Coração De Seda
116 Capítulo 116
Notas iniciais
Já é noite e eu não sei onde Anippe está desde que saiu em uma espécie de transe e até agora não voltou. Até agora estão procurando por ela. Eu tento me acalmar ao ver Hur com Lyanna em seu lado e Ashira em seus braços, mas eu penso em Anippe. Eu sinto que alguma coisa aconteceu com minha filha. Eu não posso ficar aqui andando de um lado para o outro como se isso fosse algo natural.—Paro de andar ao sentir um aperto muito forte no peito, levo minha mão até meu peito tentando amenizar a dor mas a única coisa que vem em mente é Anippe. Logo sinto um sopro macio pelo meu rosto como se fosse toques suaves, o mesmo sinto perto de minha mão. É a sensação de uma mão segurando a minha, mas logo ela vai emboraAo olhar para Ashira me lembro rapidamente de como Anippe era quando criança.
—Ela deve estar no Nilo. —Falo para Hur. —Não pode estar em outro lugar, Hur.
—Djoser está procurando por ela, Henutmire. —Hur fala enquanto olho para Lyanna. —Nós vamos conversar com ela e tudo vai ficar bem. Anippe ficará com Ashira e irá decidir sobre sua vida. — Meu marido fala.
—Leila... —Falo ao ver Leila entrar e ter uma idéia. —Leve Ashira e Lyanna daqui. —Falo sobre a sala do trono. —Seja lá o que aconteceu com Anippe, não quero as duas aqui.
—Eu quero ficar, mamãe. —Lyanna pede ao segurar minha mão.
—Então leve Ashira. —Falo para Leila.
—Sim, senhora. —Leila fala ao pegar Ashira dos braços de Hur. A menina sorriu para mim me obrigando a fazer o mesmo.—Vou colocar ela para dormir. —Fala antes de se retirar com minha neta nos braços.
—Olhe para mim. —Hur pede e então olho em seus olhos. —Ela apenas foi embora como se estivesse em paz. —Meu marido fala enquanto lembro da forma como ele a tratava. —Ela vai voltar, Henutmire. Eu preciso pedir perdão para ela.
—Eu só quero a minha filha comigo. —Falo irritada com ele. —Eu quero Anippe custe o que custar. —Falo antes de abraçar Hur.
Logo as portas da sala do trono foram abertas lentamente. Foi quando olhei para Lyanna e em seguida para Djoser com Anippe em seus braços. Eu e Hur olhamos bem para nossa filha nos braços de Djoser. Meu filho está com seus olhos vermelhos de tanto chorar. Logo eu entendo o que aconteceu com minha filha. Enquanto Djoser caminhava até nós, eu tentei não acreditar. Até que então ele se aproximou de nós com Anippe em seus braços e se ajoelhou perante mim.
—Me perdoa... —Djoser pede com Anippe em seus braços. Ele então abraça Anippe contra seu corpo, mas ela nada faz.
—Ela... —Lyanna fala e então me dou conta de que minha outra filha acaba de ver o mesmo que eu.
—Ela morreu. —Djoser revela e então sinto minhas forças irem embora. Hur acaba me amparando em seus braços, mas até ele mesmo acaba caindo no chão junto comigo.
—A minha filha morreu? —Pergunto sem acreditar no que estou vendo. Hur então me abraça forte tentando me acalmar, mas ele mesmo está fora de si. Eu então choro ao ver que os olhos de Anippe nunca mais vão se abrir, por isso prefiro não olhar para ela. —Me solta! —Peço enquanto Hur me prende. —Eu quero a minha filha! Eu quero a minha filha viva! —Peço aos berros enquanto Lyanna se assusta comigo. Uma criança não deveria ver isso. Mas eu e estou fora de mim. Mil pensamentos se passam pela minha cabeça. —Vocês fizeram isso. Vocês mataram Anippe aos poucos... —Falo sem pensar enquanto choro. Eu permaneço abraçada a Hur enquanto Djoser tem Anippe em seus braços. Isso não poderia ter acontecido. A minha filha não pode estar morta, não pode ser. Eu não quero acreditar que minha filha está morta. Eu não quero acreditar que estou passando por isso novamente! Eu não posso ter perdido outro filho!
Flash Back On
—Agora faça você. —Falo ao entregar a maquiagem para Anippe. Minha filha então faz sua maquiagem dos olhos sozinha e logo olha para mim. —Muito bem. —Falo e assim ela sorri para mim.
—Quando eu crescer vou fazer sozinha como agora. —Anippe fala e então concordo. —Como a senhora faz.
—Melhor. Você fará bem melhor. —Falo ao ajustar sua peruca. Anippe está com doze anos e já tem a vaidade que toda menina de sua idade tem. —Não quer ir dançar no harém com as outras meninas?
—Mas eu pensei que a senhora fosse me ensinar. —Anippe dispara e então sorrio.
—Então venha. —Peço vendo a animação da minha filha. —Vou lhe ensinar a dançar como minha mãe ensinou.
Flash back Off
Choro nos braços de Hur, assim como ele chora junto á mim. Eu apenas sei chorar, não sei falar nada. Eu não consigo acreditar no que estou vendo. Eu poderia pedir ajuda para Gab, mas ele também morreu. Eu não posso acreditar que perdi uma filha, minha primeira filha. Eu não posso aguentar essa dor. Eu apenas sei chorar e olhar para Hur. Do que adianta o poder se não posso proteger aqueles que amo? Minha filha está morta diante de meus olhos. Minha primeira menina, a que tanto amei assim que nasceu. Eu não posso aceitar isso, nunca vou aceitar. Anippe era uma parte minha que nunca deixei mostrar. Tão parecida comigo e ao mesmo tempo diferente.
—Mãe. —Lyanna chama por mim, mas eu não atendo por evivSem escolha, Djoser me entrega Anippe nos braços.
Eu abraço o corpo de minha filha já sem vida. Os braços de Hur apenas me abraçam e me ajudam a segurar Anippe. —Lembro da primeira vez que seguramos nossa filha, agora essa é a última vez. Seguramos nossa filha assim que nasceu, agora seguramos ela após seu último suspiro de vida. — Beijo o rosto de minha filha e então entendo que ela realmente está morta. Seu rosto ainda parece ter vida, ainda está corado. Mas seus olhos nunca mais irão se abrir para todos como antes ela fazia. Ver Anippe morta é o mesmo de me ver morta. De todos os filhos ela era a única que mais se parecia comigo. A única que tinha os meus traços físicos e uma parte minha que nunca deixei transparecer.
—Eu quero ficar com ela. —Falo enquanto balanço Anippe em meus braços. Eu não quero deixar que levem ela de mim. Eu preciso entender que minha filha morreu, mas não quero. Anippe é minha primeira filha, a minha primeira flor.
—Mas ela não está mais aqui. —Hur fala infeliz enquanto me abraça. —É hora de preparar o funeral. —Meu marido fala e eu nego ao ver Djoser se aproximar de mim.
—Eu quero ficar com ela. —Falo enquanto olho para Anippe. Beijo a mão de minha filha e sorrio ao lembrar do quanto vaidosa ela um dia foi. —Ela é minha filha. —Ressalto irritada.
—Eu sei, eu também quero ficar com ela. —Hur fala e então sorrio para ele. —Mas Anippe não está mais neste corpo. —Meu marido fala enquanto olho para ele com dúvida. Então meu marido segura minhas mãos, tentando me afastar de Anippe. Ele segurava de forma delicada, mas foi obrigado a me segurar com força.
—Me solte, Hur. Não pode fazer isso. —Falo ao ver que Hur me segura com força para que Djoser leve Anippe. —Vocês vão me tirar Anippe como um dia tiraram Lyanna. —Falo irritada ao ponto de querer empurrar meu marido. Hur me abraça forte enquanto Djoser leva Anippe. Foi quando o desespero tomou conta de mim. —Eu quero a minha filha! —Peço tentando me soltar de Hur. Meu marido me abraça forte para que Djoser leve Anippe de mim. Tento me soltar dele, mas eu mesma tenho que admitir que não posso fazer nada para que Anippe volte a viver.
—Nós vamos passar por isso juntos. —Meu marido fala enquanto choramos juntos. Olho bem em seus olhos e vejo que estão vermelhos por tanto chorar assim como eu.
—Meu amor... —Falo e então tento dar apoio para Hur. Ele também está sofrendo como eu, mas até agora eu não pude dar o meu consolo. —Dói tanto. Não, é? —Pergunto e obtenho seu olhar gélido e pleno de tristeza. Encosto minha testa na sua e então choramos juntos.
—Você perdeu todos os seus bebês ainda no ventre. Eu perdi Uri na décima praga. Agora perdemos Anippe. —Hur fala deixando claro toda sua dor. Hur perdeu Uri e Anippe, a dor dele com certeza é pior que a minha. Seu primeiro filho e sua primeira filha estão mortos. Nós só entendemos a passagem de cada um neste mundo quando ela acaba. Agora nós dois sabemos a importância de Anippe.
—Venha. —Peço e então abraço meu marido novamente. —Nós vamos passar por isso juntos, meu amor. —Falo e então enxugo suas lágrimas. Eu preciso ajudar Hur, não posso ser egoísta e pensar somente em mim. Meu marido então se recolhe em meu colo enquanto estamos no chão da sala do trono. Minhas lágrimas somem ao ver Hur tão frágil em meu colo como uma criança.
—Eu não acredito, Henutmire. —Hur fala enquanto agarra-se em meu colo. Meu marido chora infeliz pela morte de nossa filha, tento ser forte e não choro em sua frente, mas nem por isso deixo de me sentir mal. —Eu não acredito que ela morreu. —Fala incrédulo. —Eu perdi Uri e Anippe, Henutmire. Isso é um castigo?
—Não. —Nego. —Mas eu estou com você, meu amor. —Falo ao segurar sua mão. —Nossa filha está com Deus, está em paz.
—Será que ela não se sentiu mal? —Hur pergunta. —Somente Paser pode nos dizer. —Fala enquanto abraço-o forte contra mim. —Ela estava tão decidida em ir embora com Ashira, sem nada, sem medo. Depois notou que não poderia viver com Ashira neste mundo sem ajuda.
—E no fim deixou Ashira com Halima.—Falo. Hur então se vira para mim e me olha assustado.
—O que vai ser de Ashira? —Hur pergunta. —Henutmire, será que Arão vai aceitar nossa neta?
—Claro que vai. —Falo. —Mas Arão será pai e não mãe. —Falo e então me preocupo. —Eu não sei o que vamos fazer, mas eu serei a mãe que ela precisa. Mas não sei como... Arão está no deserto e Ashira aqui. —Falo preocupada. —Ela precisa do pai.
—Vamos cuidar dela, Henutmire. Vamos cuidar dela como cuidamos de Anippe, mas faremos melhor. —Hur fala e então sorrio. —Vou sempre olhar para Ashira como olhava para Anippe.
—Ela deixou Ashira para nós. —Falo e sorrimos. —Deixou uma filha no mundo, mas não podemos deixar ela sozinha nele.
(...)
—Halima disse que ajudaria a cuidar de Ashira. —Falo enquanto balanço Ashira em meus braços com carinho. A menina já começa a ganhar peso e meus braços se cansam.
—Menos mal. Assim Ashira não vai sentir falta dos cuidados que precisa. —Djoser fala enquanto olho para minha neta. —Mãe... —Ele chama por mim, mas eu não lhe dou atenção. —Muita coisa aconteceu. —Fala e então me abraça enquanto tenho minha neta em meus braços. —E eu ainda me sinto em dívida com a senhora. —Fala.
—Agora não é hora para isso. —Falo tentando acalmar o meu filho. Logo ponho Ashira em minha cama e vejo suas mãos bem próximo ao seu rosto, entendendo quem eu sou.
—Eu tirei Lyanna da senhora, acabo de arrancar Anippe morta de seus braços. Minha irmã morreu e a última lembrança que tenho dela é seu olhar após ser humilhada por mim. —Djoser fala culpado. Eu então olho para a coroa de Anippe em minha mesa e várias lembranças me fazem esquecer a realidade.
—Eu posso sentir ela. —Falo entristecida. Mas de fato eu sinto minha filha perto de mim. Não sei explicar como, apenas sinto. —Posso sentir a paz que ela está sentindo. —Falo. —Apesar de tudo o que aconteceu, que ela fez, Anippe morreu em paz e arrependida. Ela se foi sem perdoar e ser perdoada, mas está em paz.
—Eu queria ter essa certeza. —Djoser fala nervoso. —Eu deveria ter apoiado ela, mas eu estava cego. —Completa. —Eu carreguei seu corpo, mas tenho certeza que Uri carregou sua alma para o céu. —As palavras de meu primogênito me deixam sem argumento algum. —Agora eu tenho apenas Lyanna. —Minha filha, a que mais se parecia comigo, está morta. Agora eu tenho apenas Djoser que é uma mistura minha e de Hur. Assim como eu tenho Lyanna que herdou todos os traços do pai.
Eu ainda posso me lembrar do manto dourado dos cabelos de Anippe. Presos por tranças e fivelas quando sua coroa não enfeitava sua cabeça. Com um olhar azul marfim, infinito como o céu. Todas as vezes que Anippe olhava por cima dos ombros em direção aos céus, eu sorria ao ver algo sublime refletido. Minha filha partiu em paz tendo a noção de tudo o que estava acontecendo. Sua alma já sentia que era hora de partir. Por isso seu comportamento havia mudado como nunca vi antes. Nem mesmo ela entendia o que estava acontecFalo .
—Ela não será embalsamada. —Djoser revela. —Será apenas sepultada com todas as honras. —Fala de cabeça baixa. —Seu corpo ficará na sala do trono para o funeral.
—Eu nunca pensei em ver isso. Ver Anippe morta. —Falo pensativa.
(...)
Lyanna colocava pequenas flores azuis no cabelo de Anippe e em suas mãos. Anippe estava vestida com um tecido branco de bordas prateadas. Seu rosto ainda parecia ter vida. Tremo ao me ver em minha filha. Anippe morreu ainda muito jovem. Uma mãe nunca deve viver mais que sua filha. Ainda mais se essa filha for idêntica a você. —Lyanna preenche as mãos unidas de Anippe com flores azuis e então pede ajuda para que Djoser a desça dos degraus.—A menina olhou para a irmã como se estivesse procurando algo, em seguida olhou para Djoser.
—Tudo que não é nós, é nosso inimigo. —Falo ao ver Zion se aproximar de Anippe. —Não tem nenhuma obrigação.
—Mas eu quero estar aqui. —Zion protesta. —Eu não me sinto feliz pela morte dela. Não tenho essa capacidade.
—Ela vai ficar ao lado de Uri. —Djoser fala com Lyanna ao seu lado. —E você comigo. —Afirma ao segurar a mão de Lyanna.
—O cabelo dela é igual ao cabelo do leão. —Lyanna fala inocente ao olhar para Anippe. —Leoa do Nilo. —Ela fala como se estivessem querendo cantar. Olho apenas as mãos de Anippe e logo em seguida para seu rosto.
—Meu pai não vem? —Djoser pergunta.
—Ele virá depois. —Falo ainda olhando para Anippe. —E pensar que ela estava aqui comigo quando Gab morreu. —As lágrimas vieram sem pedir permissão. —Me deixem sozinha com ela. —Peço. Todos então saem e me deixam pensativa e sozinha.
Como não chorar ao ver minha filha morta diante de meus olhos? Tudo o que aconteceu, todas as palavras que ela um dia disse agora não valem nada. Todas as loucuras que Anippe fez parecem não ter mais valor. Sua morte foi a maior surpresa e loucura que ela poderia fazer. Acabo deitando minha cabeça em seu ventre e fecho os olhos. Eu quero ter a ilusão de que ela está viva, mesmo sabendo que não está. —Sinto uma mão em meu ombro e logo abro os olhos. Me viro lentamente com cautela e vejo que se trata de Hur.
Em todos esses anos de casados, nunca nos abraçamos como agora. Talvez de todas as coisas ruins que vivemos juntos, a morte de Anippe seja a pior de todas elas. Eu e Hur compartilhamos tudo, até mesmo a dor de perder nossa filha. Quando eu pensava em Moisés, era Hur quem me sustentava por imaginar coisas terríveis. Quando Uri morreu eu tive que deixar tudo de lado para ajudar Hur. Mas agora... Agora a dor dele é do mesmo tamanho que a minha. Ter perdidos meus bebês ainda no ventre por culpa de Yunet não é nada comparado a dor que sinto agora por perder Anippe. Ela já tinha vinte anos, tinha uma filha e era a rainha. Minha filha já era uma mulher quando morreu. Eu presenciei seus primeiros passos, ouvi seu choro todas as noites quando se assustava com algo. Anippe nasceu antes do previsto e em seu parto em não senti tanta dor como nos outros. A medida que Anippe estava crescendo eu entendia suas ações e reações. Apesar de tudo que ela fez, Anippe era minha filha. Idêntica á mim. Mas sua personalidade era outra totalmente diferente.
O abraço não foi desfeito, muito menos perdeu sua intensidade. Eu permaneci abraçada a Hur, recebendo e dando consolo. Se é que esse consolo existe. Nenhuma dor foi tão profunda como perder Anippe. Ela foi a minha primeira menina, a que tanto dei minha atenção. Que ensinei a dançar e me preocupei quando suas regras desceram. Ela foi a filha mais nova por muito tempo até Lyanna nascer. Mas agora, como Uri, será uma vaga lembrança. De tão unidos que eram, Uri e Anippe se foram. Eu nunca vi dois irmãos de mães diferentes serem tão companheiros como Anippe e Uri foram um dia.
—Eu não tinha coragem para vir. —Hur revela e então olho em seus olhos. —Eu olho para ela agora e a única coisa que lembro é quando eu colocava ela para dormir. —Fala. —Agora ela não irá mais acordar.
—Anippe sempre gostou mais de você. —Falo. —Sempre foi mais ligada a você.
—Mas ela também te amava. —Hur dá ênfase no final. —Ela morreu deixando uma grande dúvida no mundo.
—A morte dela responde. A vida dela... Essa nunca iria responder. —Falo. —Paser ainda não disse a causa da morte dela.
—Eu imaginei que fosse consequências do parto, mas não. Pensei que fosse a epidemia... —Hur parece pensar e então olha para mim. —Você se lembra de quando Anippe costumava perder o fôlego quando era criança? —Meu marido pergunta e então me lembro vagamente.
Flash Back On
—O que aconteceu? —Pergunto ao ver Leila se aproximar com Djoser e Anippe. Minha filha está pálida e assustada.
—A princesa estava correndo e começou a passar mal. —Leila adverte.
—Não é a primeira vez. —Djoser fala.
—Me diga, meu amor. —Peço carinhosa para a menina de seis anos. —Diz para a mamãe o que aconteceu.
—Tentei respirar, mas não consegui. —Anippe fala e então olho preocupada para Leila. —E meu coração doeu.
—Doeu? —Indago. —Quanto? —Pergunto. Anippe então me mostra nove de seus dez dedos das mãos. —Fique aqui comigo. —Peço e então ponho Anippe em meu colo. —Deve ser por causa do calor. —Falo ao aninhar minha filha em meus braços.
Flash Back Off
—Anippe tinha uma anomalia no coração. —Hur revela e então me assusto. —Paser acha que é hereditário. —Fala e então fico pensativa. —Qualquer um de nossos filhos podem ter.
—Mas eu não tenho isso, nem você. —Falo incrédula.
—Anippe deu sinais desta doença quando criança, mas só agora ela se espalhou. Talvez eu tenha e a doença esteja silenciosa. Ela se manifesta mais rápido em uns que em outros. —Hur explica.
—Que tipo de anomalia? —Indago ao lembrar que certa vez Gab demostrou ter o coração frágil.
—As artérias do coração são finas como seda. —Hur explica me deixando assustada. —O sangue passa em grande quantidade, fazendo o coração bombear mais devagar e com pressa. —Completa. —Paser chama a doença por um nome um tanto estranho.
—Qual?
—Coração de Seda. —Hur fala e então olho para a seda de minha roupa. Gab era fraco do coração, e era meu irmão. Anippe herdou essa doença pelo meu sangue. —Ashira também tem. —Hur revela e então olho para ele espantada. —Pelo menos Paser suspeita.
—Mas ela é tão nova... —Falo assustada. —É uma criança. Não posso permitir que Ashira também sofre com isso. —Falo indignada. —Meu Deus...
—Vamos resolver isso. —Hur fala confiante. —Vamos achar uma cura para essa doença. —Fala ao me acolher em seus braços com mais força. Mas logo me liberto e olho apenas para Anippe.
—Ela era diferente entre todas as outras moças. —Falo risonha ao lembrar de como Anippe era diante das moças nobres do palácio. —Sempre sendo o centro das atenções. —Falo. —Mas agora ela é a única que acabou morrendo jovem. Ela tinha tanta coisa para viver, não tinha?
—Sim. —Hur responde. —Anippe tinha vários anos, décadas para viver. Mas agora ela terá a eternidade para isso. A vida era pouco para nossa filha, talvez até a eternidade seja.—Ele fala me fazendo pensar no que acontece depois que morremos. —Eu sempre vou me lembrar de Anippe. De cada ano que ela viveu, de cada dia e noite. —Fala enquanto olha para a nossa filha. —Se deuses existissem... Anippe seria uma deusa mandada através do Nilo para marcar nossas vidas.
—Do Nilo ela veio, para o Nilo ela voltará. —Falo.
—O que é belo não morre, apenas transforma-se em outra beleza. —Hur dispara suas palavras me fazendo lembrar de Ashira. Ele tem razão... Até depois quando eu mesma morrer, Ashira estará neste mundo. Anippe se pareceu comigo um dia, tal como Ashira irá se parecer um dia. E depois dela também...
(...)
A noite chegou e eu apenas sorrio ao ter Ashira em meus braços novamente. Fico perplexa ao ver que ela se parece com Anippe. Halima acaba de ceder um pouco do seu leite para Ashira, fazendo assim que minha neta se sinta satisfeita. Ela não tem quem sele por ela, por isso estou com ela em meus braços agora. Balanço Ashira com cautela, tentando colocar ela para dormir como fiz há anos atrás com meus filhos. Ser avó é ser mãe duas vezes.
—Pare de me olhar. —Falo ao sentir o olhar de Hur em mim. Ele nunca perdeu esse hábito. Quando ele me revelou que estava vivo, nas noites seguintes onde eu colocava Lyanna para dormir, Hur me observava carinhosamente. Ashira acaba fazendo algo similar á um espirro e por isso sorrio. —Saúde, meu anjo.—Falo e então beijo seu rosto. —No que está pensando? —Pergunto. Hur vem até mim e olha para Ashira depois de acariciar o meu rosto.
—Estava apenas olhando para você. —Ele fala e então volto a olhar para Ashira. —Ela não consegue dormir? —Hur pergunta e então afirmo.
—Sente falta da mãe. —Falo convencida de que Ashira sente falta de Anippe. —Tão sozinha no mundo... —Falo enquanto balanço minha neta em meus braços. Uma criança tão indefesa que acaba de perder a pessoa que deveria lhe guiar.
—Feche os olhos, criança. —Hur pede enquanto Ashira olha em sua volta. —Você tem nós dois agora. —Ele fala ao acariciar o rosto da menina. Aos poucos Ashira vai fechando seus olhinhos atentos, rendendo-se ao sono inerte de uma criança. Logo coloco-a entre as almofadas e ela acaba por descansar. —Você deveria fazer o mesmo.
—Vai me colocar para dormir também? —Pergunto divertida, embora esteja me sentindo vazia por dentro. —Arão não pode exigir que Ashira vá viver com ele. Pelo menos não agora. Ela é a única coisa que me faz pensar que Anippe está viva. —Falo amedrontada. —Sabe qual foi a minha primeira perda? —Indago. Foram tantas...
—Kamés.—Hur responde ao me aninhar em seus braços enquanto olhamos para Ashira.
—Não deve existir sequer seus restos. —Falo. —Assim como um dia irá acontecer com Anippe. —Sua pele irá secar, seus cabelos irão cair e não restará beleza alguma. E agora tanto meu irmão como Anippe serão apenas sobras.
—Não vamos pensar nisso. —Hur pede e então fecho os olhos enquanto estou em seus braços. Sua mão entrelaça em meu cabelo, acariciando-o como sempre fez.
—Eu não sei o que seria de mim sem você. —Falo ao abraçar Hur com toda minha força. Eu nunca me senti tão perdida em toda minha vida. Mas quando estou com ele, tudo parece estar bem. —Você criou raízes em meu coração. Talvez seja por isso que você sabe como me fazer bem. —Falo antes de unir nossos lábios suavemente. Logo somos interrompidos com a chegada de Lyanna e seu rosto angelical sonolento.
—Não consegue dormir? —Hur pergunta risonho para nossa filha.
—Mãe, pai... Qual a cor do amor? —Lyanna pergunta e então fico sem entender. De todos os meus filhos devo admitir que Lyanna é a mais curiosa.
—O amor não tem cor, nem cheiro, nem lugar. —Hur responde. —Ele é abstrato, não pode tocar nele.
—Pensei que ele tivesse cor. —Lyanna fala inocente. —Eu queria que ele tivesse cor. —Fala com a expressão duvidosa.
—Para? —Pergunto.
—Colher as flores no jardim para a senhora. —Lyanna responde e então fico sem reação. Logo as lágrimas brotam de meus olhos. —Não fica triste, mamãe. —Ela pede angustiada.
—Estou bem. —Respondo e então sorrio ao enxugar minhas lágrimas. —Mas agora você tem que ir dormir. Nem deveria estar acordada.
—Posso dormir aqui? —Pede enquanto seus olhos brilham. Sorrio e então Lyanna deita na cama, perto de Ashira. Então peguei minha neta e a coloquei em seu cesto confortável, é mais prudente. Beijei seu rostinho antes de voltar minhas atenções para Hur e Lyanna. —Não, papai. —Lyanna nega assim que Hur faz menção de contar uma história para ela dormir. Logo me deito também e a menina fica entre nós. —A mamãe não é bonita, pai? —Lyanna pergunta enquanto me observa.
—Já fui mais, agora não sou nem a metade do que já fui. —Falo enquanto Lyanna põe sua mão em meu rosto. Hur então sorri enquanto eu e minha filha nos olhamos.
—Bons sonhos, mamãe. —Ela deseja ao me abraçar. A vida pode lhe desejar bons sonhos da forme mais irônica como fez comigo uma vez, mas no final, ela mesma irá velar seus sonhos com carinho. —Sonhe com os anjos.
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