alto da torre não eram nada, se comparados ao esperar.

Enquanto Maximilian analisava o sino de mais de 10 toneladas, cogitando se conseguiria mover o martelo gigante usando apenas a força de seus braços, e Jane lhe dizia que aquela era uma ideia idiota, Alec rodeava as bordas da torre pela décima vez, olhando através das janelas teladas… esperando…

— Alec – chama Jane, observando-o atentamente e fazendo Maximilian encerrar suas tentativas de tocar o sino –, o que está fazendo?

— Nada – responde rápido demais, como uma criança que é pega com o biscoito na mão sem querer admitir que ele foi retirado clandestinamente de dentro do pote. – Eu só… estava olhando a vista.

Jane se cala, mas permanece a analisá-lo. Qualquer idiota poderia notar que ele estava admirando demais aquela vista, rodando o Big Ben, vez após outra, como se estivesse à procura de algo, como se esperasse que a paisagem noturna de Londres fosse mudar a qualquer momento. Maximilian se aproxima de suas costas cautelosamente, confidenciando-lhe suas suspeitas o mais baixo que conseguiu:

— Ele parece procurar ou esperar por alguma coisa. Lembra-se da carta?

Jane troca o apoio da perna, relembrando que, nas primeiras noites em Box Hill, ela flagrou Alec preparando uma carta. Ele estava bastante concentrado durante aquela madrugada, como se elaborasse algum tipo de plano, entretanto não contou a ninguém do que se tratava. O cartão foi colocado dentro de um envelope branco, escondido, e, depois disso, não foi mais visto.

— Sim, eu me lembro! – responde depois de algum tempo, ignorando a ironia da pergunta de Maximilian, visto que vampiros dificilmente se esqueciam de algo. Ela odiava não saber das coisas, mas permanecia fiel a sua decisão de deixar o irmão fazer o que quisesse, mesmo que isso significasse ficar no escuro de vez em quando.

Vendo-o ali, naquele instante, a vampira percebeu que ainda existiam assuntos pendentes entre eles. Quando estavam em Volterra, ela lhe contou tudo sobre suas lembranças e a promessa que fez a Maximilian, no entanto, tudo o que Alec disse era que também pensava em ir embora. Nenhuma outra palavra ou revelação foi feita desde então, e Jane sentia que a resposta para o comportamento de seu gêmeo estava bem ali, naquele vazio, naquele pedaço de conversa que não aconteceu porque ela ainda não estava pronta para falar sobre sentimentos e amor…

O trio saiu de Box Hill depois de uma semana e meia de hospedagem. O destino principal era Londres, todavia, por causa de Alec, a viagem que deveria ter durado uma hora levou quase dois dias inteiros para ser concluída. Passando pela North Downs, Surrey Hills AONB, National Trust Winkworth Arboretum, Claremont Landscape Garden, e Virginia Water Lake, o percurso realizado englobou muito verde, árvores, idas e vindas sem sentido, e tempo jogado fora.

E ali, no alto da torre, a teoria de Maximilian fez total sentido: Alec estava “ganhando tempo” e não teria sentido “ganhar tempo” para nada. Ele esperava por alguma coisa, por algum acontecimento importante.

— Quer que eu fale com ele? – pergunta Maximilian, retirando-a de seus devaneios.

— Não, deixe que eu faço isso – conclui, sentindo, no segundo seguinte, os dedos masculinos se entrelaçarem aos seus e a puxarem levemente em direção a ele.

Maximilian podia ver a desconfiança ganhando espaço dentro dela. Ele observa o local rapidamente, percebendo que Alec fora novamente ocultado pelo Big Ben, dando-lhe a privacidade que tanto desejava para aquele momento. Com o canto dos olhos Jane observa o mesmo, é claro, e não se surpreende quando a mão livre de seu companheiro envolve sua cintura e os seus lábios tocam os dela novamente.

Ela jamais se cansaria daquilo, de beijá-lo, de tê-lo sempre por perto, de amá-lo.

Repentinamente, Alec surge do outro lado do enorme sino, parando abruptamente ao avistar a cena amorosa entre seu melhor amigo e sua irmã. Aquelas demonstrações de amor estavam se tornando parte da nova rotina de Jane, e o vampiro poderia se acostumar com aquilo se não fosse o fato dele próprio sentir algo estranho dentro do peito.

Na primeira vez em que os viu aos beijos, ele não conseguiu deixar de pensar no dia em que beijou Renata. Alec temia se esquecer da maciez de sua boca e das sensações incríveis que o contato de seus lábios o proporcionou; seu poder já o fizera perder tanto de seu passado que o vampiro temia ser igualmente prejudicado com relação àquilo.

Em acréscimo a isso, também se lembrou de sua própria palavra, da promessa implícita que fizera quando conversaram pela primeira vez sobre o amor, de que ele a protegeria se ela decidisse fugir depois dele…

Renata queria fugir e Alec tinha certeza de que ela viria em breve. Entretanto, como conseguiria encontrá-lo se o grupo começasse a viajar sem parar? Sem se fixar em nenhum lugar? Eles sempre teriam para onde voltar, afinal, Maximilian tinha uma casa própria, mas quando retornariam? Foi neste momento que, pela primeira vez em sua segunda vida, ele decidiu fazer as coisas lentamente, estabelecendo um tipo maluco de plano para que a escudeira conseguisse seguir os seus passos a fim de encontrá-lo.

Alec sacode a cabeça levemente, abandonando as lembranças de seu plano e recuando, passo após passo, até se esconder novamente atrás do objeto de metal gigante, preservando a privacidade do casal e possibilitando a si mesmo um momento de reflexão. Ele procura a mochila que havia comprado com o olhar, localizando-a num canto ali perto, contendo o material essencial para um possível plano B.

Seus olhos vagam novamente pela escuridão da cidade, frustrando-se mais uma vez por não detectar nenhum movimento que indicasse a aproximação de alguém, a aproximação dela.

— É estranho passear pela Inglaterra moderna, não é? – Sussurra Jane, se aproximando do seu lado direito. Ela estava sozinha e, mesmo que Maximilian pudesse ouvi-los do outro lado do sino, Alec apreciou a consideração dele em deixar que conversassem a sós.

— Hmm, difícil dizer, não me lembro de muitos detalhes da Inglaterra que deixamos para trás; mas os humanos em geral são estranhos, então acredito que você esteja certa, a Inglaterra moderna é bem esquisita.

— Mesmo que tenhamos passado por aqui algumas vezes, em missão, nunca quis olhar para essa terra novamente. Essa cidade, essa gente, é bem diferente das que me lembro…

— Então seremos ingleses daqui pra frente?

— Sempre fomos, não é mesmo? Nós apenas nos afastamos de nossas raízes.

— Um clã inglês. Isso soa bem pra mim – confessa Alec, esboçando um leve sorriso.

Um curto silêncio se instalou entre os gêmeos, enquanto eles observavam a cidade adormecida. No entanto, enquanto Jane permitia que sua mente se conectasse com aquela nação novamente, os olhos de Alec vagueavam pela escuridão mais uma vez, primeiro para a direita, depois para a esquerda, discretamente.

— O que você está procurando? – Recomeça Jane, suspirando levemente e preferindo ir direto ao cerne de sua dúvida.

— Por que acha que estou procurando algo?

— Porque você não para de analisar a escuridão e está barrando a nossa viagem de propósito… – Alec a examina pelo canto dos olhos. Não havia surpresa em seu rosto, afinal, ele já esperava que Jane descobrisse sua estratégia, só não sabia como explicar o que estava fazendo. – Converse comigo, Alec.

— Eu não sei como contar.

— Apenas conte.

— É algo que a deixará furiosa – admite, fazendo-a entender o motivo de seu sigilo. Se a vampira soubesse de seu plano com antecedência, certamente o deteria.

— Apenas conte! – Repete com mais veemência, preparando-se interiormente para a informação que, como ele mesmo dizia, a deixaria com raiva.

— Enquanto estávamos em Box Hill, eu escrevi e enviei uma carta.

— A quem foi endereçada?

— À Itália… Volterra… O clã – sussurra pausadamente, vendo-a estreitar os olhos num sutil movimento de desconfiança. Jane se ajeita ao seu lado, travando o maxilar e olhando para a escuridão além da tela de proteção, aguardando que ele continuasse. – Enquanto você estava em missão, eu não fui o único a pensar em partir... Havia mais alguém, mas descobrimos as ambições um do outro por acidente – explica calmamente, resumindo a história e revelando apenas o que achou essencial para o entendimento da irmã.

Alec omitiu propositalmente a parte em que fora ao quarto de Renata para perguntar-lhe sobre o amor, não querendo nem imaginar como Jane reagiria a toda aquela história se a ouvisse em detalhes. Todavia, contou tudo sobre o seu voto de proteção e a pista que enviara em sua carta, para que “esse alguém” o encontrasse.

Jane acompanhou todo o seu relato em silêncio, limitando-se apenas a agarrar a tela da janela com a mão direita e amassar a grade como se fosse um pedaço de papel. Ela estava com raiva e em sua mente borbulhavam mil e uma perguntas, no entanto, de todas, a vampira fez somente uma:

— Para quem você fez esse voto?

— Para Renata – confessa, atraindo o olhar incrédulo de sua gêmea instantaneamente, o nítido olhar de quem nunca imaginou que aquele projétil de vampira realmente pensasse em cometer uma traição tão grave contra o clã.

— Impossível! – Pensa Jane, guardando a exclamação para si mesma, para que Alec e Maximilian não percebessem o quanto ela estava perplexa. E quando ela decidiu falar, disse apenas: – É por isso que olha tanto para a noite? Está esperando-a chegar? – Alec faz um aceno positivo com a cabeça, voltando a olhar para o breu. – E se ela não vier?

— Ela virá.

— Ela prometeu que viria? – Questiona, tentando entender a dimensão de tudo aquilo.

— Prometeu! – Mente, mantendo o rosto erguido e o olhar firme para fortalecer a sua trapaça.

— Certo – conclui Jane, aceitando sua resposta mesmo sabendo ser mentira. Alec era um ótimo mentiroso e ela se lembrava de tê-lo elogiado depois de seu delito na festa da Notte Rossa, mas ele jamais conseguiria enganá-la. Os gêmeos se conheciam bem demais para que um conseguisse passar o outro para trás. – Sabe que não podemos ficar aqui para sempre, não é?

— Eu sei. – Pausa.

— Iremos para Dover agora.

— Eu sei.

— Então comece a preparar sua segunda pista. Partiremos em uma hora.

— Como sabe que tenho uma segunda pista? – Pergunta com um sorriso maroto.

— Porque você é meu irmão e nunca entra em uma disputa despreparado… – Responde com um sorriso de canto, permitindo que o momento e a confiança que depositava sobre ele aplacassem sua raiva. A vampira ainda tinha que digerir tudo aquilo, mas jamais ficaria contra o gêmeo. Eles eram Alec e Jane, no fim das contas, e o seriam para sempre. – E só para constar: não faremos pausas dessa vez. Se me enfiar em lugares verdejantes novamente vou fazê-lo engolir a grama! – Ameaça, afastando-se na sequência e fazendo Alec conter uma risada. Ele corre em direção à mochila, abrindo rapidamente o zíper e retirando um spray de tinta vermelha de seu interior, para fazer algo que aos humanos seria imperdoável.