Corações Feridos
24 Desmascarando.
Notas iniciais
Daniel estava na garagem, ele limpava sua moto empoeirada com um pano úmido enquanto conversava pelo celular com Martim. — Não sei porque a Julie me deixou comprar a moto se ela não me deixa andar direito... — Daniel conversava com o seu amigo.
– Você não acha que está exagerando um pouco?
– Martim. O máximo que fiz com essa moto foi ir ao mercado. — Respondeu com uma expressão entediada. — Ela é preocupada de mais, isso me irrita as vezes! Ela pensa que se eu andar de moto vou... Sofrer um acidente gravíssimo — Bufou. — Ela não sabe o quanto isso me irrita profundamente.
– E ela manda em você?
– Manda! Ela manda em mim sim! — Suspirou. — Uma moto novinha está envelhecendo porque fica tempo de mais guardada... — Balançou a cabeça, levemente chateado. — Eu amo de mais a Juh, por isso estou ao lado dela esse tempo todo... Mas... Sinceramente Martim, acho que homem nenhum teria tanta paciência com ela... — Cobriu a moto com um pano branco.
– Já pensou em se separar dela?
– Não, isso nunca, nunca vou deixar ela! Nunca vou me separar da Juh, ela é o amor da minha vida.
– Ah, vai me dizer que nunca pensou em se separar dela?
– Bom... Tá... Eu já pensei sim... Já pensei em me separar dela... Mas isso seria loucura, seria a maior loucura de todas. Ia ultrapassar todos os níveis de maluquices da Julie...
– Cara, não sabia que sua esposa era tão doidinha.
Daniel riu. — É, ela é doidinha mas eu adoro ela. — Pausou, agora mais sério. — Ela disse que ia mudar um pouco com as manias... M-mas... Não sei se ela mudou. — Balançou a cabeça. — Na semana passada ela estava colocando algodão na testa do Diego porque ele estava com soluços... Ela me disse que o algodão fazia o soluço parar. E quer saber? Não parou. — Dizia. — Ontem mesmo ela veio me dizer que o Diego deveria cair de algum lugar. Levar um tombo... Porque se não o bebê não ia ficar com a gente. E-eu... Eu precisei rir daquilo. A Julie é muito ingênua. Como ela pode acreditar nessas coisas, não é?
Martim apenas ria. — E a Thalita? – Perguntou. Martim era da turma do Daniel no colégio, sabia que ele e a Thalita eram namorados, e que ela agora era sua secretária.
– A Julie ainda não sabe sobre a Thalita... M-mas... Acho melhor ela não saber... Afinal, eu não tenho nada com a Thalita... Não vou trair a Julie com ninguém. — Olhou para seu relógio de pulso. — Eu preciso desligar Martim, já são quase seis horas. Daqui a pouco a Julie está acordando. — Desligou o celular e deu mais uma ajeitada na moto.
O que Daniel não sabia era que Julie estava atrás da porta dos fundos o tempo todo. Estava escutando a conversa. Se sentiu um pouco magoada com as palavras de Daniel, jamais pensou que seu marido achava ela uma louca.
Estava um pouco magoada. Mas o amava muito e sabia que essa magoa logo passaria. Para ela, ouvir a conversa do marido foi mais um sinal... Um sinal que a fez enxergar algo: Que ela não tinha mudado.
Mas uma coisa ela não entendeu.
O que a Thalita tinha a ver com tudo isso?
Pensou em perguntar. Mas se perguntasse Daniel ia descobrir que Julie estava ouvindo a conversa.
A morena acordou dos pensamentos e viu Daniel indo em direção a porta dos fundos. Ela arregalou seus grandes olhos e correu com o neném no canguru.
Chegou na cozinha, pegou alguns pratos e colocou na mesa para disfarçar. — Oi Juh! — Daniel chegou. — Está nervosa? — Perguntou ao ver a agitação da esposa com o fogão.
– N-não! T-to bem. — Ligou o fogão.
– Julie! — Daniel se aproximou. — Olha o fogo! — Tirou Diego do canguru e o colocou sentado na cadeirinha. — Tudo bem?
– J-já disse que sim! — Puxou o rosto do loiro e o beijou. — E você, como está? Como está o trabalho? Os amigos... Amigas...?
– Não tenho amigos lá, só o Martim.
– Então ela é mais do que amiga?!
– O que? — Ele sorriu fracamente. — Do que está falando?
– Prefere papinha de banana ou de milho? — Se aproximou da cadeirinha.
– Julie! V-você está perguntando para o bebê qual papinha ele prefere?!
– Estou, isso é crime? — Perguntou, visivelmente nervosa.
– Ele é um bebê!
– Ah, é. — Riu. — Esqueci que ele prefere a papinha de ameixa...
Daniel apenas balançou a cabeça, abriu a geladeira e pegou presunto para comer com o pão de forma. Se sentou de frente a esposa, que tentava dar a papinha de ameixa para seu filho. — Porque estou achando você um pouco mais estranha do que o normal? — Daniel quebrou o silêncio. — Está tão agitada... Parece que cometeu um crime...
– Eu queria te perguntar uma coisa. Você... Não tem amigas... No trabalho?
– Não. — Fez uma careta. — Porque a pergunta?
– A-ainda bem que você vai trabalhar só depois do almoço, assim você cuida do neném também...
– Sinto que está fugindo do assunto...
– Eu estava pensando em fazer uma lista grande de compras, que tal?
– Julie...
– O que? Eu não posso fazer uma lista de compras?
– É, você está fugindo do assunto.
– Quem está fugindo do assunto é você. Vou fazer a lista, vai comigo ao mercado ou não?
– Sinceramente, pensei em ficar em casa, pelo menos hoje de manhã... Quero descansar um pouco.
'' Hum... Quer passar mais tempo em casa? Para quê? Descansar? Até parece que trabalha tanto... Só faz ficar sentado o dia todo na cadeira e no escritório com ar condicionado, sendo servido de café quente cada vez que pedir... Está mentindo Daniel... Sei que está... Só quer que eu saia para ir direto pro telefone e ligar para a Thalita, não é? ''
– Juh? P-porque... Está sorrindo assim para mim? — Daniel perguntou, levemente nervoso.
Juliana balançou a cabeça, se despertando dos pensamentos. — Então tá, eu vou sozinha.
– Hum, se quiser eu vou com você...
– Não! Pode ficar! — Beijou seus lábios novamente. — Só que, eu vou levar o bebê.
[...]
Juliana chegou do mercado, como o mercado estava cheio ela demorou de chegar em casa. Estava exausta pelas compras que fez, e também por causa do bebê. Já que hoje ele estava mais bagunceiro do que o normal.
A morena estava sentada no sofá, já tinha preparado o almoço e agora dava uma vitamina para o bebê tomar.
Ela ainda estava desconfiada do marido. Julie não parava de pensar naquela conversa que Daniel teve com o Martim pelo telefone. Sua vontade era de perguntar: E aí, tem visto a Thalita?
Mas não podia.
– Toma bebê, tá gostoso! — Julie tentava dar a vitamina na mamadeira para Diego, mas o mesmo virava o rosto, e até ameaçava chorar. — Mas que saco... — Reclamou.
Daniel chegou na sala, estava ajeitando a blusa do seu uniforme. — Ele está dando trabalho?
– De mais! — Respondeu estressada. — Ele não quer tomar, só quer me dar trabalho...
– Tente dar outra coisa para ele, ué.
– E você acha que é fácil? Acontece que o seu filho é muito enjoado.
– Ah, agora ele é o meu filho, não é? Quando ele é chamado de gracinha, ou fofo... É seu. — Riu. — Estou atrasado para o trabalho...
– Trabalho? — Dessa vez a morena riu. — Quem tem trabalho aqui sou eu. Eu que tenho trabalho!
– Julie, ele é só um bebezinho!
– Aham, um bebezinho que precisa comer, dormir, brincar... — Se levantou com Diego no colo, deixou a mamadeira em cima da mesinha. — Eu vou me deitar um pouco. — Beijou seu marido e subiu as escadas.
Daniel estranhava cada vez mais o jeito dela. Era a primeira vez que Julie reclamava do filho.
Ele continuou se arrumando.
Passou-se quinze minutos, Daniel subiu as escadas para beijar sua esposa mais uma vez, porém, assim que entrou no quarto a viu dormindo. Ele sorriu fracamente e se deitou ao seu lado, ela abriu os olhos. E também sorriu ao vê-lo. — Estou sonhando ou tem mesmo um anjo do meu lado? — Perguntou, um pouco sonolenta.
Daniel apenas riu. — Eu não sabia que o bebê dava tanto trabalho assim... — Disse. — Eu queria te dar uma folga.
Julie tocou no seu rosto. — Não preciso de folga, ele está quietinho agora. — Apontou com a cabeça para o berço mais pra frente. O bebê brincava com alguns brinquedos espalhados no berço, brincava quietinho.
Ela fechou os olhos. — Só que estou muito cansada... — Respondeu e bocejou logo depois.
Daniel se levantou da cama, beijou seus lábios, porém, sua esposa estava tão cansada que mal retribuiu.
Ele foi para perto do berço, queria pegar seu filho e lhe dar um beijo também. E foi o que ele fez. Pegou o bebê nos braços, brincou um pouco enquanto seu filho ria. Beijou seu rosto com carinho e quando estava colocando o bebê de volta no berço...
Ele chorou. Começou a chorar e o choro se tornava mais alto. O bebê não queria sair do colo do pai. — Sch, o papai volta daqui a pouco... — Mas nada que Daniel falava acalmava o bebê.
Ele respirou fundo e olhou para Julie, viu a mesma dormir profundamente. Não queria que o pranto do filho acordasse sua amada. Resolveu descer as escadas com Diego.
[...]
Juliana acordou umas duas horas e meia da tarde, se despreguiçou. Sentia suas energias renovadas depois daquele descanso. Se levantou, estranhou a tranquilidade do lugar. Mas imaginou que chegaria no berço e veria seu filho dormindo.
Calçou seus chinelos e foi andando até o berço. Sua calma e tranquilidade se acabaram assim que a morena viu o berço vazio.
Seu coração disparou. — Como assim?! — Ela se perguntava sem entender.
''Será que o bebê escalou o berço? E-ele... é esperto...'' — Pensava. Já desesperada. '' Não, isso é loucura, o berço é grande, ele não ia conseguir fazer isso... M-mas...então...Cadê ele? ''
Desceu as escadas, caçou seu filho pela casa toda mas não o encontrou. — Daniel! — A morena cerrou os punhos com raiva. — Só pode ter sido ele! E-eu... Preciso ir no trabalho dele!
Foi para a garagem, viu a moto ali. Seu coração acelerou ainda mais. Ela detestava motos, morria de medo. Mas sabia que o trabalho do marido era longe, e precisava chegar lá o mais rápido possível.
Ela subiu na moto. Ainda na dúvida: Será que o bebê está mesmo com o Daniel?
[...]
Ela deixou a moto estacionada em qualquer canto do estacionamento. Correu para o prédio, era enorme, até se perdeu um pouco, não sabia direito onde era o escritório do Daniel.
E isso só a deixava mais desesperada.
Ela subiu alguns andares com o elevador, desceu, subiu de novo. Estava atordoada.
Até que conseguiu informação com um segurança no corredor.
Chegou no consultório dele, abriu a porta.
Acabou sendo surpreendida.
– Que bebê mais lindo... — Viu Daniel segurar o bebê, e Thalita brincar com o seu filho.
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