Corações Feridos
17 Evidence of love
Notas iniciais
As duas semanas se passaram. Daniel dirigia o carro, levava Julie para o hospital. Pois receberam uma ligação do médico, ele disse que os exames já estavam prontos e que eles deveriam ir o quanto antes. Juliana ficou muito nervosa com a ligação, precisou tomar dois copos cheios de chá, e ainda um comprimido de calmante, mesmo fora de hora.
Ela alisava sua barriga, aflita. — O que será que deve ser? — Perguntou, olhando para Daniel. — Será que é algo grave, amor?
- Tente pensar mais positivo, seria muito bom.
- Eu não consigo entender como você continua calmo assim... O médico disse que deveríamos ir lá o mais rápido possível!
- Tá, e daí? Ele não disse que seria algo ruim
- Ou algo bom. — Completou, quase roendo as unhas.
Daniel suspirou, parando no sinal, beijou o rosto de Julie, alisando sua barriga também. — Não se preocupe. — Sussurrou. Continuou beijando seu rosto até que o sinal abriu novamente. Voltou a dirigir.
Chegaram no hospital. Ficaram na sala de esperas, mas Daniel não poderia ficar lá por muito tempo. Logo teria que voltar ao trabalho. Ele também começava a ficar aflito, não por causa do bebê, e sim por causa de Julie.
Ela apertava forte a mão de Daniel, ele sentia a mão de Julie fria e trêmula. Queria ficar com ela... — Juh. E-eu não posso ficar mais, se não vou me atrasar. — Ela olhou para ele, queria protestar. Mas Daniel não deixou. — Já ganhei várias folgas, você precisou vir para o hospital de novo por causa daquele trote... Na semana passada. Não posso ficar faltando ou me atrasando. — Ela abaixou a cabeça e assentiu. — Eu vou deixar o carro com você.
- Não, eu pego ônibus na volta... Vai você de carro...
- Nada disso. — Rosnou. — Anda tendo muitos assaltos ultimamente, está perigoso. Eu pego o ônibus. — Lhe deu a chave do carro, beijou seus lábios e sua testa. Alisou a barriga também. Se levantou.
Daniel saiu, alguns minutos depois o médico apareceu na porta do consultório e chamou pelo nome de Julie. Ela respirou fundo, pegou sua bolsa e entrou.
O médico pediu para que ela se sentasse na cadeira, pois iria explicar o que estava acontecendo. Ele se sentou na cadeira de frente a ela. Pegou o exame, deu uma lida e quando ia falar. Julie chorou. — Não doutor, estou com muito medo, não fale! É minha primeira gravidez, nunca tive um filho... E eu... Tenho só 19 anos... Não tenho experiências com essas coisas, não pretendia engravidar. Mas ai... aconteceu, sabe?! E agora... Eu amo o neném! Não quero que nada aconteça com ele. E-eu... Eu sou mesmo uma lazarenta. Preciso comprar trevos de quatro folhas, pé de coelho, pimenta... Acho que andei pisando em muitas rachaduras do chão. Eu falo para o Daniel... Coloque piso no quintal, não gosto de rachaduras, mas ele não me escuta... Ah, Daniel... — Suspirou. — Ele vai pegar ônibus doutor, sinto que vai ser assaltado, assassinado e depois jogado em um lixão municipal. Vou descobrir a morte dele por boatos, e vou me matar... Vou deixar o bebê com a Bia antes, isso é... Se ele não estiver morto...
- Julie. Julie, pare! Pare com isso!
Ela respirou fundo, secando as lágrimas. — Você não pode pensar assim.
- É inevitável doutor.
Ele bufou e se levantou, ainda folheando o exame. — O resultado está aqui. — Balançou a folha. — Você quer que eu leia e te explique?
- Tá. Só me dá um minuto... — Fechou os olhos, contando mentalmente até dez. E assim que os abriu, perguntou. — É algo grave?
- Sim e não.
- Hum, me explica. — Pediu um pouco tensa.
- O que o neném tem é o cordão umbilical... — Julie continuava sem entender, o doutor tentou ser mais específico. — Ele está agarrado ao pescoço do neném.
- Nossa...
- Por isso chuta tanto. — Ela balançou a cabeça, já entendia. — Mas esse é o problema. Quanto mais ele se mexer e ficar agitado, mais o cordão vai se agarrar no pescoço, causando o enforcamento.
- Ele vai morrer?
- Não. Não se você continuar tomando os remédios... Preciso passar um remédio mais forte... Vai ficar tudo bem. — Pausou. — Claro, o seu parto não poderá ser normal.
- O que? V-vão cortar minha barriga?
- Precisamos tirar o neném com cuidado. A cesariana seria o melhor jeito.
- Mas eu pretendia ter parto normal. N-não gosto de ser cortada...
- Não precisa ter medo. Ok? — Ela respirou fundo e assentiu. O médico lhe deu o resultado do exame. — Fora tudo isso o bebê está saudável. Poderia ter sido algo bem pior... Só precisamos tomar cuidado na hora do parto e durante a gravidez.
- A-ah. — Olhou para o exame, não estava tão segura quanto o médico. Mas sorriu fracamente. Mesmo ainda preocupada. — Obrigada.
Julie voltou para casa, estava sentada no sofá, descalça, tomava um copo de chá enquanto re-lia o exame pela terceira vez. As palavras imprimidas naquela folha de papel a deixava com medo. Afinal, no exame dizia que era algo ruim. Era diferente do médico, que lhe disse para não se preocupar, que deveria tomar os remédios que tudo correria bem. — Ele pode morrer por enforcamento. — Lia uma parte destacada em negrito do exame. — É... É só não se mexer, meu neném. — Alisou a barriga. Mas ele chutou. Com aquele chute, seu coração disparou, a preocupação tomou conta de suas emoções. — Q-que teim-os-o... Para! — Nisso a porta da sala se abriu. — Voc-cê é deso-bedi-ente. Igu-al ao seu pa-i.
- Hum, estou aqui, Julie. — Daniel jogou o paletó no sofá. Cruzou os braços. — Sou desobediente, não é? E posso saber porque o neném também é?
Ela suspirou e lhe deu o exame. — Ah Julie, eu não vou ler isso... Li contratos o dia todo, estou cansado. — Viu que Juliana estava com uma expressão triste. Só aí lembrou que aquele papel era o exame. — E qual foi o resultado?
- Não é muito bom. — Daniel se sentou. Escutava Julie com atenção. — O cordão umbilical está preso no pescoço dele. Por isso ele não parava de chutar, está... Sei lá... Enforcando. — Pausou. — O médico disse que se eu continuasse tomando os remédios ficaria tudo bem... Mas sei lá... Mesmo eu tomando os remédios ele continua chutando um pouco, não tanto quanto antes, mas ainda chuta. Tadinho, deve estar assustado. — Alisou a barriga.
- Julie, vem cá... — Ele a puxou, Julie se sentou no seu colo. — Então a gravidez é de risco?
- Só para o neném, se continuar se mexendo pode ser enforcado. — Se levantou, passando a mão por seus cabelos. — Ainda falta mais três meses e meio até ele nascer. Durante esse tempo vou ficar completamente preocupada e estressada. — Pausou. Pensativa. — Sabe qual é o seu problema, Daniel?! — Apontou para ele. — Você é muito ansioso!
- Espere ai. — Ele riu. — Você que está falando que vai passar o restante da gravidez preocupada e eu que sou o ansioso?
- É, É você sim! Nos casamos muito cedo!
- ...
Ela suspirou. — Com tanta coisa acontecendo, eu acabei me esquecendo que eu tenho só 19 anos... E você 20. Só me lembrei disso hoje, quando estava falando com o médico. Eu... Pretendia fazer muitas outras coisas... Antes de me casar ou antes mesmo de arrumar um namorado.
- Mas aconteceu! Você arrumou um namorado, com apenas quinze anos. Lembra? — Ele se levantou também. — Você está discutindo a relação, é isso? E o que vem depois? Eu... Vou ter que dormir no sofá?
- Não. — Fechou os olhos e o abraçou, deitando a cabeça no seu peito e alisando o mesmo. — Não estou discutindo com você. D-desculpa. — O neném chutou novamente, e como Julie estava abraçada com Daniel, ele também sentiu o chute. Os dois se olharam, sabia que o neném não poderia chutar o tempo todo.- Eu vou subir, estou cansada. — Se soltou e foi até o quarto.
[...]
Naquela mesma semana, Julie recebeu uma visita da sua mãe. As duas conversavam, riam, enquanto Daniel estava na cozinha, tentando fazer o almoço. — Eu não sabia que o Daniel cozinhava. — Heloísa comentou.
- Mas ele não cozinha, mãe.
- O que? M-mas... Hum... E esse café? Está uma delicia! Ele disse que foi ele que fez.
- Que nada. Ele só ferveu a água. Estragou o filtro de papel, desperdiçou pó de café e queimou a mão. Eu precisei limpar tudo e fazer o café sozinha. — Heloísa riu, Julie também. — A única coisa que ele sabe fazer é gelo.
- Muito obrigado por me humilhar. — Daniel amarrou a cara enquanto entrava na sala e pegava o copo de café da sua sogra. — O que vale é a intenção, estou cozinhando para não te dar trabalho de ir pra cozinha...
- Não acha que vai me dar mais trabalho quando o arroz queimar...?
- Julie, pare de criticar o seu marido.
- Mas mãe...
- O que vale é a intenção, como ele disse.
- Obrigado. — Daniel sorriu. — Viu, eu tenho a melhor sogra do mundo. Quer mais café?
- Não, obrigada. — Ele assentiu e voltou para a cozinha. — Julie, não precisava falar mal dele na frente dele, né? — Balançou a cabeça, a olhando com reprovação. — Sabe, o seu pai adorava cozinhar para mim. — Sorriu fracamente. — Mas a comida dele era um horror. Eu... Jogava tudo no lixo e ia almoçar fora. Mas eu nunca falei isso para ele. Eu fingia que gostava.
- Ele cozinhava para você? Que fofo...
- Julie. — Pegou a mão da sua filha. — Quero te pedir uma coisa. — Ela assentiu. — Não discuta com o Daniel.
- Hã? M-mas...
- Sch. Não discuta, tá? Ele é um homem muito bom, te ama de verdade. E é com essas briguinhas que começa a separação...
- Tudo bem. — Sorriu fracamente. — Eu também não gosto de discutir com ele, mas é que as vezes é inevitável, n-nós somos diferentes... Pensamos diferente. — Notou tudo muito calmo, olhou para sua barriga, alisando a mesma. — Percebeu que o neném não chutou mais?
Heloísa sorriu. — Isso é bom.
- N-não... Ele tá quieto de mais... Será que... Ele tá morto?
- Que isso filha. — Sua mãe riu. — Ele só está quietinho.
- Hum... — Julie cutucou sua barriga. Cutucou até o neném chutar. — Ah, você tem razão.... Ele só estava quietinho.
- Mais não é possível. — Daniel apareceu. — Você fez o neném chutar de propósito? Ficou maluca!
- Olha só, isso é neura de mãe tá?! Pelo menos eu me preocupo com o nosso filho!
- Entendi. Eu não me preocupo. — Cruzou os braços. — Então eu pintei o quarto, comprei o berço, brinquedos... Te levei ao médico diversas vezes só para gastar dinheiro?
Ela não tinha resposta, sabia que Daniel estava com razão. Ela não deveria ter cutucado o neném, sabia que ele não poderia se mexer muito. Ela odiava perder a razão. — Daniel, você me irrita profundamente! — Lhe deu um soco no peito. — Sai daqui, sai! Vai passear! — Ele continuou parado na sua frente. Apenas sorrindo torto. — Você adora me deixar nervosa não é?! — O socou e o arranhou, tentou empurra-lo. — SAI DAQUI!
- Já chega! — Heloísa se levantou. — Eu não queria, mas agora vou me meter. — Segurou o braço de Julie, mas ela ainda tentava soca-lo. — Para... Para... Quer parar de bater nele?! Mas que coisa! — Juliana respirou fundo e se acalmou. — Quando eu me casei, a minha mãe já tinha falecido. E a minha sogra queria por mais fogo na lenha. Felizmente nem eu, e nem a mãe do seu marido somos assim.
- É, mas todas as duas são separadas, não?
- Julie. Eu juro que falta pouco para eu não tacar a minha sandália em você. — Heloísa rosnou. — Anda insuportável esses dias, não há quem aguente!
- Isso é verdade... — Daniel sussurrou.
- E você. — Heloísa se virou para ele. — Sabe que a Julie é cheia de manias. Ela só queria ver se o neném estava bem... Por isso cutucou a barriga.
- ah, claro. Porque qualquer mãe colocaria a vida do filho em risco só por causa dessas paranoias.
As duas reviraram os olhos. Heloísa segurou o braço de Daniel e o fez se sentar ao lado da Julie. — Eu vou para a cozinha fazer o almoço, e vocês dois vão conversar. Essa já é a segunda vez que eu venho aqui e vocês discutem. — Ela respirou fundo, fechando os olhos. — Sinto um cheiro... Sinto uma negatividade pairando nesta casa...
- É o perfume do Daniel, mãe.
- Quer parar de me atacar com palavras?
- Prefere que eu te ataque com pedras?
- Eu vou estar na cozinha e quando voltar quero ver os dois se abraçando. — Heloísa deixou os dois sozinhos.
Eles ficaram calados, olhavam para os lados, não tinham coragem de se encararem. Ambos eram orgulhosos, só que Juliana era muito mais. Daniel até tentou se aproximar, se sentou mais ao seu lado, porém, a morena se afastou. Ele suspirou, cabisbaixo, avistou o controle em cima da mesa, perto de algumas revistas. Pegou o controle e ligou a TV, mas o som alto do filme fez Heloísa voar para a sala. Ela pegou o controle das mãos de Daniel e desligou. — Nada de TV! — Gritou. Enquanto ele a encarava assustado. Ela voltou para a cozinha, levando o controle remoto também...
- Mas nessa casa só tem louco. — Daniel sussurrou, virando seu rosto para Julie. Viu sua esposa encarar o nada com a cara amarrada e suspirou. Ele resolveu imita-lá, também olhava para o nada. Formando assim um silêncio chato pelo ar.
Passaram longos dez minutos sem se olhar, até que Julie foi desviando seu olhar para Daniel... Seus olhos se encontraram, deixando as bochechas de Juliana levemente avermelhadas. — Meu amor... — Daniel tentou tocar no seu rosto, mas ela se esquivou.
- Você é tão falso! — Se levantou.
- Eu sou falso?! Estou tentando me desculpar!
- E porque me pediria desculpas? Eu sou a culpada, lembra?! Eu é que fiz um grande mal para o meu neném por me preocupar com a vidinha dele!
- Porque não se preocupa um pouco comigo, Julie? — As palavras de Daniel a deixaram calada. — Olha o machucado que fiz na mão. — Esticou sua mão, estava queimada.
'' Essa queimadura está profunda... '' — Ela pensou, mas depois dessas brigas não conseguiria engolir o orgulho. — Isso é porque você não faz nada direito! Não sabe nem fazer um café! Seu idiota! — Rosnou, se levantando. — Eu não quero perder meu tempo aqui, eu tenho mais o que fazer do que ficar aqui discutindo com você!
Daniel suspirou, fitava o chão, cabisbaixo. Enquanto Julie subia as escadas e se trancava no quarto.
Heloísa viu seu genro ali. Sentiu um aperto no coração, ela gostava de Daniel, era como um filho. O conhecia e sabia que Juliana era muito revoltada. — Não fique magoado com ela. — Pediu se aproximando, o rapaz levantou o rosto e torceu o canto dos lábios. — Eu sei que é difícil não se magoar com isso, a Julie não pensa antes de falar as coisas. Mas entenda o lado dela, ela está grávida, está passando por uma fase difícil, o neném ainda corre risco de vida. E além disso, ela também tem suas mudanças de humor.
- Uhum, e-eu entendo... As vezes. — Suspirou.
- Bom... — Sorriu fracamente. — Eu já terminei de fazer o almoço. — Pausou. — Você quase queimou o arroz, rapaz. — Riu, ele riu fraco também. — Eu já vou indo. — Bagunçou os cachos de Daniel, pegou sua bolsa e saiu, sem se despedir de Juliana.
Enquanto isso, a morena estava no quarto, depois de sujar o travesseiro de lágrimas, tentava por a culpa da briga no Daniel. — E-ele que começou... V-veio me criticar... — Secou as lágrimas do rosto. — Passa quase o dia todo trabalhando. — Alisou sua barriga. No fundo sentia ciúmes de Daniel, do trabalho dele, sabia que ele tinha uma ajudante... Uma secretária, e cismava que ele tinha alguma coisa com ela.
Depois de alguns minutos, Julie desceu as escadas. Viu que Daniel ainda estava sentado no sofá e resolveu ir ao banheiro.
Voltou se sentando no sofá, já estava arrependida. — Oi.
Ele virou o rosto para Julie. — Oi.
Ela suspirou, abriu a maleta de curativos que pegou no banheiro enquanto Daniel a encarava com uma interrogação no meio da testa. Ainda não tinha entendido o motivo da caixinha de socorros... Até que Julie pegou sua mão. — Você já lavou? — Perguntou um pouco seca.
- J-já.
Ela passou um remédio, com cuidado e concentração sobre a queimadura. Pegou o esparadrapos e passou em volta da mão dele. Então viu algo que a fez sorrir involuntariamente. — O que é isso? — Até seu tom de voz mudou, estava mais calmo e meigo.
Sentia seu rosto queimar, suas bochechas estavam mais do que vermelhas. — V-você fez uma tatuagem? É uma tatuagem??? — Passou os dedos pela tatuagem, que estava no pulso da mão esquerda de Daniel. Queria ver se borrava ou saia...
- Eu sei que você não gosta muito. — Balançou a cabeça.
- M-mas... Eu gostei. Dessa. — Seus olhos brilhavam. — Quando fez isso?
- A duas semanas atrás. No mesmo dia que te levei para o hospital.
Ficou surpresa. Passou esse tempo todo e não tinha notado. — Você tatuou o meu nome... — Ainda sorria, completamente boba. — E essa letra... Essa letra... É minha.
- É. — Sorriu, passando os dedos pela tatuagem. — Eu peguei uma assinatura sua, levei para o tatuador copiar.
- Essa foi uma das coisas mais lindas que você já fez por mim. Vem cá! — Puxou sua camisa e surpreendeu o loiro com um beijo.
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