Coração De Gelo
2 Capítulo 2: Não sinto "arrependimento". Não sinto.
Notas iniciais
I only dream 'cause I'm alive
I only dream in Black and White
To save me from myself"
Dream of Mirrors - Iron Maiden
Levantou-se o mais rápido que pode, já tendo a lâmina da foice que o outro empunhava novamente rente ao seu pescoço. Estava ofegante, o coração batendo rápido, já que não era todos os dias que você era ameaçado por um ser que não deveria nem existir.
-Vá embora, moleque. É a última vez que eu lhe aviso.-Disse o de cabelos prateados, recuando apenas um pouco a foice.
-Hey, calma aí! Sou vou embora quando eu entender o que está acontecendo. Quem é você? O que está fazendo aqui...-Mas antes que Sirius terminasse de falar, o outro já movia a foice em direção do de cabelos negros, girando a arma com tanta perfeição que o único estrago que esta fez foi causar um pequeno corte na mão do humano, que recuou, apertando a mão sangrando contra o ventre.
-Está manchando a neve.-Disse o de cabelos prateados, referindo-se ao sangue caindo em fartas gotas pelas mãos do humano.
-Cara, ficou maluco?! Quer mesmo me matar?! Porra, qual é seu problema?!-Sirius gritou, avançando alguns passos em direção ao outro sem pensar. Ele não era de fugir, e mesmo que estivesse sentindo medo, afinal, quem, numa situação daquelas não sentiria?, preferiu ficar, engolindo em seco por causa da dor, que logo parou, assim como o fluxo de sangue, graças ao frio.
O de cabelos prateados ergueu o olhar, uma vez que estivera fitando o chão, e olhou para o humano, os profundos orbes azuis expressando raiva.
-Invadiu o único lugar que tenho para descansar e agora grita comigo, moleque?-Disse, a voz cortante.
-Não sou moleque! E o que diabos é você?! Fique longe de mim!-Gritou, uma vez que o outro estava se aproximando novamente.
-Eu sou o Inverno.-Respondeu, de frente para o outro.-Sou o gelo, sou o frio, sou a morte que esta estação acompanha. Sou o branco e sou o puro, e sou aquele que vai te matar se não sair daqui agora.
-Não pode me matar! Vai ser preso se fizer isso e...
Mas antes que voltasse a falar, Inverno lhe segurava pelo pescoço, erguendo-o do chão sem dificuldade alguma.
-Duvida do que eu falo, moleque?-Disse, totalmente impassível.
O rapaz levou suas mãos até as do outro, tentando afrouxar aquela pressão, sem sucesso. Mexia as pernas violentamente noutra tentativa de se soltar, também sem sucesso algum, e a cada segundo perdia mais e mais as forças.
-Se me matar... Vou voltar dos mortos para te matar também...-Murmurou o mais alto que pode, sentindo então a pressão diminuir e o corpo caindo pesado na neve. Tossiu algumas vezes e assim que levantou o rosto para fitar o outro, encontrou-o já se afastando em direção à árvore aonde inicialmente estivera.
-Hey!-Exclamou Sirius.-Aonde pensa que vai?! Não vou deixar você sair impune dessa!-Se levantou meio cambaleante e correu atrás do outro com o punho erguido, que apenas deu um passo para o lado, deixando o rapaz passar direto.
-Como encontrou este lugar, moleque?-Perguntou Inverno, vendo que o outro retomava fôlego e voltava a tentar lhe atacar com um soco, sem sucesso, pois a estação rapidamente se desviou, a feição sempre impassível.
-Fique quieto, droga!-Sirius exclamou novamente, furioso, atacando sem parar enquanto o outro continuava a se desviar até que acabou tropeçando noutro monte de neve.
Virou-se para o outro, ofegante, detestando o olhar de superioridade que ele tinha no rosto. Realmente não parecia humano, exceto no aspecto físico. Os olhos azuis profundos lhe lembravam constantemente os mares congelados daquele lugar.
-Não vou perguntar novamente, moleque, me responda.-Inverno disse, impassível.
-Achei por acaso, seu imbecil. Se não queria ser encontrado, não deixasse uma caverna no meio do tempo!-Brigou, já se levantando e espalmando as roupas novamente.
Inverno então estreitou os olhos, fazendo a foice antes em sua mão desaparecer enquanto fitava o outro tão densamente que parecia estar lendo sua alma. Não entendia como um simples humano poderia ver a caverna, a entrada para seu santuário. Pessoa normal alguma veria a caverna, muito menos veria o próprio Inverno (a não ser que este se mostrasse por conta própria), nem aquelas árvores brancas, nem nada daquele lugar.
Ergueu então um dos braços e ao lado de onde Sirius tinha entrado escorregando, apareceu uma escada feita de neve e gelo. Inverno então se virou novamente para o rapaz, que o fitava sem entender, com menos ira.
-Vá embora antes que escureça, moleque.-Então se virou para voltar às árvores.
-É Sirius! Não sou moleque, meu nome é Sirius!-Gritou, vendo o outro subir sem esforço novamente nas árvores apenas para deitar em seus galhos e fechar os olhos, como se fosse adormecer.-Hey, não pode me ignorar assim, seu idiota!
Mas a estação nada respondeu. Permaneceu imóvel e adormecido no alto da árvore. Sirius bufou de raiva e se aproximou, se sentando no pé da mesma árvore e aproveitando a vista. Não iria embora assim, primeiro porque na Base não teria nada para fazer e segundo porque aí estaria obedecendo Inverno, e ele nunca fora muito de obedecer.
Olhou para sua mão machucada. Nem parecia mais tão ruim, mas temia que assim que saísse do frio, ela piorasse. Sua máquina fotográfica estava jogada a alguns metros dali, e não estava muito a fim de se levantar.
Acabou levantando a cabeça, encontrando o outro ainda de olhos fechados, a expressão em um misto de serena e hostil. Mexeu os bolsos, mas não tinha nada de muito bom ali, e sua mochila estava jogada perto da máquina.
O fato foi que a falta do que fazer e toda aquela serenidade que parecia cobrir aquele lugar, assim como o silêncio quase mortal, fez o sono lhe alcançar, e antes que percebesse, tinha adormecido.
E foi só ele fechar os olhos que a estação abriu os seus. Não podia negar que estava no mínimo intrigado com aquele moleque humano que de alguma forma conseguia vê-lo. Era uma ameaça a sua existência, acima de tudo, e matá-lo agora seria tão fácil que mal precisaria levantar a mão para tal.
Mas mesmo quando fora ameaçado de morte o humano não recuara. Bem, talvez ele não fosse um humano tão repugnante quanto todos os outros. Ficou o observando dormir, a vontade impiedosa de matar latejando em sua cabeça, mas nada fez além de observar.
Porque esperar e observar eram características naturais de predadores.
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Quando Sirius acordou, estava muito mais frio que antes. E escuro, muito escuro. Olhou para os lados um tanto desesperado por acordar sozinho e naquela penumbra, logo se lembrando aonde estava e com quem estava.
Ergueu o olhar, mas o dito Inverno não estava deitado nos galhos. Se levantou, rapidamente sentindo câimbras nas pernas, os ossos estralando como se tivesse passado anos dormindo numa mesma posição. Já batia os dentes de tanto frio.
Mas sua bolsa e sua máquina estavam bem ao seu lado, o que era estranho, já que se lembrava que elas estavam distantes antes de dormir. Tirou uma lanterna de dentro da bolsa e olhou o lugar, aonde nevava. Não havia sinal nenhum de vida. Tirou também uma bússola da bolsa, determinado a voltar para a Base, mas era como se realmente aquele lugar não existisse porque a flecha que deveria estar sempre virada para o Norte, girava rapidamente em todas as direções, louca.
-Mas que merda...!-Exclamou, jogando a bússola dentro da bolsa novamente enquanto se abraçava. Não conseguia mais sentir os dedos dos pés.
-Mandei ir embora antes que escurecesse, moleque.-Ouviu uma voz, a mesma que tinha falado mais cedo, e virou-se em direção de onde parecia vir.
Não demorou para ver a silhueta do outro se aproximando de si, a túnica branca parecendo brilhar no escuro, assim como os cabelos também brancos. Inverno se aproximou do humano, tomou-lhe a lanterna das mãos e o fez em pedaços de repente, deixando logo um Sirius de mau humor.
-O que foi isso?! Por que fez isso, seu idiota?!-Exclamou, sem acreditar.
-Sua tecnologia não é bem vinda neste lugar. Se quer enxergar, terá que depender da lua.-Inverno respondeu, sem se abalar.
-Que lua?! Não tem lua aqui, as nuvens estão cobrindo todo o céu! Parabéns, vossa simpatia, agora como diabos eu vou voltar para a Base?!
-Mandei que voltasse mais cedo, e se não voltou, foi porque não quis. Agora terá que esperar até amanhã.
-Vou morrer de frio!
-Morra.-Inverno deu de ombros e saiu caminhando para longe dali. Era como se por onde ele andasse, as coisas ficassem mais claras, então Sirius apenas pegou sua mochila, jogou tudo dentro dela e o seguiu. Não que gostasse de ficar perto dele, mas não sabia nada sobre aquele lugar, e o escuro fazia tudo parecer mais assustador.
Seguiu a estação por vários minutos em silêncio, notando que a cada passo, o clima parecia esquentar... Ou seria ele se acostumando com o frio? Não quis saber, apenas ficou feliz com o fato de que seus pés não estavam mais dormentes.
Quando finalmente Inverno parou, estavam em frente a um pequeno lago ainda não congelado. Parecia raso, como uma piscina, e não pareciam ter animais nela também. Agora todo o lugar estava bem mais claro, uma vez que parara de nevar e a lua aparecera, mostrando mais detalhes.
-Fiz parar de nevar, já pode ir para casa.-Inverno disse de repente, chegando mais perto do pequeno lago, ficando de costas para Sirius. A estação então começou a despir sua túnica, ficando apenas com a calça de seda de mesma cor que vestia por baixo, as costas bem definidas, não musculosas, porém bastante belas, e a pele imaculada quase etérea de tão clara.
Os cabelos longos então cobriram suas costas, soltos, o que tirou Sirius do transe em qual tinha entrado. Inverno era muito bonito... Não pervertidamente falando, era simplesmente a verdade. Ele era verdadeiramente belo, com um corpo perfeito, proporcional, altura perfeita, nem magro nem gordo, apenas perfeito... Então Inverno virou-se para o humano, mostrando uma grande mancha negra e agourenta na altura do coração, como se fosse o que restara de um buraco, um peito sem coração.
A feição séria o fitou, vendo para onde Sirius olhava, e estreitou mais os olhos.
-Não deveria ir para casa?-Inverno perguntou, os olhos azuis profundos um tanto mais escuros.
-Não está mais tão frio, e se eu voltar agora posso ser comido por ursos polares ou, sei lá, acabar me perdendo. A bússola não está funcionando e você quebrou minha lanterna.-Respondeu o rapaz, falando a verdade. Por alguma razão, esquecera toda a raiva que estava sentindo da estação.-Acho que vou ficar.
Inverno deu de ombros, sem querer saber do humano, e então despiu a calça que vestia, ficando totalmente nu, e entrou no pequeno lago para banhar-se, o que fez com que Sirius desviasse o olhar e ficasse de costas para o outro, se sentando no chão de braços cruzados. Não que tivesse problemas em ver outro homem nu, claro que não, mas ver uma “estação” nua era outra coisa... E se ele tivesse “aquilo” diferente? Não queria passar por uma situação tão constrangedora.
Ficaram em silêncio até que Inverno finalmente saiu da piscina, uma hora depois, e voltou a se vestir, os cabelos molhados pingando no chão de neve, mas vestiu apenas a calça, jogando a túnica para o outro, que quase pegara no sono novamente.
-Vista, vai te proteger do frio.-Disse apenas, logo voltando a andar. Sirius se pôs de pé, já reclamando.
-Não preciso disso, até porque você acabou de tomar banho e deve estar precisando mais disso do que eu e...
-Sou o Inverno, não sinto frio.-Disse a estação, voltando ao mesmo lugar onde Sirius o encontrara, subindo na mesma árvore e se preparando para adormecer novamente se não fosse o olhar do humano sobre si.-O que é? Não há motivos para me olhar dessa forma.
-Você deveria ao menos me arranjar um canto pra dormir, seu idiota.-Sirius disse, apertando a túnica do outro contra si, seus olhos quase negros se estreitando por causa do frio que voltava a cair por ali.-Um canto quente.
-Não posso criar lugares quentes, não é meu domínio.-Inverno disse apenas, sentando-se melhor na árvore para fitar Sirius.-Nada que seja relacionado ao calor, não posso criar. E você não deveria ser capaz de me ver.
-Ah, me desculpe, então, sr. Inverno, mas se eu nasci anormal a culpa não é minha!-O adolescente exclamou, sentando-se no chão e apoiando as costas no tronco da árvore.-Hmph, que grande burrada, eu estaria muito melhor lá em casa, na minha verdadeira casa, tipo jogando videogames e na internet e conversando com a galera da esquina e...
-Você depende demais das coisas. Se consegue respirar só, por que não vive só? É apenas mais um humano mimado e sem qualidade algumas. Vocês são todos iguais.-Inverno disse, sempre sem qualquer emoção na fala e a voz sempre inalterada.
-Não é verdade, pelo menos não matei ninguém...
-Isso não é uma boa justificativa.
-É sim, olha, se eu matasse, eu seria uma pessoa ruim e...
-A morte não é mais nada do que uma consequência da vida. Vocês matam animais para sobreviver, isto faz de vocês pessoas ruins? Vocês, indiretamente, matam outros e a si mesmos todos os dias, isto faz de vocês pessoas ruins? A morte não tem nada de ruim nem de bom, ela é neutra e pura, como a neve. Ela vem e vai, imparável e inescapável. Não há como fugir da morte.
Sirius ergueu o olhar, encontrando a estação olhando para frente, os cabelos longos brancos caindo pelos ombros.
-E você sabe tudo sobre isso, eu suponho.-O rapaz disse, com sarcasmo.
-Sou a estação da morte. Tudo o que toco morre mais cedo. As árvores perdem as folhas, os animais adormecem e muitos simplesmente morrem. Não há estação conhecida por ser mais triste e mais mortal que a minha. Não há calor como no verão, não há cor como na primavera, nem a expectativa de mudança e renovação que o outono traz. Há apenas morte e silêncio e frio.
-Mas depois do inverno, tem a primavera e tudo fica bem... Ah, você sabe, essas coisas bem gays, não é? Tudo florido e colorido, então, significa que nem tudo no inverno morre e...
-Nem tudo, quase tudo. O que sobrevive é o mais forte e preparado.
-Cara, parece até que você se arrepende disso... De ser uma estação e tudo o mais...
-Não sinto “arrependimento”. Sentimentos geram calor, a raiva gera calor, a tristeza gera calor, a alegria gera calor, e tudo que emana calor é proibido para que eu sinta. Não sinto nada a não ser o frio. Não estou me lamentando, não posso fazer isso, conto apenas a verdade, moleque.
-Ah... Então... As outras estações existem também, é?-Sirius perguntou, desconfortável porque nem ele mesmo entendia aquela baboseira toda de sentimentos e blá blá blá.
-Sim.-Inverno respondeu apenas, os olhos fitando algum lugar no horizonte então.-Quando o inverno acabar, dormirei por nove meses até que aqui, novamente, eu acorde para comandar o inverno no mundo todo. Enquanto eu estou desperto, as outras estações dormem. Quando eu dormir, Primavera assumirá o controle, e então, quando sua estação acabar, Verão vai surgir e assim por diante.
-Ah... E eles são todos assim como você?-Sirius perguntou, curioso por saber que aquelas “coisas” existiam.
-Assim como, moleque?
-É Sirius, porra!-O rapaz exclamou, vendo que o outro ignorara prontamente a reclamação.-Assim, distantes, frios e... Diferentes.
-Como você imagina que seria a personificação da primavera?
-Ah, bem... Uma garota com peitos pequenos... Ou, melhor, bem grandes porque representa a fartura e essas coisas, né? Com os cabelos verdes ou ruivos e os olhos bem brilhantes e uma personalidade alegre e...-Foi interrompido quando já começava a se deixar levar.
-Primavera não tem peitos. Ele preferiu nascer como homem. Ele tem mamilos, se é o que você quer dizer, mas ele não é do sexo feminino. Você quer que eu o descreva para você?
-Você já broxou a coisa toda, cara...-Sirius reclamou, apoiando a cabeça no tronco da árvore e vendo que o outro pulava do galho, suavemente caindo ao seu lado.-Porra, devia ter pelo menos mentido e me deixado sonhar... E outra, você me contaria, assim, se eu pedisse?
-Você é só um mero humano e o inverno acabou de começar. Contra mim, pode nada. É o único que vê a mim e a este lugar, então se contar aos outros, será chamado de louco. Não vejo perigo em lhe contar.
-Será que é porque só eu que vejo você que você se tornou tão sociável?-Sirius perguntou, um sorriso safado no rosto.-Quer dizer, porra, deve ser chato ficar sozinho e agora eu apareço e você vem toda nessa sua carência e...
-Você quer saber ou não, moleque?
Sirius riu da frieza do noutro, afastando-se mais para que a estação sentasse (esta demorou a perceber que estava sendo convidada para sentar ao lado do humano, mas acabou se sentando). Inverno não era tão ruim assim, quer dizer, ele era frio só. Seus comentários e tudo o mais era frio, mas ele era capaz de conversar com alguém com sucesso. Vai ver que a ameaça de morte no começo fosse porque justamente ele nunca vira ou fazia muito tempo que encontrara um humano capaz de lhe ver.
-Primavera é...-Inverno começou, sua voz imutável no tom soando pelo lugar.
Notas finais
Escrevi escutando Iron Maiden, praise me now.
LIKE A BOSS ~~
Espero que tenham gostado, e té próximo sábado!
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