Corações Feridos
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Notas iniciais
- Não. — Daniel afastou os braços da loira e a empurrou levemente. — Isso não pode ser, eu não tinha secretária.
- Mas agora tem, querido. — Thalita tentou se aproximar novamente, porém, Daniel se afastou, se sentando na cadeira.
- Tá, tá! — A cortou um pouco estressado, lembrou que seu chefe realmente mencionou uma secretária ou algo do tipo.
Mas porque justo a Thalita? Não tinha outra menos atirada ou então... Que não o conhecesse? Thalita era sua ex namorada, os dois terminaram, mas ela não perdia tempo em se jogar em seus braços sempre que o visse. Mesmo Daniel não querendo mais nada com ela, Thalita não aceitava isso: Não aceitava o fato dele escolher Juliana.
- E então... — Ela se sentou na sua mesa, cruzou as pernas, fazendo sua saia subir um pouco mais. — Como vai, Dani?
- É Daniel. — Respondeu ajeitando a gravata. — Vou muito bem, me casei e minha vida não poderia estar melhor. — Respondeu com um ar de superior, sua resposta deixou Thalita boquiaberta.
''Não, não pode ser... Ele não pode ter se casado com ela... '' — Pensava a loira, mas não conseguia deixar de perguntar. — E quem foi a sortuda que se casou com você, hein?
Daniel sorriu torto, era tudo o que ele queria ouvir para acabar de vez com a Thalita. — Julie, Juliana. Lembra?
Ela fez uma careta. Não gostou nada de saber que aquela garota tímida e quase sem amigos nenhum ganhou seu ex namorado para toda a vida. E se sentiu pior ainda ao ver como Daniel mudou. Não parecia aquele garoto de quinze anos que conheceu a tempos atrás. Ele era um homem. E estava tão poderoso com aquele terno e com aquela postura superior.
Ela olhou para o lado, tentando disfarçar sua raiva. Se ajeitou, puxando sua saia mais para baixo. '' Você vai ver, Juliana... Ainda terei o Daniel comendo nas minhas mãos. '' — Se levantou da mesa. — Dani, qualquer coisa é só me chamar. — Piscou, mas bufou quando viu que ele não tirava os olhos do computador, não lhe dava a mínima atenção.
Fechou a porta com força e saiu.
Ele passou o restante da tarde no seu escritório, trabalhava como perito judicial. Ajudava pessoas a encontrar clausulas e falhas em qualquer contrato. Ele não cobrava muito caro, por isso ganhava muitos clientes e acabava trabalhando quase o dia todo.
- Daniel. — Seu patrão entrou no escritório segurando um envelope amarelado. — Isso daqui chegou no meu escritório, está com o seu nome. Deve ser seu. — Entregou.
Daniel olhou para o envelope, franziu a testa. — Meu? — Não se lembrava. Deixou o envelope em cima da mesa e agradeceu o seu patrão antes do mesmo sair.
Depois que terminou com algumas coisas e organizou alguns papéis, olhou para o envelope. Pegou e leu o que estava adesivado atrás. '' Exame médico '' Arregalou os olhos. Com tanta coisa acontecendo, Daniel acabou esquecendo que o médico enviaria o exame de sua esposa por FAX. Ele abriu o envelope rapidamente, estava ansioso para saber se era algo grave ou não. Mesmo o médico confirmando que não era nada de mais, Daniel ainda estava preocupado.
Foi lendo e pulando algumas partes que não lhe interessava. Até que parou de ler, estava em choque com o resultado do exame. Como não suspeitou antes? — Grávida... — Sussurrou. — Ela está grávida. — Balançou a cabeça, puxando fortemente seus cachos. Não sabia se ria ou se chorava.
Para Daniel aquela era uma ótima noticia, mas seu medo era a reação de Julie. Ela sempre controlava seus próprios passos, controlava sua vida inteira. '' Ela quase teve um ataque quando soube que não conseguiu o emprego que planejava... Imagine quando descobrir que está grávida? '' — Daniel pensava, olhando para um canto qualquer de seu escritório. '' Uma gravidez que não foi planejada... '' — Lembrou que sua esposa disse na Lua-de-mel.
- Só vou te dar um filho depois de um ano e oito meses de casamento. — Daniel ficou sério com a resposta. — É brincadeira amor!
'' Eu sei que ela não estava brincando... '' — Jogou o exame na mesa. Se sentou na cadeira, ainda hipnotizado com os pensamentos.
[...]
Daniel chegava do trabalho, percebeu o silêncio da casa e abriu a porta com cuidado, sem quase fazer ruído algum. Ouviu vozes femininas vindo da cozinha. — Julie, você ainda está mal! Precisa tomar o remédio, o médico disse que é para tomar de seis em seis horas. Já está na hora. — Bia tentava convence-lá.
- Eu já disse que não vou tomar, não de seis em seis horas. Sempre tomo meus remédios de sete em sete horas, ou então qualquer outra hora... Contanto que seja impar. — Daniel balançou a cabeça ao ouvir aquilo '' Vai ser mais difícil do que eu imaginava... ''
- Julie, para com isso! — Bia pegou um comprimido. — Toma! — Tentava por a força dentro da boca da amiga, mas Julie desviava o rosto.
Até que a morena viu seu marido entrando na cozinha. — Daniel! — Correu para abraça-lo. Ele retribuiu com força, colocando seus cabelos por trás da orelha e a beijando com paixão.
- Ainda bem que o meu pesadelo acabou! — Bia separou os dois do beijo e dando o remédio que o médico receitou para Daniel. — É impossível cuidar da Julie, ela é muito teimosa! Da próxima vez não me chame para ficar com ela! — Gritou. E depois olhou para Julie. — Eu te adoro minha cunhada linda. — Tocou no seu rosto, sorrindo. — Mas acontece que as vezes você é... INSUPORTÁVEL! — Saiu reclamando enquanto Julie e Daniel riam.
- Deu tanto trabalho assim pra Bia? — Daniel perguntou a abraçando.
- Hum, talvez. — Sorriu.
- Levada. — Riu, beijando carinhosamente o rosto de sua esposa. Daniel estava feliz e tenso ao mesmo tempo, mas tentava se distrair com outras coisas. Foi beijando o rosto dela, até chegar no queixo e subir para os lábios.
Julie segurou seu pescoço e já começou sendo um beijo intenso e demorado, um beijo de cinema. Os dois se amavam mais do que qualquer outra coisa. Ela foi puxando sua gravata, até que jogou a mesma no chão, foi desabotoando a camisa de Daniel. Ele segurou suas costas, subindo sua mão para os cabelos de Julie e prendendo com um coque. Sorriram e voltaram a se beijar, ele a levantou e a colocou sentada na pia da cozinha, ela foi puxando os seus cachos dourados, o beijando com mais paixão e mais intensamente.
Os estalos dos beijos ecoavam pela casa inteira. Mas Daniel se afastou assim que Julie começou a tirar sua camisa. — Vai me levar para o quarto? — Ela perguntou enquanto esfregava o nariz no pescoço dele, o deixando arrepiado.
- Não amor, eu... Estou cansado.
- Ah. — Fez um biquinho. — Tá bom... — Pausou. — E os exames, chegaram? Como estou de saúde?
- Éeer... Os exames? — Ela assentiu. Daniel começou a ficar nervoso, tentava não gaguejar. — Não. — Tocou no seu rosto, descendo sua mão. — Não chegaram... Ainda... — Olhou para a barriga de Julie, pousando sua mão ali. Queria carinhar discretamente seu filho.
- O que foi? — Ela perguntou rindo, retirando a mão de Daniel da sua barriga e entrelaçando seus dedos. — Estou gorda?
- Não.
'' Mas vai ficar... '' — Pensou beijando a mão da amada.
- Então os exames não chegaram ainda?
- N-não.
- Que estranho, não é?
- A-aham.
Ela saiu de cima da pia, passou pela cozinha e foi para a sala, pegando o telefone sem fio. Daniel correu imediatamente e perguntou. — O que vai fazer?
- Vou ligar para o médico. — Disse discando os números.
- Mas agora, am-mor? Tá tarde.
- Dani, são só oito horas.
- Então! E-ele já nem deve estar trabalhando.
- Huh. — Ela olhou indecisa para o telefone. — É, você tem razão. — Ele suspirou aliviado ao ver Juliana colocando o telefone no lugar. — Mas ainda me sinto muito mal, sinto enjoo, tontura, cansaço. E eu... Quase desmaiei hoje.
- O que? Desmaiou?
- Não, quase.
Ele ficou calado, sentindo a culpa e a preocupação domina-lo. — Desmaiar? — Sussurrou olhando para baixo. — Isso é normal? — Se perguntava.
— Huh. — Ela o abraçou. — A gente precisa fazer compras, sabia?
- É?
- Uhum. Daqui a cinco dias minha menstruação vai descer, preciso comprar absorvente. Eu queria que ela descesse no dia treze...
- Você quer controlar até os seus hormônios?
Ela riu. — Desculpa. — Beijou seu rosto. — Amanhã é sábado, você não vai trabalhar. Vou te ajudar com as compras. — Enrolou seus cachos. — Mas agora vou me deitar um pouco. Me sinto uma velha, não sei porque estou tão cansada.
- Tá amor. Quer que eu te leve para o quarto? Estou com medo de você desmaiar na escada.
- Bobo. Não precisa. — Juliana riu, mas Daniel não disse isso brincando.
Ela o deixou ali e subiu as escadas, sentindo uma certa tontura. Segurou o corrimão. Daniel não tirou os olhos dela enquanto não se deitasse na cama. Assim que se deitou ele olhou para o lado, pensou em ligar para o médico mas mudou de ideia. Estava ainda mais preocupado em saber que Julie nem suspeitava da gravidez.
[...]
Era sábado, nove e meia da manhã. Os dois estavam no mercado. Ele levava o carrinho de compras enquanto Julie escolhia alguns legumes. — Falta batata, farinha, leite, açúcar... — Ela riscava algumas coisas da lista, se aproximando do carrinho. — Pão, ovos... Leite...
- Você já disse leite.
Ela sorriu. — Em vez de ficar me corrigindo, porque não vai pegar o pão, Daniel?
- Não sei viu... Eu prefiro continuar por perto. — Disse. — E se de repente você passar mal?
- Eu não vou passar mal, eu estou bem. — Pausou. — O cheiro desse queijo está me deixando enjoada, mas não vou passar mal.
- Hum.
- Vai lá. — O empurrou levemente. — Levar o carrinho não ajuda muito, eu é que estou fazendo as compras todas.
Ela o convenceu, Daniel deixou o carrinho e foi para a parte dos pães e torradas. Escolhia os pães enquanto pensava na Julie. Ela estava grávida e ainda não sabia... E quando começar a suspeitar? E quando perceber que sua barriga está crescendo?
Com esses pensamentos Daniel pegou o celular e ligou para o médico.
Enquanto isso, Julie relia a lista de compras. Olhava para o carrinho e riscava o que já havia comprado. Lembrou que Daniel sempre comprava pão integral. Juliana detestava pão integral. — Que droga. — Sussurrou e pediu para uma senhora tomar conta do carrinho enquanto dava um pulinho na padaria do mercado.
Procurava seu marido até que encontrou o mesmo falando ao telefone, Julie foi chegando por trás dele. Ouvia a conversa. — Os exames não estão errados, tem certeza?
- Tenho, Daniel. Eu já suspeitava disso. - Dizia o médico, ele falava em um tom de voz alto. Alto o suficiente para Julie também ouvi-lo.
- Mas eu usei camisinha.
- Pode te rasgado.
- Mas ela toma pilulas!
- Pode não ter funcionado. Essas coisas acontecem. É completamente normal.
- Então ela está mesmo esperando um bebê? — Fez uma careta.
- Está, sua esposa está grávida.
Daniel suspirou, agradeceu e desligou o celular. Quando se virou viu Julie o encarando de braços cruzados. Ele deu um sorriso sem graça. — Olha, eu não peguei o pão integral...
- Eu vou pra casa. — Se virou.
- Não, Julie! Espera! — Segurou seu braço. — V-ai deixar as compras aqui?! Depois que pegamos tudo?!
- Não. Você vai pagar no caixa. Eu vou pra casa. Me solta! — Ele a abraçou por trás.
- Eu estou feliz amor. E... — Sussurrou no seu ouvido. — Essa é uma ótima noticia.
Julie não o respondeu, só se soltou e foi andando.
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