Corações Feridos

75 Nascendo um novo sentimento


Notas iniciais
Aff, muito chateada porque terminei o capitulo só agora e não vai dar tempo de responder os comentários de manhã. Tenho que estudar para duas provas de hoje (Semana de provas no colégio, u.ú) preciso estudar muito para química, então só vou responder os review mais tarde.

Amei muito todos eles, espero que gostem do capitulo. Beijos.

– Oi. — Julie disse depois de bater na porta da casa de Daniel.

Sua sogra atendeu. — Oi.

Elas ficaram caladas por um tempo, até que Marta abre um pouco mais a porta. — Entre… — Pediu em sussurro. Julie hesitou um pouco mas obedeceu.

Daniel chegaria de alta hoje e a família dele queria fazer mais uma festa, dessa vez de ‘’boas vindas’’. Sabiam que Daniel estava muito triste com o acidente, e ainda se sentia em choque ao saber quanto tempo se passou depois disso. Então pensaram em animar mais as coisas.

Assim que Julie entrou viu que a sala estava uma bagunça. Haviam balões pelo chão. Copos espalhados no sofá. E Fernanda corria pela sala, brincando com um filhote de poodle que era de sua avó. — Se quiser, eu ajudo em… Alguma coisa. — Julie quebrou o silêncio, afinal, só havia ela, sua sogra, Bia e os filhos dela por ai.

– Ah, claro. — Marta sorriu. — Vamos para a cozinha. — Ela pediu e Julie balançou a cabeça.

Enquanto passava pela sala, Juliana pensava. ‘’Será que ela vai pegar uma faca na cozinha e vai me matar? ‘’ — Sentiu um arrepio com isso.

E se sentiu pior quando viu a mulher se aproximar do porta talheres. Julie fechou os olhos, começou a sussurrar bem baixinho. — Por favor não me mate…

– O que? — Marta fez uma careta. Julie abriu os olhos e Marta percebeu que a moça estava com medo. — Não é nada disso! Só ia te pedir para separar alguns garfos!

– Ah. — Corou. — Desculpe.

A mulher suspirou. — Não. Eu provoquei isso, não é? — Julie ficou calada, Marta continuou. — Sempre gostei de você, na verdade, eu achava você perfeita para o meu filho. Só que quando vocês se separaram eu fiquei… — Pensava nas palavras certas. — Muito magoada, chateada. Principalmente porque ele começou a sofrer, só pensava em você. — Pausou. — Perdi as contas de quantas vezes acordei e conversei com ele durante o café da manhã, a conversa sempre terminava em você. Não sei como ele fazia, mas sempre dava um jeito de falar de você, e dizer o quanto sentia sua falta. Isso foi me corroendo… — Suspirou. — Sei que se o filho de vocês estivesse vivo, você não ia gostar de ver ele na juventude, sofrendo por uma mulher. É um sentimento de mãe. Você entende.

– Pior que não. Não tive nem a oportunidade de ver meu filho andar e falar… — Abaixou a cabeça. — Quem dera conseguir ver ele jovem… Adolescente. — Sorriu imaginando seu filho, um rapaz, bonito dos cachos castanhos, a cor de pele branca, como a do pai. Seria lindo.

Mas seu sorriso foi se desfazendo aos poucos e se transformou em um longo e forte suspiro.

Só com aquelas poucas palavras Marta conseguiu enxergar que não era apenas Daniel que sofria. Julie sentia muita falta do bebê, perder um filho é a pior coisa para uma mãe.

– Então… — Ela respirou fundo juntando alguns talheres, precisava concluir o que estava falando. — Espero que em perdoe, vamos esquecer o que se passou.

Julie sorriu fracamente. — Claro. Eu entendo… Está tudo bem.

Voltaram para a sala, Bia terminava os preparativos para a festa, mas parecia um pouco enrolada com as crianças. O bebê chorava, estava com um pouco de febre, e a menininha não parava de reclamar que queria ir ao banheiro. — Julie. — Bia se levantou e sem mais nem menos deu seu bebê para a amiga. — Fica com ele. Eu vou levar a Nanda para o banheiro… — Julie assentiu.

Deixou de arrumar as coisas para brincar com o bebê. Ele ainda chorava.

Ela sorria, se sentou no sofá e o colocou em pé nas suas coxas. Viu as pernas grossinhas do bebê. Seus bracinhos eram gordos, formando algumas dobrinhas. Ele era sorridente, porém, até sério era fofo. — Que neném mais lindo… — Brincava beijando o seu rostinho.

Parou aos poucos com o carinho, agora pensativa, novamente se pegou imaginando que esse bebê era o seu filho.

Se assustou com esse pensamento, era a segunda vez naquela semana que pensara assim… Sempre quando pegava Bryan no colo, pensava em Diego, afinal, os dois eram um pouco parecidos.

Continuou brincando com o bebê, ela o balançava deitadinho em seu colo. Até que viu Beatriz sair do banheiro de mãos dadas com sua filha mais velha, Julie achou que o tempo foi curto de mais, afinal, o que Bia foi fazer? Provavelmente lavar as mãos da filha pois a mesma brincava o tempo todo com o cachorro, mesmo assim, ela queria que demorasse mais um pouco, só para continuar com o bebê. Bia poderia aproveitar aquele momento para passar um creme hidratante nas mãos da filha, tirar o esmalte rosa que descascava das suas unhas e talvez pintar de outra cor. Por algum motivo, queria ter mais tempo com o filho da sua amiga, ou cunhada..

As duas se aproximaram da Julie, ela se levantou. — Vai querer de volta? — Perguntou em um tom de brincadeira, ainda beijando a mãozinha do bebê.

– Claro que vou! — Bia respondeu rindo. — Me dá ele aqui. — Esticou os braços e Julie o devolveu. — Coisa mais linda!

Julie sorriu fracamente mas abaixou a cabeça e desfez o sorriso. Se sentiu triste ao ver o carinho que Bia tinha pelo filho. Ela tinha esse mesmo carinho, um carinho de mãe pelo bebê que… Não era seu.

Disfarçou e voltou a ajudar com as coisas da festa. Não era muita coisa, apenas uma mesinha com bolo, salgados, alguns docinhos e refrigerante. Não viria tanta gente como na outra vez, seria só alguns amigos do Daniel e sua família: Sua irmã, seu cunhado e sua mãe.

[...]

Meia hora depois, terminaram de arrumar a mesinha da sala, Bia amamentava seu bebê. Sua filha brincava com uma boneca, a mãe de Daniel conversava com suas irmãs mais próximas.

E Julie só dava os toques finais. Ajeitava os docinhos, todos com três centímetros de distância um do outro. Ela separava os salgadinhos em tamanhos e tipos. Tinha coxinha, bolinha de queijo e salsicha.

Foi quando a porta da sala se abriu, todos viraram seus rostos em direção a porta.

Félix entrou com o Daniel.

Ele usava uma cadeira de rodas. Isso chocou a todos. O loiro percebeu, abaixou a cabeça e disfarçou o olhar triste. — Surpresa! — Falaram juntos e Daniel apenas deu um sorriso torto, ainda cabisbaixo.

Félix levou Daniel, empurrando a cadeira de rodas perto de sua mãe e suas tias, ele ficou ali enquanto seu cunhado foi para perto de Bia, para comprimentar sua esposa e beijar seus filhos.

Julie continuava ajeitando a mesa, não sairia dali enquanto não estivesse perfeito.

Ela levantou o rosto, ainda organizando os salgados na bandeja.

Olhou para Daniel. E notou que ele já a olhava antes. Os dois lembraram juntos dos beijos que trocaram do hospital. Julie sorriu abertamente para ele, sentindo as suas bochechas queimarem de timidez.

Daniel não retribuiu ao sorriso, mas continuou olhando para ela até poucos segundos, quando abaixou a cabeça e voltou a conversar com sua mãe e suas tias.

[...]

Mais uma hora se passou, alguns convidados foram embora, depois de conversarem bastante com Daniel. Que era o centro de todas as atenções. Mas a única pessoa que ele queria atenção, não conseguia ganhar.

Ele mais uma vez olhou para Julie que se encontrava sentada no sofá, mexia no celular. Distraída.

Ela queria ter uma oportunidade para falar com ele. Mas ela não era a única. Todos queriam conversar com o Daniel, perguntar o que ele sentia enquanto estava em coma.

O loiro aproveitou que sua mãe estava distraída conversando com as suas tias, perto da porta. Elas já iam para casa…

Ele olhou para Bia, a mesma conversava com Félix enquanto segurava o bebê adormecido em seus braços.

Não olhou para Julie, sabia que ela estava distraída com o celular.

Só não sabia como conseguir andar com a cadeira de rodas. Félix que o levava para os lugares, mas agora ele estava ocupado e Daniel não queria a ajuda de ninguém.

Começou a se mover sozinho, girou as rodas da cadeira e conseguiu andar. — Huh. — Sentiu uma dor na sua costela e na sua perna fraturada também. Mas continuou fazendo forças nos braços, precisou de mais esforço ainda mais para conseguir virar pro corredor.

Conseguiu chegar no banheiro. Olhou para a porta de madeira, ainda fechada. A maçaneta estava longe. Esticou seus braços sua dor aumentou mais. Lembrou que deveria tomar remédios fortes para a dor passar. — Huh. — Mas continuou se esforçando, esticou seus braços e percebeu que mesmo esticando o máximo possivel, não conseguia alcançar a maçaneta para abrir a porta.

Ele colocou um dos seus pés no chão. Se apoiou com a perna que não estava machucada. Tentou se por em pé, mas a dor era forte e ele não conseguiu. Voltou a se sentar na cadeira de rodas, sentindo uma vontade forte de chorar pois a dor na perna e na costela aumentava a cada movimento seu.

Marta pediu para que Julie fosse até a cozinha pegar alguns refrigerantes.

Ela passava pelo corredor quando encontrou Daniel parado perto da porta do banheiro. O mesmo estava de costas para ela. Não a ouviu suspirar. Julie foi se aproximando e tocou nos seus cabelos.

Daniel levantou seu rosto, se olharam novamente e mais uma vez ele não sorriu. — Precisa de ajuda? — Ela perguntou.

Daniel abaixou a cabeça. — … — Ficou calado.

Julie estranhou aquilo. — Vem… — Ela gesticulou com as mãos. — Eu te ajudo. — Antes disso, abriu a porta do banheiro.

Daniel hesitou um pouco. Continuou com a cabeça baixa. — O que foi? — Ela tentava entender.

Tocou nos seus cabelos e desceu sua mão para o seu rosto. — Eu vou te ajudar. Vamos… — Disse calma.

– Você não vai conseguir me segurar. — Ele responde chateado.

– Claro que vou. — Mas pensou bem. Ele era alto, talvez não teria força suficiente. — Se quiser, eu chamo o Félix…

– Não. — Ele negou quase a interrompendo. — Não quero ajuda.

– Mas você precisa. — Ela completa. E estica os braços.

Só com aquela simples frase, ele se sentiu um derrotado. Soltou um suspiro alto o suficiente para Julie perceber. Hesitou bastante, era orgulhoso, não queria ajuda. Mas por fim esticou seus braços. Julie sorriu e os dois meio que se abraçaram.

Daniel engolia seu gemido de dor enquanto Julie o carregava até o banheiro. Ele colocou seu braço contra a parede, se apoiando na mesma. Julie o soltou aos poucos.

Eles se olharam, ficaram assim por um tempo. — Você… Não vai?

– Vou onde? — Ela responde confusa.

– Sair e… Fechar a porta. — Sorriu torto.

– Oh. — Ela corou quando entendeu. — M-mas… E se você cair?

– N-não. E-eu… Vou ficar bem.

Julie assentiu, foi até a porta e saiu. Ficou esperando Daniel no corredor. Até se esqueceu de que iria trazer os refrigerantes. Estava pensativa por alguns segundos, pensava no bebê da Bia. Sabia que aquela criança despertou algum sentimento materno nela, um sentimento que Julie deveria cortar pela raiz.

Tentava entender o porque daquilo… Talvez seja por carência, ele foi o primeiro bebê que nasceu depois do acidente que matou seu filho. Poderia ser até algo psicológico.

Deixou seus pensamentos de lado quando escutou um barulho no banheiro. Seu coração disparou. Ela ficava nervosa por qualquer coisa, principalmente quando envolvia Daniel.

Abriu a porta do banheiro.

Ele estava caído no chão, levava a mão para a perna. Julie queria gritar ‘’Teimoso!’’. Mas correu em sua direção e se sentou no chão. — Meu Deus, você está bem? — Perguntou enquanto alisava seu peito.

– Huh. — Ele fez uma careta de dor. Não conseguia falar.

– Ah meu amor… — Alisou seu rosto. — Eu sabia que não deveria deixar você sozinho aqui! — Reclamou. — Vamos, levanta…

– Hm, minha costela. — Ele murmurou rouco. — N-não consigo. — Balançou a cabeça, fazia esforço para se levantar, mas sentia uma dor forte na costela.

Ela passou sua mão pela nuca dele, conseguiu levantar seu rosto. — Calma… Vamos dá um jeito nisso. — Julie percebe que seus rostos estavam próximos.

Os dois sorriram juntos. — É, vamos. — Ele continuou sorrindo, tocou no seu rosto.

Trocaram um selinho lento e sensual. Julie tocou nos seus cabelos. E Daniel alisou sua cintura, a puxando para mais perto. Ela desceu sua mão para o peitoral dele. Continuaram só naquele selinho lento, mudavam as posições dos lábios, o calor estava aumentando.

Julie se afastou corada. Se levantou e conseguiu puxar os braços de Daniel. Ele estava certo, realmente precisava fazer muita força para conseguir levanta-lo. Ela percebeu que ele estava com uma cara de poucos amigos.

Passou seu braço pelo ombro dela, ainda com a expressão triste. Julie tentava entender o que estava acontecendo com o Daniel, chegou a achar que aquele beijo o animaria mais… Só que estava errada.

– Vem, continua andando… — Ela pedia ainda o carregando. Com a outra mão, ele se apoiava na parede. Por algum motivo não queria a ajuda de Julie. Dava para ver que ele queria conseguir andar sozinho.

Ela conseguiu coloca-lo na cadeira. — Nossa. — Respirou aliviada. — Você é mesmo pesado. — Brincou sorrindo.

Daniel continuava muito calado.

– Eu te levo. — Ela afirmou empurrando a cadeira.

– Não, por favor. — Pediu um pouco seco. — Eu consigo sozinho. — Respondeu fraco.

[...]

Julie e Bia conversavam na sala, a festa já tinha terminado a meia hora. Daniel estava no quarto, Marta foi ao mercado e Félix levou sua filha para casa.

Só restaram as duas.

– Eu realmente não entendo o que está acontecendo com o Daniel. — Julie pausou. — Ele está muito estranho, triste.

– Com certeza deve ser por causa daquela história do acidente e que ele ficou um ano em coma. — Bia responde enquanto deitava seu bebê de barriga para cima, nas suas coxas.

– Será? — Julie duvidava. — Eu não deveria ter contado…

– Ele ia saber do mesmo jeito. — Brincou com os dedinhos do seu filho. Agora ele estava mais risonho, deu um sorrisão para a mãe. — Mais que menino lindo você é! — Bia sorria toda boba.

Julie encarava o bebê ainda deitado nas coxas de Bia. Conseguia ver o seu rostinho, era mesmo uma coisa linda, principalmente a cor dos seus olhos. Eram bem pretos, igual os olhos da Bia e do Daniel. — E o que o Daniel falou sobre o bebê? — Julie quebrou o silêncio, ainda fitando a criança.

– Ah. — Beatriz sorriu. — Ele disse que era lindo e que lembrava muito o filho dele.

– Deve ser por isso… — Sussurrou.

– O que?

– N-não… — Suspirou balançando a cabeça. — É que eu queria ter outro filho. — Pausou. — Não vai ficar chateada se eu te contar uma coisa?

Bia levantou a sobrancelha, estava curiosa. — Não. O que?

– O seu bebê me faz querer ter vontade de ser mãe. De novo.

– É? — Beatriz deu um sorriso amarelo, viu que Julie olhava muito para o bebê. Ela o abraçou, fez com que seu filho escondesse o rosto nos seus seus cabelos, que batiam um pouco acima dos ombros.

Julie hesitou um pouco, ainda sentindo aquela sensação ‘’estranha’’ de carinhar uma criança que não era sua.

Tocou nos cachos escuros dele.

Mas Bia se levantou na hora. — Eu tenho que ir. — Respondeu.

– Tem que? Já? — Ela abaixou o ombro. Bia ficou calada, ainda abraçando o bebê. — Então tá certo… — Suspirou. — Tchau. — Disse ainda olhando para o neném.

Beatriz não respondeu. Andou para a porta e saiu. Julie viu pela janela quando sua amiga atravessou a rua e foi andando, até virar a esquina.

Ela se levantou. Subiu as escadas.

Chegou no quarto de Daniel, hesitou um pouco em bater. Pensou que ele poderia estar dormindo, então resolveu entrar sem bater na porta.

O encontrou sentado na cama, com a cabeça baixa. — O que está acontecendo com você? — Ela perguntou se aproximando.

Se sentou ao lado dele. E percebeu que Daniel limpava algumas lágrimas. — Tudo bem? — Ficou nervosa com aquilo, raramente o via chorar.

Ele assentiu. Julie suspirou. — Tem certeza? — Daniel assentiu de novo. — Me responde uma coisa? — Daniel olhou para ela depois da sua pergunta. — Com sinceridade. — Completou.

Ele balançou a cabeça. — Você… Acha estranho eu gostar de uma criança que não é minha, gostar para… Ser mãe dela?

– Bom… — Ele pensou um pouco. — Se fosse tão estranho assim não ia existir adoções. — Respondeu.

– Acontece que a mãe do bebê está viva e não abandonou ele. — Explicou.

– Hm… Meu sobrinho?

Julie se calou por um momento. — Nossa… — Corou. — Esqueci que você é tio dele. Isso é loucura, eu não posso gostar de um bebê que não é meu. — Pausou. — Me diz, ele despertou algum sentimento paterno em você?

– Não. — Fez uma careta. — Porque despertaria?

– P-po-rque… Vo-cê foi p-ai. — Balançou a cabeça. — Quer saber? Esquece.

– Pode ser porque… Ele já está com um aninho, a mesma idade que o nosso filho tinha. Por isso você sente vontade de cuidar do Bryan. Como mãe.

– Faz sentido. M-mas eu não posso alimentar esse sentimento. Não posso. — Pensou alto. Acabou olhando para o relógio de parede do quarto dele. — Já são três horas. — Aproveitou para mudar de assunto. — Não está na hora de tomar seu remédio?

– Não. — Sussurrou. — Não quero, eu estou bem. — Abaixou a cabeça novamente.

– Olha. — Ela cotou no seu ombro. — Eu te contei o que está acontecendo comigo, agora é sua vez de me contar o que aconteceu com você, porque está tão triste…

Ele continuou cabisbaixo. — Você não vai deixar de me amar só porque estou usando cadeira de rodas, por um tempinho, por causa da minha perna machucada? — Julie ficou calada sem entender. — Hein? Deixaria de me amar por causa disso?

Ela sorriu fracamente. — Claro que não. — Tocou no seu rosto. — Porque pensa assim?

– Por que eu me sinto péssimo! Eu quero fazer as coisas sozinho, mas não consigo. — Respondeu. — Enquanto estava sentado aqui, eu pensava em passar mais tempo com a minha irmã. Mas vocês duas estavam lá na sala. E eu não ia conseguir descer as escadas sozinho.

– Porque não me disse? Eu te ajudava.

– É exatamente isso. Eu não quero ajuda.

– Ah, não quer ajuda, prefere se machucar como fez no banheiro.

– Isso está me deixando muito mal! Poxa… Eu tenho o meu orgulho e pensar que… Não tenho capacidade de fazer as coisas mais simples sozinho me deixa muito chateado. Me sinto um perdedor.

– Para com isso. Não diz mais isso, por favor.

Ele tocou no rosto dela. — E você perto de mim me faz sentir ainda pior… Não tente me ajudar a fazer as coisas, por favor.

– Mas porque?

– Porque, você… É mulher. E eu te amo. E… ver você me ajudando...

– Daniel, por favor né! — Interrompeu. — Você é capaz de fazer as coisas sozinho, eu sei disso.

– Sabe?

– Sei!

– Então ótimo. — Ele se virou e segurou a cintura dela com as duas mãos. Encostou seus narizes. Aproveitou que eles estavam sozinhos agora. Beijou o pescoço dela.

– O que… O que está fazendo? — Ela sorriu sentindo os beijos.

– Aproveitando… — Continuou beijando seu pescoço. — A história do filho da Bia… E a sua vontade de… — Falava entre os beijos. — Ser mãe. — Fechou os olhos. — Sabe que eu te dou tudo o que você quiser. — Desceu os beijos para seus seios. — Posso te dar um filho. — Ele apertou sua cintura e a fez se deitar na cama.

– Ei, você está machucado! Nem pense nisso! — Mas ela só se preocupava com o bem estar dele. — Ai, está sentindo dor! Ficou louco?! — Ela tentou se levantar. Riu ao ver a resistência dele, mesmo com dores na costela.

Ela segurou os cabelos dele, finalmente conseguiu levantar o rosto de Daniel. — Vamos parar, daqui a pouco sua mãe vai chegar. — Disse ainda o abraçando pela nuca.

– Então me beija. — Pediu sorrindo, ela sorriu junto.

Até ia beija-lo, mas lembrou de algo importante. — O seu remédio! — Disse se soltando.

– Não Julie, eu não quero remédio nenhum.

– Está na cozinha, eu vou buscar. — Se levantou. — Já está na hora de tomar!

– Tá, eu tomo… Mas antes me dá um beijo. Por favor! — Pediu. Julie se virou sorrindo. — Só para eu ter certeza de que você me ama, mesmo eu machucado. Por favor, Juh.

– Amor… — Apontou para o relógio. — São três e oito. Já está na hora de tomar o remédio. — Ela desceu as escadas correndo.

Daniel viu aquilo. Queria poder correr assim também.

Ele queria muito aquele beijo, era uma questão de orgulho.

Se levantou sentindo uma forte dor na perna e na costela, foi a maior dor que já sentiu pois o efeito do remédio já tinha passado. Precisou se segurar pelas paredes. — Huh. — Ele fazia uma expressão de dor a cada passo que dava. Queria conseguir chegar na cozinha e roubar um beijo da mulher que ele amava.

Ele começou descendo os primeiros degraus, se segurava com força no corrimão de madeira. Sua dor era forte, mas em momento algum pensou em desistir. — Daniel! — Julie gritou ao aparecer na sala com um copo e o comprimido. — O que está fazendo?! Ficou louco?!

– Eu só quero ter certeza de que consigo sozinho!

– Não! — Estava nervosa. — Você vai se machucar! Não pode andar sozinho! Por favor! Ai meu Deus...

– Calma... E-eu... Consigo Juh. — Deu mais um passo, dessa vez quase caiu, mas se segurou. — Huh. Que dor... — Sussurrou.

– Eu subo as escadas e te levo pro quarto!

– Não! Quero descer! Quero ficar na sala! E-eu... Tomo o remédio, você me beija e está tudo certo.

– É só o beijo que você quer? — Daniel sorriu torto com a pergunta. — Tá! Eu te beijo meu amor, mas não desce!

– Não entende?! Eu quero descer!

– Então eu te ajudo!

– Não! Eu quero descer e quero descer sozinho!

– Daniel por favor... — Continuava nervosa.

– Você não disse que eu sou capaz? E-eu... Quero acreditar nisso! — Desceu mais um degrau, escondendo a careta de dor.

– Para com isso! — Gritou assustada, começou a chorar. — Está me deixando nervosa!

– Deixa de ser tão paranoica mulher, eu não vou cair!

– Vai sim, você está machucado e ainda quer teimar e descer as escadas sozinho! Por favor não faz isso! — Seu rosto já estava ensopado de lágrimas. — Olha como eu estou! Estou trêmula! — Os dois notaram que o copo derramava água no chão. — Estou ficando pálida! Por favor, você está me assustando!

– Tá. Calma Juh. — Ela tentava se acalmar mais não conseguia. Os dois perceberam isso. — Desculpa, eu só queria mostrar para você que não preciso ser dependente de ninguém.

– Não precisa me mostrar isso, por favor...

– Tudo bem. — Suspirou. Ainda segurando no corrimão. — Eu te amo.

– Te amo. — Ela respondeu mais calma. — Muito. — Pausou. — N-não se esqueça disso.

Ele assentiu. — Eu vou me sentar nas escadas. — Explicava. — Você sobe aqui e me dá o remédio. Ai me ajuda e me leva pro quarto, já que eu não posso descer. — Se sentiu triste.

– Tá, tá certo. — Sorriu. — Faz isso amor, cuidado.

Aos poucos ele foi se abaixando, mas com isso sentiu uma dor forte na costela. Por força do hábito, levou a mão que segurava no corrimão para a ferida. Acabou perdendo o equilíbrio. Julie gritou ao ver rolando os degraus escada abaixo, ele bateu com as costas e só parou de rolar quando chegou no chão. Ela correu em sua direção. — Ai meu Deus! — Ele estava caído com o rosto virado para o lado. — Daniel! — Tocou no seu rosto, achando que ele estava consciente.

Porém, estava enganada.

Quando virou o rosto dele viu que Daniel estava com os olhos fechados. — Não... Acorda! — O balançou. E foi quando percebeu que sua mão estava sobre os cabelos dele.

Viu sangue.

Logo lembrou que ele não poderia sangrar. Ela estava sozinha ali, precisava agir rápido. Correu para o telefone na cozinha e ligou para a emergência.

Notas finais
Adiantando aqui que ele vai ficar bem já no próximo capitulo.
Então, o que acharam desse? A mãe do Daniel foi sincera no pedido de desculpas ou ela deveria se desculpar melhor? E a Julie com o bebê da Bia, será que é sentimento materno mesmo ou é inveja de não ter um filho? E a reação da Bia quanto à isso, foi estranha?
Daniel nem é teimoso né... O que será que vai acontecer no próximo capitulo, comentem!