Coração é terra que ninguém vê
35 Revanche - Parte I
Notas iniciais
Ele estava mais que familiarizado com o topo da imensa torre do edifício da Wayne Enterprises. A cidade escura fazia brilhar ainda mais a Estrela do Norte. A capa do Cavaleiro negro moldava-se com o vento, quando ele verificou novamente o equipamento no cinto de utilidades. Não era uma questão de precaução, mas um exercício de concentração.
Ele queria esquecer o cheiro do corpo da mulher que dominava seus sonhos. Ele precisava ser de aço, pedra ou menos humano para resistir à ela. E agora, ele precisava ser apenas a Vingança.
Os cabelos negros de Diana seguiam a mesma trajetória da capa do Morcego. Alguns fios se desprendiam rebeldes e ela os tirava graciosamente do rosto. Ambos estavam em um silêncio constrangedor.
— Kent sabe que eu não quero metas em minha cidade, princesa! – Ele quebrou a tensão.
— Bom, desde que este é um assunto da Liga, não me importa se é em Gotham, Bangladesh ou Central City. Eu estou aqui a trabalho e rosnar pra mim não vai me intimidar, Bruce... – Ela tentou não sorrir, em vão. – Era eu ou o Flash. Se você quiser, eu posso ir embora e pedir para ele me substituir.
— NÃO!
Diana soltou de vez todo riso contido.
— Onde está Kent? – Batman tentou argumentar.
— Com Lois... – Ela olhou pra ele antes de terminar a frase – Aniversário de namoro. Ele tirou a noite de folga. Eles merecem um pouco de romance. – Batman bufou – Ele escalou o Flash pra vir, mas eu me ofereci... Não precisa me agradecer. – Ela mostrou a Bruce todos os dentes de uma só vez.
Aquele sorriso era capaz de aquecer seu dia, mas tudo que ele disse foi ‘que seja!’.
Eles estavam vigiando a partir da torre. Alguém estava roubando artefatos gregos de museus importantes (Londres, Atenas, Cairo e agora, Gotham). Bruce já desconfiava de alguém, mas até ter certeza, ele preferia manter suas suposições no anonimato. Ele estava se esforçando para não olhar os lábios da princesa, molhados à medida que ela passava a língua macia por eles. Ele fez uma nota mental de colocar pequenas lascas de kryptonita na salada de Clark da próxima vez que ele escalasse Diana para uma missão de vigilância com ele.
O Batman sacudiu a cabeça quando viu uma figura contornar o sistema de alarmes do Museu de Gotham. Fazendo um sinal para Diana indicando-lhe que iria descer, ele planou até a entrada lateral, sem ser visto, misturando-se à escuridão. Deixou suas lentes se ajustarem a escuridão e cuidadosamente seguiu através do corredor vazio, tomando a mesma direção do seu alvo.
Diana disse que sabia pra onde estavam indo: ‘O hall onde estão as relíquias da antiga Grécia, em homenagem à Alkyone, uma das lendárias rainhas amazonas. Eu estive aqui ontem para atestar a autenticidade das peças’, ela disse ao Morcego.
— Para quê alguém iria querer essas peças, princesa? – Ele sussurrou.
— Eu não sei... mas certamente a finalidade só pode ser alcançada com mágica. – Ela respondeu. – Aposto que você sabe quem está fazendo isso, não é?
Ele amava a inteligência dela. Definitivamente!
— Desconfio que sim. – Ele olhou pra ela – Mas você não vai gostar.
— Quem?
— ARESIA
(...)
Três, e não apenas uma, formas femininas estavam de costas para eles tentando remover o vidro que gauradava as armas antigas. Com um movimento lento e constante, ele cuidadosamente tirou um batarang do cinto e lançou em seu alvo.
ARGGGGGG
Foi o grito de dor lançado pela loira amazona.
— Aresia, sinto dizer que não estou feliz em vê-la de novo, irmã – Diana cuspiu com um sorriso no rosto. Ela iria ter uma batalha e tanto e aquilo a deixava em êxtase.
— Nós não somos igualmente importantes, Mulher Maravilha? Acho que merecemos um cumprimento adequado – Soltou Safira Estrela, ao lado de Tala, a feiticeira.
— Diana, cuide de Aresia. Eu cuido das outras. – Batman rosnou.
— Você? – Safira Estrela ironizou. Tentando esconder o temor frio que percorreu sua espinha.
— Eu vou pegar as peças. Vocês cuidam deles! – Tala gritou para as duas e seguiu em direção aos artefatos.
— Muito bem, princesa. Será como nos velhos tempos! – Aresia sorriu.
— Mas desta vez, minha mãe não estará aqui para me mandar ‘pegar leve’ com você, irmã. – Diana e Aresia circulavam uma à outra, como se estudassem sua presa.
Um Batarang voou no rosto de Safira e ela desviou no ar. Batman tentou impedir Tala, mas um raio de energia num tom rosa quase o atingira e ele teve que se manter a desviar da sequência de rajadas emitidas pelo anel de sua adversária.
Aresia deu o primeiro pontapé e Diana segurou, arremessando-a longe, quebrando uma parte considerável da parede de concreto. Depois de um ‘nada mal, irmã’, tudo que Batman viu foi uma sequência de socos, chutes, pontapés e sons abafados de carne e ossos sendo atingidos por duas mulheres incrivelmente fortes e hábeis. Além do barulhos dos estilhaços de paredes caindo e coisas se quebrando.
Mas ele tinha que primeiro se livar de Safira, depois de Tala e só então poderia se juntar à Diana. Aproveitando-se de uma distração, quando Diana arremeçou Aresia em direção a Safira, Bruce lançou um batarangue eletrificado que a atingiu, desnorteando-a.
Foi quando os olhos do morcego se estreitaram em desespero: Aresia tinha uma lança nãs mãos, provavelmente uma peça do museu, e ia lançar em direção à Princesa. Seu cérebro só conseguia pensar em Diana correrndo perigo e ele não ponderou que ela poderia se defender quando se lançou à sua frente, recebendo o golpe no ombro, latindo de dor. Por sorte, Diana o puxou rapidamente, fazendo com que a perfuração não tivesse a profundidade de atravessar os músculos e ossos.
Diana tornou-se enfurecida e voou em direção a Aresia abetendo-a com violência. Ela despejou uma sequência de socos nas costelas da loira que fez Bruce gritar para ela parar. Aresia estava em posção defensiva, cobrindo o rosto com as mãos como um pugilista profissional, mas isso não deteve Diana. Seus olhos picavam de ódio. Ela queria machucar aquela que um dia chamara de irmã. Ela não era capaz de dizer se teria força de vontade para parar.
De repente, a voz do riso estridente, diabólico e grutal da feiticeira se fez ouvir por todo o salão. Tala trazia as armas consigo, flutuando com elas dentro de um anel de energia roxa que parecia seguir os comandos de seus olhos, que brilhavam com a mesma intensidade de cores. Sob uma fumaça escura e púrpura, que tomou a sala de exposições inteira, Tala desapareceu, levando Aresia e Safira Estrela com ela.
Quando a fumaça se dissipou, Diana olhou para Bruce com preocupação. Havia muito sangue!
(...)
Eles pousaram na sacada do apartamento de Diana, contornando a porta de vidro deslizante da sacada. Ele estava com o sangue pingando do ombro ferido.
— Tem certeza que não quer ir à Torre, Bruce?
— Não – O mesmo rosnado de sempre. – Eu estou bem.
Ele olhou ao redor, sem que ela percebesse, por baixo das lentes. A decoração era a mesma de dois meses atrás, quando ele esteve lá, naquela cama, ao lado dela. Ela não viu quando ele esboçou um breve sorriso ao ver a foto na cabeceira da cama: Ela, Clark e ele, como Mulher Maravilha, Superman e Batman. ‘A trindade’, como os chamavam. Ele nunca quis que fosse assim. Ele sequer queria ser um membro efetivo da Liga, muito menos sobrepor-se a seus amigos desta forma, como se houvesse algum tido de predileção sobre eles.
O sorriso logo se desvaneceu quando ele olhou os outros porta-retratos. Não todos, é verdade, já que na maioria ela estava linda e sorridente, mas um especialmente atingiu seu coração. Ela e Tom Tresser exibiam uma felicidade que lhe bateu como um tapa no rosto... Dado pelo Superman. Sentar na cama também não ajudou, já que um urso de pelúcia gigante segurava um coração escrito ‘I ♥ You’ e, obviamente, não fora dado por ele.
Ela entregou-lhe um copo d’água e ele o pegou furioso, esquecendo a ferida aberta no ombro. Um grunhido escapou dos lábios sem que ele tivesse controle.
— Vamos cuidar dessa ferida, Bruce – Diana falou baixinho, enquanto se movia para mais perto dele. Seu coração batia mais rápido ao inspecionar a ferida.
— Eu estou bem. Temos que cuidar de Tala, Aresia e Safira.
— Bruce, você está vazando sangue. Isso pode infeccionar – Ela falou com uma voz que poderia acalmar a raiva de qualquer um.
Tomando sua mão enluvada, ela levou-o ao banheiro e o Batman sentiu o coração bombear cada vez mais rápido. Ele se concentrou em uma técnica de respiração profunda, uma das coisas que ele aprendeu na Índia, mas parecia fazer pouco efeito já que seu pensamento vagava com vontade de beijá-la mais uma vez. Tudo que ele queria era que seus dedos se enroscassem em seus cabelos ondulados e negos.
— Eu posso cuidar de mim, Diana. Eu mesmo posso fazer um curativo no Batwing. Não preciso nem incomodar Alfred. – Ele parecia um adolescente incomodado e Diana simplesmente sorriu.
— Não se preocupe, Bruce. Eu não vou dizer ao mundo que o grande e aterrorizante Batman teve ajuda de uma garota para fazer um curativo. – Ele não sorriu, mas ela sabia que ele não estava mais tão zangado – Agora sente-se aqui ou... – Ela olhou pra ele como a professora do Jardim de infância olha para seus pequenos alunos – eu vou quebrar as suas pernas e colocar você onde eu quiser.
— Você ia tentar... Princesa – Ele sentou-se na borda da banheira e finalmente respondeu com um sorriso estampado na única parte exposta do capuz.
Ela cuidadosamente removeu a parte de cima do traje feito com o Kevlar e as placas de titânio, abrindo as travas com maestria. Quem a visse fazendo isso, poderia imaginar a facilidade que era remover o uniforme do Batman. Ledo engano.
Armadura e capuz trazem dispositivos elétricos embutidos em si. Se alguém tenta removê-los, recebe uma descarga elétrica descomunal, tantas vezes forem necessárias. Existem códigos e comandos de acesso para a remoção, conhecidos só por ele e pessoas ligadas a ele.
Ele deu um sorriso irônico para ela quando a viu colocar a capa, o capuz e a parte de cima do traje em cima da cama.
— O que foi? – Diana perguntou, sorrindo pra ele. Ela estava feliz por ele não estar tão carrancudo.
— Seu namorado não vai ficar feliz de saber que você tem um homem na sua banheira... Especialmente quando ele souber que esse homem é Bruce Wayne – Ela viu aquele sorriso arrogante inúmeras vezes, quando o playboy entrava em ação. – Por falar nisso, você não deveria estar com ele?
— Em primeiro lugar, o Batman está na minha banheira, meu companheiro de equipe, que está ferido e precisa de cuidados. Não é como se eu o estivesse traindo. – Ela não se aborreceu com ele e riu, enquanto limpava o sangue – E o Tom está em Bangkok – A decepção em sua voz foi fraca, mas o bastante para ele perceber. – Mais uma missão – Ela deu de ombros.
— Eu só acho que ele não vai ficar feliz em saber que a namorada dormiu com um ‘amigo’ e o trouxe para banheira – ele fez questão de enfatizar com sarcasmo a palavra amigo.
— Ele não precisa saber! – Diana falou como se não fosse nada demais.
— Então a epítome da verdade vai mentir para o seu amado? – Ele bufou com um sorriso pretensioso.
— Não é nada disso, Bruce. Eu não vou mentir pra ele. Só não quero magoá-lo. Mesmo porque não fizemos nada demais, não foi? – Ela olhou pra ele com o olhar interrogativo que o fez revirar os olhos em concordância – Ele não entenderia.
Ele fechou os olhos e se concentrou na dor, enquanto ela limpava a ferida com álcool. Qualquer coisa para distraí-lo das sensações que ele estava sentindo. Totalmente alheia aos seus movimentos, os seios de Diana estavam muito próximos ao seu rosto. Ele estava sentado na banheira, enquanto ela estava de pé, aspirando todo aroma que vinha do pescoço e do vinco sedutor que se formava no busto. As mãos gentis, apesar da dor, eram como as carícias das quais ele sentia tanta falta.
— Alfred não é tão sorridente e suave, princesa. Vai ser difícil me acostumar depois de um tratamento assim – Ele deu-lhe um olhar afetuoso à medida que ela costurava a pele.
Mesmo através de toda a dor, Batman podia sentir o toque de seus dedos macios e os calos nas palmas das mãos, frutos de horas de treinamento com armas. Ele sentiu a picada do álcool queimar em sua pele mais uma vez, quando ela limpou o sangue após a costura. Em seguida, mais uma vez, sua respiração voltou ao normal e ele relaxou, ajustando-se a nova sensação latejante que substituiu a tristeza.
Uma vez que a ferida foi limpa, ele se levantou e verificou o trabalho de Diana no espelho do banheiro.
— Está satisfatório – Ele respondeu secamente e ela bufou, em diversão.
Seus instintos estavam em guerra enquanto corria através da lista de razões para não entrar seus desejos. Ele pegou suas luvas, o resto do traje, o capuz e se foi.
Ela queria dizer-lhe que, apesar de quase um ano de namoro, ela e Tom não tinham muito tempo juntos. As missões de Tom e as missões dela na Liga e seus compromissos com a Fundação Mulher Maravilha tomavam o tempo dos dois. Em 12 meses eles praticamente só ficaram juntos, somando todos os dias, uns três.
Diana se sentiu meio estúpida por ainda estar apaixonada por ele. Ele era um camarada de armas, que ela confiava a própria vida. Ela balançou a cabeça tentando não pensar nisso e olhou o piso branco.
— Grande Hera, é melhor eu limpar esse sangue.
Então, depois de um minuto, quando ela pensou estar sozinha, ela ouviu a voz inconfundível do barítono ecoar da varanda até o banheiro.
— Diana...
Ela foi até uma distância em que pode vê-lo, de pé, na varanda, prestes a partir.
— Obrigado!
Ela sorriu ao vê-lo saltar em direção à nave que o esperava, planando acima dele.
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