Notas iniciais
"Em uma história de aventura o personagem principal sempre sairá de sua zona de conforto." - J.R.R Tolkien.

Estava deitada com as costas apoiadas na cabeceira de minha cama, os olhos fixos em um belo e fino livro de poemas românticos. Como sempre, eu tentava passar o tempo lendo. Porém, a ideia de ter o meu pai foragido da polícia, sendo culpado por ter matado seus companheiros de trabalho, aquilo realmente não me ajudava a me concentrar na leitura. Na verdade, aquilo doía, e muito.

Fazia três dias já. Green e Bene vinham todos os dias, Bene quando não tinha cursinho, mas Green era uma mãe e tinha um bondoso e grande coração. Ela disse que tomaria conta de mim e que seria minha família caso meu pai nunca retornasse, e essa confissão me deixou muito esperançosa, mas não o suficiente para não pensar em meu pai.

Meu pai. Meu pai não era um homem muito amoroso, não nos últimos meses. Quando completei quinze anos no inverno passado, ele tornara-se mais fechado a mim e passou a trabalhar mais. Claro que ele se dedicava para me dar do bom e do melhor, por causa de minha doença, uma doença rara que me impede de ir para o mundo exterior. Por essa razão minha pele é fina e esbranquiçada, por contradição de meus cabelos escuros e longos e olhos verde-água .

Não que ele não trabalhasse duro antes de eu completar quinze anos, mas ele ficou mais frio e calculista e notava que eu voltava a ter pesadelos e visões de minha mãe, quando como eu tinha aos dez, eu tinha surtos e apagava várias vezes, me lembrando de pequenas partes, partes desconexas de minha infância.

Quando eu tentava voltar a minha infância, ás vezes via meu pai correndo pela sala de estar de lá pra cá, enquanto eu brincava com minha casa de bonecas com Bene ou era alimentada e cuidada por Green. Outras eu o via sorrindo pra mim, ou chorando ou olhando-me com ternura enquanto lia “O Hobbit” pela terceira vez para mim antes de eu ir dormir os sonhos mais ternos e grotescos, com infinitas aventuras ao lado de elfos, anões e hobbits ladrões.

Meu pai me ensinou vários valores, ele era gentil e sempre me contava coisas sobre astronomia, física, química, enfim, coisas de como tudo no mundo funcionava sem que eu as visse em primeira mão. De sua boca saía as histórias das pessoas que fizeram e refizeram coisas importantes que mudaram nosso mundo, pessoas que eu não conhecia, mas tinha o dever de estuda-los de longe.

Por mais que eu visse as atitudes de meu pai de todos os ângulos possíveis, desde as coisas boas ou coisas ruins, eu não conseguia imaginá-lo matando pessoas por descuido seu. Ele era calculista e perfeccionista demais para isso.

– Mel? O que está fazendo? – Uma cara bronzeada apareceu no vão da porta de meu quarto com tranças finas e escuras escapando para dentro.

– Bene! Oi! – Fechei meu livro no mesmo instante.

– Trouxe uns CDs do Yellowcard para ficarmos ouvindo, bem pré-histórico, né Jasper? – Ela olhou pro alto em deboche. Eu ri de sua atitude, ela era a única pessoa que me entendia de verdade e não sentia medo das coisas que meu pai fazia ou inventava. Ela achava tudo muito fascinante.

Começou a tocar “Believe” em meu quarto e eu peguei o livro “Coração de Tinta” da minha vasta prateleira de livros para dá-lo a Bene.

– Como prometido. Obrigado por ter me emprestado, mas agora quero o segundo, viu?

– Como é abusada você, viu? – Rimos alto – Não se preocupe. Trago-lhe amanhã de manhã pra você, seu robozinho ambulante.

– O que? – Não entendi aquela expressão, mas vi como se fosse um xingamento, indignada. – É você!

Bene começou a rir. – É você! É você! — Ela pulou em mim e começou a me fazer cócegas. Rolava que nem uma tonta na minha própria cama.

– Meninas! – Green entrou normalmente no quarto, já acostumada com as duas crianças de quem sempre cuidou. – Fiz Muffins quentinhos! E tomem cuidado porque acabaram de sair do forno!

Naquele dia fiquei o dia todo jogando jogos com Bene ou conversando coisas banais ou escutando músicas de nossos artistas preferidos, sendo que Green sempre vinha para ficar de olho na gente. Em nenhum momento elas tocaram no assunto proibido “pai”, mas de relance eu me via olhando pelos cantos dos olhos, perguntando-me se eu deveria ficar daquele jeito mesmo. Se eu não devia ir procura-lo.

Teve um dia desses que eu desabafei com Bene e lhe contei sobre esse pensamento. Ela ficou muito assustada e quase ficou vermelha, não sei se por raiva ou frustração.

– Mel, não! É perigoso! E também , você não pode sair de casa, se não ficará doente. Se você se sente muito sozinha, eu posso trazer uns amigos meus para levantar mais seu astral ou...

– Não, Bene, estou bem. Era só uma ideia boba.

Quando Green também ficou sabendo de meu pensamento, ela quase infartou. Disse para nunca mais pensar nisso. Ás vezes, ela nem mais ia embora para casa com a filha, pois tinha medo que eu fizesse algo de perigoso. Bom, seria impossível, pois toda a casa foi programada para não me deixar sair. As janelas eram gradeadas e havia apenas uma saída: a porta da frente que possuía uma trava pesada de chumbo que só podia ser aberta ou por meu pai ou por Jasper. Eu sobrevivia do grande estoque de mantimentos de longa data na dispensa e das guloseimas que Green comprava.

Teve um dia em que eu acordei com o cheiro da chuva preenchendo minhas narinas. Inspirei profundamente no mesmo instante que eu o senti. Fazia semanas que não chovia, mas naquele dia eu tinha certeza que estava chovendo. Não sei por que da minha mania de se importar se chovia ou não, mas o cheiro da água em pedra molhada me fazia ficar revigorada.

Eu havia acordado fazia um tempo e já estava deitada no sofá da sala de estar assistindo Bob Esponja esperando a Green chegar para terminarmos de fazer o café da manhã, quando escutei a porta da frente se abrir e bater novamente com um baque surdo. No mesmo instante comecei a sentir um cheiro metálico e estranho, mas nostálgico e aquilo me deixou com um medo terrível.

– Green, é você?

– Corra! Agora! – Fiquei em choque. Era Green e ela gritava para eu levantar e sair dali, mas eu fiquei olhando para a sua ferida na testa, imobilizada. Aquilo era sangue, e era vermelho, estava muito vermelho. Escutei um barulho alto vindo da porta da frente, as janelas do primeiro andar sendo quebradas violentamente. Por instinto, cobri o rosto com as mãos para me proteger, assustada.

– Mel, venha agora! – Ela apertou tanto a minha mão, que eu pensei ter acordado do transe só por um instante. Subimos as escadas num pulo e quando eu vi, estávamos no último andar. Ela correu pelo longo corredor, puxando-me pela mão, procurando por algo. Quando achou, bufou de alívio. Ela puxou um candelabro do lugar, um que eu nem havia percebido que estava ali, pois usávamos lâmpadas elétricas, e quando vi, uma grande estande a nossa esquerda saiu do lugar, abrindo uma passagem para uma sala secreta. Ela me empurrou para dentro com tudo, apressada.

A estande havia voltado no lugar, deixando-nos dentro do que parecia um laboratório frio e com paredes metálicas. Olhando para todas aquelas substâncias esquisitas guardadas ou fumegando em vários Béqueres e potinhos com tubos que iam e vinham pela sala imensa, eu compararia tudo aquilo com desenhos animados. Mas não deu muito tempo de apreciar ou digerir aquela visão, porque Green puxava-me ansiosa pela mão e eu sentia por debaixo de minha mão que ela tremia. Escutávamos passos e barulhos de explosões do andar de baixo. O chão tremia e fazia com que rolhas e porcas metálicas pulassem feito rãs.

– Jasper deve estar tomando conta das coisas lá embaixo, mas eu não consigo achar o que quero...

Aqui, senhorita Green. – Jasper mostrou o lugar em que deveríamos ir. Subimos alguns degraus para um tipo de plataforma e logo vi um tubo esquisito com uma porta, sendo que um vórtice azul rodava como um louco ali dentro, como um furacão compactado. Não sabia qual era a sua intenção até ela disser que eu devia praticamente pular ali dentro. Claro que eu protestei.

– O que? Não! Green, o que está acontecendo? Por que estou aqui e...

– Você deve partir! Não me perdoarei se te pegarem, seu pai não me perdoaria...! Espere... – Ela correu para uma mesa que ficava ali perto e tirou algo de uma gaveta — Tome esse celular, talvez possamos manter contato quando você chegar lá! Seu pai colocou Jasper aí, ele te contará tudo depois.

– O que é isso? – Apontei para o vórtice.

– Um tele-transportador. Levara-te para os Estados Unidos, onde estará segura... – Ela foi interrompida pelo barulho estrondoso de algo se chocando contra a porta secreta do laboratório.

Lágrimas teimavam em encher-me os olhos. Eu não queria ir. Tudo era muito confuso e acontecia tudo muito rápido. Ela percebeu e pegou meu rosto, limpando minhas lágrimas com os dedos trêmulos. — Shh, não chore. Seja forte meu doce, por mim, por Bene e por seu pai, okey?

Novamente escutamos barulhos esquisitos e altos vindos de fora. — Senhorita, ela deve ir. Os sistemas de segurança a muito já foram violados.– Jasper insistiu. Green se voltou a mim me levando para mais perto do furacão azul.

– Encontre o Bobby! Ele vai saber o que fazer...!

– Mas e você? Venha comigo!

– Não posso! Não tenho permissão! — Eu lutava contra suas mãos que me empurravam em direção ao tele-transportador. Eu não iria sem ela.

– NÃO!

Meus pés escorregaram para dentro do furacão azul e minhas costas deitaram sobre o vento e o nada, enquanto via Green olhando-me desolada e triste, mas convicta de que me veria de novo. Eu não sabia quem o que havia feito aquilo com ela, mas eu iria descobrir o que estava acontecendo, nem que seja a última coisa que eu faça.

Notas finais
Esse capítulo foi bem enrolado, mas eu tinha que colocar algumas coisas importantes que vão dar rumo a história principal. Melody será muito mais do que vocês pensam!! U--U E também me pediram para colocar algumas coisas, então, espero que tenham gostado. Bjss e abraços a todos que estão lendo o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.