Corações Feridos
73 Time flies
Notas iniciais
Julie observava a enfermeira limpar a agulha na sua frente, Julie pediu isso. Queria ver se tudo estava muito bem higienizado antes de mais nada. A enfermeira balançou o vidrinho, furando o mesmo com o calmante que contia. Julie fechou os olhos, respirou fundo, detestava agulhas, injeções e entre outras coisas.
Tanto que precisou tomar um calmante injetado antes de doar sangue. Meio litro.
A enfermeira deitou a agulha perto de sua veia depois de limpar o local com um algodão com álcool. Olhou para Julie. A mesma fechou os olhos e assentiu.
E a agulha entrou, espetando sua pele. Seus batimentos cardíacos se acalmaram na hora, Julie se sentia tonta, completamente dopada.
Chegou a deitar sua cabeça, apoiando a mesma no próprio ombro. Conseguiu ver a enfermeira colocando o algodão sobre marca da agulha, saia um pouco de sangue. Ela caminhou até uma mesinha onde trocou de agulha. Julie arregalou os olhos quando viu que a agulha tinha o dobro de tamanho da anterior.
Ela fez todos os procedimentos, limpou com álcool. Se aproximou de Juliana, dessa vez, no outro braço, o limpou com um algodão molhado com álcool. Deitou a agulha e apesar de se sentir dopada, ela sentiu dor quando a agulha entrou. A enfermeira puxava seu sangue. Julie assistia, se sentindo ainda mais tonta, não gostava de ver seu próprio sangue saindo de si, sempre passava mal.
A tortura demorou uns cinco minutos, porém, quando terminou, lá estava seus meio litro de sangue dentro de um tipo de bolsa feita de um plástico grosso, enrolada com um cordão feito de borracha.
– É melhor comer alguma coisa para não se sentir fraca. — Por fim a enfermeira falou, abriu a pequena geladeira do quarto. Lhe deu um suco de caixinha sabor laranja e um sanduíche, Julie não estava com muita fome, mas se sentia tonta, então precisou comer.
Ela assistia a enfermeira pendurar a bolsa, subistituindo a bolsa de soro que Daniel tomava. A enfermeira colocou tudo certinho e Daniel já recebia sangue. Julie sorriu. ‘’ Quando ele acordar vou fazer questão de dizer para ele que doei sangue.’’ Pensava. — Quando ele vai acordar?
A enfermeira apenas olhou para Julie com uma expressão estranha. — … — Não respondeu, apenas saiu.
– Nossa… — Julie sussurrou se levantando, na hora sentiu tudo girando e precisou segurar no braço da cama de Daniel. — Acorda, por favor. — Ela alisou seus cabelos, se aproximou e beijou sua testa.
Julie achava que o sangue era tudo que Daniel precisava, mas não era bem assim. Ele não ia acordar de um dia pro outro só porque recebeu meio litro de sangue. — Filho! — Ouvi-se um grito e a porta se abre.
Novamente as duas se encontraram, e depois da conversa que Julie teve com a mãe de Daniel no corredor, elas pararam de discutir. Aliais, não se encontraram mais. — Hm, chegou cedo. — Marta comenta um pouco seca.
– Vim doar sangue pra ele. — Julie responde ainda brincando com os seus cabelos.
– É o mínimo que poderia fazer depois de tudo o que causou. — Mas ela não dava o braço à torcer, quando zangada era tão orgulhosa quanto o filho.
Julie suspirou, não queria discutir. Apenas beijou o rosto de Daniel. — Eu vou para casa. — Ela anunciou para ele e Marta agradeceu mentalmente por isso. — Te vejo amanhã.
[...]
Duas semanas depois, Juliana se sentia triste, sem forças. Daniel, mesmo recebendo sangue, não reagiu e Julie não esperava aquilo. Ela acreditava mesmo que ele só precisava de sangue para acordar. Ela estava desanimada, acordava assim todas as manhãs. Mas apesar de desanimada, nunca deixou de visita-lo nem por um dia.
Naquela manhã, Nicolas acorda recebendo uma ligação. A voz feminina lhe dizia para ir ver Juliana, passar mais tempo com ela, só para ela esquecer um pouco o Daniel, que estava internado no hospital.
– É você Thalita? — Nicolas pergunta sem esconder sua curiosidade.
– É a sua chance de conseguir conquistar a Julie, estou cansada de ver ela com o Daniel.
– Mas eu não gosto da Julie. — Ele sempre dizia isso. — Somos amigos. Ela não me ama, não sente nada por mim. Da última vez que nos vimos ela me chamou pra sair e depois desmarcou. — Pausou. — Quem é?
– …
– Thalita, isso não tem graça. Não acredito que uma mulher linda como você ainda pensa em conquistar o Daniel. Ele é cego de amor pela Julie e está entre a vida e a morte, deixa o cara!
– Ela está indo ao hospital, ela vai lá todas as manhãs para conversar com ele.
– Mas ele não está em coma?
– Ela anda muito triste, você poderia consolar…
– Eu não sei quem está falando. É dificil conseguir conquistar a Julie. — ‘’Não sei como o Daniel fez isso...’’ — Não consigo, não adianta tentar! — Balançou a cabeça.
– Você só não conseguia porque o Daniel estava no seu caminho, agora não tem ninguém para atrapalhar.
– Thalita, é você? — Ele fez uma careta.
Mas a mulher do outro lado da linha desligou. Nicolas colocou o telefone no gancho. Ficou sentado na cama, só ele e seus pensamentos. ‘’ É verdade, agora o Daniel não está no meu caminho. ‘’ — Ele sorriu com isso, porém, seu sorriso se desfez. ‘’ Porque a Thalita ainda pensa nele? É… Parece que ela ama mesmo o Daniel, é obcecada. ‘’
[...]
– Dizem que quando alguém está em coma, ela costuma ter muitos sonhos. Você sonha comigo? — Julie perguntou beijando sua mão. Mesmo se sentindo triste, ela tentava esconder essa tristeza dele. Continuava conversando com Daniel, na esperança de que algum dia ele possa lhe responder. Foi assim durante esses dias. — Te trouxe uma foto. — Ela tirou a foto 3x4 do bolso.
Se levantou e colocou a foto na sua mão, entre seus dedos. Era Diego. — Quero tanto que você acorde Dan… — Alisou seu rosto. — Eu… — Suspirou. — Já perdi o bebê, já foi muito dificil para mim. Se perder você eu não sei o que eu faço. Vou ficar sem chão. Eu… Vou morrer junto. — Uma lágrima escapou caindo sobre a foto e escorrendo na mão de Daniel. — Meu amor, quero que você fique bem. — Beijou seu rosto. Ela acabou sorrindo. — Quando você acordar e ver o filho da Bia, vai achar ele muito parecido com o nosso, parece de mais! É muito lindo! — Balançou a cabeça. — É melhor eu guardar essa foto… — Sussurrou.
Puxou a foto de Diego que estava entre os dedos de Daniel. Porém, se surpreendeu quando viu que Daniel mexeu seu dedo indicador.
– Está reagindo… — Sorriu, seus olhos brilhavam. — Dan, acorda!
Ele ainda mexia fracamente o dedo indicador. Julie continuava encantada com isso.
Até que ele parou. — Não… — Ela sussurra, o brilho de seus olhos se apagaram. — Está me ouvindo? — Alisou seu braço. — Eu estou aqui. Se… Estiver me ouvindo mexe o seu dedo de novo, por favor… Por favor…
Ela deixou de pedir quando viu que Daniel já não se mexia mais. Porém, ela continuou olhando para sua mão. — Mexe seu dedo, por favor…
E para sua surpresa.
Daniel mexeu de novo. Ela sorriu. Ele mexia apenas o indicador. Mas isso já era o suficiente para deixar Juliana alegre o dia inteiro.
Ela precisava contar isso para alguém, dizer que Daniel estava reagindo!
A porta do hospital se abre, Julie arregalou os olhos. — Nicolas! — Ela corre para abraça-lo, sua felicidade era grande ao ver que o amor de sua vida estava ‘’melhorando’’.
– Ah Juh… — Nicolas a abraçou também, envolvendo seus braços na sua cintura.
Daniel parou de reagir.
– Sentiu minha falta? — Ele pergunta beijando seu rosto.
Julie se afasta corando. — O Daniel está melhorando! — Ela explica. — Ele mexeu os dedos das mãos, eu vi! Ele nunca tinha mexido! — Seu sorriso não cabia no rosto. Julie estava encantada.
– Ah, claro. — Nicolas fez uma careta, foi se aproximando. — Nossa, como ele é pálido! Tem certeza que ele está melhorando?
– Tenho! Tenho sim! — Foi se acalmando, agora pensativa, olhou para Daniel. — Nicolas, é melhor você ir. Ele não gosta de você, ele pode piorar.
– Que loucura! Ele está em coma, não sente nada! Não consegue se comunicar com ninguém, não escuta! Está vegetando!
– Para! Não está! Vai… — Empurrou o moreno. — Vai embora, se você veio aqui para me deixar triste então é melhor ir…
– Não Juh, me perdoa. — Ele segurou suas mãos. — Vim aqui para te ver e… Ver ele também. — Mentiu. — Eu sempre visitava ele enquanto você estava na Noruega. — Mentiu de novo. — Ah, ele era um cara legal…
– Não diga ‘’era’’. Não coloca no passado. — Se soltou. — Diz como se ele estivesse morto.
– Mas está quase. — Nicolas corrigiu. — Vamos tomar um café. — Segurou seu braço mas Julie tratou de se soltar na hora.
– Não vou sair daqui, vou ficar com o Daniel. — Foi direta.
– Tudo bem. — Suspirou, era difícil fazer Juliana se esquecer, pelo menos um pouco, dele. — Quer que eu te traga alguma coisa?
– Ah. — Sorriu. — Quero, me traga alguns biscoitos. Obrigada. — Nicolas assentiu e saiu.
Ela se sentou no banco, percebeu que Daniel ainda mexia o dedo. — Você está melhorando, isso é tão bom… Não vejo a hora de te ver com os olhos bem abertos. — Ela se aproximou, esfregando seus narizes, estava tão feliz… Queria beija-lo, mas sabia que não podia.
Continuou com o rosto próximo, esfregava seus narizes enquanto alisava sua bochecha.
– Desculpe. — O médico entrou. Julie se afastou corando. — Não queria interromper. — Brincou.
– Não… É… Tá tudo bem. — Abaixou a cabeça tímida. — O Daniel está reagindo!
– Está?! — Foi a vez do médico ficar surpreso, ele olhou para os aparelhos. — Tem certeza? Se ele reagisse mesmo esse aparelho ia apitar.
– A-ah… Sim… Olha! — Apontou para a mão dele. O médico viu que o dedo indicador se mexia sem parar. Julie sorria, já o doutor só observava sério. — Ele está mexendo o dedo, daqui a pouco mexe a mão, depois o resto do corpo! Ai acorda!
– Não. — Ele balançou a cabeça. — Infelizmente isso não é nada.
Julie desfez o sorriso. — O que? — Sussurrou.
– Se chama espasmos musculares. — Explicou. — Perceba que ele mexe apenas esse dedo. Para um pouco e depois volta a mexer. O mesmo movimento, para cima e para baixo, sempre.
– Mas… Não… Eu falei, eu pedi para ele mexer o dedo se estivesse me ouvindo e ele mexeu.
– Foi apenas por acaso. Isso é involuntário.
– Não pode ser… — Abaixou a cabeça. — Quando ele vai acordar doutor?! — Seus olhos se enxeram de lágrimas, suas esperanças se acabaram por meio de segundos.
– Ninguém sabe. — Balançou a cabeça. — Até agora ele não teve nenhuma reação que me impressionou.
– O que quer dizer?
Dessa vez o médico não respondeu. Apenas voltou seu olhar para ela. Julie entendeu a expressão triste dele. Ela abaixou a cabeça, brincando com os próprios dedos. Controlava suas lágrimas.
Ela começou. Era pessimista e o médico ajudava também. — Então está querendo dizer que…Talvez ele não acorde? Porque… Eu… Doei sangue para ele há duas semanas… Ele ainda não reagiu, não acordou…
– Pois é. — O senhor concorda. — Não quero tirar sua esperança, mas ele já está há quase sete meses aqui. — Suspirou. — E até agora não reagiu.
– Entendi. — Ela o cortou, não queria escutar mais nada.
O médico saiu segurando uma prancheta com alguns exames de Daniel. Ela ficou calada, ainda de cabeça baixa, dessa vez não tinha coragem nem de olhar para ele. Seu maior medo era acordar no dia seguinte e descobrir que não o encontraria mais aqui e nem em lugar nenhum.
Suas paranóias começaram a surgir, dessa vez com mais intensidade. Julie voltou ao assunto de semanas atrás… Agora pensava nas palavras da mãe de Daniel, se sentia culpada com o que aconteceu. Com esse acidente, é lógico que Daniel bebeu só porque pensava nela.
Julie se levantou, não se sentia muito bem, uma grande tristeza invadiu seu peito. Era a mesma sensação de quando o seu filho morreu, ela secou suas lágrimas e sem olhar para Daniel, pegou sua bolsa e deixou um pequeno buquê de Acácias em cima da sua cama.
Ela entendia o significado de todas as flores. E Juliana sabia muito bem que essa flor, quando em forma de buquê significava uma prova de amor da pessoa quem as envia.
Julie deixou o quarto sem se despedir dele, como sempre fazia. Ela sempre sussurrava ‘’te vejo amanhã’’ depois de beijar seu rosto.
Ia sair quando Nicolas aparece segurando um pote de cookies bem docinhos, Julie adorava cookies. — Obrigada. — Ela deu um sorriso amarelo, Nicolas logo estranhou pois quando chegou ela estava bem mais animada. — Eu… Perdi a fome. — Respondeu passando por ele.
O moreno olha para a cama de Daniel com indiferença. Nota o buquê. Dá uma rápida olhada para trás antes de se aproximar da cama dele.
Nicolas sabia que foi Julie quem deixou as flores ali, afinal, ela era a única que estava naquele quarto.
Ele deixa o pote com os biscoitos em cima de uma badeija de plástico cinza.
Pega o buquê com as mãos. Com todo o cuidado para não deixar nenhuma pétala cair. Se vira e acaba encontrando o que procurava: Uma lixeira.
Era grande. Ele abriu, amassou as flores e jogou ali.
Se virou para Daniel que continuava imóvel, adormecido. Deu um sorriso vingativo e passou pela porta.
~ UM ANO DEPOIS ~
Julie acorda depois de uma noite frustrada. Olha para janela, ainda deitada no colchão macio, sente os primeiros raios de luz passando pela sua cortina de seda. Ela sabia que eram seis horas. Costumava acordar as seis e cinco, mas hoje se sentia um pouco diferente.
Daniel continuava no hospital, mesmo depois de Julie doar sangue para ele.
Sim, ele ainda não reagia. E isso era o que deixava Julie depressiva, ela estava doente, assim como no acidente do seu filho. Julie passava o dia inteiro dentro de casa, trancada no quarto, emagreceu quase dez quilos.
Já não o visitava no hospital, e isso contribuiu para que o estado de Daniel continuasse o mesmo. Parou pois no dia seguinte, quando chegou no hospital, não encontrou mais o buquê que deixou com ele. Achou que aquele era um sinal para esquece-lo de vez. Afinal, mesmo depois de tudo Daniel não melhorou.
– Filha, trouxe seu café. — Heloísa abriu a porta do quarto, suspirou quando viu sua filha deitada, observando teto, como sempre faz. — Vamos abrir essa cortina… Deixar a luz do Sol entrar.
– Eu quero ficar sozinha. — Resmungou.
– Não, nada disso. Vem… — Ela puxou o braço fino de sua filha. — Nossa Julie. — Se espantou, não fazia ideia de que Juliana estava tão fraca. — Assim vai acabar sumindo de tanta magreza!
– Para. — Fez uma careta. — Não estou tão ruim assim…
– Então pra melhorar você vai comer um pouquinho. — Sua mãe colocou a bandeja em cima das suas coxas.
Julie olhou para o café, os pães, a Nutella, o mamão e o suco de laranja sem muito apetite. Mas sabia que sua mãe estava certa e precisava se alimentar. Ela pegou a faca, passou a Nutella no pão. Acabou lembrando de anos atrás… Quando Daniel lhe trouxe café da manhã na cama, havia pão com Nutella.
Começou a chorar, o que assustou sua mãe que ajeitava a cortina, Heloísa se virou para Julie. A via chorar de soluçar, apenas se aproximou e tocou no seu ombro, isso foi o suficiente para Juliana começar a falar. — A exatamente um ano eu entrei no quarto do Daniel e vi que as flores que deixei pra ele na noite passada sumiram! O médico disse que não viu mais ninguém entrando no quarto a não ser ele, e ele garantiu que não pegou em buquê nenhum mãe! — Levou suas duas mãos ao rosto, ela balançava seus ombros, ainda chorando. — Isso é um sinal de que o Daniel não vai sair dessa!
– Sch! Julie! Pare com isso, por favor! É claro que vai!
– Vai? Tem certeza? Já se passou um ano! — Se lamentava.
– Tudo bem. — Ela se sentou no colchão. — Quem estava com você a exatos um ano? Lá no hospital?
– Hm. — Parou de chorar por um instante. Ficou pensativa. — O Daniel. — Disse o obvio. — E… O Nicolas!
– Vai ver o Nicolas jogou no lixo. — Sua mãe balançou os ombros.
– Não… Ele não seria capaz disso… Seria?
– Bom. — Heloísa se levantou, deixando Julie responder a si mesma. — Eu vou descer para arrumar a cozinha, fiz uma bagunça lá… — Pausou. — Come tudo! Fiz com muito carinho… — Ia passando mas parou. — Ah! Beatriz ligou a pouco tempo, disse que viria aqui. — Julie suspirou desanimada com a noticia. — Pare Julie, faz dois meses que você não vê ela.
– Eu não quero ver ninguém. — Deitou-se e escondeu seu rosto com o travesseiro. — Quero ficar sozinha. — Sua mãe ouviu Julie falar, mas não entendeu direito já que sua voz estava abafada.
Juliana só viu sua mãe descendo as escadas, ela fechou os olhos e adormeceu ali. Mais uma vez, sem tomar seu café da manhã.
Depois da ligação que Nicolas recebeu. Ele descobriu que quem ligava era a antiga sogra de Julie, os dois conversaram e tempos depois, Nicolas desistiu de conquistar Juliana. Afinal, a mesma se afastou de Daniel (E isso era o que a mãe dele queria) e consequentemente, Nicolas e Julie pararam de se ver.
Mas sim, ele ainda era muito apaixonado por Julie. Há duas semanas atrás, ficou sabendo do estado emocional de Julie por sua colega, Thalita. A mesma se divertia ao ver o sofrimento da antiga rival do colégio. ‘’Já me fez sofrer muito, agora é sua vez.’’ — Thalita pensava.
– Julie. — Bia balançou a amiga.
Juliana abriu seus olhos aos poucos. Mesmo com a visão embaçada, conseguiu enxergar Beatriz segurando seu bebê que já completara um ano e alguns meses no colo. — Ah, pensei que não ia acordar! Estava com um sono tão profundo! — Bia reclamou. — Tudo bem?
– Ah. Vou indo… — Julie fez uma careta. — Desculpe. Acabei pegando no sono. Eu não faço mais nada a não ser acordar e dormir de novo.
– Tá que nem o Daniel.
– O Daniel acordou?! — Julie se levantou surpresa. Estava ansiosa por esse momento. Todos os dias acordava pensando nisso.
– Não! E-eu quis dizer… Que… Na parte de dormir o tempo todo, você… Está parecida com ele.
– Ah. — Julie suspirou se sentando novamente, passou a mão por seus cabelos, sentindo uma leve dor de cabeça. — E essa coisa linda? — Levantou seu rosto e encarou o bebê.
– Coisa linda e gorda. — Bia completa brincando com seu filho, já estava grandinho mas ainda não sabia andar e falar. — Está super enjoado. — Avisou assim que Julie levantou os braços para pegar Bryan. — Os dentes estão começando a incomodar, hoje nem dormi direito, ele passou a noite inteira com febre.
– Sei como é. — Disse pegando Bryan. Se arrepiou. Ele continuava parecido com Diego, só que com o cabelo mais escuro. Criava alguns cachos pretos, sua pele era da cor da pele de Bia, apenas um pouco mais morena que Daniel, porém, não fazia tanta diferença. Ela beijava o rostinho do bebê pensando por alguns segundos que segurava seu filho, enquanto o mesmo mordia fracamente os cabelos de Julie, que batiam quase na cintura. — Já passei por isso, o Diego também começou a ficar assim por causa dos dentes, me deu um trabalhão. Ele vai ficar com enjoo e mais febre. Tem que cuidar muito bem.
– Acha que eu não sei? Ele é meu segundo filho. — Relembrou.
– Ah, é. Nossa… — Balançou a cabeça. — Ando tão aérea… Eu acabo esquecendo as coisas, me desculpe.
– Não tem nada Julie, sei como você está se sentindo mas não pode ficar triste o tempo todo.
– Estou triste há mais de um ano Bia! — Devolveu o bebê e puxou os cabelos que estavam na sua boca. — Não aguento mais essa situação!
– Você precisa sair um pouco amiga, é por isso que vim aqui! — Bia sorriu, queria anima-la. — Se arruma, vamos dar uma passada no shopping e depois no salão de beleza. Você vai cortar esse cabelo, está enorme!
– Não… Bia… Não to afim. — Se jogou na cama depois de prender o cabelo com um coque mal feito. — Não vou sair do quarto.
– Vai Julie, por favor! — Mesmo insistindo, Julie não cedeu, ela pediu mais algumas vezes, mas viu que não ia adiantar. Bia suspirou. — Tá bom. — Acabou desistindo. — Eu vou visitar o Daniel. Você vem?
– Sabe que não. — Abaixou a cabeça. — Eu não tenho mais coragem de ir ver ele.
– Porque você sempre diz isso? — Bia bateu o pé no chão. — Sabe Julie, quando você ficava lá com ele eu sentia que ele melhorava… Porque você não tem mais coragem? — Questionava. — Que medo é esse?
– Ah. — Limpou as lágrimas. — Eu não consigo mais, tenho medo de chegar lá e não encontrar mais ele… — Suspirou. — Em outras palavras. Tenho medo dele morrer!
– Mas você tem cada pensamento! — Reclamou. — Mas se você não quer ir, eu não vou mais insistir, estou sempre te ligando, perguntando se quer visitar o meu irmão, mas você sempre dá a mesma resposta, um belo não! E-eu… Não vou te perguntar mais! Pronto! — Já ia passando pelo quarto, quando parou perto da porta. Ainda segurando o bebê. — Quer que eu dê algum recado pra ele? — Ela sempre perguntava isso também.
– Quero. — E Julie dava a mesma resposta. — Diz pra ele que… Eu amo ele.
Bia fechou os olhos e suspirou. Assentiu com a cabeça. — Tudo bem. Eu dou o recado. — Todos viam que Julie estava triste.
E nada a animava.
Quando levantou a cabeça de novo viu que Beatriz já não estava mais ali. Julie respirou fundo. Sabia que aquele simples recado não era o suficiente para expressar tudo o que sentia por ele, mas Julie não podia pedir para Bia dizer, ela mesmo tinha que ir pessoalmente. Ela mesma tinha que provar o seu amor.
Achava que aquele buquê de flores e sua visita ao hospital eram o suficiente, pelo menos por enquanto. Mas depois que o buquê sumiu, ela percebeu que estava enganada. Seu defeito era que ela pensava que tudo era um sinal ruim… Tinha medo de tudo.
Deitou na cama novamente. — Eu juro… Se você acordar algum dia… Eu vou cuidar de você, cuidar muito. E mostrar o quanto eu te amo. — Fechou os olhos. Ficou assim por um tempo até que pensou direito nas palavras de sua mãe.
Pegou o celular que estava jogado no colchão, resolveu fazer uma ligação importante.
– Alô? — Não demorou muito para a voz grossa e sonolenta atender.
– Nicolas? — Julie suspirou. — Preciso falar com você. É importante. — Estava séria.
Ele bocejou. — Claro. O que é?
– Hoje é dia nove de maio.
– Ah, sim! — Ele sorriu. — Daqui a três dias é seu aniversário.
Julie balançou a cabeça. — Não é sobre isso. — Lembrou que além do seu aniversário, seria seu aniversário de casamento também. — Eu quero te perguntar se você lembra o que aconteceu a… Um ano atrás?
– Um ano? — Fez uma careta. — Não faço ideia.
– Um ano e…talvez, nove horas atrás. Tem certeza, não lembra?
– Não. Eu acho. Você lembra?
– Sim! Eu e você.
– Hm. — Sorriu. — O que tem nós dois?
– No hospital com o Daniel. — Julie disse e seu sorriso desapareceu.
– Aham. — Respondeu seco. — Daniel, sei.
– Lembra o que aconteceu lá?
– Julie, eu não lembro nem da minha janta na noite passada.
– Credo Nicolas, tá com problema de amnésia?!
– Poxa, você me acorda pra perguntar o que aconteceu há um ano e nove horas atrás!
– Acácias!
– Quem é esse homem?
Julie revirou os olhos. — São flores! Eu me lembro que quando estávamos lá no hospital com o Daniel, no dia nove de maio do ano passado, eu coloquei um buquê de flores em cima da cama dele. — Nicolas estava calado, começava a se recordar. — E no dia seguinte, elas sumiram! E… Eu me lembro que você entrou no quarto. Certo?
– É. — Ele concordou. — Eu entrei… — Fez uma pausa, Julie também estava calada. Ele não conseguia mentir para ela. — Eu vi o buquê Julie, me desculpe.
– Porque está se desculpando?
Ele suspira. — Porque… Ele… O Daniel, mesmo em coma consegue ganhar o seu amor e eu, aqui, com saúde… Não consigo. — Julie continuou calada. — Senti muita raiva quando vi as flores, eu não pensei direito, eu só peguei o buquê e joguei no lixo.
– Como pode fazer isso?! — Se irritou. — Porque fez isso?! — Seus olhos se enxeram de lágrimas, não esperava isso dele.
– Eu já disse! Eu não pensei direito Juh… Estava com ciúmes, me perd… — Julie desligou o celular antes de Nicolas terminar a frase.
Bia estacionou seu carro, pegou o bebê que agora chorava no seu colo. Estava um pouco irritada com o choro, já tentou de tudo para fazer seu filho dormir, mas ele continuava enjoado. Ela segurava uma bolsa pesada nos ombros, levava fraudas, brinquedos, chupetas…
Chegou no hospital, subiu de elevador. Algumas pessoas que estavam ao seu lado reclamavam em sussurro com o choro do bebê. Ela apenas revirou os olhos, faltava pouco para não perder a paciência e bater boca com essa gente no elevador.
Por fim, entrou no quarto de Daniel. A raiva se transformou em tristeza ao ver que seu irmão ainda dormia. Se aproximou do rapaz enquanto seu filho mordia fracamente o seu ombro, ainda no colo. — Daniel, eu cheguei. — Ela sorriu fracamente. — A Julie mandou dizer que… — E Beatriz foi interrompida por um brinquedo de borracha que se chocou com força no rosto do seu irmão. Fez com que a cabeça dele virasse para o lado, mesmo adormecido. — Bryan! — Ela gritou e o bebê voltou a chorar. — Não é possível… Que coisa feia! — Colocou o bebê no chão. Além de enjoado ele estava esperto.
Engatinhou até o sofá, conseguiu ficar de pé.
Bia pegou o brinquedo de borracha que até agora estava nas mãos do bebê. Deixou de vigia-lo por alguns segundos para beijar o rosto do irmão. — O seu sobrinho está uma peste, igual você quando era pequeno. — Se virou. — Não! Você vai cair! — Ela correu e pegou o bebê. — Eu vou ligar para o Félix, assim não dá. — Murmurou irritada, pegou o celular. Discou os números enquanto o bebê tentava pegar o telefone de suas mãos. — Ah! — Se virou para a cama. — Dani, estive com a Juile hoje. Ela me pediu pra te mandar um recado, falou que te ama. — Sorriu e disse antes de colocar o telefone no ouvido. — Alô? Félix? — Ela caminhou até a porta. — Você precisa vir aqui, vem buscar seu filho! Acredita que ele jogou um brinquedo de borracha no rosto do Daniel?! — Beatriz saiu.
Ficou alguns minutos lá fora, conversava no corredor pois dentro do quarto a ligação picotava um pouco.
No quarto, Daniel continuava adormecido quando seus olhos começaram a se abrir aos poucos, estava atordoado, não conhecia aquele lugar branco. Virou seu rosto, precisou piscar algumas vezes para conseguir enxergar melhor. Sentia uma forte dor na cabeça. Ele tentava falar, mas não conseguia.
Só ouvia um ‘’bip’’ alto que vinha de um aparelho ligado na sua cabeça, entre seus cabelos. Queria perguntar onde estava e porque estava ali. Ele tinha uma leve certeza de que era um hospital, mas ainda estava com medo. Estava sonolento, não conseguia se mexer direito, a não ser a cabeça. Ele olhou para os lados, avistou uma bolsa aberta, alguns brinquedos de borracha no chão, estranhou aquilo.
Se lembrava apenas que ouviu uma voz dizer que Julie o amava. Ele conseguiu sorrir com isso, ainda se perguntando se isso foi um sonho ou não. Ele também queria saber onde estava.
Daniel conseguiu mexer suas mãos.
Ele segurou o braço da cama. Queria se sentar e foi isso que fez.
Mas sentiu uma dor insuportável na costela. Ele fechou os olhos, gemeu com a dor. Sentia que uma de suas costelas estava quebrada. — A-algu-ém me a-a-juda. — Implorou, sua voz estava fraca, saiu mais baixa que um sussurro, sua garganta arranhou com aquela simples frase, sentia uma grande vontade de beber água para molhar a garganta, porém, tentou se deitar de novo. E conseguiu.
Levou suas duas mãos para a costela esquerda. — P-po-r fav-or m-me aj-ud-em. — Suplicava, já não aguentava a dor.
Fechou os olhos involuntariamente, estava fraco e não suportou a dor.
Acabou desmaiando.
Quinze minutos depois, Beatriz voltou para o quarto, já não estava com o bebê pois Félix veio busca-lo.
Revirou os olhos ao ver Daniel na mesma.
Estranhou sua mão estar em cima da costela. — Hm. — Ajeitou, a colocando em cima da barriga.
Se sentou no banquinho. Respirou fundo. — Huh. — A posição de Daniel estava um pouco estranha, Beatriz chegou a pensar que alguém entrou no quarto e mexeu com ele. Balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos loucos. — Não sou a Julie pra pensar assim. — Sussurrou, ainda olhando para o irmão. — Ah, Daniel… Acorda… — Pediu, mas sabia que era em vão.
O que ela não sabia é que Daniel tinha acordado, agora estava apenas desmaiado por falta de força e pela anestesia que tomou para aliviar a dor na perna, que havia fraturado
Bia abaixou a cabeça, apoiando seus cotovelos no braço da cama e sua cabeça no seu braço. Ficou assim por um tempo, enquanto enroscava seus negros cachos com os dedos.
– Beatriz… — Daniel acordou, porém, continuava sonolento e ainda sentia a dor nas costelas. — Beatriz… — Chamou de novo, só que sua voz estava tão gasta e rouca que ninguém conseguia ouvir. — Beatriz, p-por f-avor. M-m-e aj-uda… Si-nt-o muit-a do-r. — Ele fechou os olhos, sem forças. — A-j-ud-a… — Precisou esticar seu braço, abriu os olhos, sentindo os mesmos marejados, ele chorava de dor. Esticando o braço sentia mais dor ainda. — Bia… — Por fim conseguiu cutucar o braço da irmã.
Ela levanta o rosto, também estava chorando quando se virou e viu seu irmão. — Daniel! — Ela gritou surpresa, agora as lágrimas que desciam eram lágrimas de alegria. — Não acredito! Você acordou! — Tocou no seu rosto, ele tentava entender o motivo da felicidade de sua irmã, não tinha noção do que estava acontecendo.
Ele sorriu. — E-eu sin-to… — Tinha dificuldade de falar, porém, Bia o ouvia atentamente.
– O que você sente?
– Mu-it-a dor na, co-stel-a. — Pausou. — On-de es-tou? Po-rque es-tou com dor?
– Está no hospital. E-eu… Vou chamar o médico.
– Hospital? — Não entendia. — N-ão. — Segurou o braço da irmã, fez uma careta de dor, Bia se soltou e deitou Daniel para ele se acomodar melhor. — N-ão va-i…E-eu… Não s-ei s-e est-ava s-onh-an-do. Ou-vi uma vo-z, muit-o parec-id-a com a s-sua, d-izer pra m-im que… — Bia sorria enquanto seu irmão falava. — A Ju-lie me am-ava.
– Não era um sonho. — Daniel sorriu com a afirmação de Bia. — Ela me pediu para eu te dizer isso.
Ele passou a sua mão pela costela fraturada, tentou disfarçar a careta de dor. — Eu vou chamar o médico. — Sua irmã anunciou.
– E-esper-e. — Daniel pediu. — A d-dor n-ão vai a-atr-apalh-ar minh-a fel-icid-ade. Pr-reciso fal-ar com el-a, Bia, po-r fav-or, e-ela… Est-tá na Noru-ega. — Bia arregalou os olhos com aquelas palavras, Daniel ainda pensava que Julie cursava o intercâmbio, que… Os cinco meses não se passaram… — L-lig-a pr-a el-a, po-r fav-or… M-meu am-or p-por el-a é tã-o fort-e que… As vez-es, escut-ava a sua v-oz, conver-sando comigo…
– Você só acordou porque eu te disse que a Julie te amava?
– N-nã-o s-sei… Ach-o que… — Levou a mão ao rosto. Sua voz continuava gasta e rouca. — Sen-ti alg-o bat-er em mi-m. N-o me-eu rost-o, com fo-rça.
– Bryan. — Bia sussurrou sorrindo.
– Q-quem? — Só então Daniel percebeu um grande detalhe. — E-stá mag-ra. — Bia desfez o sorriso, agora se sentia tensa. — Já na-sce-u? — Ela assentiu calada. — É um m-me-nino? — Ela assentiu de novo. — Qu-anto-s mes-es?
‘’ Um ano… ‘’ Bia pensou, tentando encontrar a melhor maneira de contar para Daniel que ele passou quase dois anos da sua vida dormindo. — Eu… Preciso falar com o médico. — Passou por ele, essa foi a única desculpa que conseguiu pensar para fugir das perguntas, e antes que Daniel segurasse seu braço de novo, ela correu para a porta e saiu.
Notas finais
O que acharam do capitulo? Finalmente ele acordou! rs. Como será que a Julie vai reagir quando souber. *o*
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