Coração De Seda
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Flash Back On
—Ai está você. —Falo surpresa ao ver Anippe brincar sozinha com suas bonecas de pano no harém. —Porque não vai brincar com as outras crianças?
—Não quero. —Anippe responde sem se quer me olhar nos olhos. Para uma criança de apenas sete anos Anippe é muito solitária.
—Viu seu pai hoje? —Pergunto.
—O vi assim que acordei, mamãe. —Anippe responde e imediatamente para de brincar com seus brinquedos. —Eu posso fazer uma pergunta para a senhora? —A fase de fazer várias perguntas já chegou, a começar do dia em que Anippe perguntou quem era Moisés.
—Claro que pode, Anippe. —Falo esperando a pergunta de minha filha mais nova.
—Onde o pai da senhora está? —Me admiro com a pergunta de Anippe. Por quê agora ela tem essa curiosidade? —Ele está com Moisés?
—Anippe, me escute com atenção. —Interrompo a minha filha. Rapidamente um belo par de olhos azuis passa a me observar com atenção e curiosidade. —Meu pai está no mundo dos mortos.
—Assim como Disebek? —Me assombro ao escutar o nome de Disebek sair da boca de Anippe.
—Quem lhe contou sobre Disebek? —Pergunto. Anippe passa a me olhar com desconfiança e então eu começo a desconfiar de minha filha. —Você não está ouvindo conversas por detrás da porta, está?
—Eu ouvi sem querer, mãe. Eu juro. —Anippe promete assustada.
—Agora você sabe que seu avô está no mundo dos mortos. —Falo secamente. —Mas qual o motivo de tanta curiosidade?
—É que... —Anippe começa a falar com uma certa desconfiança, mas faz a sua temida pergunta. —A senhora não vai morrer como o meu avô, vai? —Pela primeira vez na vida Anippe me fez ficar muda. Eu tento achar uma resposta adequada, mas a desculpa que me vem em mente muito em breve será ridicularizada quando Anippe entender que todos nós temos que morrer.
—Não, meu anjinho... —Falo puxando Anippe para um abraço. —Eu não irei morrer.
—Nem o papai? —Segurei as lágrimas com a pergunta de Anippe. Por quê estou tão emotiva?
—Nem eu nem o seu pai, Anippe. Estaremos sempre com você. —Minha filha então me abraçou forte e eu tentei não chorar meu choro, mas foi inevitável segurar a emoção.
Flash Back Off
Senti pequenas gotas de água molharem os meus lábios, quando despertei sedenta me deparei com Moisés e Hur em minha frente. Nada falei pois meu filho me dava água o suficiente para eu saciar a minha sede, e com isso passo a tossir com o meu alvoroço. A minha sede é grande demais para ter calma e beber a água com educação na frente deles.
Sinto a mão de Hur acariciar as minhas costas enquanto me refresco da água.
—Como vim parar aqui? —É a primeira coisa que pergunto após saciar a minha sede.
—Você desmaiou assim que voltamos para o palácio. —Hur explica.
—Achei estranho a senhora não vir para cá. Djoser estava em um estado de dar pena... —Moisés fala me oferecendo mais água. —Eu sinto muito por tudo isso, minha mãe.
—Eu não sei nem o que pensar, Moisés. —Falo mais calma e me sento ao lado de meu filho. —A situação se agrava a cada dia que se passa.
—Isso pode acabar se Ramsés ceder, mãe. —Moisés fala e eu o olho com reprovação.
—Você sabe que isso é impossível. —Falo.
—Moisés é o escolhido por Deus, Henutmire. Ele foi escolhido para libertar os hebreus. —A revelação de Hur me choca.
—Mas justo ele? —Pergunto apavorada por saber que meu filho é o libertador do povo hebreu. —Entre tantos justo você foi o escolhido, Moisés?
—Meu destino já estava traçado por Deus, mãe. Tudo agora tem uma explicação! —Moisés explica segurando minha mãos. —Se eu cheguei até a senhora foi por quê Deus quis.
—Moisés passou por várias coisas, Henutmire. Sua vida sempre correu perigo, você sabe. —Hur fala.
—Eu não posso acreditar que foi esse Deus que te colocou no meu caminho. —Falo surpresa.
—Acredite, mãe. Pois ele também foi responsável pelo maior milagre de sua vida. —Moisés fala me surpreendendo ainda mais. —Ele lhe fez conceber dois filhos, mãe. Ele fez um milagre em sua vida. —Moisés fala e eu olho para Hur.
—De certa forma você tem razão. —Falo surpresa comigo mesma. —Conceber Djoser e Anippe foi um milagre.
—Ainda bem que a senhora reconhece. —Moisés fala enquanto me oferece mais água. —Se sente melhor? —Ele indaga preocupado comigo. —Não deveria ter se sacrificado, mãe.
—Eu devo ter chamado muita atenção, Moisés. —Falo e em seguida começo a tossir nervosa.
—Henutmire? —Hur me chama ao ver que não paro de tossir. Os dois tentam me ajudar, mas eu sigo tossindo até Moisés massagear-me.
—Estou bem. —Falo após a tosse cessar. Meus olhos estão lacrimejando por conta do esforço que faço ao tossir, todavia Moisés me olha preocupado. —Foi um mal passageiro.
—Não sabe o susto que nos deu. —Hur fala me fazendo corar. Vejo nos olhos de meu marido o quanto ele me ama e está preocupado comigo. —Eu devia ter te tirado de lá a força.
—Teria coragem? —Pergunto.
—As vezes isso é preciso, Henutmire. —Hur fala e me abraça emocionado. —Eu pensei que fosse te perder...
—A senhora não pode se sacrificar tanto, minha mãe. Eu e Djoser ficamos preocupados! —Moisés fala.
—E onde seu irmão está? —Pergunto segurando as lágrimas. Não foi preciso Moisés me revelar onde Djoser estava, vi meu filho passar pela porta e vir até mim. Meu primogênito não falou nada, apenas me abraçou acaloradamente deixando bem claro o quanto estava preocupado comigo.
—Quando tudo isso vai acabar, Moisés? —Djoser pergunta ao ter absoluta certeza de que estou bem. Suas mãos acariciam o meu rosto envelhecido e eu vejo um belo sorriso se formar no lábios de Moisés.
—Eu não sei, meu irmão. Mas enquanto você estiver ao lado de nossa mãe, você e ela ficarão bem. —Moisés fala frustrado por não dar a resposta que todos nós queremos, todavia trato de aliviar a preocupação de Djoser com um beijo em seu rosto. Quando Moisés vê e entende que eu de fato sou capaz de me sacrificar por Djoser, meu amado filho me olha com doçura e me presenteia com um belo sorriso sincero.
Então eu percebo que estou na casa de Arão, o irmão mais velho de Moisés. Me alegro ainda mais por ver que Arão surge com seu olhar marcante de sempre e se alegra ao me ver recuperada nos braços de Hur e ao lado de Djoser e Moisés. —Senti uma energia muito forte vindo de Arão, específico do encontro do seu olhar com o meu. — Não sei o que sinto ao olhar para o irmão de sangue de meu filho, mas sei que pode ter algo relacionado com companheirismo. Pode ser respeito, pode até ser admiração que temos um pelo outro, mas seja lá o que for é belo demais para se decifrar em primeira mão.
—Como a senhora se sente? —Arão pergunta sorridente.
—Bem melhor. —Respondo agradecida por Arão ter aberto as portas de sua casa para mim. —Muito obrigada.
—Não tem o que agradecer, princesa. —Mais uma vez ele sorri para mim com ternura.
—Precisamos voltar. —Hur fala com razão e eu concordo. —Já pode ficar de pé? —Ele pergunta e eu tenho a idéia de me levantar sozinha e de fato consigo.
—Podemos retornar ao palácio agora. —Falo para Hur e volto o meu olhar para Moisés. —Quando nos veremos de novo, meu filho? —Tive como resposta o sorriso singelo de meu filho.
—Não irei me afastar, mãe. Eu sempre ficarei por perto. —Moisés me promete fiel e eu fico mais aliviada em saber que ele sempre estará por perto. Afinal, nada me afastará de Moisés.
—Você tem razão. —Falo e então me despeço com um abraçado. Olho bem nos olhos de meu filho e vejo o quanto dividido ele está. Porque será? Sei bem que eu e meu filho estamos separados por causa da missão que lhe foi dada, mas será que eu irei aguentar ficar longe dele sabendo que Ramsés pode lhe fazer algum mal?
Moisés sempre escapou dos perigos que surgiam sem mais nem, menos em sua vida, atravessou o deserto quando fugiu de meu pai e agora está enfrentando Ramsés. Eu temo pela sanidade de Ramsés e pela vida de Moisés, me parte o coração saber que os dois agora lutam de lados opostos.
Tudo isso poderia ter sido diferente se Moisés não tivesse vindo até mim naquele cesto de junco, mas se isso tivesse acontecido talvez ele não estivesse capacitado para a missão que lhe foi dada.
E pensar que eu fiz parte de tudo isso, talvez o deus de Moisés seja realmente poderoso como falam. A força que eu tive em enfrentar meu pai só pode ter sido obra desse deus, assim como todas as vezes que eu resistia aos venenos de Yunet. Lembro-me bem da vez que passei dias inconsciente e milagrosamente despertei sem mais nem menos.
—Eu vou, mas eu volto. —Falo da porta para Moisés e por fim me retiro acompanhada por Hur e Djoser.
—A senhora acha que Janes e Jambres não vão reverter a situação? —Djoser pergunta assim que saímos da casa de Arão.
—Já estamos no terceiro dia sem água. —Falo ao ver que já é noite.
—Não, Henutmire. Já é o quarto dia. —Hur me surpreende. Noto o olhar preocupado de Djoser para comigo e então percebo que estou muito confusa. —Não tem mais a noção do tempo?
—Estou confusa, Hur. —Minha revelação faz com que Hur e Djoser se olhem assustados. —Eu nunca passei por tamanha situação.
—Ninguém passou, mãe. Até parece que todos nós vamos morrer. —Djoser fala vagamente e fecha os olhos para não chorar.
—Henutmire? —Hur chama por mim e eu o olho com atenção. —Você ficou pálida de repente.
—Vamos embora. —Falo rapidamente. Não sei o que está acontecendo comigo, talvez seja o meu emocional que esteja abalado...
(...)
Enquanto voltávamos para o palácio pude notar que muitas pessoas estavam prostradas ao relento, sedentas e miseráveis por não conseguírem água para si mesmas. O anoitecer estava deixando claro que já é o terceiro dia sem água no Egito. —Mais parece que estamos condenados a morrer de sede. —Se nem mesmo Moisés sabe quando tudo isso vai acabar, o que será de nós?
—Que horror. —Falo aterrorizada com as pessoas sedentas no chão.
—Não olhe tanto para eles, Henutmire. —Hur pede preocupado com a minha sensibilidade. Ele então segura o meu braço com delicadeza e faz por onde Djoser não ver a situação miserável que as pessoas se encontram em frente ao palácio.
—Quando tudo isso vai acabar, mãe? —Djoser pergunta aterrorizado e me olha com lágrimas nos olhos. Eu seguro na mão do meu filho e então entramos no palácio sem que ninguém nos veja, até por quê os guardas estão sedentos demais para impedirem ou interrogarem a nossa entrada no palácio.
—Ainda bem que vocês dois estão bem. —Hur fala aliviado assim que entramos no palácio. Djoser me olha amedrontado com a situação e em seguida me abraça em sinal de medo.
—Está tudo bem, meu filho. Vai ficar tudo bem. —Falo abraçada ao meu filho. Me deparo com o olhar entristecido de Hur e me sinto pior por não poder fazer nada por Hur e Djoser. Até onde seremos castigado com essa praga? —Eu não vou deixar que nada de mal te atinja novamente. —Meu filho chorava de forma descompensada e eu permaneci abraça á ele. Hur segura a minha mão e então passo a sorrir por saber que ele sempre estará comigo, independente da situação ele permanecerá ao meu lado.
(...)
Tentei esquecer a praga enviada pelo Deus dos hebreus, mas todas as vezes que olho para Djoser passo a me preocupar ainda mais. A água da vila irá acabar mais cedo ou mais tarde e então não terei mais ao que recorrer para salvar o meu filho. O que vou fazer quando meu filho tiver sede novamente?
—Isso é trapaça! —Djoser esbravejou eufórico e então me dou conta de que ele e Hur estão jogando senet. Me alegro ao ver que Hur voltou a sorrir graças ao nosso filho, talvez com isso ele esqueça da decepção que nossa filha nos deu.
Tento disfarçar o meu riso ao ver Hur e Djoser discutirem e darem gargalhadas ao jogarem uma partida de Senet, somente eles para rirem e esquecerem da grave situação em que estamos. Por um momento tento esquecer que estamos sendo castigados com uma praga, o sorriso de meu filho me conforta. Djoser sempre conseguiu manipular minhas emoções e mudar meus sentimentos desde que ainda era um bebê indefeso. Agora eu entendo ainda mais o amor materno, a cada dia aprendo mais sobre ele e vejo o maior amor que pode existir entre um homem e uma mulher, entre uma mãe e um filho.
Nada vai mudar o meu amor por Moisés, nenhum dos filhos que gerei irá substituir o seu lugar em meu coração. Nem mesmo Anippe que é minha única filha poderá fazer com que eu esqueça Moisés! Mas o meu amor por Djoser é grande demais ao ponto de fazer com que eu sacrifique a minha vida pela dele. Não sei explicar se isso é admiração ao excesso ou se estou com os sentimentos a flor da pele.
—Você está bem? —Hur pergunta enquanto vejo Djoser de retirar, com certeza ele deve estar indo para seus aposentos. Hur se senta ao meu lado e me observa com atenção, talvez ele esteja preocupado. —Está calada desde que chegamos.
—Estou preocupada. —Falo agora abraçada a Hur. —Tenho medo de que Djoser fique sedento novamente. —Revelo.
—Espero que tudo isso acabe logo. —Hur fala após beijar o meu rosto.
—Eu queria tanto que Moisés tivesse voltado em paz, e que tudo ficasse bem. —Com isso Hur se preocupa ainda mais comigo.
—Você está exausta. —Hur tenta me fazer esquecer do assunto e põe sua mão em meu rosto.
—Eu tive delírios enquanto vocês estavam na vila, Hur. —Minha revelação o choca. —Foi horrível. —Lágrimas caíram de meus olhos e rapidamente sou acolhida pelos braços de Hur. Ele tenta me acalmar com suas carícias, mas isso faz com que eu chore ainda mais ao lembrar de meus delírios. —Estava ficando louca...
—Não repita isso! —Hur pede com medo, todavia ao segurar o meu rosto com firmeza e serenidade, Hur impõe que eu olhe nos seus olhos. —Eu te amo, eu te amo e você sabe disso, Henutmire! Eu não vou te deixar sozinha como fiz hoje... —Hur fala seriamente. Quando estou prestes a protestar ele volta a falar. —Mesmo que me peça, mesmo que me custe a sua paciência eu vou te levar comigo para onde for. —Nada falei ao ouvir a promessa de Hur.
—Eu tive que escolher... —Hur me interrompeu mais uma vez.
—A partir de agora eu quem decido por nós dois. —Me calo ao ouvir a decisão tomada por Hur. Olho fixamente para o rosto de Hur e dou um sorriso de alívio por tê-lo comigo.
—Será que o seu povo será liberto? —Pergunto temendo a partida dos hebreus. —Será que Ramsés vai ter coragem de ceder?
—Certamente que não. —Hur responde conformado com a escravidão que os hebreus sofrem. —O soberano nunca irá ceder.
—Mas se ele ceder... —Falo temerosa pela reação de Hur. —Você irá com eles? —Pergunto preocupada com a resposta. Hur passa a me olhar com receio e eu fico ainda mais preocupada com sua resposta. —Seu neto irá assim como todos os outros irão com Moisés, Hur. Você terá coragem de partir com o seu povo e me deixar no Egito com nosso filho? —Não obtive nenhuma resposta, apenas tive o olhar indeciso de Hur destinado ao meu olhar que reflete o pavor que sinto só de imaginá-lo longe de mim. Sinto novamente que algo muito forte poderá nos separar e talvez esse algo seja a libertação dos hebreus.
—Eu não vou para lugar algum sem você, Henutmire. Até por que os hebreus não serão libertos. —Hur fala e eu forço um sorriso tentando me convencer de que tudo ficará bem mesmo sabendo que existe a possibilidade de Hur partir com os hebreus.
—Você tem razão. —Falo me aninhando nos braços de Hur. —Os hebreus sempre serão submissos aos egípcios...
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