Coração De Seda
25 Capítulo 25
Notas iniciais
—E te deixar aqui? —Hur pergunta incrédulo e com a voz baixa para que Djoser não ouça.
—Se eu for irei chamar muita atenção...
—Iremos de noite. —Hur sugere, mas eu recuso por causa da situação de Djoser.
—O garoto está fraco, Hur. Não percebe que ele mal acorda? —Minhas palavras foram o suficiente para Hur compreender que Djoser de fato está mal. —Leve-o agora ou caso contrário veremos nosso filho morrer.
—E você? —Hur pergunta indignado por me ver prostrada sem reação alguma. —Você vai ficar aqui e morrer de sede?
—Temos que escolher entre mim e nosso filho. E eu não posso ser egoísta ao ponto de não deixá-lo ir até a vila, Hur. —Falo com a voz um pouco mais rouca e isso faz Hur insistir mais uma vez.
—Henutmire... —Ele se aproxima de mim e segura a minha mão. —Eu não posso te deixar aqui e levar apenas Djoser.
—Você não pode. Você deve levá-lo. —Falo firme. Hur então vai até Djoser e tenta acordá-lo, mas meu filho resiste.
—Meu filho, acorda... —Peço ao tocar no braço de meu filho. —Djoser? —Pergunto com a voz trêmula por não ter resposta alguma, mas meu filho abre os olhos e estranha ao nos ver ao seu redor. —Levante.
—Eu não posso, não me sinto bem. —Djoser reclama.
—Faça um esforço, por favor. Seu pai vai te levar até a vila para você beber água... —A medida que eu falo, Hur faz por onde nosso filho se sentar.
—E a senhora? —Djoser pergunta preocupado. É então que Hur me olha crítico e eu minto para Djoser.
—Eu irei logo em seguida. Acho melhor vocês dois irem primeiro. —Meu filho, com sua ingenuidade, acredita em minhas palavras e assente conformado. Mas Hur ainda me olha crítico e nada fala sobre a minha mentira. —Voltem logo.
—Mas a senhora vai logo em seguida, mãe. —Djoser fala um pouco desconfiado de mim. —Não vai?
—Tem razão. —Falo magoada por saber que possivelmente não verei mais o meu filho. A minha sede é tão grande que temo pela minha própria vida.
Hur sai acompanhado por Djoser e me deixa sozinha em meus aposentos .
Eu não devo ir até aquela vila, Djoser deve! Ninguém irá desconfiar dele ou de Hur, mas eu saindo do palácio chamarei muita atenção.
Pior seria se Anippe estivesse aqui comigo, então eu teria que decidir entre ela e Djoser.
Como minha filha deve estar? Será que nem mesmo com essa praga ela sente remorso ou a minha falta?
Minha filha realmente não sente afeto por mim ou por Hur, ela não sabe o que é amar os seus pais.
Então eu choro novamente por não ter o amor de minha única filha, a filha que concebi com o homem da minha vida. Anippe é completamente o inverso do que eu pensei que seria para mim. Eu sempre imaginei que minha filha seria a minha maior companheira e que sempre me visse como sua segurança, seu porto seguro. Mas pelo o que vejo, nunca terei uma boa relação com a minha única filha. Isso é completamente diferente da minha relação com Djoser, meu filho mais parece ser meu irmão, uma espécie de irmão que entende tudo o que explico e sabe cada passo que eu dou. Embora eu tenha mentido para ele algumas vezes, e presumo que ele saiba que estou mentindo para ele, mas não queira me contar nada ou discutir.
Talvez o fato de Djoser ser meu primogênito influencie mais na sua compatibilidade comigo, lembro-me bem do quanto Djoser me olhava pedindo autorização para fazer algo quando era menor. Todo o esforço e dor que fiz e senti foram o suficiente para que meu filho se tornasse tão amigo e companheiro como ele é. Sei que em alguns momentos ele se deixa levar pela rebeldia, mas nesses momentos o meu filho chega a ter razão.
Então eu não poderia ir no seu lugar para beber água na vila dos escravos. Djoser é tudo o que eu tenho agora. Moisés está com sua família hebréia e Anippe decidiu ir embora para nunca mais voltar, então o único filho que me resta é Djoser. Pode ser egoísmo o que desejo, mas eu não quero que Djoser se afaste de mim. Sei que um dia ele se tornará um homem feito e terá que se casar e construir sua família, mas me recuso a acreditar que meu filho vá fazer tudo isso. No momento tenho tanto medo de perdê-lo como perdi todos os outros que chego a pensar que meu filho nunca mais irá voltar da vila dos hebreus.
Eu nunca abandonaria o meu filho, por hipótese alguma! E sei que ele não faria isso comigo. Mas algo me diz que algo grandioso irá me separar dele mais cedo ou mais tarde. Mas o que esse "algo" poderia ser? Poderia ser algum conflito entre nós dois? Creio que não, Djoser e eu nos entendemos muito bem.
Poderia o deus dos hebreus nos separar? Se ele é capaz de transformar água em sangue, então ele pode muito bem me separar de Djoser. Até por que meu filho tem o sangue hebreu em suas veias...
—Não, não,não! Esse Deus não existe! —Afirmo nervosa e confusa por meus pensamentos.
Começo a delirar com tanta sede e com tanta febre! Que loucura estou pensando? Começar a pensar que o deus dos hebreus existe quando na verdade ele se quer tem rosto. Estou indo contra todos os meus princípios por causa de meus devaneios. Possivelmente ficarei louca de tão sedenta que estou! —Talvez notem isso em pouco tempo e eu seja cruelmente esquecida. —Já não aguento mais essa situação que se agrava. Mas em meio a tanto caos e sofrimento, eu sigo relembrando de tudo o que já vivi.
Flash Back On
—O choro vem dali. —Falo e dirijo meu olhar até o horizonte e vejo um cesto escondido por entre as plantas dentro da água. —Pegue o cesto, Yunet. —Falo sem tirar os olhos do cesto. Yunet faz o que eu pedi e se aproxima com o cesto.
Ao abrir o pequeno cesto me deparo com um bebê, precisamente um menino, que no caso não para de chorar. Talvez ele esteja com fome, ou com medo por ter sido abandonado pela própria mãe. Se é que posso chamar de mãe...
Que espécie de mulher teria coragem de abandonar o próprio filho, o jogar no rio Nilo e deixar ele a própria sorte?
Nenhum desespero é o suficiente para fazer isso.
—Ah, mas que bebê mais adorável! —Falo ao retirar o bebê do cesto. E ao tentar acalmar o bebê em meus braços, noto o quanto ele pesa. —Oh meu amor não chora...
Flash Back Off
Lembro-me que o bebê que achei nas margem do rio Nilo hoje é um homem feito e que tem confiança o suficiente para enfrentar o rei mais poderoso de toda a terra. Mas de nada posso reclamar, até por que eu mesma enfrentei meu pai, um faraó, por causa de um filho de escravos como mesmo falavam.
Agora percebo o quanto Anippe e Moisés se parecem. Um pode ter personalidade calma e a outra personalidade forte, mas a segurança e coragem são iguais. Anippe e Moisés não se deixam abater por nada, e talvez seja agora que eu me orgulhe de minha filha.
Flash Back On
—O que você tem, filha? —Pergunto para a pequena menina franzina que está a beira da piscina com o irmão.
—Mãe, eu tenho um irmão que já é grande? —Anippe me pergunta, e eu, sem entender respondo pensando que ela está falando sobre Uri.
—Não fala sobre o nosso irmão, Anippe. Ele tá no deserto. —Djoser fala me fazendo entender a dúvida de Anippe.
—Eu ouvi o tio Ramsés falar que eu tinha um irmão chamado Moisés. —Anippe fala. —Ele tá no deserto?
—Ele está no deserto. —Respondo.
—E por quê a senhora não vai buscar ele para mim? Eu quero saber como ele é, mamãe. —Anippe pede segurando a minha mão.
—Eu não posso buscar ele, Anippe. Eu não sei onde ele está...
—A senhora disse que ele estava no deserto, vai buscar ele para mim, mãe. —Anippe insiste e eu fico sem ter o que fazer. Anippe tem apenas sete anos e não entenderia o motivo de Moisés estar tão longe...
Flash Back Off
A dor que sinto ao sofrer com cada lembrança é imensurável.
Agora sei que se eu não morrer de sede, morrerei com saudades de minha filha. Sei que ela sofre com essa praga, sei que sofre por estar longe de todos nós. E sei ainda mais que se mesmo ela querendo voltar para o palácio não poderá por causa do rio de sangue. Aliás, nada vem ou vai nas embarcações por causa do rio sangrento.
Presumo que as plantações estejam sofrendo com a falta de água e todos os animais estejam morrendo como consequência disso. Sei muito bem que Ramsés não dará a liberdade que o povo de Moisés pede, mas que sofre ao ver o nosso povo sedento.
Algumas pessoas já morreram por causa da sede que sentem, e eu sei bem que mesmo com a proteção dos deuses para com a família real, eu posso desfalecer a qualquer momento. —Levanto-me de minha cama e faço esforço para me manter de pé. —Estou tão fraca que não me afasto da cama.
—Henutmire. —Ouço uma voz masculina e familiar me chamar. —Henutmire... —Me assusto ao me deparar com meu pai em minha frente. O que está acontecendo comigo?
—Pai? —Pergunto um pouco sonolenta. —Pai, o que faz aqui?
—Eu vim te ver. —Meu pai fala se aproximando de mim sorrateiramente. Sinto-me tão frágil e fraca que tombo e me assusto ao ver meu pai tão perto de mim.
—Mas o senhor não está vivo. —Minhas palavras mal saíram de minha boca e eu já estava tonta o suficiente para cair. —Que estranho. —Falo ao voltar ao normal e me lembrar que meu pai está morto. Como eu posso estar falando com ele se o mesmo já não vive mais?
—O que você tem?—Meu pai pergunta curioso, mas eu não lhe dou atenção. —Henutmire...
—Deixe-me em paz! —Grito assustada comigo mesma. Isso é apenas um delírio meu! Meu pai não está vivo, eu estou fraca o suficiente para delirar com uma aparição sua.
Estou tão sedenta que começo a ter alucinações, talvez seja um delírio causado pela desidratação que eu sofro. Ou estaria eu ficando louca com tudo o que vem acontecendo? —A tontura é extremamente forte e eu não consigo manter o equilíbrio em meu corpo. — Ao cair inerte no chão frio de meu aposento, vou fechando os olhos pouco a pouco e acabo perdendo a minha consciência.
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