Corações Feridos

81 Meu mundo caiu


Notas iniciais
Vou responder os reviews de tarde. rs, amei todos! Muito obrigada lindas! *O*

Ele continuava muito decepcionado. Tudo isso era novo de mais para ele, era muita informação que ele não conseguia absorver. E seu maior medo era perguntar isso para Julie e ela dizer que Aline estava certa e que essa era a verdade. — Não me sinto bem. — Ele afirmou cabisbaixo. — Estou com uma dor muito forte na cabeça.

Ela tocou nos seus cabelos, se sentiu um pouco mal por ter dado essa noticia para ele. Afinal, se Juliana estava mentindo para encobrir a morte do filho deles talvez seja porque ele não poderia receber noticias ruins, estava em fase de tratamento e isso poderia prejudica-lo. Porém, não tinha pensado assim até esse momento, depois de ver a carinha triste do rapaz. — Eu… Acho melhor você perguntar para ela. Quem sabe…

- Ela mentiu para mim. O meu filho está morto então? Morto. — Continuava chocado. — Vou pra casa. — Se levantou. Aline o encarava preocupada. — Eu… Acho… Que não queria descobrir isso. — Com essas palavras ela se sentiu ainda mais culpada. — Ela não me contou talvez porque isso me deixaria abalado de mais…

- Me perdoe. — Pediu. — Eu só achei que ia te ajudar.

- Não, não precisa se desculpar. — Deu um sorriso fraco. — Eu só… Estou chocado com tudo isso… — Pegou sua mão. — Eu… Quero te ver mais vezes. Você me faz bem…

- Vai para casa, Daniel. — Ela pediu soltando suas mãos. — A gente se vê outro dia. — Beijou seu rosto.

Ele sorriu com esse beijo e acabou não resistindo.

A puxou pela cintura e a abraçou ali. Ela retribuiu. Ficaram abraçados por um tempo.

[...]

Daniel caminhava pelas ruas, sozinho, ainda sentia uma dor forte na cabeça e por algum motivo não conseguia parar de pensar no que Aline lhe disse. Ele estava nervoso, queria buscar respostas para tantas perguntas que rodavam sua mente. — Daniel, meu parceiro! — Um rapaz loiro, do seu tamanho e da sua idade parou na calçada. — Como vai? Faz tempo que não te vejo! — Daniel estava parado, o olhava assustado.

Martim não sabia da sua perda de memória. Ele falava com Daniel normalmente. — E a Julie hein? — Estranhava ver que Daniel não respondia. — Ainda está afim dela?

- A Julie… — Pausou, confuso. — Não… Não sei… — Por fim respondeu.

Martim riu. — Então posso pegar ela pra mim?! — Brincou e deu algumas batidinhas no seu ombro, Daniel continuava sério, não entendia nada. — Hm. — Foi ai que Martim percebeu sua expressão, viu que ele olhava para os lados. Completamente ‘’perdido’’. — Tá tudo bem cara?

Continuava confuso. — Q-quem é você?

Martim se assustou com aquela pergunta. — Qual foi? Não me reconhece? Eu sei que cortei um pouco o cabelo, mas sou eu! Cara!

- Eu não sei de nada, não te conheço…

- Ah, para de graça! Ainda está chateado porque eu paquerei sua prima?

- Minha prima? Quando?

- Quando você estava no hospital, né! Esperto!

Ele coçou a nuca. — E a Julie? Ela está bem? — Perguntou. — Porque me falou sobre ela?

- Como porque? Porque você ama ela!

- … — Olhou para o chão, se sentia estranho. Era estranho ver que as pessoas sabiam mais dele do que ele mesmo. — Amo? — Sussurrou fraco. Olhou para o rapaz que ainda estava parado na sua frente. — E o meu filho?! — Chegou a conclusão que aquele estranho seria mais sincero do que a Julie. E poderia até confirmar o que a Aline disse.

Mas Martim achava aquilo tudo muito estranho. — O que aconteceu com você?

- Perdi a memória… Faz… Cinco ou seis dias, nem sei.

Martim balançou a cabeça, agora entendeu porque ele estava com aquela cara de sonso. — Responde. — Daniel pediu. — Onde está o meu filho?

- Porque quer saber? — Estava desconfiado. Afinal, se Daniel ainda não sabia sobre a morte do filho foi porque ninguém contou…

- Eu preciso saber. Me diz.

- Hm… Seu filho… — Daniel parecia ansioso pela resposta. — Vai bem. — Martim passou por ele depois de responder, não esperou mais nenhuma pergunta de Daniel. Estava fugindo.

O rapaz confuso continuou parado na calçada. Mas virou seu rosto para trás e viu Martim já atravessando a rua. — Espera! — Gritou ao longe. Martim olhou e respirou fundo, não queria acabar falando de mais… Porém, se limitou a esperar.

Daniel correu um pouco, até se aproximar de Martim. — E a Beatriz?

- O que tem ela? — Martim parecia mais sonso que Daniel.

- Onde ela está?!

- Na casa dela!

- Seu idiota! Onde é a casa dela?!

- E eu vou saber?! Ela é sua irmã!

- Ela está com o meu filho… — Sussurrou.

- Seu filho?! — Agora Martim não entendia mais nada. — Seu filho?! — Riu. — Como assim cara?

- Meu filho com a Julie. Está com a Bia!

- Está falando do Bryan?

- Bryan… — Sussurrou. — Esse nome… — Pausou. Detestava esse nome. — A Julie conhece esse Bryan?

- Claro. — Sorriu.

- Como claro?! — Daniel puxou forte a sua blusa. Martim não esperava isso. — O que eles são?! Amigos?! Namorados?! Porque ela vive falando desse Bryan para a Bia! Que… É a melhor amiga dela! — Continuava puxando a blusa de Martim, estava a ponto de soca-lo. — Ela pede algum conselho para a Bia sobre esse cara?! RESPONDE!

- Me larga! — Ele pediu se soltando. — Eu vou te explicar. — Só ai Daniel se acalmou. — O bebê se chama Bryan. — Pausou, encarando o relógio de pulso. — Olha, não posso mais perder tempo, preciso ir trabalhar, me desculpe. — Martim atravessou a rua.

Mesmo com todas essas informações, ele ainda continuava confuso.

‘’ O melhor que posso fazer agora é ir para casa… ‘’ — Pensou e voltou a caminhar. Estava ansioso para chegar em casa e pegar todas as informações que precisava com a Julie. Agora estava disposto em descobrir a verdade.

[...]

Julie arrumava seu quarto, aproveitava que estava sozinha para limpar os móveis e ajeitar a cama.

Pegou a caixa de sapatos e colocou sobre o colchão. Abriu a caixa, sorriu, sempre sorria ao ver aquelas cartas e aquelas flores, mesmo já murchas. Se sentou no colchão, uma vez na semana ela pegava as cartas e re-lia suas preferidas, era assim sempre. — Julie? — Daniel apareceu se recostando na porta do quarto.

- a-ah. — Ela deu um sorriso sem graça e guardou as cartas que estavam espalhadas antes de Daniel se aproximar. — Oi. — Pausou fechando a caixa. — Como foi o seu encontro com a Aline? — Ele não respondeu. Julie o conhecia, mesmo mudado, ela sabia quando ele estava triste. — O que houve? — Continuava calado. — Você contou o que sentia por ela e ela te magoou?

- Na verdade. — Deu alguns passos e entrou. — Nem tive tempo de pensar nisso. Conversamos sobre coisas mais importantes. — Pausou, cabisbaixo. — Meu filho… — O coração de Julie disparou só de ouvir aquelas duas palavras.

Ela se levantou, sabia que Daniel estava mais estranho do que o normal. Se aproximou dele e segurou seu rosto. Estava espantada ao ver que Daniel chorava. — Está morto ou não?

- O que? — Ela se arrepiou com aquilo. Foi um grande surpresa. Realmente não imaginava ver Daniel chegar já sabendo de tudo. — Você… Se lembrou de alguma coisa?

- Não. A Aline investigou para mim. — Começou a chorar baixinho. — Ela até tirou uma foto da lápide mas eu não quis ver. — Pausou. Secando as próprias lágrimas. — É verdade Juliana? Nosso filho está morto mesmo? — Se sentiu um pouco tonto. Julie percebeu e segurou seu braço. Ele se sentou no colchão. — Estou com muita dor de cabeça.

- Aquela mulher intrometida! — Ela reclamou. — Ela não devia se meter nas nossas vidas! — Rosnou.

- Ela fez o certo… — Daniel sussurrou. — Pelo menos ela me contou a verdade.

- Não, por favor… — Julie se agachou tocando no seu rosto. — Você não deveria saber. E se eu menti foi porque o médico disse que a verdade te faria mal. — Pausou. — Se sente mal, não? — Ele confirmou com a cabeça.

- Me sinto tonto e sinto uma enxaqueca terrível… — Suspirou. — Eu preciso de mais detalhes. Como nosso filho morreu?

- Eu não gosto de falar sobre isso. Você não pode saber ou se não vai se sentir pior. Descanse um pouco, meu anjo. — Carinhava seu rosto. Raramente Julie via ele chorar.

- Encontrei um cara na rua, ele parecia me conhecer. — Comentou.

- Quem era?

- Não sei, não perguntei o nome. Era loiro… Cabelo liso. Parecia burro e esperto ao mesmo tempo.

- Martim.

- Hm. Falei que perdi a memória e perguntei sobre o meu filho. Ele me olhou estranho e disse que o meu filho vai bem. — Pausou. — Isso me deixa mais confuso. Meu filho não está morto? — Julie estava calada. — Ele falou sobre um Bryan… — Ela arregalou os olhos. — Que. Era o bebê que está com a Bia. — Estava pensativo. — Julie, nós temos quantos filhos?

- E-esque-ce essa h-história Daniel, p-or favor… — Brincou com seus cabelos. Os dois aproximaram seus rostos sem perceber. — Pelo menos você… Está aqui, comigo. Você tem a mim. Para o que precisar. — Só ai Julie notou a aproximação. Os dois encaravam os lábios um do outro. Ambos pensavam na mesma coisa: Na morte do filho. Se sentiam tristes. Estavam calados, ainda assimilando aquela história. Julie tentava pensar em algum jeito de não deixar Daniel não depressivo…

Continuavam pensativos, mas próximos um do outro. Se olharam no fundo dos olhos. Ela acabou sorrindo com isso, afinal, ele não a olhava assim desde que chegou lá do hospital. Um clima um tanto estranho se formou. Julie pensou em beija-lo, na verdade, era isso que queria, era isso que pensava, sempre depois que os dois conversavam sobre o bebê. Ela sentia vontade de beija-lo, só para mostrar que no fundo, ainda sentia algo por ele. Daniel também estava com o mesmo desejo apertando seu peito. Queria beija-la. E ele estava aproveitando a aproximação deles.

Tocou no rosto de Julie, colocando alguns cabelos por trás da orelha. Suas testas se encostaram.

Foi quando o celular de Julie que estava sobre escrivaninha de madeira vibrou junto com um ‘’bip’’ irritante. Era seu toque. Ela se levantou. Olhou para o visor do celular, não estava afim de atender mas logo mudou de opinião quando viu quem ligava. — É a Bia! — Arregalou os olhos e pegou o celular animada. — Alô?

- Oi Julie. — Ela disse um pouco chateada do outro lado da linha.

- Tudo bem?

- Acho que não… — Bia suspirou. — Está sozinha ai?

Julie se virou e olhou para Daniel, ele parecia distraído, pensativo… Mas Julie não queria conversar com Bia perto dele. — Eu vou descer, para você descansar um pouco. — Ela sussurrou tampando o celular.

Daniel assentiu. Julie fechou a porta e desceu as escadas. — Agora estou. — Respondeu enquanto descia. — Como foi seus dias? Sem mim? — Na verdade, ela queria perguntar como foi com o bebê.

Mas Bia era tão sua amiga que conseguia entender até o que Julie não falava. — Sobre o bebê… Eu pensei bem… E… Me desculpe. Na hora da raiva eu falei coisas que não deveria.

- Não. — Julie interrompeu. — Você só foi sincera, não foi? E-eu… Sou uma péssima mãe, na verdade, eu não sou mãe, não sou boa para isso.

- Julie, por favor…

- Algumas mulheres não nascem para ser mães. Olha só a irônia! E-eu…Não queria engravidar tão cedo, planejava várias coisas, intercâmbio, faculdade, mesmo já casada! Qual era o problema?! — Balançou a cabeça. — Mas ai aconteceu que engravidei e nos primeiros meses eu não queria, depois passei a gostar e… Ele se foi… Foi como um aborto! Deu no mesmo, não é?

- Não pense assim, amiga.

- O que adianta eu não pensar assim se todos a minha volta pensam? — Retrucou. Respirou fundo e viu que Bia estava calada. — Aconteceu uma coisa… Sobre o Daniel.

- Não quero saber dele. — Beatriz interrompeu. Julie ia contar que ele descobriu sobre a morte do bebê. Esse também era um dos motivos pelo qual ela estava tão pensativa quanto à isso. — Eu conversei bastante com o Félix sobre o nosso acordo, e mesmo ele sendo… Sabe? Medroso. Ele… Me deixou até mais calma sobre isso. E me fez mudar de ideia. — Julie continuou calada, um sorriso queria nascer nos seus lábios. — O bebê pode ficar com você, mas… Quero ficar com ele nos finais de semana.

- Claro! — Deu um sorriso grande e quase saltou de alegria. — Claro amiga! Ai, obrigada! Muito obrigada!

Bia riu com a animação da amiga. Ela realmente tinha mudado de ideia, agora pensava como a Julie: Seria uma segunda chance para ela ser mãe. E Bia precisava ajudar nesse sentido. — Vou aproveitar que o Félix está de carro, eu dou uma passadinha aí! — E desligou.

Não demorou muito para Beatriz chegar, Julie logo ouviu o barulho do motor do carro. Correu para a porta da varanda e saiu, novamente descalça, pisando no gramado agora seco.

As duas se abraçaram. — Me desculpa. Tá bom? — Bia pediu mais uma vez enquanto alisava os cabelos da amiga.

- É claro! — Se abraçaram de novo, mas Julie soltou um suspiro fraco, apesar de aceitar as desculpas, sabia que jamais esqueceria aquelas palavras, principalmente porque vinham da pessoa que ela menos esperava.

Félix saiu do carro segurando seu filho. O bebê tentava puxar o gorro de panda que usava quando foi para os braços de Julie. Eles conversaram um pouco, o bebê parecia incomodado apenas pelo gorro, tirando isso, ele não estranhava estar no colo de Julie. — E como está o Daniel? — Félix pergunta.

Julie vê Beatriz revirar os olhos e cruzar os braços, ela sabia que mesmo os dois se odiando, no fundo ainda sentiam aquele amor de irmão um pelo outro. — Ah, na verdade ele se queixou de dor de cabeça. — Ela afirma, mais uma vez ocultando que ele descobriu tudo.

- Manda ele tomar remédio! — Bia puxou o braço do marido. — Vamos…

Juliana escondeu o sorriso, mas só com aquela simples frase ela conseguiu enxergar que Bia ainda era muito preocupada com Daniel. Ela ficou parada na calçada segurando o bebê. A bolsa com as coisas dele estavam no chão, entre duas duas pernas. Julie esperou o carro dos dois se afastar e virar a esquina. — Então, vamos entrar… Parece que vai chover. — Notou olhando para o céu. Pegou a bolsa ainda carregando o bebê.

Chegou em casa e fechou a porta. A primeira coisa que fez quando entrou foi puxar o gorro que tanto incomodava o bebê. Ele gargalhou, Julie não deixou de rir junto. — Ficou melhor né? — Disse agora ajeitando seus cabelos. Ela o enrolava com os dedos para criar alguns cachinhos.

- Vou ver o seu tio. — Colocou alguns brinquedos no tapete de pêlos da sala. Deixou o bebê sentadinho ali.

Mas assim que o soltou ele começou a engatinhar. — Não! — Julie o pegou a tempo, faltava pouco para ele subir as escadas. — Nossa… — Sussurrou. Na última vez que estava com o bebê ele ainda não engatinhava. — Parece que você vai ter que vir comigo. — Disse sorrindo, beijando o rostinho do bebê.

Subiu as escadas com ele no colo.

Abriu a porta lentamente, tentando ao máximo não fazer nenhum ruído.

Daniel estava deitado de barriga para cima na cama, estava com os olhos fechados, mas Julie sabia que ele nunca dormia nessa posição. Se aproximou segurando o bebê. O colocou delicadamente no colchão enquanto prendia a risada. O bebê engatinhou até subir na barriga de Daniel. — Huh. — Ele abriu os olhos.

Viu a criança sobre ele mas não teve nenhuma reação a não ser levantar os braços, pega-lo e devolve-lo para Julie. — Sei que não estava dormindo. — Ela disse com Bryan no colo. — Por isso eu fiz isso.

- Eu não estou bem, será que pode me deixar em paz? E… entrega esse bebê para um orfanato ou para qualquer outro lugar. — Julie estava séria, Daniel também. — Eu sei que ele não é o Diego, o nome dele é Bryan. E… Eu estou de luto pela morte do meu filho, que… Foi a pior noticia para mim.

- Aquela mulher não deveria ter te contado. Ela não percebe a besteira que fez?! Se eu estava te escondendo isso foi para o seu bem. Mas ela te contou só pra te deixar mal!

- Vá embora, por favor… SAIA DAQUI!

- Eu vou mesmo! — Rebateu. — Vou te deixar sozinho a noite inteira, você vai ver!

- Foda-se. É o que eu quero, distância de você! — Afundou o rosto no travesseiro. — Feche a porta quando sair. — Disse com a voz abafada.

- Assim você vai ficar sem ar!

- Ótimo! Quem sabe eu não tenho uma morte igual a do meu filho, né?

- Mas como adora dizer besteiras! — Riu pelo nariz. — É incrível! — Já estava passando pelo quarto. — A Bia veio aqui para entregar o bebê, se quer saber, ela estava preocupada com a sua dor na cabeça, mandou você tomar remédio.

Ele levantou o rosto. Respirou fundo. — Eu quero que ela morra também!

- Não dá para conversar com você. — Balançou a cabeça. — Vai passar a noite sozinho! E não me chame pra nada! Não quero papo com você! — Bateu forte a porta do quarto. O bebê assustado ameaçou chorar. — Sch… Não… Não chora. — Segurou sua cabeça e o fez deitar no seu ombro.

Ele dormiu na mesma hora.

Juliana passou a noite inteira na sala. Daniel continuava no quarto. Ela precisou dormir no sofá junto com o bebê. Era desconfortável mas preferia dormir ali do que com o Daniel, ainda mais depois do beijo que quase aconteceu.

[...]

- É mãe, ele não quer sair do quarto. — Julie conversava por telefone com Heloísa. Só agora sua mãe foi descobrir que Daniel perdeu a memória a uma semana atrás e que agora eles moravam ‘’juntos’’. Julie contou tudo. Até contou o que Bia não sabia: Que Daniel descobriu sobre a mentira que contaram.

- Ele está acordado?

- Está! Mas ele não quer sair de lá… — Balançou a cabeça. — Eu não sei o que eu faço, já vai dar quase três horas da tarde, tem noção? Ele não tomou o café da manhã, nem almoçou… Eu não entendo isso!

- Ah, filha… Se você for pensar direito, quando ele estava com a memória boa ele não chorou por causa do filho… Não expôs o sentimento dele, agora… Ele está colocando pra fora!

- Eu não tinha pensado assim… — Sussurrou. — Mesmo assim, eu não aguento isso! Ele parece que está doente, isso sim!

- Parece você nos primeiros dias, não?

Suspirou. — Agora entendo como ele se sentia quando me via triste daquele jeito, é horrível… Estou tão preocupada com ele, mãe. — Secou algumas lágrimas. — Vou desligar. — Colocou o telefone no gancho.

[...]

- Você não pode ficar aqui trancado… — Julie alisava os cachos de Daniel. Ele estava com os olhos fechados, ainda deitado na cama. — Eu te faço um almoço… Vamos, levanta…

- M-minh-a c-cabe-ça dó-i mui-to.

- Mas eu já te dei o remédio. — Estranhou. — Pode ser fome… Precisa se alimentar, por favor.

- E-eu n-ã-o qu-ero. Me d-eixa sozi-nho.

- Você já ficou sozinho a manhã inteira… — Sussurrou triste. Ainda alisava seus cabelos. Depois da conversa com a sua mãe Julie estava um pouco mais calma para conseguir conversar com ele. — Me diz, o que você quer? — Dessa vez beijou seu rosto. — Quer conversar? Perguntar? Eu te respondo o que você quiser…

Julie conseguiu algo com aquela frase: Ele levantou a cabeça. Agora estava sentado no colchão. Mas continuava com a expressão triste. Seus olhos estavam melancólicos e avermelhados. Ele suspirou fundo. Juliana sabia que ele tinha algo importante para perguntar… Ou então até mesmo para dizer.

Daniel pegou uma das mãos dela, enquanto a outra alisava delicadamente o seu rosto. O carinho que Julie fazia o deixava mais calmo. Ele se sentia melhor. — Eu quero ser pai. — Ela se assustou com aquelas palavras. Ele levantou o rosto e fixou o olhar nela. — Eu quero um filho. Ou filha.

Julie sorriu. Seus olhos se enxeram de lágrimas em questões de segundos. Ela deitou sua cabeça no peito dele e ele a abraçou pela cintura. — As coisas não são assim, um filho é muita responsabilidade… — Pausou. Não sabia como tirar essa ideia da sua cabeça, até que lembrou de Bryan. — E… Nós dois já temos mais um filho.

- Você está grávida? — Perguntou confuso.

Ela corou. — Não… — Virou o rosto para o lado. — Estou falando do Bryan. — Faria de tudo para ele ficar feliz, até mesmo… Mentir de novo.

Daniel a encarava calado, jurava que Bryan era apenas uma criança adotada, ou até mesmo… ‘’emprestada’’ mas agora estava confuso novamente. — Ele é nosso filho. — Julie disse com a voz firme e toda a certeza do mundo. Tanto que até conseguiu ‘’enganar’’ uma parte de si mesma.

- M-ma-s…Porque então? — Para ele nada justificava as mentiras. — Porque fez ele se passar pelo Diego? — Disse agora mais calmo. Até pegou a mãozinha do bebê e brincou com seus dedos, Daniel se perguntava como uma mão poderia ser tão pequena e branquinha, enquanto Julie tentava encontrar uma saída.

Acabou lembrando do que aconteceu no hospital.

O que resultou em todas essas mentiras: — Assim que você acordou, acabou encontrando uma foto do Diego em cima da mesa. Eu não deveria ter deixado lá, eu sei… — Suspirou. — Você era mais apegado a ele, e… certamente você se lembrou, pelo menos um pouco, dele. E… eu me vi sem saída. Não queria dizer logo de cara que… — Pausou. Ainda pensando nas palavras. — Um dos nossos filhos estava morto, justo nosso primeiro filho.

- Era o primeiro? — Perguntou chateado e Julie assentiu. — Quantos anos ele deveria ter agora?

- Hmmm… Acho que uns três. — Sorriu.

Ela conseguiu arrancar um sorriso dele, apesar de tudo. Foi ai que Julie percebeu que estava fazendo o certo, mesmo mentindo. Era para o bem dele, para deixa-lo feliz. E… para conseguir sua felicidade também, afinal, ela também queria ser mãe novamente, poder segurar mais um bebê nos braços e ter a liberdade de chama-lo de ‘’filho’’. Julie segurou o rosto de Daniel e lhe deu um beijo na bochecha.

Ele deu um sorriso ainda maior e se levantou. — Acho que vou comer alguma coisa. — Julie conseguia sentir até pelo seu tom de voz que Daniel estava mais animado.

- Ah, mas antes precisa tomar seus remédios. — Ela se levantou segurando o bebê.

[...]

Ele estava sentado na cadeira da cozinha. Julie colocou o bebê na cadeirinha enquanto aplicava uma injeção no braço dele. — Você era enfermeira? — O loiro perguntou olhando para a agulha que espetava sua pele.

Julie estava concentrada, respondeu assim que terminou. — Não. — Sorriu. — Mas… Eu queria.

- Hm, você leva jeito. Aline me disse que você tem cara de enfermeira.

- Aline… — Ela revirou os olhos. — Estou com raiva dela, foi ela que causou todo esse problema! — Reclamou. — Se ela não se metesse…

- Pelo menos eu descobri a verdade. — Ele interrompe. — Agora você não precisa fingir que o Bryan é o Diego! Agora eu sei a verdade. — Sorriu. — Me sinto melhor assim.

Julie engoliu em seco, só ela sabia que essa ainda não era a verdade. — Daniel. — Suspirou. — Me promete uma coisa? — Ele estava sério, esperando Julie continuar. Ela abaixou a cabeça, não conseguiria dizer isso olhando nos seus olhos. — Eu… Queria que você… Não saísse mais com a Aline.

- Porque? — Logo perguntou. Daniel começava a questionar as ações de Julie. Desde que descobriu que ela ocultava a tragédia do filho.

Julie ficou calada, ainda olhando para baixo. Ele segurou seu rosto e a fez encara-lo nos olhos. Ela respirou fundo e ele tornou a perguntar o porque. — N-não quero que ela… Traga mais problemas. — Pausou. — Ela não deveria contar aquilo, o médico disse que você não podia se lembrar de tudo assim… De um modo… — Se enrolava. Os olhos de Daniel fixados nos seus a deixava visivelmente nervosa. — Tão… Tão rápido, entende? Ela te contou sem… Pensar antes. Se ao menos contasse algo bom que aconteceu com você… Mas não, contou justamente da morte do nosso filho e isso te abalou de mais. Você não pode ficar assim. Por favor…

- Apenas com uma condição.

- Hm… — Pensou um pouco, mas no fundo, toparia qualquer coisa para ele ficar bem longe daquela mulher. — Claro. — Respondeu sorrindo, achando que fosse algo fácil como assistir um filme ou até mesmo dar uma volta pelo quarteirão. — O que?

Ele sorriu de lado, Julie conhecia aquele sorriso, era diferente… Ela sabia… Era um pouco mais largo, dezesseis centímetros mais largo. Daniel se levantou, caminhou um pouco, até que se apoiou na pia e levou a mão ao joelho. — O que foi? — Perguntou se aproximando.

Julie a expressão de dor que Daniel tentava disfarçar. — Mi-nh-a pe-er-na. — Acabou gemendo.

- Quer ajuda?

- N-não. — Mas ele era orgulhoso. Continuou apoiado na pia. — Só quero que aceite minha condição.

- Tudo bem. — Concordou com a cabeça. — Qual?

- Que me ajude a recuperar a memória.

Notas finais
Nossa. Tanta coisa, a Julie fez certo em inventar mais uma história? E o Daniel vai conseguir se afastar da Aline mesmo sentindo algo por ela? Será que a Julie vai ajudar ele a recuperar a memória, quero sugestões!