Coração De Seda
115 Capítulo 115
Notas iniciais
Vários dias se passaram e com isso inúmeras coisas aconteceram. Amun vem sendo castigado por Djoser todos os dias. Alguns dizem que Amun está totalmente... Mudado. O homem perdeu peso ao passar dias de fome e quando se alimenta é de restos. Sua pele está seca devido a falta de água, por dias e noites ele não bebe nada. Em seu corpo há marcas de chicote e ferro marcado. Alguns dizem que ele está ficando insano, por isso estou de frente para ele em sua prisão. Não parece ser o homem que todos temiam, parece ser um animal pronto para ser abatido. Um homem preso em sua mente e em seu corpo. Já não me lembro mais de como ele era ao chegar no palácio.
—Você é corajosa. —Amun fala enquanto me aproximo das grades. Ele é tão perigoso que sua cela foi feita com reforços. —Vir até aqui e me ver. —Ver sua desgraça, sua ruína. Todo estamos pagando por cada atitude nossa. Meus tios, eu, Yaffa, Amun... Até mesmo meus pais. Cada um pagando na mesma intensidade de cada crime.
—Gosto disso. —Falo. —De ver você preso e sofrendo todos os dias. Com fome, sozinho. —Completo. Apenas não passo fome, mas estou sendo tratada como ele.
—E eu mais ainda de olhar para você. —Amun fala ao se levantar de súbito e então segurar meu rosto com firmeza. —Olhar para você e ver a sua mãe.
— Fanatismo seu. —Disparo. —Me solte. —Ordeno e então Amun passa a segurar meu pescoço. Aos poucos ele vai apertando meu pescoço, me tirando o ar. Tento fugir, mas Amun pressiona seus dedos em minha garganta me fazendo entrar em desespero. Minhas unhas ferem seus pulsos, faço força em uma de suas veias e assim ele solta meu pescoço. Seu sangue escorre pelo seu pulso e então me assusto ao ver Zion aparecer.
—O que está fazendo aqui? —Zion pergunta e então me assusto. Ele não está doente?—Seu pescoço... —Fala e então saio apressada do lugar. Ainda posso sentir meu corpo tremer diante do medo que sinto. —Anippe! —Ele chama por mim e então segura minha mão. —Você sabia que ele poderia te matar. —E?
—Sim. —Respondo. —Faz alguma diferença? Faz alguma diferença eu morrer agora ou depois? —Indago, mas não tenho resposta alguma. Estou tão irritada comigo mesma que posso me mutilar para descontar minha raiva. —Seria algo rápido, não seria? Me encontrariam morta e não fariam nada. —Falo e então sigo meu caminho sozinha. Mas logo uma brisa me fez fechar os olhos e parar diante do peso das minhas palavras.
—Você está doente. —Zion fala ao me seguir.
—Loucura? Sempre tive. —Falo.
—Tristeza. —Zion responde e então paro de andar. —Por tudo, não é?
—Às vezes eu penso em colocar tudo no fogo, Zion. E não fazer outra coisa que não seja ver tudo pegar fogo. —Falo para seu espanto. —Quando isso acontecer, ficarei feliz em saber que fiz algo útil. —Foi quando seus olhos verdes fixaram nos meus olhos azuis. —Adeus, Zion.
—Adeus, Anippe.
(...)
Ando de um lado para o outro ao pensar várias vezes no que vou fazer. Me passar por morta não é a idéia certa, por isso farei melhor. Eu vou embora daqui mas nem que eu tenha que gritar com todos. Mas eu sinto uma vontade imensa em escrever algo como se estivesse conversando com Ashira, por isso pego o papiro. Escrevo demoradamente para minha filha como se fosse uma despedida. Embora não seja.
—Mandou me chamar? —Leila pergunta ao entrar.
—Pergunte ao rei se posso conversar com ele. —Peço. Então eu me lembro de ter falado para Zion que desejaria que tudo pegasse fogo. O primeiro da lista seria Amun, mas esse deve sofrer nas mãos de minha mãe. O segundo seria Radamés, mas não vejo necessidade em vê-lo queimar. Quem sabe até Yaffa entraria neste rol.
—Eu sei que você não se sente bem. —Leila fala ao ficar do meu lado. —Mas seja lá o que vai fazer...
—Não vou fazer nada. Agora vá. —Peço. Leila então se vai com uma certa dúvida, então olho em minha volta e tento achar alguma coisa que me prenda aqui. Nada disso faz sentido para mim, não mais.
"Mate a rainha e seja a mulher, Anippe"
Pensei comigo mesma ao ver meu reflexo no espelho. Não sou a rainha que tanto clamam, não sou a pessoa certa para governar esse reino. Eu nasci para ser a princesa do Egito, tal como minha mãe deveria ter sido. Assim como Ashira será. Não quero que minha única filha sinta o peso da coroa...
(...)
—Quando vai matar Amun? —Pergunto para Djoser, sem rodeios.
—Pergunta isso porque quer chamar minha atenção? —Djoser pergunta soberbo.
—Pergunto isso por que ele quase me enforcou. —Foi então que meus pais olharam para mim assustados. —Mas isso não é nada comparado a sua covardia.
—Você não é ninguém. —Djoser rebate ainda mais agressivo. O que o trono nos tornou, meu irmão? Perguntei mentalmente.
—Parem. —Minha mãe pede ao ver que uma briga está para acontecer.
—Você sempre fez mal para a nossa mãe e veja só. Você não é uma boa mãe. —Djoser fala olhando para mim da cabeça aos pés. — Você envergonhou nosso pai e agora não pode dar um pai para sua filha. —As palavras de meu irmão me fazem olhar para Ashira nos braços de meu pai. O choro é inevitável. De certa forma ele está certo. E eu não tenho nem como rebater. —Você é decepcionante, Anippe. Um mero nada. —Foi então que chorei em silêncio enquanto meu irmão fala. Minha mãe e meu pai olham para mim. Minha mãe com pena, meu pai
... Esse não demonstra nada. —Você deu para nós uma bastarda. —Eu que tanto odiei bastardos, tenho uma como filha.
—Ashira é uma bastarda. —Afirmo.—Antes uma bastarda no trono que um legítimo. —Minhas palavras fazem meu irmão olhar para mim com fúria. —Eu pensei melhor. —Falo ao pegar minha coroa de minha cabeça. Aqui está o diamante vermelho rubro que Arão me deu. Como se ele tivesse pagado uma prostituta pelo seu serviço.—Eu não quero ser rainha, nem princesa, nada. Eu quero ir embora daqui com minha filha. Quero ir embora para um lugar onde ninguém lembre de mim. Quero que o Egito esqueça que um dia eu existi. —Falo e então coloco a coroa nos degraus do altar. Foi como jogar um vaso ali, mas foi apenas uma coroa.—Eu quero que você coloque outra pessoa como rainha. Como minha mãe, não aguentei o fardo. Mas diferente dela, não serei feliz. —Falo triste enquanto choro. Então eu vou até meu pai. Eu retiro Ashira de seus braços e olho para todos pela última vez. Mostro que estou firme em partir, por isso minha mãe olha para mim incrédula. —Isso não é uma briga boba, Djoser. É um adeus. Eu vou embora agora e nunca mais irei voltar. —Falo. A decisão que acabo de tomar é totalmente inusitada até para mim. Eu não sei o que está acontecendo, apenas sei que quero ir embora. Djoser me olha com seriedade, por isso tenho certeza de que ele não vai me impedir.
—Anippe, vá se deitar. Você está cansada. —Minha mãe pede nervosa com a situação, sabendo que tenho coragem para partir. —Eu e seu pai...
—Não tenho pai. —Falo olhando pra meu pai. Foi quando ele me olhou entendendo que escutei sua conversa com minha mãe. —Nem irmãos. —Lembrei de quando Djoser disse que não era meu irmão.—Adeus, mamãe. —Falo antes de olhar em volta pela última vez. Meu pai apenas me olha assustado como se não acreditasse, mas nada faz para me impedir. Minha mãe me abraça forte, me faltando o ar, enquanto a minha filha estava em meus braços.—O poder não serve para proteger a família, apenas o reino. —Falo pensativa. —Adeus...
Eu então seguro Ashira nos braços e dou as costas para a minha família. Minha filha apenas olha para mim e com isso vejo que devo ser forte. Agora será somente eu e ela neste mundo. Não posso fraquejar agora. Eu pensei sim em me passar por morta, mas isso foi antes de ser humilhada por Djoser.— Brinco com Ashira em meus braços e sorrio como se nada estivesse acontecendo. Embora tudo esteja acontecendo.
A discussão chamou atenção de muitos. Assim que sai da sala do trono alguns servos estavam no corredor, de cabeça baixa como se estivessem me esperando passar. Assim que eu passava por cada um, eles se curvavam. Até mesmo Leila fez isso enquanto chorava por me ver pela última vez.
—Você me viu nascer, não deve ficar ajoelhada.—Falo para ela. —Pode levantar. —Peço. —Eu sou humana, Leila. Não uma deusa. —Foi quando passei por ela sem lhe abraçar. Ashira sorri para cada servo, como se estivesse acenando para eles.
—Anippe. —Lyanna fala ao correr até mim, mas eu passo por minha irmã caçula e não falo nada. Lyanna então grita por mim várias vezes, mas eu não olho para trás. Posso ouvir o choro dela de longe, me partindo o coração. Mas eu não ouso olhar para trás, assim irei ver Lyanna chorando. —Não vai embora, Anippe. —Ouço ela pedir enquanto ando lentamente. —Anippe? —Lyanna chama pela última vez. Foi quando olhei para ela, de longe e acenei.
—Adeus, pequena leoa. —Falo.
—Para onde você vai? —Halima perguntou eufórica olhando para Ashira em seguida. —Ainda mais com essa menina? —Indaga preocupada. O mundo é perigoso para mim, ainda mais para uma criança como Ashira.
—Seria imprudente levar ela comigo? —Indago me dando conta que estou prestes a errar mais uma vez. E como mãe não posso falhar.
—Muito. —Halima responde sincera, me fazendo acordar e lembrar que Ashira precisa de tudo e todos não somente de mim. Ela não tem nem um ano, não sabe viver como eu vivo.
—Leva ela para minha mãe. —Falo ao entregar Ashira para Halima. Minha filha riu para mim e sua mão escorreu pelo meu rosto, me fazendo sorrir para ela.—Eu vou enfrentar isso sozinha. —Vou deixar minha filha aqui, sã e salva. Eu posso errar como qualquer outra coisa, mas não como mãe.
—Isso? —Halima pergunta confusa, com pena de mim. Foi o único olhar de pena que vi desde que descobriram toda verdade.
—Sozinha. —Dou ênfase antes de beijar minha filha e sorrir para ela. —Eu queria que isso fosse diferente. Que tudo fosse diferente. —Falo com minha filha. E ela olha para mim como se estivesse entendendo.—Mas não posso.
—Para onde vai? —Halima perguntou acolhendo Ashira em seus braços. —Anippe? —Chama por mim enquanto saio sozinha para fora do palácio.
—Desaparecer até esquecerem de mim. —Falo de braços cruzados, andando por cada rua da cidade sozinha. Ficando cada vez mais distante do palácio onde nasci e cresci.
Flash Back On
—Está enferrujado, pai! —Djoser zomba ao ganhar de nosso pai.
—Já vivi muito, não tenho motivos para correr. —Meu pai brinca.
—Meu irmão vive se gabando, mas basta Uri chegar que as coisas mudam. —Falo para Djoser.
—Seu favoritismo por Uri me assusta. —Djoser fala irônico.
—Sabe que tanto você quanto ele são meus favoritos. —Falo, mesmo sabendo que cada um tem seu carinho diferenciado em meu coração.
— Ambiguidade é seu segundo nome. —Djoser fala fazendo nosso pai rir. —Nunca sabe qual irmão escolher.
—Irmãos não foram feitos para escolher, mas para se amarem e ensinarem uns aos outros as diversas formas de amar incondicionalmente. —Nosso pai fala enquanto olha para nós dois.
Flash Back Off
"Anippe significa 'filha do Nilo'. Fluida, livre... Está aqui, agora, mas daqui a pouco pode não estar mais. Como o Nilo, ninguém pode contê-la. Ela escapa pelos seus dedos..."
(...)
Andei por toda a orla do Nilo até o anoitecer. Meus pés estão doloridos e agora sinto frio, mas não penso em voltar para o palácio. Se até agora ninguém veio até mim, significa que não se importam. Posso sentir a brisa fria rasgar meu rosto, enquanto meu corpo treme de frio. Eu não voltarei para o palácio, lá não sou aceita. Eu mesma disse que iria embora com Ashira, mas no último momento vi que seria imprudente levar ela comigo. Minha filha estaria com frio e fome agora como estou. Saber que ela está sendo bem cuidada para mim basta. —Posso até estar morrendo de frio, mas não irei voltar. A vergonha me mataria ali, me sufocaria.—E aqui vejo o que sou sem a coroa, sem nada. Isso é apenas o que resta da pessoa que fui, sem obter nada. Eu não sou ninguém, como Djoser mesmo disse. E nunca serei. O tempo todo muitos falaram a verdade. Eu sou vazia e no fim fiquei sozinha como devo ficar. Plantei vento e agora estou colhendo tempestade.
—Não nos enxergamos se não sairmos de nós. —Falo sobre ter deixado todos os adjetivos que sou para trás e agora ser apenas mais um. Agora posso ver o que sou, nada. Fui tudo em excesso, intensa demais. E tudo demais é sobra. Agora sou minhas sobras, o resto.Às vezes penso "Quem sou?" e sinto o vazio dentro de mim. Essa é a resposta, eu sou vazia.
Não oro a Deus como vim fazendo. Eu não vou tomar o tempo de ninguém, nem mesmo o tempo de Deus. A única coisa que quero, mesmo sem merecer, é a paz. Por isso fecho meus olhos azuis, deitada abaixo de uma das tendas que ficam próximo ao Nilo. E aqui choro até meus olhos ficarem vermelhos, assim como uma cefaléia que me faz pensar nas fórmulas de Paser. —Mas nem mesmo a dor me faz querer voltar para o palácio. —Canto com a voz baixa olhando para o Nilo que vem e vai. Minha mão estava próxima a ele, mas a água não me molhava.
Fecho os olhos ao sentir meu coração rasgar como seda, como o rugido de um leão. Minha alma evapora de meu corpo para o rio, risonha e viva o contrário do meu corpo. O sangue para de correr em minhas veias, o coração é penas um órgão fibroso que não pulsa mais meu sangue. Minha alma, no rio, olha para o corpo na areia e desagua em uma nova vida. —Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer. —Eu estou nas águas, não no céu. E me sinto como nunca senti: em paz.
—Mãe. —Ashira pergunta em meu colo enquanto enrolo seu cabelo em meus dedos. —A senhora vai voltar? —Perguntou entristecida.
—Voltar? —Indago risonha. —Para onde? —Pergunto enquanto o vento sopra em nossos cabelos loiros.
—Para casa. —Ashira completa olhando para o Nilo enquanto estamos sentada à beira dele.
—Eu nunca fui embora. —Falo, fazendo minha filha olhar para mim. Os olhos azuis como o céu, intocável como ele.—Eu estou aqui, Ashira. Eu ainda estou viva, mas você precisa me reconhecer. —Falo. —Eu fiz coisas ruins, Ashira. Você vai entender um dia.
—A senhora não é má. —Ashira fala segurando meu rosto. —É minha mãe.
—Então você sabe onde me encontrar. —O Nilo se agitou quando minha alma finalmente ficou em paz com a minha última lembrança. Lembrança de algo que nunca aconteceu. Nessa visão eu estava vivendo feliz com Ashira, vendo minha filha crescer.
Mas meu corpo está sem vida enquanto minha família está no palácio. Vergonha. Medo. Morte. —Aquela é minha vida. Ou era...
Eu estava infeliz e a seda do meu coração rasgou.
A vida nada mais é que a preparação para a morte.
E estou pronta para minha doce eternidade.
"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês." —Mateus 11:28
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