Corações Feridos
80 Sentimento Confuso
Notas iniciais
Julie desceu do quarto, Daniel já não conversava no telefone e ela agradeceu mentalmente por isso. Ela se sentia um pouco tonta, chorou nas ultimas três horas… E Daniel nem percebeu. Ela segurou no corrimão. sentiu uma leve fisgada na cabeça o que a fez parar de descer as escadas e fechar os olhos por um momento.
Perdeu a noção do tempo. Mas ficou quase dois minutos parada ali.
Sentiu alguém puxando o seu corpo, abriu os olhos e se deparou com Daniel: Ele a abraçou pela cintura e a levantou das escadas, descendo com ela no seu colo. Ela estava de mal humor, porém, deixou ele a levantar. — Tudo bem? — Daniel perguntou sorrindo enquanto ainda a carregava.
Ela não respondeu, apenas brincou com os seus cachos. Ele parou na escada a encarando.
– O que foi? — Ela sussurrou.
Ele a olhava encantado. — Sempre brincou assim com o meu cabelo?
Julie sorriu fracamente, mesmo triste, gostava de lembrar dos bons momentos deles juntos. — Sim, sempre. — Mas parou de carinhar seus cachos. — Me coloca no chão. — Pediu fraca. Só faltava três degraus para finalmente chegar na sala.
Daniel obedeceu. Ela foi para a sala, cruzou os braços. — Nossa, esfriou…
– É, por isso eu peguei um casaco.
Ela continuou com os braços cruzados. — Droga, coloquei o meu casaco para lavar… — Reclamou. — Eu vou fazer algo para comer, vai querer também? — Daniel assentiu.
Chegou na cozinha, lá estava mais frio do que na sala. Fechou a janela de frente a pia. — Nossa… — Sussurrou sentindo seu corpo se arrepiar.
– Quer meu casaco?
Julie deu um pulinho. Se virou e viu Daniel sem blusa, segurando o casaco na mão.
Corou. — Não, eu acho que estou bem… — Ele não deixou Julie terminar, a envolveu com o seu casaco e ela não resistiu, estava com muito frio e o casaco dele era quente. — Hm. — Deu um sorrisinho. — Obrigada. — Ele a olhava sorrindo também. — E… Como foi sua conversa com a Aline?
Daniel desfez o sorriso, se sentou na cadeira, ainda a encarando. Julie esperava sua resposta. — Conversamos bastante. Ela me contou mais da vida dela do que eu da minha, porque… Eu não sei de muita coisa. Ela me disse que é divorciada e tem um filho de seis anos.
– Hm. — Ela colocou a farinha sobre a mesa. — Não quero que você fique chateado comigo, mas… Geralmente essas mulheres querem paquerar um cara só pra conseguir alguém pra cuidar do filho.
Ele suspirou fortemente. Julie percebeu.
Ficou parada, olhando para Daniel. — Que suspiro profundo… — Ela observou. — Porque?
Daniel estava calado… Colocou os braços em cima da mesa, agora encarava a tatuagem que havia feito para Julie. — Eu era louco por você, não é?
– Hm. Na verdade, acho que sim. — Respondeu sorrindo fracamente. — Fez essa tatuagem quando éramos casados.
Ele continuou encarando a tatuagem, balançava a cabeça. — Pensando em que?
– Nada. — Suspirou novamente. — Tem certeza do que está falando, sobre a Aline?
Ela estranhou aquela pergunta. — Tenho. — Mas respondeu com sinceridade. — Porque?
Daniel olhou nos olhos de Julie, ficaram assim por um tempo. Pareciam enfeitiçados. — Estou me apaixonando por ela.
Julie pegou uma frigideira, enxeu de óleo e colocou no fogo, jogou a farinha sobre as batatas e colocou para fritar. Estava calada, pensava sobre o que Daniel acabara de dizer. Tentava entender como era possível alguém se apaixonar em apenas um dia. Mas lembrou que foi assim que Daniel se apaixonou por ela. — Começou só com uma conversa no ponto de ônibus e você se apaixonou. — Pensou alto.
– Ponto de ônibus? Foi na padaria.
Ela se virou para o loiro. — Não é disso que estou falando! — Rosnou. — Olha, e se você está mesmo apaixonado, deve contar isso para ela e não para mim.
– Mas e se você estiver certa? Se ela não gostar de mim?
– Pra mim ela só está te usando. Você caiu no truque da bolsa. Ela deixou a bolsa cair de propósito, só para você pegar. Junte os fatos Daniel, ela é uma professora de química, deve trabalhar em várias escolas e nem tem tempo para o filho, está divorciada e solteira, não tem ninguém e ela só quer você pra cuidar do garoto! — Respirou fundo. — Agora faça algo mais útil, coloque uma blusa…
Ela se virou para o fogão novamente e Daniel saiu da cozinha. Fazia a comida mecanicamente. Afinal, pensava apenas nas palavras dele. Estava triste com aquilo. Jamais pensou que Daniel diria que estava apaixonada por outra. Nem mesmo com a Débora ele fez essa revelação. Mas agora era diferente, ele era diferente. Estava com amnésia e seus sentimentos pela Julie ‘’desapareceram’’ junto com sua memória.
Julie estava chateada.
[...]
Terminou de fazer a janta em meia hora, não era nada de mais, apenas uma salada, batatas fritas, feijão e arroz…
Chegou na sala e encontrou Daniel assistindo TV. Entregou um prato de comida para ele. Ia se virar para subir as escadas. — Assiste comigo. — Ele pediu batendo no sofá. Ela suspirou, hesitava um pouco. — Vamos… — Insistiu.
Ela acabou aceitando, se sentou no sofá. — Ah não… Filme de terror não. Pode tirar daí, eu não gosto. Ou pelo menos ligue todas as luzes para as más vibrações não entrarem!
Os dois jantavam em frente a TV. Daniel estava completamente envolvido pelo filme, nem ao menos piscava. E Julie estava totalmente diferente, mal olhava para a TV, tampouco prestava a atenção na história. E mesmo assim, ela era a quem mais se assustava. A cada grito que ouvia do filme acabava gritando junto.
– Pode tirando daí! Isso não tem graça! — Ela gritou trêmula.
– Calma, olha… Tá dando comercial!
Julie respirou fundo. Estava cansada e com frio, acabou deitando sua cabeça no ombro de Daniel sem perceber.
Ele sorriu de lado. Virou seu rosto e viu que Julie estava de olhos fechados. Ele se ajeitou cuidadosamente para não a acordar. Levantou seu braço e colocou sobre o ombro dela.
– Hm. — Mas ela acabou abrindo os olhos. — O que está fazendo?
– Não disse que estava com medo? — Continuaram abraçados. — Eu vou te proteger.
Se olharam. Daniel sorriu mas não foi retribuído. — Então você já não está mais confuso. Tem certeza do que sente agora. — Ela começou, Daniel estranhou seu tom de voz doce. Ela tentava ficar calma, mesmo morrendo por dentro. — Está apaixonado pela Aline.
– Acho que sim. — Julie também estranhou seu tom de voz triste. — Eu não deveria. Pelo meu filho, não deveria… Eu sei. — Suspirou. — Mas o que eu posso fazer?
– Vocês. Conversaram bastante depois que eu fui embora da padaria? — Perguntou olhando para baixo, não teria coragem de o encarar.
– Um pouco. Depois eu fui atrás de você, fiquei preocupado.
– Hm… — Disfarçou olhando para a manga do casaco que cobria totalmente suas mãos. — Se… Beijaram?
Ele aproximou seu rosto. A respiração de Julie pesou na hora. Os lábios de Daniel tocaram na sua orelha. Ela se arrepiou. — Porque quer saber?
– Ah… — Se afastou um pouco. Estava nervosa. — Não sei, só curiosidade.
– Hm… Mas não. Não nos beijamos. Só você; — Sussurrou. — Beijei só você. E… Eu tinha até me esquecido. Aquele beijo lá no hospital foi muito bom. Até hoje isso mexe comigo.
– Huh. — Corou. Deixou a timidez de lado por alguns segundos e levantou a cabeça. — E… Você sente algo por mim?
Ele levantou sua mão e pegou uma madeixa de cabelo da Julie que escondia o seu rosto. Colocou atrás da orelha e assim conseguiu enxergar seus lindos olhos castanhos claros. Seus olhos se focaram, Julie deu um sorriso fraco, porém, lindo. O que fez o loiro sorrir também. Ela abaixou a cabeça. — Não… — Daniel sussurrou segurando o seu rosto. — Olha para mim. — Pediu carinhoso e Julie olhou. — Parece magoada. — Daniel ‘’leu’’ seus pensamentos. Mesmo com pouco tempo de convivência, Daniel já começava a ‘ler’ suas expressões. E viu que Julie estava com um rosto triste. — Está magoada, não é?
– É com a Bia… — Julie modificou a verdade. Estava magoada com Daniel também, além de estar triste com os dois, também se sentia triste com si mesma. Não queria estar confusa assim, uma hora achava que não gostava do Daniel e outra, pensava que estava completamente apaixonada.
– O que a Bia te fez? — Ele rosnou.
– Disse que eu não estou preparada para ser mãe. — Ela acabou contando o que não devia.
– Como assim? Quem ela pensa que é? — Daniel se irritou.
– D-de-ix-a pr-a lá.
– Não. Não deixo. — Respondeu ríspido. — Ela acha que é quem pra falar assim?!
‘’ A mãe do bebê… ‘’ — Julie pensou e se sentiu mais angustiada.
– E porque ela está com o nosso filho?
– Por isso, porque ela acha que eu não sou uma boa mãe. — Pausou. — Esquece. Olha… O filme já começou. — Daniel não estava mais interessado no filme, ele não escondia sua raiva. — Vamos assistir. — Queria mudar de assunto. — Prometo que não vou mais ficar com medo.
Daniel continuava calado, Julie conseguia ver ele mordendo seu maxilar. Era uma mania dele quando sentia raiva… Fazia isso, desde sempre. Julie voltou sua atenção para a TV, apenas porque queria desviar sua mente do assunto sobre Bia. Estava magoada, ainda mais por saber que sua amiga estava certa. Julie não estava preparada para ser mãe e o que confirmou isso foi a morte do seu próprio filho de apenas quinze meses.
Isso doía bem no fundo da sua alma.
Deitou sua cabeça no ombro de Daniel. O mesmo agora estava chateado com as palavras da irmã para Julie. Já havia mudado muita coisa entre os dois, mas a briga entre Juliana e Beatriz virou mais um motivo para Daniel detestar sua irmã.
– Nossa, mas... A mulher vai descer pro porão! – Julie sussurrou nervosa. Trocaram de papéis: Agora ela estava envolvida com o filme e Daniel já nem prestava mais a atenção. – Ela vai encontrar o assassino! – Apertou forte o braço de Daniel.
– Não, acho que o assassino vai conseguir fugir, ela está armada e ele só está com uma faca. – Daniel observou, Julie acabou conseguindo sua atenção. Agora ele assistia ao filme.
E ele acertou. O assassino conseguiu fugir. – Me dá um pouco... – Julie pediu esticando os braços, pegou o pote com pipoca amanteigada. Deu uma leve virada com o rosto e notou Daniel sério, assistindo ao filme. Ela sorriu discretamente, apesar de não gostar de filmes do gênero terror. Ela estava curtindo aquele momento com ele.
Abraçou o braço do loiro, agora sentindo o frio da noite. Daniel se aproximou sutilmente, a abraçou sem que Julie notasse. Ele não estava com medo, pelo contrário, se divertia com a situação. Ria do jeito como Julie ‘’aconselhava’’ a mocinha do filme. Dizendo para ela não ir atrás do assassino ou algo do tipo. – Ela é uma péssima mãe! Como ela deixa os gêmeos dentro do armário e sai em busca do assassino?! – Julie não conseguia entender. – Isso não faz sentido! E se o assassino encontrar as crianças?! Ela é doida! Deveria ficar com os filhos! Ligar para a policia! Ou... Se trancar no quarto! Que mulher burra!
– Viu como você é uma boa mãe. – Daniel interrompeu. – Se você estivesse no lugar dessa mulher ia ficar com o bebê.
Ela abaixou a cabeça, forçou um sorriso. – Pois é... – Se sentiu um pouco triste, só ela sabia que seu filho já estava morto. – Ah! – Apertou com força o braço de Daniel, encravando suas unhas na pele pálida dele.
– Calma. – Ele se levantou se soltando. – É só o telefone. – Respondeu. – Pode me soltar...
– Onde vai?! – Perguntou amedrontada.
– Atender. – Pausou. – Pode ser a Bia, e se for eu vou mandar ela devolver o bebê.
Julie o soltou. – Então atende! Rápido! – Queria o bebê de volta mais do que tudo.
Ele caminhou e foi até a cozinha. Pegou o telefone sem fio do gancho na parede. – Alô? – Atendeu um tanto grosseiro, imaginando ser sua irmã.
– Daniel? – Ele reconheceu aquela voz e mudou de expressão. Sorriu.
Era a mulher da padaria.
– Oi. – Ficou um pouco nervoso, lembrou da hora que se abriu com Julie e disse que talvez sentisse algo por ela. – Tudo bem? – Perguntou agora olhando para a sala.
Julie estava distraída, nem ao menos piscava. Olhava para a TV, totalmente concentrada. Ele passou com o telefone por ela. ‘’Nossa, nem me notou’’ – Pensou subindo as escadas com o telefone.
Queria conversar no quarto.
– Vou bem. E-estou melhor agora. – Ele sorriu fechando a porta do quarto.
– Que ótimo! – A mulher também sorriu do outro lado da linha. – Eu liguei porque me lembrei que você me contou sobre o seu problema. – Daniel ouvia atentamente. – Sua perda de memória. – Pausou. – Tem certeza que não se lembra de mais nada?
Ele estranhou aquelas perguntas, principalmente porque vinham de uma mulher ‘’estranha’’ que mal conheceu.
– Não lembro de nada. – Respondeu com sinceridade. – É tudo novo para mim. Me sinto como uma criança. Ainda preciso descobrir muitas coisas...
– Entendo. Deve ser horrível.
– É. E o pior é quando eu tento lembrar e sinto uma dor muito forte na cabeça. A Julie também não me conta nada. A única coisa que eu sei é que eu tenho um filho e nós já fomos casados.
– Hm. Mas... Você não gosta mais da Juliana?
Ele ficou sério com aquela pergunta. Era a segunda vez que ouvia aquilo. Se apoiou na porta do lado de dentro do quarto, dessa vez sorriu com a pergunta. Pensou em responder diferente. – Não. Não gosto mais dela. – Continuou sorrindo de lado. Se sentou no chão. – Por quê?
– Ela não está te ajudando, não é?
– Como assim?
– Com a sua memória.
– Não muito. – Fez uma careta. – As vezes ela me diz algumas coisas, mas... Me sinto até mais confuso com o que ela me diz. – Balançou a cabeça. — Ela me ajuda em outros sentidos, talvez com algum remédio... Hoje mesmo ela me aplicou uma injeção e aplicou muito bem por sinal. Acho que ela é enfermeira. Médica... Esqueci de perguntar à ela.
– É, tem cara de enfermeira. – A mulher concordou. – Castellamare?
– O que?
– Seu sobrenome.
– Ah, sim. Acho que sim. – Lembrou de quando conversou com Julie no hospital. – É! – Disse agora com certeza. – Isso mesmo. – Estranhou. – Como sabe?
Ela riu. – Você me contou. Lembra?
– Hmm... É. Acho que contei.
– Então é isso, eu queria te ajudar a lembrar do passado, se você não se importar.
– Não. – Ele sorriu. – Eu vou ficar muito feliz com isso.
– Que ótimo, eu... Vou tentar descobrir algumas coisas. Na internet se consegue muitas informações. – Explicou. – Podemos nos encontrar.
– Sair? Nós dois? – Sorriu.
– Claro!
– Amanhã. Tá bom? – Seu sorriso aumentava.
– Tenho algumas provas para corrigir...
– Por favor Aline. – Parecia ansioso. – Amanhã. A hora que você quiser.
– Tudo bem. De manhã fica melhor para mim.
– Pode ser na padaria? É o único lugar que eu conheço.
– Pode! – Também sorriu. – Mas agora preciso desligar, tenho que cuidar do meu filho.
– Já? – Aline estranhou sua voz triste. – Não quer conversar mais um pouco?
– Queria muito, Daniel. Mas não posso agora.
– Ta. – Suspirou. – Amanhã a gente se vê então.
– Claro. Beijos. – Ela desligou.
– B-beijos. – Daniel disse alguns segundos depois de desligar. Olhava para o telefone sem conseguir esconder o sorriso.
Mas precisava acordar para a realidade.
Julie estava lá na sala. Assistia o filme de terror sozinha e ele sabia que ela tinha medo. Não podia deixar ela lá.
Desceu segurando o telefone. Esqueceu de colocar no gancho. – Quem era? – Julie perguntou abraçada com o pote de pipocas que já estava pela metade.
Ele se sentou ao seu lado. Suspirou. – Era a Bia? – Juliana tentava adivinhar, já que ele não dizia nada.
– Não. Era a Aline. – A morena desfez o sorriso quando ouviu aquilo.
– Hm. – Comeu algumas pipocas. – O que ela queria?
– Q-queria sair comigo. – Ocultou sua verdadeira intenção. Que era ajuda-lo a recuperar a memória.
– Hm. E você aceitou?
– Lógico! – Respondeu feliz.
Ela revirou os olhos. – Só um ‘’sim’’ estava de bom tamanho, não precisava dizer ‘’lógico’’ – Murmurou.
– Ciúmes Juliana? – Sorriu de lado.
– Nem pensar! S-só estou um pouco preocupada... V-voc-ê... Huh, aquela mulher pode ser uma maníaca! Pode existir milhares de vitimas! Ela pode ser uma procurada da polícia! Já pensou?!
– Só sei que estou muito feliz Juliana! Amanhã vou contar tudo!
– Não acha que é cedo de mais? Você nem tem certeza do que sente. – Cruzou os braços.
– Claro que tenho! – Ele se levantou.
– Quer sair da frente?! Não consigo assistir assim!
– Vou te dizer a verdade! – Daniel segurou o rosto da morena com força.
Ela acabou se levantando também. Seus rostos estavam próximos e ele encostou sua testa na dela. Seus narizes estavam a ponto de se tocarem também. Julie até ficou vesga por tentar olhar nos seus olhos. – Juliana, estou apaixonado! – Soltou seu rosto com força. Ela se sentou no sofá um pouco atordoada.
Daniel beijou sua testa. Segurou seu rosto novamente, mas dessa vez com mais delicadeza. Ele já não apertava suas bochechas com tanta força quanto na primeira vez. – Apaixonado. – Repetiu. Agora sorria. – Estou tão feliz... – Sussurrou. – Estou tão feliz que posso até... Dizer o que pensei de você quando entrou no meu quarto do hospital. – Foi soltando seu rosto lentamente. – Seus olhos. – Pausou. Julie estava calada. Não prestava a atenção no filme. – Achei seus olhos os mais lindos... E eu ainda acho.
– Você sempre achou. – Ela afirmou. – Dizia que eles eram... – Respirou fundo e sorriu fracamente. – Hipnotizantes. – Os dois falaram juntos. – Parece que você não mudou de opinião, mesmo com amnésia.
– É, parece que não. – Ele piscou.
Ela abaixou a cabeça. – Vai mesmo sair com a Aline?
– Eu vou. Eu gosto dela, Julie.
– Você conheceu ela hoje. Como pode ter tanta certeza?
– Eu não sei. Só sei que nunca estive tão certo...
– Então ta. – Pausou. Queria mudar de assunto. – Vamos assistir o filme?
– Ah. – Daniel se virou para a TV. Depois daquela ligação o filme não estava mais interessante como antes. – Acho que vou subir. Deitar um pouco.
– Sério? Vai me deixar assistir o filme sozinha?
– Pode mudar de canal. Sei que não gosta de terror.
– É, mas agora que... Está interessante. Eu quero saber como vai acabar. – Ele passou por ela. – Daniel?! – Ele já subia as escadas.
– Eu vou deitar, já falei... – Continuou subindo as escadas.
Ela suspirou. Se ajeitou no sofá, pelo menos ainda tinha pipoca...
O comercial acabou. Ela voltou a assistir o filme que a cada momento se tornava mais assustador e misterioso. Ela se sentia arrepiada. Todas as vezes que assistiu um filme assim foi ao lado de Daniel, nunca assistiu sozinha. – Tá bom, qual é o problema? É só uma história que alguém imaginou e transformou em filme. São todos atores. E o assassino também é um ator! É isso. – Afirmou para si mesma. – Eu não tenho medo.
Passaram se meia hora.
Julie estava envolvida com um edredom. – Não. Já disse para não entrar ai! – Ela gritava chorando. – Ele vai te encontrar seu tonto! Deveria ficar no armário como a sua mãe pediu! – Estava trêmula. – Pelo menos pegue uma lanterna! Que criança burra! Não! – Ela gritava como se o menino fosse escutar. – Se entrar ai vai encontrar seu cachorro morto! Não! – A criança gritou depois de abrir a porta e encontrar o cachorro. Logo depois levou uma facada nas costas pelo assassino que surgiu das sombras. – Nossa! Eu disse! Seu idiota! – Ela chorava sem hesitar. – Só resta sua mãe e seu irmão ferido! Mas... – Sorriu. – Eu sei que vão se salvar! Vão sim!
Depois de uma hora, o filme terminou com todos mortos e o assassino esquartejado pelo pai que chegou em casa. Julie continuava com o mesmo pensamento ‘’ Que todos eram atores ‘’
Até ver os créditos finais e descobrir que foi baseado em fatos reais.
Olhava incrédula para a TV. Até uma foto da família em Sépia eles colocaram no final. – Então... – Estava paralizada. – Isso pode acontecer com qualquer um... – Olhou para os lados.
Encontrou uma janela aberta. – O assassino... Vai entrar aqui... Me ajudem... – Sussurrou. – Eu preciso ir na cozinha para pegar o telefone. Se eu ouvir algum barulho suspeito eu... – Escutou um rugido de porta. Nem passou por sua cabeça que era Daniel indo ao banheiro. – CHAMO A POLICIA! – Hesitava em dar alguns passos, ainda mais porque a luz da cozinha estava apagada e lá era o único lugar que tinha facas.
Mas lentamente conseguiu chegar na cozinha. Seu maior desafio era caminhar até a janela e fecha-la. Ela pegou o telefone.
Deu mais alguns passos. Sentiu que pisou em algo. Olhou para baixo e mesmo na escuridão conseguiu enxergar um saco plástico branco, certamente com algumas embalagens vazias de balas que ela comprou na padaria. – Daniel... – Rosnou. – Deveria jogar no lixo. – Reclamou e pensou em pegar. – E se eu me abaixar e o assassino estiver no teto, que nem no filme?! – Se arrepiou. – Mas... Eu não posso deixar esse lixo no chão. Vai acabar com as regras dessa casa. Nada jogado no chão. – Pausou. — M-mas eu não quero levar uma facada nas costas, não... – Suspirou. – Eu me abaixo olhando para o teto?! Mas e se ele se rastejar pelo chão?! – Sua respiração estava ofegante. Sem pensar direito ela correu para o interruptor.
Conseguiu ligar a luz. Olhou para todos os lados. E por fim pegou o plástico do chão.
Fechou a janela.
– Agora só preciso da faca... – Suspirou mais calma.
Olhou para a sala, notando uma certa diferença. – Quem apagou a luz da sala?! – Gritou aterrorizada. A resposta era simples: Daniel apagou enquanto ela dava atenção ao plástico no piso da cozinha. – O assassino está aqui... – Estava tão nervosa que nem pensou na resposta mais obvia. – Droga... Estou presa aqui. Eu vou morrer. Eu vou morrer... M-mas... Antes... – Estava atordoada, não sabia para qual lado olhar.
Avistou um papel e uma caneta em cima da mesa. ‘’ Daniel deixou aqui, com certeza para anotar o número de celular daquela mulherzinha. ‘’ – É isso... É isso que eu preciso fazer antes... Da minha morte.
Rasgou um pedaço de papel.
Começou a escrever.
'' Daniel eu te
Mas parou quando escutou outro barulho, dessa vez vinha do lado de fora da casa. Era o mesmo gato que Julie insistia que era doente, ele sempre arranhava o vidro da porta da varanda de madrugada.
Ela deixou tudo ali. Achou que se fosse rápida conseguiria subir.
Ela correu e subiu as escadas quase tropeçando nos degraus. Abriu a porta do quarto desesperadamente.
Entrou e ligou a luz.
Olhou para a cama.
Nada.
– Daniel? – Lembrou do filme. – Tudo começou quando o marido saiu de casa e deixou a porta aberta... Não... Não... Ele não saiu... Não faz sentido, nem vi ele saindo... Ele... Ele... Só quero saber se ele está bem... – Começou a chorar baixinho.
Foi quando ouviu passos vindo do corredor. Claro, era Daniel que voltava do banheiro. – Não... Não... Não... – Ela se cobriu com o edredom. – SOCORRO! – Gritou com força, arranhando sua garganta.
Sentiu alguém tentando puxar o edredom. Ficou com mais medo e agarrou o edredom com força. – SOCORRO! – Continuava gritando.
– Julie! Sou eu! – Por fim ele conseguiu puxar o edredom.
Ela estava com o rosto pálido, completamente molhado pelas lágrimas salgadas que continuavam a escorrer. Sua mão estava trêmula, assim como todo o seu corpo.
Julie nem notou que ele usava apenas uma cueca Box. Ela o abraçou com força. Seus dedos trêmulos passavam pela nuca de Daniel, o causando lentos arrepios. – O que foi? O que houve com você?
– T-em al-gu-ém aqu-i! – Gaguejou ainda trêmula. – Eu ouv-i! Prime-iro foi a jan-ela, dep-ois o pl-ástico! – Ele não conseguia entender o que Julie explicava. Nada fazia sentido. – Eu juro. N-ós não est-am-os sozi-nho-s.
– Eu vou descer. – Se soltou.
– NÃO!
– Mas você não disse que tinha alguém aqui?
– Não entende? É um assassino! – Puxou seu braço. – Vem, fica aqui comigo. Fecha a porta. Vamos dormir.
– J-juntos?
– Eu... Não durm-o na sala sozi-nha nem se me pag-arem!
– Está certa. – Sorriu. – Cal-ma.. Vou fe-char a po-rta. – Disse a abraçando, queria acalma-la. Mas era em vão. – Está tudo bem... – Alisou seu rosto.
Julie respirou fundo, notou que ele usava só uma cueca. – Não vai dormir assim do meu lado.
– Não? Prefere que eu fique sem cueca?
Ela corou. – Vai se vestir agora.
– Tudo bem. Eu vou até o guarda-roupa. – Caminhou lentamente. – Me lembrei do filme, não tem uma cena que encontram um corpo no armário? Engraçado. – Riu.
– Daniel!
Ele se virou. – Vem, deixa pra lá... Fica assim mesmo. Não há necessidade de abrir esse armário escuro e cheio de roupas hoje, justo hoje que vimos esse filme baseado em fatos reais... Né? – Sorriu nervosa.
Ele se sentou no colchão, sorria em pensamentos, seria a segunda vez que iria se deitar com Julie. Daniel tinha certeza de que se sentia bem melhor ao lado dela.
Beijou sua testa, ainda segurando o rosto de Julie com as duas mãos. Ela continuava com aquela expressão de medo, se perguntava como ia conseguir dormir com um assassino rondando a casa.
– Deite. – Ele pediu a cobrindo delicadamente. Julie se deitou, ainda pensativa.
Sentiu o braço dele envolvendo sua barriga. Lembrou que Daniel costumava fazer isso quando ela estava grávida, bateu uma saudade no peito. Ela acabou entrelaçando seus dedos das mãos, hesitou um pouco, mas virou seu rosto para trás.
Viu que Daniel a olhava. Seus lábios estavam só há um centímetro de distância de se encostarem. Mas nenhum dos dois avançou. Ela virou o rosto novamente e se deitou. Estava virada de frente para a porta. Mesmo fechada, sentia medo. Porém, respirou fundo e fechou os olhos.
[...]
A noite se foi, e Daniel percebeu isso quando acordou e sentiu alguns raios de luz no seu rosto. Incomodando sua visão. Ele se sentou no colchão e coçou os olhos.
Olhou para o lado.
Encontrou Juliana dormindo calmamente, ele mal conseguia perceber sua respiração.
Sorriu involuntariamente com isso. Percebeu que ela estava de barriga para baixo no colchão. Acabou olhando para o seu bumbum, ficou assim por um tempo, paralizado. Até que balançou a cabeça e saiu daquele transe.
Se levantou tentando fazer o mínimo de barulho possível. Abriu a porta do quarto e saiu para o corredor. – Aline. – Ele suspirou sorrindo. Foi o primeiro nome que pensou depois de Julie.
Foi até o banheiro fazer sua higiene matinal. Escovou os dentes depois de tomar um banho e lavar seus cabelos.
Se olhou no espelho e viu que sua barba começava a crescer. Passou a mão pelo queixo e bochecha. – Hmm... – Não gostava muito.
Abriu o armário do banheiro.
Encontrou uma navalha. Pensou em passar o dedo por ela, mas viu que era bem afiada. Não queria se cortar. Olhou hesitante para o seu rosto. Não tinha tanta barba.
Guardou a navalha sem saber que se ausentou de um grande perigo.
Saiu do banheiro, desceu as escadas. Foi para a cozinha.
Abriu a geladeira, pegou o leite em caixa e alguns ovos que pensava em fritar. Mas algo lhe chamou a atenção.
Um pedaço de papel rasgado.
Ele pegou. Leu a frase incompleta. – Daniel eu te... – Parou pensativo. – Isso só pode ser coisa da Juliana. – Tentava entender. – Odeio. Hm. – Jogou o papel na mesa novamente. Procurou a frigideira. Colocou um pouco de óleo. Mas foi parando, pensativo. – Amo. Te amo... Era isso? – Estava com uma dúvida cruel. Se sentia na necessidade de descobrir. – Julie! – Viu que ela já chegava na cozinha.
Mas achou estranho ela virar para trás. Parecia limpar o rosto. – Já acordou?! – Ela pergunta. Não esperava ver ele ali.
– Já, acordei há meia hora... – Se aproximou e tocou no seu ombro, mas ela se afastou. – O que foi?
– Não é nada. – Continuava escondendo o rosto.
– Então olha para mim...
– Eu estou lá no quarto. – Passou por ele. – Quando você sair me avisa. – Subiu as escadas. Parecia fugir dele.
E ele percebeu.
Achou aquilo muito estranho, mas Julie o lembrou de algo importante. Talvez a coisa mais importante para ele. – Eu vou sair com a Aline. – Sorriu. Já estava arrumado, só precisava comer alguma coisa para não sair de barriga vazia.
Colocou o leite no copo.
E mais uma vez encontrou aquele bilhete. Pegou e leu novamente. Havia tantas palavras para colocar depois do ‘’ te ‘’ que ele ficava ainda mais confuso. Guardou o bilhete no bolso da bermuda. Tomou seu leite e o seu pão com ovo.
– Julie, encontrei isso na mesa... – Ele foi entrando no quarto. – O que aconteceu? – Ela estava deitada na cama, ouvia uma música triste pelo rádio. Seu rosto estava molhado pelas lágrimas e Daniel não conseguia entender. – Estava chorando quando desceu lá na cozinha. – Balançou a cabeça. – Você vai me contar?
– Você não acha que está faltando nada aqui?
– ... – Ficou calado sem entender.
– Eu estou com saudades do nosso bebê!
– Meu filho. – Suspirou. – Nossa, eu nem me lembrava mais. Sou... Um péssimo pai. – Se aproximou. – Fica calma, eu vou dar um jeito. Eu prometo.
– Você não ajeita nem o seu cabelo! – Ela reclamou se soltando. – Vai, sai daqui logo! Vai atrás daquela mulherzinha. Se ela for alguma maníaca não diga que eu não avisei!
– Ela não é maníaca! Ela é linda e eu gosto dela! E é isso que eu vou fazer, vou sair com ela! – Tirou do bolso o pedaço de papel. Amassou e jogou no colchão. – Do jeito como me trata. Tenho certeza que me odeia. – Respondeu sério e passou por ela.
Julie afundou seu rosto no travesseiro e aumentou o volume do rádio.
[...]
Daniel chegou um pouco chateado na padaria. Mas mudou de expressão quando viu Aline sentada em uma das cadeiras. Ele sorriu e ela também. Daniel se sentou. Os dois se comprimentaram. — Quer beber alguma coisa? – Ele ofereceu.
– Não. Obrigada. – Sorriu.
– Seu sorriso... – Sussurrou.
Ela o desfez. – O que tem?
– É muito lindo. Só isso.
– Ah. – Sorriu de novo, agora corada. – Obrigada. É muito gentil.
Daniel não disse mais nada, apenas continuou olhando para ela. Paralisado. Ela percebeu e olhou para baixo, estava até um pouco envergonhada. Viu que Daniel colocou sua mão sobre a dela. Achou que fosse apenas um modo de agradecimento por ela estar ali, tentando ‘’ajudar’’ na sua recuperação. Mas viu que ele entrelaçou seus dedos.
Soltou suas mãos e para disfarçar, pegou alguns trocados e chamou o garçon para pedir um copo com água. – Eu podia pagar para você. – Daniel comentou.
– Não. Não precisa querido. – Ela sorriu. – Muito obrigada.
– E o senhor? Quer alguma coisa?
Ele levantou o rosto e viu que era o mesmo garçon que ficou olhando para Julie.
Logo fechou a cara. – Não.
O garçon assentiu e passou por ele. Daniel continuou com a cara amarrada olhando para o rapaz, até o mesmo ir para o balcão. Daniel se virou para a mulher novamente. Percebeu que ela também olhava para o garçon. – Não entendo o que vocês vêem nesse cara!
– Hm, ele é atraente. Preciso admitir.
– A Julie ficou olhando para ele também... – Resmungou. – E ainda notou se ele usava alianças.
Aline riu. – Parece que ela ficou interessada.
– Ficou nada. – Pausou. – Eu sei que ela tem bom gosto.
– Se casou com você. Então ela tem bom gosto sim.
Ele deu um sorriso de orelha a orelha. – Vindo de você, isso é mais do que um elogio. Obrigado.
– Bom, e sobre ontem. Eu disse que ia te ajudar.
– Não conseguiu. Né? – Perguntou triste,
– Não! Eu... Consegui sim. – Ele estranhou ela dizer isso em um tom de voz um pouco triste. – Você quer saber alguma coisa do seu passado recente?
– Quero. Claro.
– Tem certeza?
– Tenho. – Começava a estranhar. – O que aconteceu comigo?
– Lembra que eu perguntei seu sobrenome ontem?
– Lembro. – Respondeu com certeza. – Por quê?
– Vamos do inicio. – Eles nem notaram que o garçon já havia deixado a água ali. – Acho que a quase três anos atrás, uma vizinha minha faleceu. – Daniel ouvia. – Eu fui ao enterro, claro, não éramos muito próximas, mas eu conhecia a família dela e queria dar os meus comprimentos. – Pausou. – Acontece que vi uma... Garota lá. Sim, era uma garota. Era... Tão jovem. Ela estava sentada atrás de uma árvore grande. Chorava bastante. – Respirou fundo. – Eu usava uma roupa preta. Um chapéu preto também que escondia o meu cabelo, na época eu era morena. Eu não conhecia a garota, mas sempre gostei de ajudar as pessoas. Então me aproximei. Os olhos dela estavam inchados, ela chorava muito... – Balançou a cabeça. – Acho que nunca na minha vida vi alguém chorar tanto quanto essa menina. Mas... Mesmo assim, eu perguntei o que ela fazia ali e onde estava sua família. Ela me respondeu algo que me surpreendeu. Ela já era mãe. Nossa, parecia ter... Dezenove anos, apenas. Ela foi ao... Enterro do filho. Disse que ele morreu sem ar, dentro do carro. Eu tentei anima-la mas foi impossível, ela parecia tão morta quanto o filho... – Daniel continuava ouvindo, na verdade, não entendia nada, até Aline falar. – Era Juliana.
– Era? – Se espantou. – T-tem certeza?! A Julie?
– Eu só fui perceber que era ela quando cheguei em casa pensando que já tinha visto aquela menina em algum lugar. Bom, agora ela está mais madura, parece mulher, mas... O rosto continua o mesmo. Eu sabia que tinha visto ela em algum lugar, e foi lá.
– Mas... Em um enterro? De quem? Do pai dela? – Perguntou pensativo. – Me lembro que ela diz que sente falta do pai dela. Deve ser isso... É por causa disso.
– Daniel, não me ouviu? Foi o filho dela.
– Não. Não foi. Você deve ter escutado mal. Não foi o filho dela. Ou melhor, o nosso filho, não foi... Isso está errado! Não faz o menor sentido! Nosso filho está vivo!
– Fique calmo. – Ela pediu um pouco nervosa com a sua reação.
– Não! – Ele se levantou. – O meu filho está vivo! Eu vi ele à dois dias atrás! Como pode estar morto?! Não! Ele... Está vivo! Não era ela lá no enterro! – Socou a mesa com as duas mãos. Respirou fundo e sentiu uma dor tão forte na cabeça que voltou a se sentar um pouco tonto.
– Beba um pouco de água... – Ela entregou o copo cheio. Daniel não hesitou e bebeu, estava se sentindo mal. Confuso, não conseguia entender como seu filho ainda estava vivo se... Estava morto.
– Mas como? Isso não faz sentido Aline.
– Foi à anos atrás, você não se lembra porque perdeu a memória. – Ele continuava negando com a cabeça, não acreditava, ou então, não queria acreditar. — Eu não queria te mostrar isso, mas... Você precisa acreditar. Não quero que pense que estou mentindo ou inventando. – Abriu sua bolsa. – Hoje de manhã fui até o cemitério. Tirei uma foto da lápide.
– Não. – Ele fechou os olhos. – Eu não quero ver, por favor. Vendo ou não, eu... Vou continuar sem acreditar.
– Não seja cabeça dura, Daniel. – Tocou nos seus cabelos.
– É que... Eu... Simplesmente não consigo... – Suspirou. Pegou a mão de Aline que estava entre seus cachos e beijou. – Então é por isso que... A Julie é tão triste?
– Pensei que eu fosse a única que achava ela triste.
– Não tem um dia que eu não vejo ela chorando. — Ele abaixou a cabeça. Tinha muitas perguntas para fazer, mas sabia que a única pessoa que conseguiria responder era Julie.
Notas finais
Quero sugestões, o que vai acontecer, o que será que a Julie e a Bia vão inventar? Comentem! :P
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