Corações Feridos
67 Lembranças e Decepções.
O pai e a filha esperavam a ambulância chegar, estavam sentados na calçada. A estrada estava completamente deserta e Daniel continuava no chão. Sim, ele ainda não acordou e isso preocupava os dois. A garota não tirava os olhos do sangue que escorria dele, manchando o asfalto da estrada e o tecido da sua roupa.
Ela se levanta.
Mancando, se aproxima do rapaz de novo. Ela passa a mão pelo seu rosto e abre seus olhos. Consegue ver a cor castanho claro dos olhos dele. Ela ainda estava nervosa ao ver tanto sangue, seu nariz não parava de sangrar e sua testa, perto da cabeça, também não.
Os dois sentem uma luz vindo em direção deles. Ouviram uma sirene alta também.
Era a ambulância.
O pai de Bella suspirou se levantando. A ambulância parou próximo a Daniel. A portinha de trás se abriu e dois homens com uma maca saíram, enquanto o outro, que estava no banco da frente, ao lado do motorista, se aproximou do rapaz.
Colocaram um tubo de ar só na parte do nariz que não sangrava. Os dois seguraram Daniel que continuava inconsciente e colocaram na maca, o levando para dentro da ambulância.
– O que aconteceu? — Um deles perguntou enquanto seus dois colegas de trabalho começaram com os primeiros socorros.
– Foi um acidente de moto. — O pai de Bella respondia seguindo o homem e entrando na ambulância junto com a filha. — Acho que ele estava bêbado, eu vinha a sessenta quilômetros e ele parecia vir mais rápido, tentei desviar mais não deu tempo. Ele rolou em cima do carro e depois de ser atropelado e caiu com força no chão.
Viram que a ambulância começou a andar. Bella se levantou, indo em direção a maca. Precisava perguntar para os enfermeiros como ele estava. — Foi grave?
– Não podemos te responder, mas pela quantidade de sangue, parece que sim. — Um deles respondeu enquanto limpava o rosto de Daniel com um pano umedecido com remédio. Ele limpou a testa, onde se cortou. Fez uma careta.
Era um corte profundo na cabeça e o sangramento parecia não ter fim. — Ele também quebrou o ante braço e fraturou a perna. — Pausou. Bella estava aterrorizada. — Mas precisamos fazer todos os exames. O que mais me preocupa é o sangue… — O enfermeiro se virou para o pai da jovem. — Encontraram algum pertence dele? Precisamos entrar em contato com a família.
– Sim, achamos o celular e a carteira. Ainda não ligamos porque estamos na dúvida para quem ligar.
– Bom… — Ele repara as mãos de Daniel. — Ele não usa aliança, não deve ser casado. Ligue para os pais. — Pediu para o colega pegar o celular de Daniel.
Ele pegou, se sentando no banco acolchoado da ambulância.
A mãe de Daniel assistia sua novela das onze quando escuta o telefone tocar. Ela revirou os olhos. Imaginando ser Beatriz ligando para mais um dos seus papos furados.
Mas mesmo assim, ela se levanta e vai até o corredor. Pega o telefone que é colado na parede e atende. — Alô?
– Alô. — Ela estranha a voz ser de homem. — Quem fala é a mãe de Daniel Castellamare?
Ela começa a ficar apreensiva.
Sua intuição dizia que algo ruim aconteceu. — Sim, é o meu filho. Por quê?
– Liguei para avisar que… Infelizmente ele sofreu um acidente de moto.
– Isso… N-não pode ser. — Estava em choque.
– Ele está na ambulância, a caminho do hospital Águas Claras. — Pausou. — Conhece?
– Sim. — Ela leva sua mão ao peito, sente seu coração acelerar. — É lá no centro da cidade… — Controlou as lágrimas. — Ele está bem?! Como ele está?! Quero falar com ele!
– Ele está inconsciente desde que sofreu o acidente. Há quase uma hora atrás. Está pálido…
– Sempre foi pálido! Puxou o pai dele… A não ser que esteja mais pálido do que o normal.
– Está sangrando bastante também, passamos remédio mas não adiantou.
– Sangrando?! Meu Deus… — Ela sussurrou, cada vez mais nervosa com a situação. Só ela sabia do problema que seu filho tinha.
Não sabia o que fazer, pensou em dizer para os enfermeiros que ele não podia sangrar, mas achou que eles eram inteligentes e profissionais o bastante para descobrir.
Desligou o telefone. Não queria ouvir mais nada. Já tinha informações o suficiente. Ele iria para o hospital Águas Claras e ela precisava ir vê-lo agora mesmo.
Abaixou a cabeça.
Não queria ir sozinha. Não estava emocionalmente bem e percebeu isso quando sentiu as primeiras lágrimas de medo caírem sobre seu rosto. Ela discou o único número que veio a sua mente.
No terceiro toque alguém atendeu. — Alô? — Era a voz de Félix, ela suspirou.
– O-oi De-escul-pe inc-omodar. — Sua voz já estava fraca e chorosa, Félix logo notou isso e também que era sua sogra quem falava do outro lado. — A Bia est-á aco-rdada? — Perguntou tentando disfarçar sua voz.
– Ela foi se deitar agora. — Ele responde olhando para trás, sua esposa estava deitada na cama, já de olhos fechados. Félix estava levemente preocupado. — Por quê?
– Por favor Félix… N-não sei como falar para ela… Nem sei se ela já sabe…
– Sabe do que?
Com essa pergunta já estava mais do que claro que eles ainda não sabiam da tragédia. — Da-anie-l…
– Daniel? — Ele levantou a voz dando ênfase ao nome, isso fez com que Beatriz abrisse os olhos e prestasse mais a atenção naquela conversa. — Por favor, fale coisa com coisa! — Pede mais nervoso. Porém, respira fundo e se acalma, na intenção de não acordar Bia.
O que Félix não sabia era que sua esposa já estava acordada e atenta a cada palavra.
– O que?! — Ele quase grita ao receber a noticia de que seu amigo sofreu um acidente de moto. — Como assim?
– Eu também não sei direito… Só recebi um telefonema. — Estava desesperada. — E-eu… Vou até esse hospital.
– Eu levo a senhora! Também vou!
– M-mas e a Bia?
Félix vira seu rosto para trás, ela trata de fechar seus olhos.
– Não sei se devemos contar… — Ele disse em sussurro. — Estou com medo, e-ela… Está grávida e receber uma noticia assim…
– Esse é o problema! — Sua sogra alerta. — Ela vai querer saber onde está o Daniel, não dá para esconder isso da Bia…Eles estão sempre juntos, o que ela vai pensar se de repente ver que… O Daniel sumiu?
– É, a senhora está certa. — Ele assentiu. — Mas acho que não vou acorda-la. Não quero estragar a noite do sono dela. Vou desligar, eu me arrumo e passo aí.
Eles combinaram e Félix desligou o telefone, virou para o lado, abrindo a porta do guarda-roupa que faz um rangido.
Bia levanta seu corpo, se sentando no colchão. — Félix? — Ela acende a luz do abajur.
– Bia… — Ele suspirou. — Você ouviu, não é?
– O que aconteceu?! — Ela pergunta curiosa. — Minha mãe está bem? Estava falando com ela, né?
– É… — Ele se aproxima do colchão, mas continua de pé. — Ela está bem. Na medida do possível… Está só um pouco nervosa.
– Porque? E o que querem esconder de mim? — Cruzou os braços em cima da barriga grande e gorda.
Ele fechou os olhos, por um momento soltou tudo de uma vez. — Aconteceu uma coisa com o Daniel.
A expressão de curiosidade de Beatriz muda. Ela fica tensa. — O que aconteceu com ele? — Sua voz também mudou, seu coração estava acelerado com a ansiedade e adrenalina do momento. Félix continuava calado. — RESPONDE! O que aconteceu com o meu irmão?! — Seus olhos se enchem de lágrimas.
– Amor. — Ele segura seus ombros, fixando seus olhos no dela. — Você precisa ser forte.
Isso só a deixava mais nervosa. Ela se livrou das cobertas e se levantou.
– Porque?! O que houve com ele?! — Deu algumas voltas pelo quarto, caçando seus chinelos. — Onde está o Daniel?! Cadê ele?! — Félix não conseguia responder tantas perguntas, também estava com medo. — Porque eu preciso ser forte Félix?! ME RESPONDE!
– P-po-r fav-or, qu-er fi-car cal-ma?! — Ele gaguejou. — Ficar nervosa só vai piorar tudo! Você não pode ficar nervosa! — Alisou a barriga da esposa.
Mas ela ignorou o argumento dele. Se soltou do marido e desceu as escadas descalça.
Félix a seguiu. Sabia que Bia não estava bem e ficaria ainda pior quando descobrisse tudo. — O que?! Ele… Está passando mal?! — Félix continuava em silêncio. — Está de ressaca? discutiu com a mamãe? Com a Débora?! Me diga que o que ele tem é só saudades da Julie!
– Bia. — Félix segura o seu rosto. — Ele sofreu um acidente de moto.
Ela parou de respirar por um momento. Sentiu que tudo que fez foi em vão, toda a preocupação e cuidado que tinha com seu único irmão mais novo havia se perdido ali… Félix beijou sua testa, esse beijo fez Bia acordar dos pensamentos. — Ele está no hospital? — Ela pergunta e o moreno assentiu, balançando a cabeça. — Acorda a Fernanda, nós vamos pra lá também. — Ela segura o braço de Félix, e se sentou no sofá.
– Você está bem?!
– Estou. — Responde com certeza. Félix dá um sorriso fraco, afinal, não queria ver Beatriz triste. Ele dá as costas e sobe as escadas.
Bia vê seu esposo abrindo o quarto da sua filha. Ela não conseguiu mais ser forte, o amor que sentia pelo Daniel a fez chorar.
[...]
Enquanto isso, uma enfermeira cuidava de Daniel. Que continuava inconsciente. O médico pediu para que aplicasse uma injeção para aliviar a dor das fraturas. Depois de aplicar a injeção, a enfermeira retirou sua blusa para encontrar mais ferimentos. Achou alguns ematomas no braço e na barriga. Eram ematomas grandes e vermelhos, porém, em pouca quantidade.
Ela repara que o sangue do nariz e da testa já desciam para o peito. Ela se afastou, espantada. Lembrou que a pouco tempo passou um remédio para limpar a ferida. Como pode estar sangrando tanto assim?
A enfermeira saí do quarto de Daniel. O hospital estava movimentado naquela noite. O corredor estava cercado de pacientes sendo levados de maca, enfermeiros, médicos e visitas. Felizmente a enfermeira encontrou o médico que atendeu Daniel a alguns metros de distância. Deu uma corridinha. E conseguiu segurar seu ombro. — Doutor, o paciente voltou a sangrar.
Ele se virou para ela. — Voltou? M-mas isso não pode acontecer… Ele não pode perder tanto sangue. — Continuou andando segurando uma prancheta. — Vou atender um outro paciente. — Estava bem ocupado. — Você já deu os remédios que te passei?
– Já. — Pausou. — Encontrei alguns ematomas pelo corpo dele.
– Ematomas? De que cor?
– Vermelho, bem vermelho.
– Está inchado?
– Não. Só muito vermelho.
– Hm. — Estranhou. — A família dele já chegou?
– Ainda não. — Balançou a cabeça — O que eu faço doutor? — Ele estranhou aquela pergunta. Ela era uma ótima enfermeira, porém, dessa vez parecia atordoada… Desorientada. — Juro que nunca vi tanto sangue.
Ele parou no corredor. — Esse caso está bem complicado. — Sussurrou. — Vamos…
Os dois deram meia volta, andavam rápido em meio as pessoas no corredor. Logo chegaram no quarto 17. O médico abriu a porta e encontrou Daniel ali.
O sangue já pingava no chão, parecia não ter mais fim.
Ele pegou um pano para limpar o sangue do rosto e nariz do rapaz. — Levante a blusa dele. — O médico pediu e a enfermeira obedeceu. Ele balançou a cabeça negativamente. — É bem pior do que eu imaginava… — Pausou. — Precisamos fazer alguns exames nele, agora! — Continuou olhando para os machucados. — Lucy, isso não são ematomas. Tenho quase que certeza de que são hemorragias internas. A coisa está ficando feia… Ele pode ter ferido algum orgão — Ligou alguns aparelhos, ignorou o sangue que saia do nariz de Daniel. Levantou sua cabeça e colocou a máscara respiratória, tampando seu nariz e boca. Também colocou soro nas veias do braço esquerdo. — Preciso de alguém da família dele para confirmar o que eu já estou suspeitando.
– O que doutor?
– Que esse rapaz tem Hemofilia. — Ele responde balançando a cabeça.
– Então ele precisa de doador de sangue?
– Exatamente. — Pausou. — Por isso preciso dos exames, precisamos saber o seu tipo sanguíneo. Se ele feriu algum orgão interno importante e o ferimento na cabeça. Acho que pode ser traumatismo craniano.
A enfermeira assentiu, saindo do quarto. O médico continuou no quarto, Daniel era um caso diferente. Alguém precisava ficar ali o tempo todo. Ele olhava para os aparelhos ligado ao rapaz. Sua pressão estava levemente baixa por conta da anestesia que tomou, seu coração batia mais acelerado. Porém, não era nada para se preocupar. O médico só estava nervoso mesmo com as feridas internas e o corte na cabeça. — Daniel?! — Ele escuta uma voz e vira o rosto.
Encontra um rapaz moreno, uma moça grávida segurando a mão de uma menininha e uma mulher de meia idade com uma expressão de pavor no rosto. Todos ficam tensos ao ver Daniel ensopado de sangue. Sua mãe se aproxima. — Oh Deus… Vocês precisam fazer algo! — Ela pede, nervosa, tocando no rosto do seu filho.
– Ainda bem que vocês chegaram…
– Ele vai ficar bem? — Bia pergunta.
– Não sabemos. — Essa resposta decepciona todos. — Ele não pode sangrar, certo?
Todos olham para a mãe de Daniel. — É doutor. Não pode. — Ela responde triste.
– Foi o que eu pensei. — Pausou. — Ele não tem a proteína que ajuda a parar o sangramento. E isso realmente complica mais as coisas pois precisamos ter cuidado ao aplicar injeções. Qualquer corte a mais pode provocar uma hemorragia.
– Mas ele vai ficar sangrando o tempo todo?! — A mãe de Daniel pergunta.
– Claro que não senhora, precisamos de doadores de sangue. Pois a proteína do sangue doado vai coagular os ferimentos. A minha enfermeira já foi procurar ajuda. — Pausou. — Iamos fazer os exames, mas já que vocês chegaram… — Ele apontou para a mãe de Daniel. — Sabe me dizer o tipo sanguíneo dele?
Ela hesita um pouco em responder. — É O negativo.
Um silêncio profundo se formou. O médico olhou para Daniel a balançou a cabeça. — Achei que seria um tipo sanguíneo mais comum… — Ele sussurrou mas todos ouviram. — Não precisava ser o mais raro. — Suspirou. — Nenhum de vocês é O negativo?
Todos negaram. Ele olhou para a expressão de cada um, até a menininha estava com uma carinha triste, todos perceberam a seriedade da situação. — Mas eu vou dar um jeito. Podem doar também apenas a proteína que falta para ele… Isso resolve. — Ele responde, dando mais esperanças a todos. — Já volto…
Sua mãe se sentou no sofá branco da sala. Junto com Félix e a filha dele, enquanto Bia estava em pé, ainda olhando para o seu irmão. — Daniel? — Ela tocou no rosto frio ele. Estava preocupada. — Mãe, ele não acordou até agora?!
– Eu não sei Bia! — Sua mãe responde impaciente. — Pode ser anestesia! Devem ter dado algum remédio para ele!
Beatriz suspira. — Eu acho que sei quem tem O Negativo. — Todos encaram a morena. Ela sorri fracamente mas hesita um pouco em responder. — A… Julie.
Sua mãe ri. — Julie?! Ela que mais é que o Daniel MORRA!
– Não diga isso! — Bia rebateu.
– Não entende?! Ela é a culpada por isso! Tenho certeza!
– M-mas…
– Mas nada Beatriz! Olha o estado do seu irmão! — Apontou para Daniel. — Eu não quero assustar vocês, mas ele pode morrer!
– E-eu não q-quer-o que o meu ti-o mo-rra. — Nandinha agarrou seu pai. Félix carinhou seu rosto, secando suas lágrimas.
– Mãe, por favor! — Bia a repreendeu. — Tá tudo bem filha, ele vai ficar bem. — Ela não tinha tanta certeza, mas faria de tudo para sua filha parar de chorar
– E tem mais. Se a Julie perguntar alguma coisa sobre o Daniel, diga que ele está bem! — Sua mãe ordenou. — Não quero que ela descubra que ele sofreu um acidente, é capaz daquela bruxa fazer um vodu e matar ele de vez!
– A senhora está muito enganada mãe! A Julie não é bruxa, é minha amiga! Ela não quer ver o mal do Daniel. Sempre se preocupou com ele e foi uma das únicas que não gostava que o Daniel andasse de moto justamente pelos acidentes!
– Pare para pensar Bia, raciocine! Ela é a culpada pelo acidente, Daniel pensa nela o tempo inteiro! Bebeu, encheu a cara por causa dela!
– Isso não é verdade…
– Sch, chega Bia! Acabou o assunto! A culpa é da Julie e ponto!
[...]
Ela levanta sua cabeça da mesa, percebe então que faltava apenas meia hora para a aula acabar e esse tempo todo ela não prestou a atenção em nada.
Se sentia estranha, uma sensaçao ruim bateu no seu peito. Julie engoliu em seco, juntou seu material e sem dar maiores explicações, ela saiu.
Atravessou o campos, sentia uma necessidade enorme de ligar para Daniel e matar a saudade de falar com ele, já que suas lembranças e seus pensamentos não eram o suficiente. ‘’Não posso ligar para ele… Ele deve estar de boa lá… Com a Débora… ‘’ Pensou e sentiu raiva.
Mas quando percebeu já não estava no campos. Andava pelas ruas e acabou encontrando uma barraquinha de madeira, do lado da barraca havia um rapaz. Ele vendia flores.
Julie se aproximou, as cores vivas das flores chamaram sua atenção, tinha os mais variados tipos e tamanhos. Ela sorriu, encantada com todas elas. Ela encontrou um ramo de copos de leite cor amarela. Seus olhos brilharam. ‘’Não posso comprar… Me trás muitas lembranças...’’ — Pensa e recomeça sua caminhada de volta para casa.
Enquanto andava, ela não deixou de se lembrar.
~ Flash Back On~
Era de manhã, uma segunda-feira ensolarada. Julie estava na cozinha de casa. Tomava um suco de laranja quando sentiu duas mãos tampando seu rosto. Ela sorriu, imaginando ser seu pai.
Soltou as mãos e conseguiu enxergar.
Para sua surpresa era Daniel. — Oi! — Ela sorri e os dois avançam para um selinho. — Chegou cedo.
– Pois é, eu passei em um lugarzinho para te fazer um agrado. — Daniel mostrou uma barra de chocolate e uma das suas flores favoritas: Copo de leite.
– Ah meu amor! — Ela se levanta e agarra o pescoço de Daniel, o mesmo deixa as coisas que comprou em cima da mesa e retribui o abraço. — Obrigada, gostei muito! — Se beijaram de novo. Mas Julie tomava todo o cuidado ao carinhar seu namorado, sabia que seu pai não gostava de ver os dois trocando beijos.
Ela pegou os presentes que recebeu. — Vamos… Não quero me atrasar.
Os dois andavam pela rua. Julie colocou a linda flor que recebeu no aro de seu caderno. Ela sabia que Daniel sempre foi muito romântico, porém, ela estranhou um pouco, já que esses dias eles discutiram algumas vezes. — Mas me diz, porque me deu o chocolate? — Ela pergunta levantando seu rosto.
Daniel envolve seu braço no ombro de Julie e beija seus cabelos. — Por nada. S-só… Senti vontade.
– Hm. — Ainda desconfiava. — Não está querendo me convencer a andar de scooter, né? Já conversamos sobre isso.
– É moto. — Ele balança a cabeça. — E não. Não é por isso.
– É por algum outro motivo?
– Claro. — Pausou. — É porque eu te amo.
– Hm, Ahh Dan… Fala sério. — Riu.
– Eu estou falando sério.
Os dois sorriram ao mesmo tempo. — Também te amo. — Ela responde. — Mas… Me diz o real motivo.
– Não tem nenhum outro motivo.
Ela suspirou. Sentia que não, mas resolveu parar de insistir. Chegaram no ponto de ônibus, todas as manhãs Daniel pegava dois ônibus para chegar na casa da namorada para a levar na escola. Ela se sentou e ele se sentou ao seu lado, Julie abriu a barra, comendo a fileira do chocolate. — Você quer? — Ele negou.
– Hm, nem assim? — Pergunta colocando um pedaço de chocolate na boca.
– Ah. — Ele sorri torto. — Assim eu quero.
Se beijaram, Daniel mordeu o pedaço de chocolate. Os dois se olharam e riram juntos. Ele avançou e o beijinho virou beijão. Um beijão calmo e quente, sabor chocolate. Não se importavam com as pessoas que olhavam para eles. Os dois queriam apenas aproveitar aquele beijo doce. Julie pousou suas mãos no cabelo do namorado, enrolando os caracóis dourados com os dedos. Um limpava o chocolate dos lábios do outro. O beijo foi demorado, não tinham presa.
Até que Julie vê o ônibus se aproximar. Ela se solta do namorado e faz o sinal. O ônibus para um pouco mais na frente, Daniel pega sua mochila e os livros da namorada. Os dois entram de mãos dadas no ônibus. Ela se sentou ao lado da janela, observando as nuvens brancas do céu. Se deitou no ombro do rapaz. — Juh. — Ele a chama carinhosamente. Ela até sorri e fecha os olhos.
Mas responde. — Oi amor.
Ele suspira. — Posso te pedir uma coisa?
Ela estava feliz com o chocolate que recebeu e com o jeito carinhoso de Daniel. — Tudo o que quiser.
Ele sorri torto, hesitou um pouco em dizer mas não demorou muito para falar, sabia que Julie não gostava quando ele fazia suspense. — Amor. — Tentava ser o mais carinhoso possivel, colocou uma madeixa negra de Julie atrás da orelha ela sorriu. — Pode parecer um pedido estranho, mas eu queria muito que você aceitasse isso…
– Fala. — Ela pede sem esconder a ansiedade.
– Quero muito que você… Pare de falar com o Nicolas. Pelo menos quando eu não estiver por perto… — Sua expressão séria fez Julie achar que ele não estava brincando.
Ela não responde, apenas vira o rosto para o outro lado. Não sabia como lidar com essa situação. — Mas ele é meu amigo. — Tenta se defender.
– Eu sei. — Daniel pausou. — Mas eu sou seu namorado.
– Daniel, eu não posso parar de falar com ele de uma hora para outra. Sem nenhum motivo. — Julie explica. — Me diz a verdade. — Tocou no rosto do rapaz. — Você se sente incomodado quando eu estou com ele? É ciúmes? É isso?
Ele torce seus lábios e demora alguns segundos para responder. — Não, não é. — Ela suspira decepcionada com essa resposta. — Será que é pedir de mais? E-eu… Não estou pedindo para você deixar de ser amiga dele, só quero que você não ande com ele quando eu não estiver por perto.
Ela não queria discutir. — Está certo, Dani. Eu te entendo. — Ele deu um sorriso largo, já ela, sorriu fracamente. Daniel a abraçou, passando sua mão e envolvendo a cintura dela. Juliana aproximou seus rostos e sussurrou no ouvido dele. — Mas então o que eu faço? Ele me disse que queria me falar algo importante.
Daniel vira seu rosto também e eles se encaram. — Você não se importaria se eu fosse contigo? — Ele pergunta roçando levemente seus lábios.
– Não. — Juliana termina com o espaço entre eles. — Mas… — Ela se afasta sentindo que o beijo começava a esquentar. Julie não gostava de trocar carinhos com o namorado perto de pessoas estranhas, principalmente dentro do ônibus. Por algum motivo, ela tinha medo. Muito medo. — Não sei se ele vai gostar de te ver comigo, talvez o que ele quer falar é algo… Particular.
– Hm. — Ele revirou os olhos.
– Vamos fazer assim amor. Eu te falo tudo o que ele me falou.
Daniel continuava com uma expressão de raiva. Porém, o que Daniel mais queria esconder era o ciúme que sentia pela namorada. Não gostava de admitir isso para ninguém, nem para Julie e nem para si mesmo. — Vai me contar tudo? — Ele pergunta para ter certeza.
– Vou, prometo. — Ela responde séria.
– Tudo mesmo? Não vai me esconder nada? Olha que eu sei quando você me esconde alguma coisa. — Tocou no seu rosto.
– Eu juro, não vou te esconder nada.
[...]
Os dois continuam conversando enquanto atravessavam o campos do colégio, chegaram cedo. Então aproveitaram para passar mais tempo juntos. Caminhavam de mãos dadas, tinham uma conversa agradável quando Daniel vê Nicolas caminhando em direção deles.
Ele se aproxima dos dois e os comprimenta normalmente. — Juh, então?
Julie solta a mão de Daniel, sente suas bochechas coradas. Não esperava encontrar o Nicolas e ele ser tão direto quanto a conversa. ‘’ Parece ser algo bem importante, para ele querer falar logo… ‘’ — Tá bom, v-vamos conversar… — Julie responde um pouco tímida, se vira para Daniel, que até o momento continuava calado.
Ela beija seus lábios ali mesmo, na frente do Nicolas. Daniel também não perde tempo e retribui o beijo, envolvendo a cintura de Juliana e juntando os seus corpos. Ela desceu as mãos para o toráx do loiro, foi quando Julie se soltou do beijo. Agora mais corada ainda, não teve coragem de olhar para a cara de Nicolas. Mas sabia que mostrar o que sentia por Daniel na frente dele era o mais certo a se fazer. Afinal, ela sabia que Daniel era teimoso e quando colocava algo na cabeça ninguém mais tirava. Ela tinha medo dele achar que ela sentia algo pelo Nicolas. Mas depois desse gesto, ela achou que deixou bem claro para Daniel que o seu coração é só dele.
– Vamos… — Ela gesticula com as mãos, deixando o rapaz de cabelos cacheados ali.
Ela anda cabisbaixa até o gramado. Sendo seguida pelo moreno que agia do mesmo jeito. Ele não gostou de ver aquele beijo. Sentiu raiva.
Chegou a achar que… Juliana gostava dele. Mas agora sentia o contrário.
Eles chegaram na amendoeira preferida de Julie. Os dois se sentaram juntos e Nicolas abriu a sua mochila. — Aqui. — Seu tom de voz estava triste. Mas mesmo se sentindo assim, ele entregou um envelope para a morena. Ela ameaçou abrir. — Não. — Ele pede e os dois se encaram. — Ainda não… — Pausou. — Eu te trouxe outra coisa.
Mostra uma rosa vermelha.
Ela não conseguiu distinguir o que sentiu naquele momento. ‘’Como assim uma rosa vermelha?’’ Estava confusa, apesar de achar que Daniel tinha um pouco de razão… Ela ainda duvidava. ‘’ Não, ele não pode gostar de mim… ‘’
Dessa vez ela não aceita. — Desculpe. Não posso pegar essa rosa. Nicolas. — Suspirou depois de falar seu nome. — Você sabe que eu tenho namorado. E eu acho que homem nenhum gosta de ver outro cara presenteando a namorada dele. — Responde com sinceridade.
– Está certa. — Ele sussurrou, um pouco sem graça. — Mas pelo menos abra o bilhete.
Julie assentiu, rasgando o envelope com os dedos. O encarou por um momento depois de retirar o que estava lá dentro.
Ela ficou encarando aquela foto, era antiga…
– Não sei se você se lembra, Julie. — Ele começa. — Nem sei se você… Pensou do mesmo jeito que eu… M-mas… Nós já nos conhecemos antes.
Julie continuou olhando para aquela foto quando sorriu levemente, apesar de se sentir assustada. ‘’ Como ele conseguiu essa foto? ‘’ — E-eu… Me lembro. — Continuou olhando para a foto. Era uma viagem para a Inglaterra que Julie fez quando era criança. — Sou eu aqui. — Apontou para uma garotinha risonha. — N-nossa… Eu… Usava franjinha. — Sorriu. — E você… Está aqui, bem do meu lado. — Sentiu um arrepio. — É… Assustador. — Devolveu a foto.
– Lembra dessa viagem?
– Não muito, eu… Acho que tinha sete anos.
– Tinha oito. E eu era da mesma idade. — Explicou. — Meu pai trabalhava em turismo. Eu sempre viajei, mas foi… A Inglaterra foi a melhor viagem para mim. — Pausou, olhando para a jovem. — Porque foi quando eu conheci você.
Ela sorriu corando. — Devo te lembrar que a gente paquerava lá?
– Não. Isso… Eu lembro. — Ela riu abaixando a cabeça, se sentia tímida de mais.
– A gente até se beijou. — Ele relembra.
– F-foi… Um beijo de nada. Um estalinho. — Tentava lhe dizer que não significou nada para ela.
– Beijo é beijo. — Ele revida. — Foi o nosso primeiro beijo. — Disse o rapaz e ela concordou. Então ele segura a mão de Julie. — Mas sinto que não vai ser o último.
Ela se solta rapidamente e se levanta. Olha para o pátio e encontra Daniel conversando com o Martim, porém, o mesmo não tirava os olhos do gramado. Parecia mais interessado na conversa dos dois do que dele mesmo com seu melhor amigo.
Julie pega suas coisas, ainda assustada. Atravessa o gramado, mas vira para a esquerda.
Nicolas coloca a mochila nas costas e corre atrás da morena. — Martim, foi muito legal conversar com você. — Daniel deu umas batidinhas no ombro do amigo. Sem tirar os olhos do corredor a esquerda. — Mas depois a gente se fala!
Sem pensar duas vezes, ele correu atrás de Julie. Mas parou olhando para o corredor, tinha vários caminhos. Não sabia para onde ir. Ele resolve se sentar no chão, afinal, os corredores eram grandes, seria praticamente impossivel encontrar os dois. ‘’Preciso confiar na Juh...’’
– Espera! — Nicolas segura seu braço e ela acaba derrubando seus livros, a flor que ganhou de Daniel e o chocolate também. Os dois se agacham para pegar as coisas. — Não precisa ter medo de mim. — Pediu.
– E-então… Me deixa em paz! Eu só tinha oito anos… foi… há oito anos atrás, agora eu tenho dezesseis, o dobro de oito. — Quando estava nervosa não conseguia controlar a quantidades de palavras, acabava falando de mais.- Viu que irônico, oito anos se passaram e… Eu estou com o Daniel, é com ele que eu quero ficar!
– Eu sei, você deixou isso bem claro quando beijou ele na minha frente!
– Então pronto! — Gritou. — O que aconteceu entre a gente não foi nada comparado ao que aconteceu entre mim e ele e o que ainda vai acontecer…
– Eu sinto algo por você Julie, e preciso descobrir o que é!
– É só uma linda amizade. — Ela se levanta. pega os livros com força da mão dele. E se vira para entrar no outro corredor, finalmente ela consegue despista-lo.
Ao chegar no corredor da antiga classe de Bia, ela encontra Daniel sentado no chão. O mesmo se levanta rapidamente.
Julie estava visivelmente nervosa e ele percebeu, segurou seu rosto com as duas mãos e fixou seus olhos nela. — Agora me conta o que ele te disse.
Ela suspira. — Ele só me disse o que eu já suspeitava... — Pausou. — Nós nos conhecíamos antes. Viajamos juntos. F-foi isso.
– Hm. — Ele beija o seu rosto. — E o que mais?
– M-mais nada.
– Sei que está escondendo algo. Não tente negar. — Ele afirmou com certeza e ela mordeu os lábios. Estava na dúvida se deveria contar ou não. — Disse que ia me contar tudo.
– Eu já contei. D-Daniel... P-ara... — Tentou se soltar mas ele segurou seu rosto e a fez se deitar no seu peito.
– Eu te vi correndo dele. O que ele fez com você?
– ...
– Te machucou?
– N-não...
– Te tocou?
– Também não... — Suspirou. — Ele... Me disse... — Levantou seu rosto e viu que Daniel estava atento a cada palavra. — Que éramos namorados.
Notas finais
Comentem. Beijos. s2
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