Notas iniciais
Se preparem, esse capítulo contém lágrimas.

Ando pelo acampamento hebreu e sorrio ao ver que o dia está apenas começando. Logo vejo Arão com Ashira nos braços. Tento não mostrar o quanto estou nervosa, mas eu não consigo. Somente por sentir o seu olhar em mim meu coração bate forte, quase descompensado.


—Anippe... —Arão fala enquanto vem até mim. —Meu amor... —Fala antes de me beijar sem que eu menos espere. De início não sei como reagir, mas logo meus lábios se deixam levar pelos lábios dele.


—Eu não quero acordar. —Falo ao abraçar Arão. —Isso é um sonho. —Falo e então sorrio ao ver Ashira nos braços do pai.


—Podemos estar distante um do outro. —Arão fala enquanto olha para Ashira. —Mas temos uma filha. —Fala orgulhoso. —Volte para mim, Anippe. —Arão pede enquanto aproxima seu rosto do meu.


—Como? —Pergunto.


—Você sabe como voltar para mim. —Arão fala ao segurar meu rosto. —Apenas volte. —Pede de olhos fechados sentido meus dedos deslizarem em seu rosto.


—Eu te amo...


Desperto sonolenta e então sorrio por ainda sentir os lábios de Arão nos meus. Estou dormindo sozinha. Zion está em outro quarto graças as recomendações de Paser. Me levanto e vou até onde Ashira está dormindo e mexendo seu corpinho como se estivesse sonhando com os anjos. Aos poucos minha filha acorda sonolenta e olha ao redor como se estivesse procurando alguém, no entanto eu quem ofereço meus braços para ela.

—Eu quero muito que você seja feliz, minha filha. Mais feliz do que eu. —Desejo enquanto sorrio para minha única filha. Desde que esse pequeno anjo nasceu que meu coração já não bate mais dentro de meu peito. —E que quando se tornar uma mulher ame alguém. Ame alguém de verdade e seja amada.

(...)


—Zion? —Chamo por meu marido e então o vejo na janela. —Já fez seu desjejum? —Pergunto, mas ele não me responde.

—Eu quero conversar com você. —Zion pede e então sorrio. —Não minta para mim, Anippe. Eu quero a verdade.


—Pode falar. —Falo e então espero que Zion fale alguma coisa.

—Você me ama? —Zion pergunta me deixando pensativa. Onde ele quer chegar com isso?


—Sim. —Respondi e então tento me aproximar dele, mas meu marido se afasta.

—Ótimo. —Zion responde e me deixa sem entender. —Pedi para Djoser anular nosso casamento. —Revela me deixando incrédula. Como assim?—Eu sei que você me ama. Mas não me ama como ama Arão. —Fala. Eu rapidamente fico sem entender, mas logo imagino que Zion tenha escutado alguma conversa minha. Nenhuma palavra é dita por mim, estou completamente muda diante da situação. —Eu sei de tudo, Anippe. —Foi então que senti todo meu corpo arder em chamas.


—T-tudo? —Indago enquanto minha voz é falha. Se meu marido sabe de tudo, então quer dizer que ele sabe sobre Ashira. —Zion...

—Eu escutei você e sua mãe. —Zion fala enquanto choro. —Para de chorar. —Pede ao se aproximar de mim bruscamente. Por um momento pensei que ele fosse me agredir.—Você me enganou, Anippe. Todo esse tempo...


—Eu não tive escolha. —Falo sem pensar enquanto choro. Logo sinto a mão de Zion pesar em meu rosto. Cambaleio para o lado, mas não caio no chão e nem grito, meu orgulho é grande demais para me permitir fazer tal coisa. Olho para Zion e vejo que ele está prestes a chorar. Chorar de raiva e decepção por me agredir. Ou talvez de ódio por te sido enganado.

—Eu te amo tanto... —As palavras de Zion são sinceras e por isso choro. —Eu percebi que tinha algo diferente em você. —Fala enquanto choro diante da dor. Eu não sei qual dor é pior, a física pela agressão ou a moral. —Que não era pura como deveria. Ou acha que não notei que já era uma mulher? —Pergunta me deixando assustada. —Mas eu não me importei com isso, Anippe. Não até saber que você me enganou sobre a paternidade se Ashira. —Completa me deixando assustada com seu tom de voz. —Você mentiu para mim! Você mentiu para o homem que te amou desde o dia em que te conheceu, Anippe. Faz exatos cinco anos que te amo. Pode parecer pouco, mas é muito mais que o tempo que Arão te amou.


—Eu também te amo. —Falo, mas ele nega. Zion se afasta de mim mais uma vez enquanto tanto me aproximar.

—Você pode me amar, mas não como ama Arão. —Fala. —Você me roubou tudo, Anippe. Você não me deu seu amor, não me deu uma filha... —Fala nervoso. —Eu pensando que éramos felizes. —Completa. —Eu vou anular o nosso casamento antes que eu faça algo pior.

—O que você seria capaz de fazer? —Indago.


—Matar você. —Fala seriamente, me assustando. —Com minhas próprias mãos. —Fala enquanto me afasto dele. —Quando eu soube de tudo pense em matar vocês duas. Você e Ashira. —Revela nervoso. Foi quando neguei essa possibilidade. —Mas ela não tem culpa da mãe que escolheu. Aliás, ninguém tem culpa de ter você como parente. —Zion fala enquanto eu choro. —Você não presta, Anippe. Seu destino é ficar sozinha. Você não merece os pais que tem, não merece nada. Você foi uma má filha e será uma má mãe, essa é a regra da vida. —Esbraveja furioso enquanto eu apenas escuto. —Eu não te quero como esposa, não depois disso. Você poderia ter escondido para sempre isso de mim. E não é atoa que você está infértil agora. Talvez Deus tenha te punido com isso. —Fala e me dá as costas. —Você me usou para ser pai de Ashira? Anippe, você é um monstro. Você mesma negou amar Arão e depois me usou! —Esbraveja. Logo eu vejo meus pais entrarem no local totalmente assustados. Talvez os gritos de Zion tenham ecoado pelo palácio.

—O que está acontecendo? —Meu pai pergunta enquanto minha mãe vem até mim. —Responda, Zion. —Pede novamente, mas agora bravo por saber que Zion gritava comigo. Minha mãe nota a vermelhidão em meu rosto, assim como meu pai. —Você bateu em minha filha? —Meu pai pergunta irritado. Sua pergunta foi como um rugido diante da situação.

—Sua filha...


—Zion, por favor. —Peço para evitar um desgoto maior em meu pai.

—Sua filha me enganou. —Zion revela e então meu pai olha para mim com os olhos vermelhos. —Anippe se casou grávida. —Zion revela e então choro por ver meu pai me olhar com pleno desgosto. Minha mãe então me aperta contra si ao ver a reação de meu pai. —Ashira não é minha filha. Anippe se deitou com outro homem antes de se casar. —Revela. Meu pai então vem até mim com a mão para o alto prestes a me bater. Encolhi meu corpo inteiro sentido a mão de meu pai se aproximar.

—Não faça isso! —Minha mãe pede assustada, atirando seu corpo em frente ao meu para me defender. Por pouco meu pai não bateu em minha mãe. Se isso acontecesse, talvez eu me sentisse pior. —Mantenha a calma... —Pede segurando a mão do meu pai, afastando ele aos poucos. —Ela é sua filha e precisa de você.

—Eu acabei batendo na sua filha e informando sobre a anulação do casamento. —Zion fala enquanto eu olho somente para meu pai. —Mesmo tendo sido consumado. —Completa.


—Você sabia, Henutmire? —Meu pai pergunta ao olhar para minha mãe. Seu tom de voz era de total indignação como se minha mãe tivesse o traído. Pare ele o pior é saber que minha mãe escondeu isso dele. Tal como meu medo é a reação dele, não a de Zion. O primeiro homem na vida de uma filha é seu pai, o segundo é seu filho. Minha mãe mentiu para o meu pai e agora os dois podem brigar por causa disso. Não vou deixar que um erro meu ponha o casamento dos dois em risco.

—A mamãe não contou porquê me viu desesperada. —Falo, vendo que minha mãe está nervosa com a fúria do meu pai.


—Cale a boca! —Meu pai esbraveja e então me assusto. Seus olhos negros brilham de ódio enquanto eu sinto medo. —Eu não acredito... —Fala decepcionado e nojo de mim. —Eu esperava qualquer ato de rebeldia, mas isso... —Fala com asco ao olhar para mim. Isso é pior que mil tapas desferidos em meu rosto. —Minha filha se... —Meu pai não ousa falar que me deitei com outro homem e por isso se cala. —Quem é o pai de Ashira? —Pergunta mas eu nego fielmente. —Me diga. —Pede novamente. Foi quando minha mãe lançou um olhar de repreensão me forçando a falar a verdade. Eu abro minha boca para falar, nas as palavras voltam para meu estômago, me causando ânsia.


—Arão. —Respondo para seu espanto. Meu pai olhou para mim com uma expressão de susto, mas ao mesmo tempo de indignação. —Eu concebi Ashira uma noite antes de voltar para o Egito. —Revelo. Falar que concebi uma criança para meu pai é algo pesado, por isso tenho sua reação aos poucos.

—Tenho que resolver isso. —Meu pai fala seriamente. —Arão acaba de ficar viúvo, com a anulação do seu casamento você poderá se casar com ele o mais rápido possível. —Viúvo?


—Como?

—Eu e seu pai estávamos vindo para contar isso para você e Zion. —Minha mãe fala enquanto Zion sorri irônico. —Joana faleceu e Bezalel mandou um papiro informando para Leila. —Completa.

—Assim que seu casamento com Zion for anulado, você vai casar com Arão. —Meu pai fala. —Ele desonrou você, você tem uma filha dele. —Fala. —Que vergonha, Anippe. Nos expor dessa maneira... —Fala enquanto choro.


—Mas um sumo sacerdote não deve se casar com uma mulher pura? —Zion indaga.

—Ele tirou a honra dela. —Meu pai fala com um certo asco. —Ela pertence a Arão. —Fala com o olhar para o chão. Minha mãe então enxuga minhas lágrimas e olha para meu pai. Tento não demonstrar o quanto assustada estou, mas meus soluços demonstram isso. Vi Zion sair do local e meu pai olhar para mim mais uma vez. —Olhe para mim. —Meu pai pede enquanto estou segura nos braços de minha mãe. Seu olhar era de pleno de ódio enquanto o meu era de medo.

—Hur, já chega. —Minha mãe pede no momento que meu pai estava prestes a falar. Foi quando meus pais se olharam por alguns segundos me fazendo sentir péssima. —Não vou deixar que bata em Anippe como Zion fez. —Fala me deixando mais calma. —Esse tapa que ele deu na minha filha vai custar muito caro para ele. —Ordena enquanto choro em seus braços.

—Ela também é minha filha. —Meu pai insiste olhando para minha mãe.


—Não ouse tirar Anippe de mim. —Minha mãe fala trêmula. —Não vai bater nela sem antes bater em mim. —Foi quando neguei assustada. Meu pai então olhou para mim mais calmo, mas ainda assim com desgosto. —Calma, minha filha. —Minha mãe pede assim que desabo no chão e começo a chorar. Minha mãe fica sentada comigo no chão e por isso sou acolhida em seus braços mais uma vez. —Eu não vou deixar que ninguém te faça mal. —Promete.


(...)


Permaneço sentada próximo a janela do meu quarto com Ashira nos braços. Minha mãe pediu para que eu não saísse daqui, não por enquanto. Mas eu sei que seu pedido é mais uma ordem do meu pai para que as pessoas não falem de mim no palácio. Balanço Ashira embora ela esteja calma, quem não está calma sou eu. Temo pela minha filha agora que a verdade foi revelada. Já pensei em tudo o que não deveria pensar. E todos os meus pensamentos me atormentam. Não vou conseguir seguir em frente depois disso. Mas eu vivo por Ashira também...

—Anippe? —Lyanna chama por mim e então sorrio. Seus cabelos negros brilham com a luz, me fazendo lembrar os fios de cabelo de Djoser.


—Não deveria ter vindo. —Falo.

—Vim te ver. —Responde e então sorrio para Lyanna. Logo minha irmã senta perto de mim e eu afago meus dedos em seus cabelos.

—Lyanna? —Ouço meu pai chamar por minha irmã, por fim me afastei da menina. —Saia daqui. —Meu pai pede fazendo Lyanna olhar para mim.

—Vá.—Ordeno para a minha irmã. A menina então se levanta do chão e sai em passos lentos. Passando lentamente pelo nosso pai como eu costumava fazer.—Estou presa? —Pergunto assim que fico sozinha com meu pai.


—É melhor assim. —Meu pai fala enquanto olho para Ashira. —Eu não iria me controlar se encontrasse você pelo palácio. —Meu pai fala ao fechar a porta. —E como pai devo punir você.


—Me trancar aqui não é o bastante? —Pergunto enquanto balanço Ashira, ela ficou inquieta de um momento para outro.—Calma, minha pequena leoa. —Peço tranquila e carinhosa.

—Me entregue Ashira. —Meu pai pede e então me assusto.


—Não. Não vai fazer comigo o que fez com a minha mãe. —Falo entendendo o que meu pai quer fazer.

—Os casos são diferentes. —Meu pai fala ao se aproximar.—Venha, Ashira... —Meu pai fala enquanto arranca Ashira dos meus braços.


—Pai, não! —Falo enquanto choro. —O senhor não tem nenhum direito! —Falo totalmente descontrolada enquanto ele me olha. —Ashira é minha filha. A única coisa que eu tenho nesse mundo. —Falo com as mãos trêmulas. Poderia bater nele para pegar minha filha de volta, mas ele é meu pai! —Não pode tirar ela de mim para me punir. Eu não sou mais uma menina que o senhor tirava minhas bonecas de mim somente para me punir. —Falo fazendo meu pai pensar no passado. —Ashira é minha filha, pai. Eu não vou deixar o senhor sair daqui com ela e me deixar presa. —Falo seriamente.

—Vou tirar Ashira de você para que você pense. —Meu pai fala friamente. Ele acha mesmo que não estou pensando?

—Faça isso e vai me perder. —Falo. —Serei capaz de me matar e o senhor vai viver com essa culpa.—Minha decisão então assusta o meu pai. —Ouse tirar Ashira de mim e me prender aqui, pai. Apenas tente. Eu lhe garanto que vai lembrar das minhas palavras todos as manhãs e noites depois que eu morrer. —Falo ao enxugar minhas lágrimas.

—Não me ameace. —Meu pai pede ao ver que estou fora de mim. —Você não tem coragem. —Fala enquanto balança Ashira.


—Ela é minha filha...


—Você é minha filha. —Meu pai fala e eu posso ver seus olhos marejados. —Quando você nasceu eu planejei tantas coisas, Anippe... Tantas... —Meu pai fala com a voz embargada pelo seu choro. —Eu sabia que quando você se tornasse uma mulher iria se casar. Mas não pensava que você fosse ter uma filha que não fosse do seu marido. —Fala. —Eu pensava que você era sim uma filha rebelde, mas fazer o que você fez... —Fala envergonhado. —Você me envergonhou, Anippe. Envergonhou toda sua família. —Meu pai fala enquanto eu choro. Logo ele dá suas devidas atenções para Ashira. —Quando você se tornar esposa de Arão, vai levar Ashira com você. Eu espero que você seja uma boa mãe e não falhe, jamais. —Ele fala ao beijar Ashira. Logo eu tento me aproximar, mas ele se afasta de mim com Ashira nos braços.


—Pai, ela é a única coisa que eu tenho. —Falo olhando para Ashira nos braços de meu pai. —Me devolve... —Peço chorando com medo de nunca mais ver minha filha. Foi quando meu pai entregou Ashira, contrariado, mas fez mesmo assim.


Beijo o rostinho de minha filha e aperto seu corpo contra o meu. Noto que meu pai me observa com Ashira nos braços, mas ele não fala nada, seus olhos já dizem tudo. Minha filha olha para mim com curiosidade, mas logo parece se lembrar de quem sou. Essa menina é a única coisa que me resta, maior que meu orgulho. Ashira é apenas minha, ela não é de mais ninguém. Nem de Zion, nem de Arão! Eu carreguei essa menina dentro de mim por meses. Senti casa chute seu, cada movimento. Seu coração bate na mesma intensidade que o meu, ela tem meu sangue, meu nome.

Me afasto dele com minha filha e volto a me sentar perto da janela. Meu pai vem até mim, mas não faz nada além de me observar. Tenho vontade de abraça-lo forte, mas não sei se faço certo. Tento evitar olhar para ele, por isso olho somente para minha filha.


—Soberana? —Karoma chama e então olhamos para ele na porta. —A rainha mãe deseja que a senhora vá até os aposentos do príncipe Gab.

—O que aconteceu com ele? —Meu pai pergunta no meu lugar.

—Ele está morrendo. —Karoma revela sincera. —Pediu até para que a princesa Lyanna fosse até ele dar adeus.

—Fique com minha filha. —Peço ao entregar Ashira para Karoma.


(...)


Entro nos aposentos de Gab acompanhada pelo meu pai. Logo vejo minha mãe sentada a beira da cama com o irmão deitado, dando seus últimos suspiros de vida. Tento não pensar no que está para acontecer, mas me é impossível não pensar. Gab está morrendo aos poucos, lentamente dando adeus para a vida. Sua própria vida parece se desprender de seu corpo sem pedir permissão, fazendo assim que Gab apenas olhe para minha mãe.


—Eu quero falar com Djoser também. —Gab fala olhando para mim. —Pode pedir para ele vir me ver pela última vez? —Pergunta enquanto eu fico sem reação.

—Eu vou. —Meu pai se oferece ao olhar para Gab. Assim que meu pai sai, Gab sorri para mim.

—Soube das travessuras que andou fazendo. —Gab fala e então olho para minha mãe. —Mas nem por isso deixa de ser quem você é. —Fala com um sorriso que acaba me deixando calma. Gab então segura na mão de minha mãe como se sentisse seguro com ela por perto. —E você? Pode me perdoar? —Pede. Tento não chorar diante da cena, mas não há como não fazer isso. Gab segura firme nas mãos de minha mãe, beija uma delas e apenas sorri. —Por todo mal que fiz contra você. Inclusive, o de ter te envenenado.


—O que? —Indago de braços cruzados.


—Quando você teve Djoser... —Gab fala. —Se lembra que desmaiou e caiu na piscina do jardim? —Me lembro de ouvir Nefertari falar algo semelhante, mas nunca dei atenção. Ela disse que talvez minha mãe estivesse doente, mas não se lembrava muito.

—Lembro. —Minha mãe afirma. —Gab... —Minha mãe fala assustada. —Eu não acredito.


—Eu queria fugir com você. A única maneira era fazendo isso. —Gab fala e em seguida começa a tossir forte. Ele curvou seu corpo, assim minha mão massageava suas costas. Mas ele logo repouso novamente. —Mas eu não tive coragem. Eu pensei em Djoser sem a mãe, você sem ele. Embora agora ele pareça não te amar. —Meu tio completa enquanto choro. —Me perdoe, Henutmire. Me perdoe também por te amar da forma errada. Me perdoe por ajudar Hur a mentir sobre a morte dele. Mas era para proteger você. Todos sabiam muito bem que Amun poderia mesmo matar Hur, matar até você. Me perdoe por ter tirado Lyanna de seu colo... —Pede, quase como uma suplica. —Eu não posso morrer sem ter o seu perdão.—Gab pede ao tocar no rosto da minha mãe. O que me leva a crer que ele está delirando. —Meu sol do oeste. —Fala e então sorri para a irmã. Foi quando uma pequena sombra chamou minha atenção. Logo ouço passos apressados e vejo Lyanna correr até minha mãe. Minha irmã então olha para Gab e entende que ele não está bem. —Isso é para mim? —Gab pergunta ao ver Lyanna lhe entregar pequenas rosas azuis do jardim.


—Meu tio vai dormir para sempre, mamãe? —Lyanna pergunta e então minha mãe afirma que sim. A inocência de uma criança é capaz de nos fazer enxergar a morte como ela é: uma etapa.

—Sim, meu amor. —Minha mãe responde tranquila e terna, sem querer traumatizar Lyanna.

—Eu quero que leve elas com o senhor para nunca se esquecer de mim. —Lyanna fala para Gab sobre as rosas azuis. Minha mãe olha para mim com os olhos marejados, no entanto não chora. —Pode entregar algumas para Uri? —Lyanna pergunta e então olho incrédula para ela. —Assim ele vai saber que eu existo.

—Lyanna... —Falo ao me aproximar de minha irmã. —Uri sabe que você existe. —Falo e então minha irmã sorri. —Todos sabem.

—Mas se minha princesa ordena, eu não tenho outra alternativa. Tenho que lhe obedecer. —Gab fala risonho e então sorri para Lyanna. —Cuide de sua mãe, Anippe. Dela e de Lyanna. —Ele pede. —Diga o mesmo para Djoser. Ele quem deve cuidar de vocês, sempre.

—Ele vai fazer isso. —Falo tentando acalmar Gab. Ele sorri para mim como se estivesse vendo alguma divindade, por isso tento parecer o mais calma possível.

—Você tem o meu perdão. —Minha mãe fala para Gab assim que Djoser e meu pai entram no quarto. É o fim.—Você tem a sua família, Gab. Nós somos a sua família. —Fala assim que Djoser se aproxima de nós. Gab pode ser bastardo mas tem todos nós. Somente agora posso ver que nenhuma intriga ou sentimento é maior diante da morte. Quando a morte está em nossa frente, damos valor à vida. —Eu só acho que isso é muito injusto. Ver todos os meus irmãos morrerem. —Fala diante das lágrimas. Minha mãe está se despedindo de seu último irmão.—Isso não é justo.

—Você é forte. —Gab fala ao entrelaçar seus dedos com os dedos dela. —Ainda tem muito tempo para viver. Eu não...

Lyanna então olhou para mim e Djoser como se estivesse pedindo para impedir a morte de Gab. Mas não podemos fazer isso. Então Gab olhou para para meu pai que estava um pouco mais afastado, respeitando o momento.

—No final eu sempre admirei você. —Gab fala risonho. Meu pai acena positivamente como um gesto de paz. —Uma pena você não poder falar o mesmo. —Fala irônico.

—Calma... —Djoser pede ao ver minha mãe chorando. É a primeira vez que vejo os dois juntos depois de tudo o que aconteceu.

—Dorme, tio. —Lyanna pede ao ficar mais perto de Gab. Os olhos azuis dele ficaram marejados com as lágrimas. Então, com a mão onde estão as rosas azuis dadas por Lyanna acima de seu peito onde seu coração bate, Gab foi fechando dando seus últimos suspiros. —Eu vou treinar sozinha, mas sempre pensando em você. —Ela fala fazendo Gab sorrir de canto e deixar uma lágrima cair. Minha mãe então se deitou ao lado de Gab e segurou sua outra mão. Os dois se olharam por alguns segundos, quando o azul do mar e o azul do céu se encontraram.


Olhei para meu pai e vi que até mesmo ele estava comovido pela cena. No final Gab tem minha mãe, Lyanna entre eles, eu e meu irmão a beira da cama e meu pai mais afastado no dia de sua morte. Gab sorriu orgulhoso enquanto minha mãe olhava para ele. Lyanna permaneceu entre os dois, com suas mãos juntas bem próximo ao rosto. Gab foi fechando seus olhos aos poucos como se estivesse se rendendo ao seu sono.


Depois de um dia corrido, de tarefas que um príncipe como ele tem e até mesmo de ver toda sua família unida e aqui presente, Gab adormeceu como qualquer outro homem e mulher adormece e teme a Deus no final do dia. A morte acabou vindo como uma amiga, uma mãe que envolve um filho nos braços para que ele durma. Levando cada traço de vida, cada suspiro.


—Viu? Coloquei ele para dormir. —Lyanna fala para nossa mãe. Minha mãe então olha bem para o rosto de Gab e finalmente entende que ele já morreu. —Mãe? Ele já dormiu? —Lyanna pergunta inocente enquanto nossa mãe olha bem para Gab.


—Sim, meu amor. —Minha mãe responde. —Gab já adormeceu. —Responde prestes a chorar novamente. Minha mãe então fechou os olhos como se tentasse lembrar de Gab ainda vivo.

Os olhos azuis vívidos de Gab abertos, por isso retiro minha irmã de perto dele. Minha mãe então se assustou com o olhar de Gab. Ver os olhos do irmão sem vida era como ver os seus no dia de sua morte. Suas mãos delicadas fecharam os olhos azuis gélidos do príncipe Gab pela última vez. Dos filhos de Seti, somente minha mãe sobreviveu no final.

Notas finais
Chorando