Coração de Porcelana
6 Capítulo 6 - Era uma dor prazerosa.
Melissa deixou a amiga na porta de casa, se despediu e disparou em direção à escola. Pronta para entregar as fotos na secretaria. Pronta para separar um ingresso.
Sophia abriu a porta, mas antes de entrar passou a mão pela parede até encontrar a caixa do correio. O abriu e procurou por alguma coisa que poderia estar lá dentro. Fazia séculos que sua mãe não pegava a correspondência, além do mais, ela não era do tipo de mulher que tinha amigos ou uma família que mandava cartas. E as contas iam tudo para o pai. Era raro receber algo. Mas desta vez Sophia sentiu algo áspero em sua mão, e com um movimento brusco ela sentiu seu dedo reclamar. Involuntariamente o levou até a boca, sentindo o gosto doce-salgado de seu sangue.
O papel caiu no chão.
Gemeu baixinho, não doía tanto, mas também não era nada agradável.
Ela não ficou com raiva, como qualquer outra pessoa ficaria.
Seu dedo ainda doía e ela não o tirou da boca. A saliva fazia com que aquilo não a incomodasse tanto como deveria.
Ela estava pronta para se abaixar para pegar o papel, mas sentiu como se o vento de repente não atingisse mais seu rosto, como se houvesse uma barreira. Os cabelos negros não estavam mais cutucando as bochechas.
Ficou parada, meio agachada. Prestou atenção em cada ruído e em cada movimento.
Seu coração começou a bater mais rápido do que o normal, a respiração ficou ofegante, ela desejou ardentemente que o vento voltasse a tocar seu rosto – talvez assim seus pulmões começassem a fazer seu serviço -, mas o vento simplesmente não voltou para ela.
Eu quis rir, mas soaria muito irônico.
- Acho que deixou algo cair de novo – a voz fez com que ela se endireitasse no lugar tão rapidamente que levou um susto – E creio que isso você usará.
Sophia não podia acreditar. Era a mesma voz que ela havia escutado de manhã. O vento não batia em seu rosto, mas a voz dele parecia o som do próprio. Ela não precisou do verdadeiro para respirar. Aquele estava ótimo.
Sophia endireitou o rosto para onde vinha a doce canção da voz dele, como um chamado, ela tombou a cabeça. Não precisou fechar os olhos para ouvi-lo melhor. Ela não precisava ver para saber que ele estava ali, ela só precisava senti-lo. E era o que ela fazia.
- Oh! Sim, obrigada. Er... Stefan não é? – ela sabia que era, mas fazia o máximo para que suas palavras terminassem com perguntas, assim ela teria a certeza que ele falaria com ela novamente.
— Sim, senhorita – brincou.
Ela estendeu a mão e ele bufou.
- Opa, desculpe-me – pediu e colocou a carta na mão dela, com tanta delicadeza que ela nem pode sentir o calor de suas mãos.
— Tudo bem – Sophia riu docemente e enfiou a carta dentro do bolso da calça jeans.
- Bom, desculpe quase entrar na sua casa assim... Mas estava passeando com a morte e depois de deixá-la em casa, resolvi dar uma volta e...
Não deu tempo de Stefan terminar a frase, o vento gelado conseguiu atingir Sophia agora, e o garoto também. Os pelos dos braços de ambos se arrepiaram. Era frio, ou algo relacionado com o nome? Mas o que teria de mais no nome? Para mim, não tinha muita coisa, nem mesmo dava muito medo se prestasse atenção.
E porque medo da morte? A morte... eu... não sou tão ruim... Bem... Dependendo para onde se vai depois.
- Quem? – a garota tremeu.
— Ah, minha cadela. Ela chama morte! – Stefan riu como se aquilo fosse hilariante, imagens passadas percorreram sua mente – Foi Marcos que deu o nome a ela. Eu deixei, não imaginava que ele seria tão... Sinistro.
Humpf – reclamei com meus botões.
- Hey Soph, quer andar? – a voz acabou em um sussurro animado no final. Ele corou e por um momento agradeceu por ela não poder ver. Ele se sentia a pessoa mais feia do mundo perto dela.
— Você me chamou de que? – ela não disse com raiva, mas foi com uma curiosidade tremenda. Ergueu uma sobrancelha, sabendo que ele podia ver sua expressão.
— Soph... Mas... Ah... Desculpe, eu nem mesmo perguntei se poderia te chamar assim e... – engasgou com a própria saliva e preferiu ficar ali, tentando engoli-la ao invés de arriscar falar algo pior.
— Não, não! – protestou – É legal... Bem, é a primeira vez que alguém não me chama só de Sophia... E bem... Eu gostei.
Gostar não era a palavra certa. Ela mesma podia ouvir seu estômago embrulhar de tanta emoção, podia sentir as veias carregarem o sangue quente para todo o corpo. Era difícil se concentrar assim, falar era perigoso. Muito perigoso. Mas o Soph saiu tão bem na boca dele que ela sentiu como se um anjo a chamasse pelo nome.
Isso soou engraçado para mim.
- A primeira vez?
- Sim, senhor – imitou e ambos riram.
— Bom, então isso me torna alguém importante? – a voz ficou mais doce. Mais do que já era.
— Certo.
— Nossa! – brincou – Mademoiselle... Obrigado por permitir essa honra! Mas, então, como alguém importante, aceita dar uma volta comigo?
— Com toda a certeza, jovem cavalheiro – estendeu a mão e ele a pegou, guiando-a pela rua como se fosse seus olhos.
Antes mesmo de qualquer movimento ou acontecimento, Sophia podia sentir a textura da mão de Stefan, tão macia sobre a sua, tão suave. As mãos se encaixavam como uma só e o calor de ambos passavam de um corpo para o outro.
Riram. As duas risadas juntas soaram como gotas de chuva que caiam sobre um rio, em um dia ensolarado formando o arco-íris. Como se a risada de ambos se encaixasse tão perfeitamente, melhor do que qualquer melodia composta por qualquer instrumento. Como uma música feita por duas pessoas completamente afinadas um para o outro.
Essa comparação não vinha de mim. Vinha de ambos.
Mas eu... Concordei.
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