Corações Feridos
57 Would do anything to have you
Notas iniciais
Ela respirou fundo ao ver que Daniel já acelerava com a moto. Sentia seu coração disparar com aquela adrenalina toda. Fazia anos que não se sentava em um banco de uma moto e sentia seus cabelos se bagunçar assim. Fechou os olhos, sentindo que a moto ganhava mais velocidade. Por um instante ela voltou ao passado, lembrando das vezes que Daniel tentou convence a andar e ela sempre negou.
Ouviu um barulho alto.
Logo abriu os olhos. — Nossa! — A moto bateu em um muro, saia um pouco de fumaça no motor, mas não parecia ser algo sério. — Daniel? — Ela levantou o rosto, o virando para trás.
- Calma, isso sempre acontece.
- Sempre não. — Corrigiu. — Você não pode dirigir essa moto, está tonto! Bêbado! — ‘’Se estivesse sóbrio não ia bater...’’
- Já dirigi várias vezes e isso sempre acontece. — Deu ré, lentamente. — Você se machucou?
- Não. E você?
- Não. — Os dois não percebiam o quanto se importavam um com o outro. — Vou tentar ir devagar. Não gosto de te ver com medo. — Deu a curva, acelerava um pouco apenas para a moto ganhar ‘’forças’’ para andar.
Julie já reconhecia as ruas. Estava perto da sua casa. ‘’Ainda bem.’’ — Pensou, suspirando aliviada.
Daniel estacionou a moto na calçada. Olhava para a casa de Julie que um dia foi dos dois. Saiu de cima da moto, ignorando seus pensamentos e lembranças do passado. Pegou a mão de Juliana e a ajudou a descer também.
Caminharam até a varanda. As luzes já estavam acessas.
- Obrigada por me trazer até aqui. — Ela sorriu, achou muito gentil da parte dele. — Só que... Eu não terminei de fazer o que você me pediu no trabalho. — Disse com um pouco de remorso. ‘’ É extramamente importante, ele não vai gostar de saber que eu não cumpri com o meu trabalho. ‘’
- Não tem problema. — Balançou a cabeça.
- Ah, que bom. — Sorriu. — B-bom... É... — Não sabia o que dizer, na verdade, se sentia nervosa. Sentia-se como se Daniel fosse estranho. Estava mais nervosa do que no primeiro encontro deles. — Boa noite, preciso ir. — Abriu a porta da sala, rápidamente entrou para sua casa e fechou a porta.
Daniel ficou parado na varanda por alguns segundos, até que acordou para realidade e voltou mancando para a moto.
- Nossa... — Julie passava a mão pelo seu rosto. — Que vontade de... — ‘’Cometer uma loucura com ele.’’ Esse era seu desejo. Mas o guardava apenas nos pensamentos. — É só carência... Só isso... — Desceu a mão para o pescoço, onde ainda sentia os lábios de Daniel. — O casaco dele! — Arregalou os olhos.
Ouviu o barulho do motor da moto. ‘’Ainda dá tempo de devolver...’’ — Pensou e abriu a porta da frente, viu que Daniel já dava a curva com a moto. — Seu casaco! — Ela gritou e Daniel ouviu.
Lentamente, estacionou a moto no mesmo lugar que estava. ‘’Vem logo...’’ Julie pensava. Mas Daniel agia muito calmamente. Tirou as chaves, colocou no bolso e caminhou de um modo desanimado até a varanda.
Juliana o puxou. — Entra! — E logo os dois estavam dentro de casa. — É que está frio lá fora, não é?
- É. É o frio.
- Me desculpe, acabei esquecendo o seu casaco comigo. — Pausou. Olhando rente aos olhos lindos e castanhos do rapaz. — Pode segurar minha blusa. — Pegou a mão dele e o fez agarrar sua cintura. — É para não subir junto com o casaco. — Explicou e Daniel assentiu.
Ela levantou seus braços, puxando o casaco junto. O tirou, desmanchando o coque bagunçado que fez no cabelo. Sentiu sua cabeça mas leve com isso, já que o nó do coque a apertava. — Aqui o casaco... — O colocou em cima do ombro de Daniel. Os dois ainda se olhavam profundamente. Daniel tocou em seus cabelos negros, suas madeixas deslizavam pelos dedos dele. Ele a admirava sem disfarçar, Julie percebeu e corou. — Eu preciso dar um jeito no meu cabelo né... Tá longo... — Ainda estava nervosa com a presença dele. — Preciso aparar as pontas. Depois de tudo que aconteceu eu ando um pouco desanimada... Faz um tempão que não vou ao salão de beleza para cortar os cabelos... — Se soltou.
- Não corta não. Ele é lindo grandão assim...
- Ah, tá. — Sorriu sem graça, passando a mão pelas madeixas negras. ‘’Agora tenho certeza que vou deixar comprido’’
Daniel se sentou no sofá. — V-você... Você não vai embora?! — Ela perguntou.
- É o frio. — Ele deu um sorriso que a fez se arrepiar por inteira.
- E-eu vou subir... V-vou trocar de roupa. — Daniel assentiu. Se recostando no sofá.
Ela correu para as escadas, onde subiu apressada para o seu quarto e trancou a porta. ‘’Porque mandei ele entrar?! Isso é loucura... Ele não é um simples amigo como o Nicolas... ‘’ — Pensava, desesperada. Era um conflito entre a razão e a emoção‘’ Nunca seremos só amigos. ‘’ ‘’ Minha mãe estava certa, existe algo que vai nos ligar eternamente: O Diego.’’ — Percebeu que estava tremendo.
Foi se trocar.
Colocou uma blusa de manga, era um pouco apertada. E vestiu uma calça de moletom. Já que estava frio.
Suspirou. Abrindo a porta do quarto. Desceu as escadas e viu que Daniel assistia TV. Como se fosse a casa dele...
Ele levantou o rosto para encara-la. — Está nervosa? — Daniel perguntou com um sorriso caracteristico no rosto.
- N-não. É que você aqui...
- Pode ficar tranquila, o efeito da Vodka já passou.
Julie suspirou, se sentando ao lado dele no sofá. Isso a fez lembrar de algo importante, uma pergunta que estava engasgada na sua garganta desde a última visita de Beatriz na sua casa.
- Porque você está bebendo? — Perguntou com um tom de voz triste. Se importava com Daniel. — Você não era assim.
- Acontece que as pessoas mudam, certo? — Olhou para ela.
- Não... Mas isso não é verdade... Eu já tentei mudar muitas vezes e nunca consegui.
- É porque se você mudar não vai estar sendo você mesma.
- Daniel, isso não está certo. Precisa parar de beber.
- E porque?
- Porque você está misturando as coisas, bebida e direção é muito perigoso.
- Eu sei me cuidar. Não se preocupe. — Sorriu, tocando no seu queixo.
Os dois trocaram olhares profundos até que ele não conteve o desejo que sentia, queria ter ela em seus braços.
Daniel a abraçou. Misturando seus cabelos. Julie retribuiu o abraço um pouco depois, alisava suas costas quando Daniel deitou sua cabeça no peito dela e a respiração de ambos pesou com aquele contato. Juliana levantou a mão, a levando ao seu rosto.
- Porque esse abraço? — Perguntou lembrando do assunto de antes: Bebida e motos. — Não está se despedindo de mim, não é? Me abraçou assim... Do nada e foi... Tão triste.
- Sch... Você realmente não muda. — Pausou, tocando no seu rosto. — Só te abracei porque senti vontade.
- A-ah. — Se levantou, um pouco tímida. — Quer algo para comer? Beber? — Mudou de assunto.
- Só um pouco de água.
Ela assentiu, indo em direção a cozinha. Abriu a geladeira, pegando a água gelada da garrafa. Sentiu suas mãos trêmulas. Ainda estava nervosa com ele, aquele abraço e com a louca atração que sentia por Daniel naquela noite. ‘’Não posso pensar nele como meu ex-marido, meu ex-namorado... ex-amante. Preciso pensar nele apenas como um colega de trabalho. ‘’ — Cadê minha água? — Uma voz quente soprou nos seus ouvidos.
Julie se virou, não imaginava Daniel tão perto. Seus corpos estavam tão colados que ela até deixou o copo com água cair no chão.
Derramando a água na blusa dos dois. — D-desculpe! — Disse avoada, ambos se abaixaram ao mesmo tempo para pegar os cacos de vidro que restaram do copo. — Daniel, pelo amor de Deus sai de perto dos vidros! — Ela levantou seu rosto e percebeu o que Daniel já reparava à alguns segundos.
Suas blusas estavam coladas por causa da água. Ele reparava na blusa molhada dela, que se colava à sua pele. Revelando as curvas do seu corpo, o desenho dos seus seios...Era o que ele olhava, se sentindo completamente atraído. — Nossa... — Julie sussurrou corando, até o bico dos seus seios apareciam. Ela se sentia sem roupa na frente dele, pelo menos na parte de cima.
Levou a mão aos seus seios, tentando tampa-los. Olhou para o Daniel, torcendo mentalmente para ele não perceber o quanto seu rosto estava vermelho naquele momento. Só então Julie percebeu que ela não era a única que mostrava seu corpo. O tecido de cetín da blusa de Daniel também se colou, ele mostrava seu físico mas não se importava.
Eles suspiraram juntos. Agora a morena não tirava os olhos do peito, tórax e da barriga definida de Daniel.
Ele pegou a mão de Julie e a segurou. Balançou a cabeça, completamente enfeitiçado pelo par de seios a sua frente. Daniel só faltava babar e Julie não estava diferente.
Julie também levantou sua mão, passeando pelo tórax durinho dele. Enquanto Daniel tocava no seu pescoço, descia sua mão até chegar no seio dela. Ela sentiu o toque, fechou os olhos e sua respiração pesou. Com a outra mão, Julie tocou na sua barriga, sentindo os ‘’gominhos’’. Como ela conseguiu dispensar esse tanquinho? Estava doente!
Ele a abraçou pela cintura, levantava a blusa molhada de Juliana.
Julie deixava, até o momento que viu um anel no dedo dele. Era de prata e tinha o nome Débora.
Se soltou imediatamente. Depois de ver aquilo, não deixaria Daniel toca-lá nem para ajudar a se levantar. Seu olhar era uma mistura de raiva e tristeza. Ela apenas se levantou, cruzou os braços em cima dos seios. — Bonito anel. — Sua voz falhou, mas Daniel conseguiu entender.
O mesmo se levantou também. — Julie...
- Eu vou subir. — O cortou, saindo da cozinha.
- Espere.
- Eu preciso trocar de blusa! — Correu e subiu as escadas antes de Daniel explicar ou falar qualquer coisa que a magoasse ainda mais.
O rapaz suspirou. Depois de tudo isso já não estava mais com sede. Foi até a sala onde se sentou no mesmo sofá. Não conseguia raciocinar direito, apenas pensava na Julie...
Ela não sabia, mas com esse jeito ‘’diferente de ser’’ seduziu Daniel. Se sentia loucamente atraído por ela, tentava desviar seus pensamentos mas simplesmente não conseguia.
Passou a mão pelos cabelos, enroscando seus dedos entre os cachos. E quando levantou o rosto viu que Julie descia as escadas. Com uma blusa seca.
Seus olhos se encontraram mas a morena virou o rosto para o lado. Parou na sala, agora o olhava com reprovação. — Sua namorada não vai gostar de saber que você está aqui, vá embora.
- Foi ela mesmo que me mandou ir te buscar lá no trabalho.
Julie arregalou os olhos. ‘’ Então ele não me buscou por conta própria... ‘’ — Ela sabe que sou sua ex?
- Sabe. Eu avisei pra ela de novo, mas ela disse que não tem medo porque você já é passado. E que agora, eu sou só dela. — Se levantou.
A morena tentou disfarçar a cara emburrada. — Foi ela quem disse, não eu. — Daniel balançou a cabeça.
Julie assentiu, ainda chateada. — Débora né? — Fez uma careta, lembrando do nome pregado no anel dele. — Débora é nome de invejosa.
- Como disse?
- A-ah, n-nada. Esquece. É coisa de família. Lembra que eu tinha uma prima?
- Não lembro muito. — Voltou a se sentar novamente, afastando suas pernas e se sentando relaxado. — Conte-me mais.
- Não vou contar nada. Se você não lembra é porque nunca prestou a atenção nas coisas que eu falo.
Daniel se levantou de novo. — Quem disse? Acha que eu não presto a atenção em você é? — A olhou e sorriu torto. — Eu acho que depois da gravidez você ganhou mais corpo. — Ainda a olhava, dos pés a cabeça. Todos os detalhes.
A morena corou. — Para de me comer pelos olhos. — Sussurrou.
- Prefere a moda antiga? — Segurou sua cintura.
Julie se soltou bruscamente, deu alguns passos para trás, caindo sentada no sofá seu olhara assustado fez Danel rir fracamente da sua reação. — Vai embora agora se não eu chamo a polícia. — Estava nervosa com ele ali.
- Policia? Foi você que me convidou pra entrar.
- Agora estou convidando pra sair.
- Sair? Eu aceito o convite, vamos sair Eu já estou arrumado. Se arruma, coloca um vestido. Não precisa de muita coisa para ficar linda.
- Existe alguém mais cínico?!
- Foi você que convidou.
- Eu não convidei! — Já estava irritada. — Eu não sairia com você, do jeito como você ‘’mudou’’ deve me levar para o bar, isso sim.
- Eu me comporto. Vamos. Te levo pra onde você quiser, até pro céu eu te levo. Por favor.
Só ai Julie percebeu que Daniel estava falando sério, ele realmente queria sair com ela. Ficaram calados, se encarando. Ele estava ansioso para receber uma resposta dela quanto à isso. Juliana reparou que ele ainda olhava, sem disfarçar, para seus seios. — Vá embora! — Disse pegando uma almofada, tampando sua blusa.
Pegou o braço dele com uma certa força. Ele suspirou, não queria ir embora, queria passar a madrugada inteira com ela, só ela. Viu que já estava pelo lado de fora. Julie estava quase fechando a porta, mas ele colocou sua mão entre ela, a empurrando para frente. — Para! — A morena pediu, ainda lutando para fechar e trancar aquela porta.
- Não faz isso comigo não Julie...
- VAI PRA SUA CASA!
- Eu quero sair com você.
- Não desiste mesmo não é?!
- Não. — Com essa resposta, Julie abriu mais a porta, se colocando um pouco para fora. Ainda não estava decidida. — Se quiser... Olha o que eu faço com isso. — Tirou o anel que usava no dedo, se virou de costas para Julie e antes da mesma fazer algo para impedir… Ele jogou o anel com força para o longe, atingindo o quintal de uma casa, do outro lado da rua.
- PORQUE FEZ ISSO?! — Julie estava nervosa. — Eu... A gente... E-eu não vou sair com você e ponto! Não quero problemas com a sua noiva! — Foi rápida, bateu a porta antes de Daniel segura-lá.
Ele até tentou virar a maçaneta, mas já era tarde. Julie tinha trancado.
A mesma ficou observando pelo olho mágico, Daniel continuava parado ali. Ela viu o mesmo suspirar e abaixar a cabeça, derrotado, caminhou até a calçada onde gritou. — Tudo bem, Julie! Esquece tudo!
Ela correu para a janela, levantou as cortinas e viu Daniel subir na moto. Não estava mais bêbado, pois não se desequilibrou ao acelerar e sumir.
Julie ajeitou a cortina novamente, viu as horas. Ainda dava tempo de dormir. — Débora... — Mas não conseguia, esse nome não saia da sua cabeça.
[...]
Daniel abriu a porta da sua casa, logo encontrou sua mãe sentada no sofá. A mesma o viu ali, não conteve suas lágrimas e o abraçou. Daniel não retribuiu, estava calado, olhando para o nada.
Sua mãe passava por um momento delicado desde que Daniel sangrou naquele dia.
‘’ Ele precisa tomar cuidado, mudar a rotina... Não pode sair muito... Se possível, trabalhar em casa com alguém por perto. Até papel corta e se não tomar cuidado. Pode morrer. ‘’ Essas foras as palavras do médico, palavras que sua mãe não esqueceria por muito tempo. O médico contou isso apenas para ela. — Onde estava?!
- Eu disse que ia sair. — Se soltou.
- Querido, você está bem? — Tocou no seu rosto.
- Para com isso! Eu sei me cuidar!
- Está nervoso. — Beijou seu rosto. — O que é isso na sua mão?! — Ele tentou esconder mas sua mãe já tinha notado.
Era uma sacola com três garrafas de cerveja. — Meu filho, por favor, pare de beber.
- Me deixe. — Se afastou. — Deveria estar feliz por não ser drogas!
- O que é isso?!
Ele foi até a cozinha, não a respondeu. Apenas pegou um pouco de gelo, sua mãe observava. — Eu sirvo para você então. — Ela disse e ele suspirou mas assentiu.
Se sentou na cadeira. Abaixou a cabeça, escondendo seu rosto. Ele não conseguia parar de pensar na Julie...
- Aqui querido. Beba pouco, por favor.
Levantou o rosto. Se irritou com o que viu. — Que porra é essa?!
- Daniel se acalme.
- Porque um copo de plástico? TÁ ACHANDO QUE EU TENHO QUANTOS ANOS?!
- N-não é isso...
Ele balançou a cabeça. — Entendi. — Disse se levantando, parecia calmo.
Mas pegou o copo de plástico e jogou na pia com força, junto com a cerveja que estava no copo. melando a pia de mármore. — Quando eu começar a me importar com a droga da minha saúde eu te aviso! — Pegou duas garrafas, a outra ele deixou na geladeira. Sua mãe observava tudo. Daniel ainda fez questão de pegar um copo de vidro rachado e mostrar para a sua mãe. — Olha aqui! É assim que eu bebo!
Se passou quarenta minutos.
Sua mãe não conseguia dormir. Estava aflita com a porta do quarto de Daniel fechada. Estava um silêncio... ‘’Chorar não vai adiantar nada... Preciso fazer alguma coisa.’’ — Se levantou.
Não bateu na porta do quarto dele antes de entrar.
Abriu a porta lentamente. Viu seu filho deitado no colchão de barriga para baixo. Se aproximou, viu as duas garrafas vazias. Se agachou para pega-las junto com o copo e acabou fazendo um barulho. Marta levantou o rosto para ver se Daniel acordou com o barulho.
Sim, ele acordou.
Estava aparentemente calmo, mas sua mãe tinha medo de perguntar qualquer coisa e ele se irritar.
Tocou nos seus cachos. Daniel só respirou fundo, fechando os olhos novamente. — Filho, quer conversar?
- Quer me ajudar?
- Claro meu amor, me dói tanto te ver assim... — Controlou as lágrimas. — Me diz o que está acontecendo?
- Eu quero a Julie, só isso.
Sua mãe balançou a cabeça. — Porque não pensei antes? Julie... Então o problema é ela.
- Ela não é o problema, ela é a solução de tudo.
- Me explica melhor, o que foi que aconteceu?
- Fui bom com ela, busquei ela no trabalho, levei ela pra casa. Pedi pra ela sair comigo mas ela não aceitou. Não aceitou sair comigo. Ela nunca mais vai ser a mesma. Nunca mais vai me amar e eu vou sofrer pra sempre com isso.
- Você não vai noivar? — Passou a mão por seus cabelos. — Esquece a Julie.
- Acha que uma mulher vai me fazer esquecer o amor da minha vida? Não. Nunca. Nada e nem ninguém vai me fazer esquecer a Julie. E a tortura é ainda maior, tenho que ver ela de segunda à sábado. De dez as seis da tarde. E as vezes vejo ela na casa da Bia. Como eu vou esquecer ela assim? E ela ainda faz questão de demonstrar que é indiferente. Isso é o que me dói mais.
Aquelas palavras cortaram o coração de ambos. Marta ia aconselhar seu filho, mas quando se deu conta. Percebeu que Daniel adormeceu novamente. Ela só suspirou, beijando os cabelos dourados dele. O cobriu com um lençol fino.
Era coisa de mãe: Sofria ao ver o filho sofrer. Sofria até mais… Não aguentava ver aquela tristeza nos olhos de Daniel.
‘’ Com ela… Ele era um rapaz tão diferente, carinhoso… ‘’ — Se sentiu mais triste com esses pensamentos.
E além da tristeza. Veio a raiva. ‘’ Foi a Julie que fez isso com ele…Se separou... E dizia ama-lo...’’
Com esses pensamentos, Marta pegou o telefone. Precisava dar um basta nisso, ou ao menos tentar.
Enquanto isso… Longe dali…
Julie saiu do banho enrolada no roupão, abriu a gaveta do criado-mudo. Pegou um hidratante, passando por todo o seu corpo. Soltou seus cabelos, os escovando levemente. Esse era seu ‘’ritual de higiene’’ antes de dormir. Se trocou, colocando uma camisola de seda. — Huh. — Se viu no espelho: Daniel tinha razão, depois da gravidez seu corpo mudou um pouco.
Ia se analisar melhor, mas seu telefone tocou.
E como ela tinha dois telefones: Um no quarto e outro na sala, Julie atendeu no quarto, claro.
Antes de dizer qualquer coisa. Ouviu a voz do outro lado da linha. — Você está matando o meu filho.
- O QUE? — Se espantou. — Quem é você? Quem está falando?!
- Sua ex-sogra!
- Ah. — Suspirou, mais calma. — Boa… Madrugada dona Marta.
- Não me venha com falsidades!
- Oi?
- E eu já gostei de você um dia, achei que fosse uma boa pessoa…
- O que a senhora está falando?
- Estou falando do meu filho! PARECE QUE VOCÊ QUER VER ELE SOFRER!
- Olha, e-eu… Não é verdade. Tá bom? — Respirou fundo. — Eu não quero discutir com a senhora.
- Não estou discutindo com você, Juliana. Apenas estou falando a verdade. A mais pura verdade. Você é uma pessoa cruel e fria. As vezes penso que você só entrou na vida dele para ele sofrer, parece que é um castigo!
Julie ouvia, calada. Sua sogra nunca discutiu com ela. Nunca. Essa era a primeira vez e suas palavras eram fortes e pesadas. — Toda a vez que o meu filho vai beber é porque você está nos pensamentos dele. Ele está se acabando, ele está morrendo por sua culpa. E o que você faz? Nada. Só assiste. Fica só na plateia, observando tudo.
- Por favor…
- Por favor digo eu! Você é sádica, garota. — As lágrimas desciam pelo rosto de Julie. — Já se separou dele, agora suma da vida do Daniel de uma vez! — Pausou. — Sabe o que eu acho? Que você só aceitou esse emprego para…
- Para não passar o tempo todo em casa pensando no meu filho. Olha senhora, se eu não amasse o Daniel não teria me casado e não teria um filho com ele…
Sua ex sogra interrompeu. — Mas ele morreu, não é? E você ainda tem coragem de colocar a culpa da morte do neném no MEU FILHO!
- Daniel esqueceu o neném dentro do carro.
- Isso porque você não quis levar o bebê, certo? Se você levasse… O Diego ainda estaria vivo!
- Era uma entrevista de emprego! Não podia!
- Ele se sente culpado por causa disso. Porque você colocou na mente dele que ele matou o próprio filho!
- Não era a minha intensão.
- E qual era a sua intensão? Destruir a vida do Daniel?!
- Jamais destruiria a vida do homem que amei.
- Então o que ainda quer dele, Juliana?! Porque está torturando ele assim?! Não percebe o quanto é decepcionante para ele te ver todos os dias no trabalho?! Você só está nesse emprego para tortura-lo. Pode admitir!
- E-eu já te disse que só aceitei o emprego para… N-eão pensar muito no meu filho… E… Até pra passar mais tempo... com ele…Com o Daniel. — Ela já não disfarçava o choro.
- Mas nunca que eu vou acreditar nisso, Juliana. Percebi que o que você quer mesmo é que ele MORRA!
- N-não…
- Eu vou te pedir mais uma vez. Saia da vida dele!
Julie balançou a cabeça. — Pode deixar senhora. — As lágrimas não deixavam de cair. Já desciam pelo pescoço, molhando sua camisola. — Eu vou sumir da vida dele, definitivamente.
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