Coração de Porcelana

5 Capítulo 5 - O impossível pode se tornar possível?


- Sorria! – pensei junto com a fala de Melissa para a amiga que estava sentada, sorrindo torto.

O flash disparou, sem deixar Sophia atordoada.

- Pronto – a moça atrás da câmera ajeitou a roupa – Esperem um minuto – a mulher saiu andando por um corredor pequeno e entrou em uma sala menor ainda, levando a câmera junto.

Sophia passou a mão pelos cabelos longos e negros, Melissa sabia muito bem que quando a amiga fazia isso era porque estava preocupada.
Se notarmos bem, cada pessoa deve ter um “costume” desse que significa alguma coisa, às vezes morder o lábio, coçar o queixo, bater o pé, mexer no cabelo... Até mesmo estralar os dedos. Eram coisas variadas que podiam acontecer quando a pessoa estava em um mesmo estado emocional. Sophia tinha muito disso, e Mel, bem, já conseguiu decorar o que cada um significava. E eu podia saber o que era.
Quando passava as mãos pelos cabelos – como acabara de fazer – era porque estava nervosa, apreensiva e de vez em quando até confusa.
Quando mordia o lábio inferior é porque não tinha o que falar, ou mesmo não podia fazê-lo.
Existiam muitas coisas pequenas que se podia perceber com certa atenção, citá-las demoraria a eternidade... Não que eu não tivesse esse tempo.

— Não fique assim, você vai sair bem na foto – Melissa se aproximou com a amiga do balcão.


Sophia bufou.

- Sabe que isso não faria diferença...

- Ora, então fique feliz. Vamos comprar seu ingresso logo, é só entregarmos essas fotos e sua carteirinha de estudante, pagar e estará em mãos!

A garota dos cabelos negros não respondeu. Ficou passando as mãos por sobre o balcão, a estrutura gelada e lisa, dava uma sensação gostosa em suas palmas, principalmente no calor. Pareciam refrescar um pouco.
Melissa não desistiu em fazer a amiga rir.

- Não acredito que não tem uma carteirinha até hoje! É meio estranho...

Sophia sorriu. Os olhos perdidos no balcão em que passava as mãos. Não o via.

- Ah, não me importo em pagar inteira quando vou ao cinema, Mel.

Melissa não entendeu de primeira. Pensou que a frase "Quando vou ao cinema" não fazia sentido nenhum se não se podia ver.

Houve um silêncio.

A ironia pairou no ar e ela ficou com vergonha de não ter entendido.

Melissa pigarreou, limpando a garganta para dar passagem para uma risada limpa, leve e ardente.

- Está aqui, como pediu – a moça da câmera voltou nada simpática, parecia ter um dia ruim.

Eu não me lembrava dessa mulher, alias não me lembraria de todos os seres humanos na terra, lembraria? Não sou assim tão perfeita.
Eu teria que pesquisar sobre ela mais tarde.
A mulher dos cabelos encaracolados escuros empurrou as fotos que deslizaram no balcão até as mãos de Melissa.

- Obrigada – disse ela deixando o dinheiro para a mulher e pegando no braço da amiga para acompanhá-la.

As duas andaram pelas ruas calorosas, passando por muitas pessoas.
Sophia gostava de ver a amiga animada, mas ela não poderia dizer que sentia o mesmo... Ela não estava fazendo aquilo porque queria, mas porque amava Melissa de mais para lhe dizer um não.
Eu sabia que não ficaria assim. Não. Era só por pouco tempo.

- Hey! Você está linda nas fotos! Eu sabia que levava jeito nisso... Eu cuidei bem do seu cabelo.
— Isso é verdade – Sophia passou os dedos pelas pontas do cabelo – Eles estão mais macios.
— E a maquiagem então...
— Você não me deixou uma metidinha nojenta não é? — brincou.
— Defina metidinha nojenta.
— Bom... Como você me descreveu. As que usam maquiagem forte sobre o rosto... “As cores fazem parecer que o rosto delas está pegando fogo!” – imitou a voz de Melissa, quase idêntica.
— Não. Elas precisam de algo forte para a aparência fraca. Já você... Tem uma aparência forte – disse como se isso fosse obvio de mais.
— Quer dizer que me acha bonita?
— Se você pudesse ver, não duvidaria se eu dissesse que sim, e muito – Melissa parou e sorriu – Não me assustaria nem um pouco se você fosse convidada por um garoto popular.
— Hey! – Sophia pulou – Não me iluda – riu.
— Não seja boba. Estou falando sério! Semana que vem é a semana da formatura... Você vai ver... Os meninos deixam tudo para última hora.

Ela suspirou. E não como se isso fosse uma baita mentira, mas como se quisesse que fosse verdade.