Notas iniciais
Hoje eu posto um dos capítulos mais pesados da minha vida, hoje Anippe vai sentir na pele o que é ser renegada.

A morte é mesmo algo estranho. Nunca pensei que fosse ver Gab morto diante dos meus olhos. Meu tio não foi embalsamado como todo egípcio é, mas será sepultado no sarcófago de Nayla, sua mãe. Seu corpo está no centro da sala do trono agora pouco iluminado. —Fico ao lado de minha mãe enquanto ela olha para Gab e deixa várias lágrimas descerem em sua face.


—Eu ainda posso me lembrar de cada movimento dele. —Minha mãe fala enquanto olho para o loiro de seu cabelo dando contraste no negro de suas vestes assim como eu. Mas seus fios loiros passam muito pouco de seus ombros, ondulados e brilhantes como o fogo. A coroa que ela usa já não é mais a que um dia usou quando rainha, é uma mais delicada e recatada. Como se fosse um arco em volta de sua cabeça, com diamantes nas pontas. —Eu dei para ele quando partiu para sua última batalha. —Fala em relação à espada que está nas mãos de Gab.

—Ele teria sido um bom rei. —Falo, lembrando que de dos irmãos, Gab é o mais velho. —Uma pena tudo ter seguido outro rumo.

—Se ele fosse rei, agora o Egito ficaria sem ele. —Minha mãe fala pensativa. —Vi meu pai e meus irmãos morrerem, Anippe. Senti cada filho meu morrer dentro mim, fazendo de meu ventre uma tumba. Nada pode mudar o fato que sou a pessoa mais desgraçada. —Falou da maneira mais infeliz possível. —Perdi todos os homens da minha vida.


—Nem todos. —Falo, trazendo ela para perto de mim. —Ainda tem meu pai, meu irmão... —Um sorriso torto nasceu em seus lábios. —E agora um neto. —Sorri tentando fazer minha mãe se sentir um pouco melhor. —Homens morrem mais cedo que as mulheres por serem ignorantes.


—Eles tomam à frente de toda família. —Minha mãe fala pensativa, um tanto estranha. —Veja seu pai, por exemplo. Sempre zelando por cada um. —Completa. —Quando ele e Gab planejaram todo aquele complô, sem nem mesmo nos avisar, Hur pensava em todos nós. Não é fácil fingir que está morto sabendo que o mundo pode atacar sua família. —Fala orgulhosa. —Sem obter nenhum título, sem ser rei, nada. Hur fez tudo isso por nós, sem sequer ser um rei.

—Se o fosse, não teria sido bom pai. —Assim ganhei sua atenção. —Eu penso assim.

—Em parte, está certa. —Minha mãe concorda enquanto eu enxugo suas lágrimas. Sorrimos ouvindo os passos de Djoser, logo ele vem até nós.


—Se sente bem? —Djoser pergunta para nossa mãe. Minha mãe então acena que não. Djoser a acolhe em seus braços e logo lágrimas saem de seus olhos. Por ser um parente próximo a nós, acabamos usando o negro como luto e não o branco como antigamente.

—Já passou muito tempo que ela está aqui. —Falo enquanto Djoser acolhe minha mãe. —Acho melhor ela descansar.

—Não vou descansar em lugar algum. —Minha mãe fala dando o entender que não vai mesmo ficar bem. —Eu nunca me despedi de ninguém dessa maneira. —Fala ao olhar para Gab. —Hoje eu tive um sonho estranho com ele. Parecia que Gab e eu nos conhecíamos desde crianças. —Minha mãe fala e então me lembro de quando vi ela e Gab ainda crianças na Núbia, numa visita feita por meu avô Seti. Em uma visão dentro de um sonho, devendei isso. Somente um cego para não duvidar de algum parentesco entre minha mãe e Gab.


—Você deveria descansar. —Meu irmão fala ao afastar minha mãe de mim, como se eu fosse repugnante. Mas talvez ele queira apenas espaço.—Parece cansada. —Djoser fala numa voz duvidosa. Olho bem nos olhos dele e vejo que há uma certa repulsa. Eu não acredito nisso...

—O que está acontecendo? —Pergunto olhando para ele. Estou prestes a rugir.—Você nunca olhou assim para mim. —Foi quando minha mãe olhou para Djoser.


—Não é todo dia que eu tenho uma irmã como você. —Djoser fala me deixando confusa. Continuo sendo sua irmã, imbecil. —Mas eu não poderia esperar menos de você. Sempre tão baixa, sem valor e escrúpulos. A ovelha negra da família. Foram raros os momentos de orgulho que nossa família teve com você. —Minhas unhas afiadas clamaram pelo rosto dele.


—Eu...

—Parem. —Minha mãe pede e então fico aliviada por isso. Pela primeira vez não sei o que dizer.

—Você tem noção do que fez? —Djoser pergunta. —Você foi tão baixa como Yunet. Engravidou de um homem e fez outro assumir.

—Mas eu não matei ninguém. —Minha única defesa.

—Zion está piorando, Anippe. —Djoser revela. —Se ele tiver o mesmo destino que Gab, saiba que você vai ser culpada pela morte dele.


—Eu não tenho culpa. —Falo brava.

—Você nunca tem. —Djoser fala irônico e então olho para ele incrédula. Eu sempre estou errada...—Nunca tem culpa de nada, Anippe. Você sempre está certa. Antes eu pensava que você era apenas rebelde, mas então eu notei que não era. Você é louca. Uma pessoa a quem devo temer e não confiar. —Djoser fala seriamente enquanto meus olhos apenas demonstram minha vontade de chorar. —Você não é minha irmã. —Fala. Eu então olho para o chão e tento achar uma solução, mas não consigo. Olho para Djoser novamente e fico sem reação alguma. Ser renegado é pior que ser... Pior que qualquer coisa. Justo o meu irmão? Meus olhos fizeram essa pergunta ao invés de meus lábios. Djoser notou o quanto surpresa estou, por isso evitou me olhar. Eu simplesmente me retiro do local e tento segurar as lágrimas enquanto ando apressada para algum lugar. O Nilo seria uma boa opção... Para me afogar.


—O que aconteceu? —Leila pergunta ao me ver atordoada enquanto ando lentamente.

—Onde está Ashira? —Indago. Eu preciso ver a minha filha. Ela é a única coisa que eu tenho agora.

—Está com o seu pai. —Leila responde, desconfiada.—Mas é melhor não...


—Onde? —Pergunto. —Me diga, Leila. —Peço fraca. Eu não queria discutir, quero minha filha.


(...)

—Você se parece com sua mãe e sua avó. —Ouço meu pai falar assim que entro na oficina. Olho bem para ele e Ashira em seus braços e sorrio. Meu pai continua conversando com Ashira e ela olha para ele como se entendesse tudo. —Anippe? —Meu pai se surpreende ao me ver. —O que está fazendo aqui?

—Ficar com minha filha. —Falo ao me aproximar, mas meu pai não permite. —Pai? —Indago.

—Você não tem condições de ser mãe. —Meu pai fala e então me surpreendo. —A menina vai ficar comigo. Eu e Henutmire vamos criar Ashira, mas desta vez não iremos errar como fizemos com você. —Errar como fizeram comigo? Outro golpe ainda mais fatal em mim. Sinto meu queixo tremer enquanto as lágrimas congelam nas margens dos meus olhos.

—Ela é minha filha. —Falo incrédula, o meu único argumento. —Não pode tirar ela de mim, pai.

—Se afaste. —Meu pai pede novamente e então fico sem reação. —Você não tem como dar uma boa educação para Ashira.

—Isso não é da sua conta. —Enfrento meu pai. —Ashira é minha filha, não sua.

—Você é minha filha e por isso sei muito bem que você não vai cuidar de Ashira. —Meu pai fala enquanto minha filha olha apenas para ele. —Ela vai ser amada por todos nós. Algo que você não pode fazer. —Sou incapaz de amar alguém, foi isso que meu pai quis dizer para mim.

—CHEGA! —Grito ao derrubar tudo o que vejo pela frente. Ashira então se assusta com o barulho e começa a chorar. Eu tento me aproximar para acalmar minha filha, mas isso não acontece graças ao meu pai. —Não faz isso, pai. Ela é minha... —Falo ao ver que ele está mesmo disposto a tirar Ashira de mim.

—Se afaste, Anippe. —Meu pai pede novamente, agora ainda mais autoritário.

—Eu faço o que quiser. Qualquer coisa. —Falo enquanto choro. —O senhor não tem esse direito. —Falo um pouco brava, mas logo me ajoelho perante ele. —Quer que eu me ajoelhe? É isso? —Pergunto prostrada no chão.

—Se levante! —Meu pai pede eufórico. —Você não vai ter Ashira para sempre. —Fala me deixando confusa. —Você vai se casar com Arão confirme as regras e leis, mas não vai levar Ashira. —Os planos mudaram?

—Eu não vou sair daqui. Muito menos ir embora sem ela. —Falo ao segurar as pernas do meu pai. —Não pode fazer isso comigo, pai. —Peço enquanto seguro em suas pernas com firmeza. Choro de medo ao imaginar que irei ficar longe de Ashira, mas minhas lágrimas não convencem meu pai.

—Você sempre chora quando se arrepende. E quando é perdoada volta a fazer tudo novamente. Todo o mal. —Meu pai fala friamente.—Ashira vai ter uma boa educação, vai ser amada e nunca vai sofrer nenhum tipo de represália. —Fala e então choro ainda mais. Ela sofreria tudo isso vivendo comigo, eu sei. —Você sempre foi uma má filha, será uma má mãe. —Meu pai fala antes de sair com Ashira nos braços. Só agora então eu entendo a gravidade da situação.


—Meu Deus... —Falo enquanto choro largada no chão frio na oficina. —Eu perdi tudo. —Falo com a voz trêmula diante da situação.

Recolhi meu corpo até a porta, fechando-a. Me tranco no local e assim fico por muito tempo. Chorando por casa atitude minha, sabendo que nunca vou ter perdão e que nunca vão acreditar em mim. Eu definitivamente perdi tudo, perdi minha família inteira estando ela viva e perto. —Ouço leves batidas na porta, mas ignoro mesmo assim. Novamente alguém bate, mas acabo me encolhendo ainda mais. —Não quer ver ninguém.


—Anippe? —Era Lyanna com sua voz tímida. —O papai ainda não te tirou do castigo? —Ela pergunta inocente do outro lado da porta.


—Não. —Nego.


—Você quer brincar? —Lyanna pergunta inocente mais uma vez.

—Vá treinar, Lyanna. —Peço. Eu não sei se minha irmã foi embora ou não, talvez tenha ido já que não ouço mais sua voz. Mas ainda assim sinto sua presença do outro lado da porta.


(...)


—Anippe? —Leila chama por mim enquanto penso em meu quarto. —Ouviu o que eu disse?


—Não. —Falo olhando para a tintura vermelha em minhas unhas.

—A rainha Elda quer fazer uma aliança com o Egito. —Leila fala e então olho para ela. —Ela quer fazer de Lyanna a sua herdeira.

—Não entendi.

—Moisés vai passar por Moabe e Elda acha que a senhora Henutmire pode evitar isso. Em troca, Elda deixará Lyanna como sua sucessora e herdeira. —Leila explica. —Ela pode chegar a qualquer momento.


—Que venha então. —Falo sem ânimo. —Estou presa em meus aposentos, não posso fazer nada por ninguém. —Falo e então sinto falta de Ashira. —E Lys? —Pergunto por minha irmã. De uns tempos para cá todos chamam de Lyanna por Lys, um breve apelido.


—Ela pergunta por você. —Leila fala enquanto olho para minha coroa. —Ela sente falta de Gab, a sua falta...

—E Zion? —Indago.

—O casamento foi anulado. —Leila revela para meu espanto. —Mas Zion está muito doente.

—Leila... —Falo e então olho para ela. —Você acha que... —Não consigo evitar as lágrimas ao pensar o pior. —Esqueça. —Falo ao olhar para meu reflexo no espelho.

—Você quer que eu chame alguém? —Leila pergunta, mas eu logo vejo Paser entrar.


—Pode ir. —Falo. Leila logo sorri para Paser, com isso ela se retira e então ofereço o divã para o sumo sacerdote se sentar. —O que trouxe aqui?

—Pensei que eu disse útil para ser uma companhia. —Paser fala e então sorrio de canto. —Se sente sozinha?

—Não. —Respondo. —Me sinto de várias maneiras, menos sozinha. —Falo vagamente. —Eu sou odiada por todos agora. —Estou colhendo o que plantei.


—Nem todos.

—Sou sim. —Falo e então Paser lamenta. —Mas quem da minha família não é odiado? No final, todos são. —Usei da ironia.

—É apenas um impasse nessa dinastia. —Paser fala sobre a descendência de Ramsés I. —Teve ajuda da rainha mãe?


—Não. —Nego.


—Claro que teve. —Paser afirma. —Ela não deixaria passar despercebido. —Argumenta. —A devoção dela é tanta que até esconder de Hur, ela escondeu.

—Eu quase coloquei tudo a perder. —Falo. —Mas eu não posso esperar nada além que a repulsa.

—E sua filha? —Paser pergunta. —Sabe da ordem de seu pai?

—Claro que sei. —Respondo. —Mas eu não quero ir para longe daqui. Muito menos ir e deixar Ashira.

—Eu compreendo. —Paser responde.

—Eu faço qualquer coisa para minha mãe ou meu pai não me separarem de Ashira. —Falo nervosa. —Mas eu não sei por onde começar.


—Comece fazendo o que eles querem. —Paser aconselha.


—Deixar minha filha aqui sem mim não é uma escolha a qual devo aceitar. —Disparo. —Ashira é a única coisa que eu tenho nesse mundo. Antes eu não tinha ela, mas conseguia viver. Agora que ela existe, viver em um mundo onde ela não está, é como me matar aos poucos.


—Agora pode entender o que sua mãe sentia. —Paser fala.


—Se realmente meu pai tirar Ashira de mim, eu vou fazer uma loucura. —Revelo.


—Se a tal loucura é cometer suicídio, está sendo estúpida, soberana. —Paser revela. —Morta, não vai poder criar sua filha. Pense nela sem a mãe, sabendo que seu verdadeiro pai é o sumo sacerdote de Israel e...

—Você me deu uma idéia. —Falo pensativa. —E você vai me ajudar.


—Me diga como. —Paser fala confuso.


—Da mesma forma que ajudou meu pai e Djoser tirou Lyanna da minha mãe. —Respondo fazendo o sumo sacerdote me olhar assustado. —Isso mesmo, Paser. —Falo temendo a reação dele. —Eu vou me passar por morta e fugir com Ashira. Ninguém vai tira ela de mim...


(...)

Quando a noite chegou meu pai me trouxe Ashira para que minha filha pudesse se alimentar do meu leite e adormecer nos meus braços. Minha filha parece não querer dormir, seus olhos me contemplam com atenção como se quisesse memorizar o meu rosto. Tento fazer por onde ela dormir, já está tarde demais. Mas Ashira não quer fechar os olhos e se render ao sono.


—Hoje chegou um papiro enviado por Arão. —Meu pai fala seriamente enquanto olho para Ashira. —Dentro de alguns dias vocês vão se casar. —Revela me fazendo olhar para ele. Ashira então parece se animar, mesmo sem saber do que se trata. —Você vai levar a menina para que Arão a conheça. —Fala e então sorrio. —Mas logo Ashira deve retornar.


—Mas... Se eu e Arão vamos nos casar, porque devo me separar de Ashira? —Indago. —Isso é mesmo um castigo?


—Claro que é. —Meu pai afirma. Eu então olho para minha filha que agora emite sons desconhecidos em sua boca, como se quisesse me falar alguma coisa. Ela leva suas mãos pequenas até sua boca e grita estridente para mim. Quando beijo seu rosto, minha filha então me olha com carinho e vai fechando seus olhos lentamente. —Ela adormeceu? —Meu pai pergunta e então afirmo que sim. Tento esconder minha tristeza por ter que entregar minha filha para meu pai, mas é melhor não fazer muito alarde. Ashira pode acordar e se assustar.


Então eu me levanto do divã e entrego minha filha para meu pai. Olho bem para seu rosto e então sorrio. Não tenho coragem de falar nada para ele, muito menos olhar em seus olhos. Meu pai então balança Ashira em seus braços, sorri e dá as costas para mim. Talvez Ashira seja a melhor parte de mim que mais agrada o meu pai. Ele por fim foi embora do meu quarto e me deixou sozinha com os braços vazios.


(...)

—Ela é linda. —Ouço meu pai falar enquanto vejo o que acontece no seu quarto graças a uma brecha da porta.


—Não fale alto, vai acordar ela. —Minha mãe fala risonha. —Ela deveria estar com a mãe. —Falou sobre Ashira estar separada de mim.

—Mas não vai ficar. —Meu pai fala seriamente fazendo minha mãe balançar a cabeça.—Anippe não merece nada.

—Ela é nossa filha. —Minha mãe fala preocupada.


—Não é a minha filha. Essa mulher que enganou todos nós, não é minha filha. —Meu pai falou decepcionado. Foi quando comecei a chorar mais uma vez. Ando lentamente, voltando para meu quarto e vou em direção à janela. Talvez fingir que estou morta seja um erro, mais um no rol deles. O que me impede de me atirar dessa janela agora? Nada. Não haverá lamentações quando eu morrer. Haverá alívio.

—Se Deus pudesse me dar a pior das doenças, seria melhor que tudo isso. —Falo. —Porque dar a doença para uma criança inocente quando eu estou sadia? —Pergunto sobre a saúde frágil de Ashira. —Se o senhor é mesmo justo, mude o destino de minha filha. Se essa sua doença for uma desculpa para ver minha filha morta e me punir, mate-me.