Coração de Lata
2 Trancafiada
Notas iniciais
Naquele dia eu não sentia o cheiro da chuva. Estava naquele momento em meu quarto, o qual estava devidamente silencioso e arrumado, e eu estava debruçada em minha cama lendo pela milionésima vez um livro de contos de fadas que meu pai havia me dado logo depois de eu sair das fraudas. O nome do livro era de cara “Contos de Fadas” e era escrito pelo Oscar Wilde, um de meus autores preferidos. Eu nunca me cansava de ler o final do primeiro conto, que se chamava “O Príncipe Feliz”. Eu sempre chorava na parte em que o Colibri morria congelado logo depois de beijar a estátua do príncipe nos lábios. Sem conseguir me conter, um rio de lágrimas cortou minha bochecha. Meu coração deu um pulo quando a porta do quarto se abriu sozinha.
– Senhorita Melody, seu pai já a espera para o café da manhã. – A voz eletrônica de Jasper, o cérebro inteligente de nossa casa futurística, disse pelo meu quarto. De uma maneira simples de explicar, Jasper foi feito pelo meu pai, um dos mais renomados cientistas e pesquisadores da Europa. Porém, algo de errado aconteceu durante sua carreira, fazendo com que seu brilho se tornasse fosco e ele fosse rebaixado à cientista louco. Ele estava prestes a descobrir algo, algo que eu não sabia, mas vários chamavam de “A Cura” e durante um experimento, junto a minha mãe, algo deu errado e o experimento falhou. Minha mãe morreu quando eu tinha três anos.
– Está tudo bem, diga a ele que já estou descendo. – Pedi-lhe enquanto fechava o grosso livro com um pequeno baque, e logo depois o guardando em uma das prateleiras de meu quarto. Mesmo tendo a tecnologia ao meu lado, a qual pode guardar milhões de livros em sua minúscula fonte, eu preferia os livros verdadeiros. Gostava de senti-los em minhas mãos. Saindo do quarto, desci as escadas rapidamente dando de cara com a sala de estar. Ao longe pude ver uma partida de xadrez incompleta. Eu sempre me esquecia de guardar as peças na caixa. Quando cheguei à cozinha, senti um baforado quente dar um passeio pela sala inteira e logo depois sair pela janela de frente para a pia. Salivei só ver. Um cheiro delicioso de mel e waffles preencheram minhas narinas, e eu fiquei inspirando aquilo por um longo e bom tempo, maravilhada.
– Waffles! – Disse alegremente puxando uma cadeira para me sentar a mesa. Meu pai estava sentado também, e lia um jornal da cidadezinha que ficava ali perto. Dava para notar seu cabelo louro rebelde espetado por trás da página que dizia no artigo inteiro sobre como iam os times da European Football Championship daquele ano. Ele baixou por alguns segundos o jornal, fazendo com que eu visse seus olhos azuis claros, mas antes seus óculos de aro grosso. Ele deu um bom dia, sorveu um bom gole de seu café e voltou a ler o artigo. Estava sempre muito ocupado, como sempre. Dei de ombros e voltei minha atenção para a comida de fato, beliscando alguns biscoitos amanteigados com açúcar. Uma mão áspera, porém pequena pousou em meu ombro.
– Bom dia, Melody. – Minha babá, ou mãe, como eu gostava de dizer, disse ao notar que eu havia me esquecido de cumprimenta-la, já que era ela quem estava fazendo os waffles.
– Desculpe-me! – levantei-me para abraça-la. – Bom dia, Green! Green era uma babá maravilhosa! Era latina e vivia numa casa bem perto da nossa, bom, é o que ela diz. Todos os dias ela vinha bem cedinho para cuidar de mim e ás vezes trazia sua filha, Bene, a qual é minha melhor amiga. Na verdade, minha única amiga. Green deu um longo sorriso e pediu para que eu me sentasse para comer o meu café da manhã.
– Você tem muitas aulas hoje, sabia? É melhor se apressar. Eu não sabia como era para as pessoas normais, mas eu recebia aulas particulares por professores de hologramas. Eu tinha história, inglês, espanhol, francês, alemão, italiano, japonês, matemática, música, ciências, e etiqueta. Seria um dia cheio. Meu pai comeu o último pãozinho com manteiga e limpou a garganta com café. Ele guardou o jornal debaixo do braço e pegou da cadeira seu jaleco branco.
– Você já vai? – Perguntei triste. — Tenho que ir, meu doce. Tenho várias reuniões hoje. Volto de noite. – Ele beijou minha cabeça e virou-se para Green, despedindo-se dela. Eu segui com os olhos suas costas largas até o vão da porta da frente. Eu nunca gostava quando ele ia trabalhar. Ele deu uma olhadela para trás, e rolou os olhos, permitindo-se a dar uma breve risada.
– Não se preocupe, eu estarei bem. Não vou ir pra guerra ou algo assim. Confie em mim. – Quando ele proferiu a última parte, lembro que ele fez algo estranho, mas depois eu me esqueci e dei de ombros, mandando um beijinho de despedida e soprando pra ele.
Quando ele simplesmente passou pelo vão da porta da frente e trancou com a super-fechadura, meu estômago se fechou e eu não pude mais comer nada. Dei os pratos e copos para Green e fui para meu quarto infeliz, suspirando perante as aulas monótonas.
Quando ficou noite, e vi pela janela que nada se podia ver lá fora, eu fiquei no recanto do sofá da sala, esperando meu pai pacientemente. Mas a fechadura da porta da frente não destravava e eu não escutava o costumeiro som da porta da sala se abrindo pesadamente. Nem percebi quando tudo ficou escuro.
Luz. Olhos azuis. Um cheiro esquisito. Alguém toca em meu ombro. Viro-me e vejo:
– Mãe... – Meu sorriso era tão grande que eu poderia explodir ali mesmo. Eu queria voar. Era a minha mãe! Jovem, linda, com os cabelos cor de areia sobre os ombros. Mas... Um grito escapa de minha garganta. Seus olhos estouram. Seu corpo infla e porcas e peças metálicas saem junto com sangue de sua boca. — Mãe! Mãe! Mãe, NÃO! – Eu chorava mais que tudo. Eu estava morrendo. Ela estava morrendo. De repente... Luz.
Eu levantei acordada por Jasper. Era de manhã, e a luz matinal passava pelo vidro esfumaçado das janelas com um pouco de ressentimento. No meio do corredor da cozinha eu me lembrei de meu pai e subi as escadas para ver se estava em seu quarto. Mas ele não estava lá. Então vasculhei todos os quartos. Uma grande má notícia: meu pai, um homem de pele bronzeada, olhos verdes e cabelos louros espetados, não estava em lugar nenhum.
–Jasper, onde está meu pai? – O silêncio se tornou eterno depois que proferi tais palavras. Eu vasculhei os banheiros, os quartos, corredores, escritórios, salas de estar, mas eu não vi nenhum cabelo louro espetado em nenhum lugar da casa. Aquela era a primeira vez que ele não vinha pra casa, ficar comigo.
Ouvi o barulho da campainha lá de baixo e desci correndo as escadas, quase flutuando sobre os degraus de mármore. Green havia chegado e Jasper abrira a porta. Cheguei até ela, olhando desnorteada seus olhos cheios de lágrimas.
– Green, o que aconteceu?
– Seu pai...! – Sua voz se sufocou na garganta e ela me puxou para um abraço. Atrás dela estava Bene, com as mãos nos bolsos das calças e com a cara amarrada.
Naquele dia não tive aula. Ficaram eu, Bene e sua mãe na sala de estar vendo a TV, enquanto meu pai passava na CNN. “Suposto cientista maluco, Frederich Gold, assassina dois de seus companheiros durante um experimento arriscado e está foragido...”. Eu não sabia como iria ser depois daquilo, mas minha visão ficou embaçada e eu afundei o rosto em seguida no ombro de Bene e fiquei ali por um bom tempo.
Fale com o autor