Notas iniciais
Eu hoje trago o capítulo mais tenso de CDS. Vejo vocês nas notas finais.

Vários dias se passaram e com isso inúmeras coisas aconteceram. Amun vem sendo castigado por Djoser todos os dias. Alguns dizem que Amun está totalmente... Mudado. O homem perdeu peso ao passar dias de fome e quando se alimenta é de restos. Sua pele está seca devido a falta de água, por dias e noites ele não bebe nada. Em seu corpo há marcas de chicote e ferro marcado. Alguns dizem que ele está ficando insano, por isso estou de frente para ele em sua prisão. Não parece ser o homem que todos temiam, parece ser um animal pronto para ser abatido. Um homem preso em sua mente e em seu corpo. Já não me lembro mais de como ele era ao chegar no palácio.

—Você é corajosa. —Amun fala enquanto me aproximo das grades. Ele é tão perigoso que sua cela foi feita com reforços. —Vir até aqui e me ver. —Ver sua desgraça, sua ruína. Todo estamos pagando por cada atitude nossa. Meus tios, eu, Yaffa, Amun... Até mesmo meus pais. Cada um pagando na mesma intensidade de cada crime.

—Gosto disso. —Falo. —De ver você preso e sofrendo todos os dias. Com fome, sozinho. —Completo. Apenas não passo fome, mas estou sendo tratada como ele.


—E eu mais ainda de olhar para você. —Amun fala ao se levantar de súbito e então segurar meu rosto com firmeza. —Olhar para você e ver a sua mãe.


— Fanatismo seu. —Disparo. —Me solte. —Ordeno e então Amun passa a segurar meu pescoço. Aos poucos ele vai apertando meu pescoço, me tirando o ar. Tento fugir, mas Amun pressiona seus dedos em minha garganta me fazendo entrar em desespero. Minhas unhas ferem seus pulsos, faço força em uma de suas veias e assim ele solta meu pescoço. Seu sangue escorre pelo seu pulso e então me assusto ao ver Zion aparecer.


—O que está fazendo aqui? —Zion pergunta e então me assusto. Ele não está doente?—Seu pescoço... —Fala e então saio apressada do lugar. Ainda posso sentir meu corpo tremer diante do medo que sinto. —Anippe! —Ele chama por mim e então segura minha mão. —Você sabia que ele poderia te matar. —E?


—Sim. —Respondo. —Faz alguma diferença? Faz alguma diferença eu morrer agora ou depois? —Indago, mas não tenho resposta alguma. Estou tão irritada comigo mesma que posso me mutilar para descontar minha raiva. —Seria algo rápido, não seria? Me encontrariam morta e não fariam nada. —Falo e então sigo meu caminho sozinha. Mas logo uma brisa me fez fechar os olhos e parar diante do peso das minhas palavras.


—Você está doente. —Zion fala ao me seguir.


—Loucura? Sempre tive. —Falo.


—Tristeza. —Zion responde e então paro de andar. —Por tudo, não é?


—Às vezes eu penso em colocar tudo no fogo, Zion. E não fazer outra coisa que não seja ver tudo pegar fogo. —Falo para seu espanto. —Quando isso acontecer, ficarei feliz em saber que fiz algo útil. —Foi quando seus olhos verdes fixaram nos meus olhos azuis. —Adeus, Zion.


—Adeus, Anippe.


(...)

Ando de um lado para o outro ao pensar várias vezes no que vou fazer. Me passar por morta não é a idéia certa, por isso farei melhor. Eu vou embora daqui mas nem que eu tenha que gritar com todos. Mas eu sinto uma vontade imensa em escrever algo como se estivesse conversando com Ashira, por isso pego o papiro. Escrevo demoradamente para minha filha como se fosse uma despedida. Embora não seja.

—Mandou me chamar? —Leila pergunta ao entrar.

—Pergunte ao rei se posso conversar com ele. —Peço. Então eu me lembro de ter falado para Zion que desejaria que tudo pegasse fogo. O primeiro da lista seria Amun, mas esse deve sofrer nas mãos de minha mãe. O segundo seria Radamés, mas não vejo necessidade em vê-lo queimar. Quem sabe até Yaffa entraria neste rol.


—Eu sei que você não se sente bem. —Leila fala ao ficar do meu lado. —Mas seja lá o que vai fazer...


—Não vou fazer nada. Agora vá. —Peço. Leila então se vai com uma certa dúvida, então olho em minha volta e tento achar alguma coisa que me prenda aqui. Nada disso faz sentido para mim, não mais.

"Mate a rainha e seja a mulher, Anippe"

Pensei comigo mesma ao ver meu reflexo no espelho. Não sou a rainha que tanto clamam, não sou a pessoa certa para governar esse reino. Eu nasci para ser a princesa do Egito, tal como minha mãe deveria ter sido. Assim como Ashira será. Não quero que minha única filha sinta o peso da coroa...

(...)


—Quando vai matar Amun? —Pergunto para Djoser, sem rodeios.


—Pergunta isso porque quer chamar minha atenção? —Djoser pergunta soberbo.


—Pergunto isso por que ele quase me enforcou. —Foi então que meus pais olharam para mim assustados. —Mas isso não é nada comparado a sua covardia.


—Você não é ninguém. —Djoser rebate ainda mais agressivo. O que o trono nos tornou, meu irmão? Perguntei mentalmente.


—Parem. —Minha mãe pede ao ver que uma briga está para acontecer.


—Você sempre fez mal para a nossa mãe e veja só. Você não é uma boa mãe. —Djoser fala olhando para mim da cabeça aos pés. — Você envergonhou nosso pai e agora não pode dar um pai para sua filha. —As palavras de meu irmão me fazem olhar para Ashira nos braços de meu pai. O choro é inevitável. De certa forma ele está certo. E eu não tenho nem como rebater. —Você é decepcionante, Anippe. Um mero nada. —Foi então que chorei em silêncio enquanto meu irmão fala. Minha mãe e meu pai olham para mim. Minha mãe com pena, meu pai
... Esse não demonstra nada. —Você deu para nós uma bastarda. —Eu que tanto odiei bastardos, tenho uma como filha.

—Ashira é uma bastarda. —Afirmo.—Antes uma bastarda no trono que um legítimo. —Minhas palavras fazem meu irmão olhar para mim com fúria. —Eu pensei melhor. —Falo ao pegar minha coroa de minha cabeça. Aqui está o diamante vermelho rubro que Arão me deu. Como se ele tivesse pagado uma prostituta pelo seu serviço.—Eu não quero ser rainha, nem princesa, nada. Eu quero ir embora daqui com minha filha. Quero ir embora para um lugar onde ninguém lembre de mim. Quero que o Egito esqueça que um dia eu existi. —Falo e então coloco a coroa nos degraus do altar. Foi como jogar um vaso ali, mas foi apenas uma coroa.—Eu quero que você coloque outra pessoa como rainha. Como minha mãe, não aguentei o fardo. Mas diferente dela, não serei feliz. —Falo triste enquanto choro. Então eu vou até meu pai. Eu retiro Ashira de seus braços e olho para todos pela última vez. Mostro que estou firme em partir, por isso minha mãe olha para mim incrédula. —Isso não é uma briga boba, Djoser. É um adeus. Eu vou embora agora e nunca mais irei voltar. —Falo. A decisão que acabo de tomar é totalmente inusitada até para mim. Eu não sei o que está acontecendo, apenas sei que quero ir embora. Djoser me olha com seriedade, por isso tenho certeza de que ele não vai me impedir.

—Anippe, vá se deitar. Você está cansada. —Minha mãe pede nervosa com a situação, sabendo que tenho coragem para partir. —Eu e seu pai...


—Não tenho pai. —Falo olhando pra meu pai. Foi quando ele me olhou entendendo que escutei sua conversa com minha mãe. —Nem irmãos. —Lembrei de quando Djoser disse que não era meu irmão.—Adeus, mamãe. —Falo antes de olhar em volta pela última vez. Meu pai apenas me olha assustado como se não acreditasse, mas nada faz para me impedir. Minha mãe me abraça forte, me faltando o ar, enquanto a minha filha estava em meus braços.—O poder não serve para proteger a família, apenas o reino. —Falo pensativa. —Adeus...

Eu então seguro Ashira nos braços e dou as costas para a minha família. Minha filha apenas olha para mim e com isso vejo que devo ser forte. Agora será somente eu e ela neste mundo. Não posso fraquejar agora. Eu pensei sim em me passar por morta, mas isso foi antes de ser humilhada por Djoser.— Brinco com Ashira em meus braços e sorrio como se nada estivesse acontecendo. Embora tudo esteja acontecendo.


A discussão chamou atenção de muitos. Assim que sai da sala do trono alguns servos estavam no corredor, de cabeça baixa como se estivessem me esperando passar. Assim que eu passava por cada um, eles se curvavam. Até mesmo Leila fez isso enquanto chorava por me ver pela última vez.

—Você me viu nascer, não deve ficar ajoelhada.—Falo para ela. —Pode levantar. —Peço. —Eu sou humana, Leila. Não uma deusa. —Foi quando passei por ela sem lhe abraçar. Ashira sorri para cada servo, como se estivesse acenando para eles.


—Anippe. —Lyanna fala ao correr até mim, mas eu passo por minha irmã caçula e não falo nada. Lyanna então grita por mim várias vezes, mas eu não olho para trás. Posso ouvir o choro dela de longe, me partindo o coração. Mas eu não ouso olhar para trás, assim irei ver Lyanna chorando. —Não vai embora, Anippe. —Ouço ela pedir enquanto ando lentamente. —Anippe? —Lyanna chama pela última vez. Foi quando olhei para ela, de longe e acenei.

—Adeus, pequena leoa. —Falo.


—Para onde você vai? —Halima perguntou eufórica olhando para Ashira em seguida. —Ainda mais com essa menina? —Indaga preocupada. O mundo é perigoso para mim, ainda mais para uma criança como Ashira.

—Seria imprudente levar ela comigo? —Indago me dando conta que estou prestes a errar mais uma vez. E como mãe não posso falhar.

—Muito. —Halima responde sincera, me fazendo acordar e lembrar que Ashira precisa de tudo e todos não somente de mim. Ela não tem nem um ano, não sabe viver como eu vivo.


—Leva ela para minha mãe. —Falo ao entregar Ashira para Halima. Minha filha riu para mim e sua mão escorreu pelo meu rosto, me fazendo sorrir para ela.—Eu vou enfrentar isso sozinha. —Vou deixar minha filha aqui, sã e salva. Eu posso errar como qualquer outra coisa, mas não como mãe.


—Isso? —Halima pergunta confusa, com pena de mim. Foi o único olhar de pena que vi desde que descobriram toda verdade.

—Sozinha. —Dou ênfase antes de beijar minha filha e sorrir para ela. —Eu queria que isso fosse diferente. Que tudo fosse diferente. —Falo com minha filha. E ela olha para mim como se estivesse entendendo.—Mas não posso.


—Para onde vai? —Halima perguntou acolhendo Ashira em seus braços. —Anippe? —Chama por mim enquanto saio sozinha para fora do palácio.

—Desaparecer até esquecerem de mim. —Falo de braços cruzados, andando por cada rua da cidade sozinha. Ficando cada vez mais distante do palácio onde nasci e cresci.


Flash Back On

—Está enferrujado, pai! —Djoser zomba ao ganhar de nosso pai.


—Já vivi muito, não tenho motivos para correr. —Meu pai brinca.


—Meu irmão vive se gabando, mas basta Uri chegar que as coisas mudam. —Falo para Djoser.

—Seu favoritismo por Uri me assusta. —Djoser fala irônico.


—Sabe que tanto você quanto ele são meus favoritos. —Falo, mesmo sabendo que cada um tem seu carinho diferenciado em meu coração.

— Ambiguidade é seu segundo nome. —Djoser fala fazendo nosso pai rir. —Nunca sabe qual irmão escolher.


—Irmãos não foram feitos para escolher, mas para se amarem e ensinarem uns aos outros as diversas formas de amar incondicionalmente. —Nosso pai fala enquanto olha para nós dois.

Flash Back Off


"Anippe significa 'filha do Nilo'. Fluida, livre... Está aqui, agora, mas daqui a pouco pode não estar mais. Como o Nilo, ninguém pode contê-la. Ela escapa pelos seus dedos..."


(...)

Andei por toda a orla do Nilo até o anoitecer. Meus pés estão doloridos e agora sinto frio, mas não penso em voltar para o palácio. Se até agora ninguém veio até mim, significa que não se importam. Posso sentir a brisa fria rasgar meu rosto, enquanto meu corpo treme de frio. Eu não voltarei para o palácio, lá não sou aceita. Eu mesma disse que iria embora com Ashira, mas no último momento vi que seria imprudente levar ela comigo. Minha filha estaria com frio e fome agora como estou. Saber que ela está sendo bem cuidada para mim basta. —Posso até estar morrendo de frio, mas não irei voltar. A vergonha me mataria ali, me sufocaria.—E aqui vejo o que sou sem a coroa, sem nada. Isso é apenas o que resta da pessoa que fui, sem obter nada. Eu não sou ninguém, como Djoser mesmo disse. E nunca serei. O tempo todo muitos falaram a verdade. Eu sou vazia e no fim fiquei sozinha como devo ficar. Plantei vento e agora estou colhendo tempestade.

—Não nos enxergamos se não sairmos de nós. —Falo sobre ter deixado todos os adjetivos que sou para trás e agora ser apenas mais um. Agora posso ver o que sou, nada. Fui tudo em excesso, intensa demais. E tudo demais é sobra. Agora sou minhas sobras, o resto.Às vezes penso "Quem sou?" e sinto o vazio dentro de mim. Essa é a resposta, eu sou vazia.


Não oro a Deus como vim fazendo. Eu não vou tomar o tempo de ninguém, nem mesmo o tempo de Deus. A única coisa que quero, mesmo sem merecer, é a paz. Por isso fecho meus olhos azuis, deitada abaixo de uma das tendas que ficam próximo ao Nilo. E aqui choro até meus olhos ficarem vermelhos, assim como uma cefaléia que me faz pensar nas fórmulas de Paser. —Mas nem mesmo a dor me faz querer voltar para o palácio. —Canto com a voz baixa olhando para o Nilo que vem e vai. Minha mão estava próxima a ele, mas a água não me molhava.


Fecho os olhos ao sentir meu coração rasgar como seda, como o rugido de um leão. Minha alma evapora de meu corpo para o rio, risonha e viva o contrário do meu corpo. O sangue para de correr em minhas veias, o coração é penas um órgão fibroso que não pulsa mais meu sangue. Minha alma, no rio, olha para o corpo na areia e desagua em uma nova vida. —Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer. —Eu estou nas águas, não no céu. E me sinto como nunca senti: em paz.

Mãe. —Ashira pergunta em meu colo enquanto enrolo seu cabelo em meus dedos. —A senhora vai voltar? —Perguntou entristecida.


—Voltar? —Indago risonha. —Para onde? —Pergunto enquanto o vento sopra em nossos cabelos loiros.

—Para casa. —Ashira completa olhando para o Nilo enquanto estamos sentada à beira dele.

—Eu nunca fui embora. —Falo, fazendo minha filha olhar para mim. Os olhos azuis como o céu, intocável como ele.—Eu estou aqui, Ashira. Eu ainda estou viva, mas você precisa me reconhecer. —Falo. —Eu fiz coisas ruins, Ashira. Você vai entender um dia.


—A senhora não é má. —Ashira fala segurando meu rosto. —É minha mãe.


—Então você sabe onde me encontrar. —O Nilo se agitou quando minha alma finalmente ficou em paz com a minha última lembrança. Lembrança de algo que nunca aconteceu. Nessa visão eu estava vivendo feliz com Ashira, vendo minha filha crescer.

Mas meu corpo está sem vida enquanto minha família está no palácio. Vergonha. Medo. Morte. —Aquela é minha vida. Ou era...

Eu estava infeliz e a seda do meu coração rasgou.

A vida nada mais é que a preparação para a morte.

E estou pronta para minha doce eternidade.

"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês." —Mateus 11:28

Notas finais
Agora que a Anippe morreu eu vou deixar alguns pontos bem claros aqui: "Anippe não parece ser filha de Henutmire e Hur. Ela é louca, não é doce como a mãe nem gentil como o pai." Uri era o filho mais filho de Hur e nem por isso tinha a mesma linha de raciocínio que o pai tinha. Henutmire não é e nunca foi 100% boa ou doce, já vimos várias vezes do que ela capaz. Ninguém na face da terra é capaz de pôr em prática "Quando lhe baterem no rosto, ofereça a outra face" NINGUÉM. Eu fiz Anippe nessa história para ela ser ELA mesma. Não fiz Anippe para ela ser a filha perfeita ou uma cópia de personalidades da mãe, muito menos para ser mãe. Vocês sempre cobram isso de personagens femininos, sabiam? "Nascer, ser boa filha, casar e até morrer para ter filhos". Vocês sabiam que Anippe sequer existiria? Ao invés de uma filha Henutmire teria outro menino, talvez Lyanna fosse a única filha mulher. Anippe nasceu para mostrar que era sim um pouco da loucura de cada um. Do avô, do pai quando tirado do sério, da mãe (Que quase ficou louca quando se tornou rainha) e até mesmo um pouco do irmão mais velho. Repito, Anippe nasceu para ser Anippe. Ser mãe, esposa, filha ou qualquer outra coisa são apenas adições na vida dela. Anippe não foi feita para ser uma Henutmire 2.0 que usa azul e chora por ser sensível. Que chato seria ter duas personagens iguais, com a mesma personalidade. E antes que eu me esqueça, podem usar o nome de Anippe com ou seu autorização. Anippe da fanfic Coração de Seda é única, não tem outra. E antes que eu me esqueça. Como diabos vocês comparam Anippe e Djoser? MEU DEUS! "Mas Lyanna, com cinco anos, já se mostra mais valente que Anippe. Anippe é mimada e covarde." Anippe foi sozinha para o deserto. S O Z I N H A. Sem pai, mãe, irmão. Ela não tinha ninguém ali com o mesmo sangue que o seu. Ela deixou sua vida de princesa para ser mais uma no povo hebreu. Largou sua coroa, seu conforto e luxo. Isso é ser mimada? Se Lyanna crescesse no deserto, na época que Anippe viveu vagando, com certeza olhariam para Lyanna com estranheza. Mas não, vocês olham para Lyanna como uma heroína. Lyanna até mimada por Elda foi. A raiva de vocês era que Anippe enfrentava todos (Até os pais endeusados por vocês) e não se importava em ficar sozinha (Muitos odiavam isso também). Anippe era louca, individual, insubmissa, inquebrável, não deixava nada passar diante de seus olhos, sempre com uma reposta na ponta da língua. Mas ela foi perdendo isso aos poucos depois que foi mãe. Porque ser mãe dói em todos os sentidos. Ela passou a ter medo até do pai (Do pai que levou a irmã e deixou a esposa sem saber o que estava acontecendo). Anippe foi corajosa sendo rainha por pouco tempo. Ela obrigou os soldados a ficarem na guerra de Moabe contra Amun. Ela poderia ter morrido queimada sim. Ela foi pra guerra no lugar de sua mãe, no lugar de qualquer um ali. Se Anippe tivesse uma espada em mãos teria matado Amun mais rápido que Djoser. Anippe por várias vezes disse que não estava pronta para ser rainha, mas foi bem melhor que Henutmire que enlouqueceu assim que Nefertari pediu para que ela se tornasse rainha. Vocês se lembram do pedido de Nefertari para Henutmire? Ela pediu para a cunhada que não se corrompesse, mas isso aconteceu. Enquanto Anippe não. Anippe foi louca até dizer basta, mas corrompida pelo poder ela nunca foi. Anippe foi princesa, rainha, aprendeu pouco do sacerdócio quando enfrentou a mãe. Mas para Anippe pouco importava ser rainha ou sacerdotisa. Tanto que quando sua mãe disse que ela seria rainha, todos vocês pensaram "Ela vai se gabar, vai brilhar de alegria e prepotência". Errado, Anippe ficou perdida. Em alguns momentos ela deixou o poder falar mais alto, mas somente por perder a paciência. Tal como Henutmire fez um dia e vocês acharam magnífico. "Anippe era muito impulsiva. Se deixou levar pela emoção quando se entregou para Arão." Vocês me assustam as vezes. Anippe nunca foi de se deixar levar pelo emoção e quando faz isso vocês criticam ela de uma forma que não sei explicar. Só faltaram apedrejar Anippe por causa disso. Vocês estão lembrados que ela não obrigou Arão. Repito, ela NÃO obrigou. Nem ele a obrigou. Vocês lembram também que Djoser desonrou Yaffa e Halima? Com Yaffa vocês nem se importaram. Com Halima quase fizeram um rebuliço. Mas NUNCA culparam Djoser. Se lembram que Seti teve Gab e com uma diferença de dois dias Henutmire nasceu? Ele não sabia disso, mas com os anos soube e nada fez para legitimar Gab. Tal como Gab fez uma vez ao ser pai e esquecer a filha (Ele contou para Anippe no jantar que Lyanna perguntou se Henutmire traria Hur para casa). Mas Anippe ter uma filha bastarda foi demais. Demais para Henutmire que sempre foi digna e não merecia isso. Pelo o que eu me lembre Henutmire sempre amou Ashira e nunca fez vista grossa com a neta. Realmente, Anippe errou. Mas vocês sabiam que Anippe nunca seria mãe? Sim, somente Djoser teria filhos. Mas eu fiz isso sabendo que vocês iriam cobrar mesmo dizendo que Anippe não nasceu para ser mãe. Anippe foi ela mesma, não foi cópia de ninguém e muito menos um personagem pequeno. Não usou azul como a mãe, nem chorou como tal. Anippe não precisou de espada alguma para enfrentar todo mundo, ela deu a cara para bater e nunca se deixou intimidar. Anippe não precisou saber tocar harpa como Miriã tocava para terem pena dela (Um beijo para quem entendeu). Tal como Anippe não precisou de homem nenhum ao lado dela. Vimos Anippe nascer e morrer aos seus 20 anos, quase 21. Mas os 20 anos que Anippe viveu valeram mais que os 60 ou 70 que outros personagens viveram. Anippe viveu intensivamente. E essa é a mensagem mais singela que ela deixou. Viver intensamente mesmo que erre, mas que seja você mesmo. "Anippe ofuscou Djoser" Eu ouvi muito isso aqui. AAAAAAA como eu ouvi! Mas eu não falei nada, eu me segurei. Mas hoje vocês não vão se lembrar apenas da morte de Anippe, mas também desse belo texto feito por mim. Uri, Djoser, Anippe e Lyanna são diferentes como todos os irmãos. Anippe e Djoser cresceram juntos, viveram a mesma época, a mesma infância, mesmo sendo diferentes. Eles se fundiam e brigavam, mas Anippe e Djoser sempre foram unidos. Eles foram mais irmãos que Henutmire e Ramsés. Nem mesmo Lyanna, que é uma criança e Djoser ama, pode ser comparada a Anippe. Djoser está com 21, quase 22 anos na história, não vai viver no mesmo mundo que Lyanna com 5 anos. O brilho e essência de Anippe está exatamente no que ela é: Uma mulher que mesmo errando, no final, viveu mais que aqueles que passaram toda vida procurando acertar. Ela não precisou usar azul aka Henutmire, nem ser artesã como seu pai. Anippe largou tudo para ir para o deserto, depois largou o deserto para voltar para casa por causa de sua família. Respectivamente, ela largou tudo pelas suas origens e depois pela sua família. Mesmo entre brigas e preconceitos, Anippe honrou suas origens hebreias e egípcias, aos poucos, mas fez. Tal como ela amou sua família. Vimos Anippe defender Henutmire quando Djoser ficou completamente louco por causa de Radamés. Vimos Anippe com Lyanna, algo que achei fofo pelo fato de Anippe ter sido a filha mais nova até Lyanna nascer. Vocês podem chamar Anippe de louca, claro que podem. Mas Anippe nunca foi egoísta como Ramsés, nem mentirosa como seu pai e irmão. "Mas ela mentiu sobre o pai de Ashira", ótimo. Anippe não precisou arrancar o filho de ninguém. Ela apenas se importou com a filha, nem com ela própria foi. Anippe I teve diversas camadas, foi tão complexa... Anippe não foi apenas uma pessoa em diversos tons de cinza, mas sim uma paleta de tons completa. Ela era má por brigar tanto com a mãe e o pai. Ela era boa por amar Lyanna e ter ficado sempre ao lado de Djoser. Ela era má por ter mentido para Zion. Ela era incrível por ter ido para a guerra e junto com o irmão, trazer a honra de sua família, sua casa, seu sangue de volta. Ela era inescrupulosa por beijar um de seus irmãos. Ela era... Hoje não é mais. Vi Anippe ser a filha caçula, a jóia até Lyanna nascer. Enquanto eu narrava Lyanna sendo criança, coisa que não fiz com Anippe nem Djoser, eu narrava Anippe como uma mulher. Do que serviria para a história uma Anippe que sempre abaixa a cabeça e fala "desculpe, mamãe/papai" e apenas enfrenta por alguns segundos? Anippe nunca levou desaforo para casa, nunca curvou-se para ninguém. Se um dia alguém exigisse isso, tenham certeza que Anippe iria preferir morrer. Na linha de raciocínio dela tudo é menor que seu próprio orgulho. Ela sempre foi orgulhosa, como não ser? Todos os seus irmãos são, ela também teria que ser. O orgulho era a única coisa que ela tinha antes de ter a filha. E no final, não ficou com nada. Obrigada.