Coração é terra que ninguém vê

7 Os sentimentos escondidos sob a pele


Notas iniciais
— Agora sabemos porque Bruce a odeia (ou os motivos que o fazem convencer-se disso); — Mas e Diana? (...) — Espero que gostem, leitores. Obrigada pelos cometários, àqueles que se atrevem a deixar recados. Aos demais, meu agradecimento pela leitura!

Bruce observou atentamente cada uma das expressões de Clark, enquanto descia as escadas do luxuoso triplex, na cobertura do edifício residencial mais caro de Metrópolis, o Sunset View Palace. Seu amigo ostentava o sorriso de boas-vindas bobo de sempre, enquanto o encarava de pé, no corredor de entrada, que dava acesso à uma das salas de estar e convivência da cobertura.

— Achei que tínhamos combinado de nos encontrar amanhã, Kent?! – Disparou Bruce, devolvendo ao amigo seu notório meio-sorriso, marca registrada do bilionário Bruce Wayne. – O que há de tão urgente assim que precisa ser resolvido hoje? – perguntou, já certo de que havia um tipo de urgência no que seu amigo queria tratar.

Apesar de não ser um meta-humano, Bruce Wayne poderia ser mencionado como a criatura puramente humana que estaria mais próxima deles, no que diz respeito às habilidades extra-ordinárias. O maior detetive do mundo, como o Batman era conhecido, possuía um currículo extenso de habilidades excepcionais, com destaque para mente afiada. Por isso mesmo, não foi difícil concluir que a presença de um Clark visivelmente nervoso, numa hora inapropriada para visitas (23h30), muito provavelmente o traria notícias desagradáveis. ‘Diana deve ter declinado o meu pedido... Maldita amazona teimosa... Vou ter que refazer meus planos’, pensou Bruce, tentando não dar importância ao sentimento de frustração que lhe tomara imediatamente.

— Diana vai nos ajudar! – Disparou Clark, sob o olhar incrédulo de Bruce desconfiado do fato da princesa ter aceitado sua proposta tão rapidamente. – Ela me disse que está disposta a colaborar da melhor maneira, sem questionamentos, sem discussão. – disse ele, em seu tom mais entusiasmado, como um adolescente relatando um acontecimento espetacular de sua vida.

Bruce franziu o cenho de imediato, num sinal claro de desconfiança ao ouvir tudo aquilo. Não que desconfiasse do amigo ou do que ele estava dizendo, mas porque sua experiência lhe dizia que só a resposta positiva de Diana – por mais efusivo que fosse seu amigo, especialmente no que dizia respeito às tentativas de estabelecer a boa convivência entre ele e Diana – não era suficientemente importante para levá-lo até ali. Além do mais, tudo em Clark (a postura inquieta, a tensão muscular, a voz levemente pausada – que só ele, ou um meta com audição aumentada, seria capaz de perceber...) levavam a crer que havia algo mais e esse algo não podia esperar.

— Não vou negar que estou surpreso com tudo isso, Kent... E muito! – começou, lançando em seguida sobre o amigo o olhar mortal que deu ao Superman a certeza de que seria interrogado pelo homem morcego. – Mas está claro pra mim que você não veio aqui por isso. O que você quer, Kent? (...) Diga sem rodeios porque estou ocupado. Há uma série de dados que precisam ser investigados sobre esses crimes e eu não disponho de tempo.

— Eu sei que há algo entre você e Diana... uma história muito pessoal que, obviamente, não acabou bem, tendo em vista o modo como vocês se tratam desde que os conheci. – Disse Kent, de forma pausando, dando-lhe tempo de escolher bem as palavras e não afastar o amigo de vez, como tantas vezes o fizera quando Bruce se sentia pressionado a compartilhar quaisquer de seus sentimentos.

— Então... você já sabe?! – perguntou Bruce, retirando o olhar para longe das vistas de Clark, ciente de que corria o risco de ser traído por seus olhos, ao mergulhar num território perigoso onde enterrava as emoções que estavam fora do seu controle.

— Como você pediu, eu fui até Diana e contei tudo: falei dos crimes, da sua intuição sobre a gravidade deles e da suspeita de terrorismo internacional, da necessidade de investigação imediata e do plano. – Respondeu. – Mas, para minha surpresa, Bruce, ela reagiu de um modo muito estranho, para dizer o mínimo. – Continuou Clark, entendendo que Bruce esperava por mais detalhes, embora seu amigo estivesse desviando sua atenção para contemplação das obras de arte que decoravam o amplo corredor de acesso ao apartamento. – Claro que a resposta imediata dela foi mal-criada e feroz, jurando que jamais se rebaixaria a uma proposta tão ofensiva... Mas isso todos nós já esperávamos! ... Eu estava contando com o fato de que ela ia dizer uma dúzia de ofensas direcionadas a você, lançar palavrões em grego enquanto me amaldiçoava por me juntar a você nisso... Mas não foi isso que aconteceu... A fúria nas primeiras palavras dela sumiram com a mesma velocidade que chegaram.

Clark fez uma pausa antes de continuar... Ele precisava de um tempo pra pensar se estava agindo certo com Diana, expondo à Bruce sentimentos que ela mantinha completamente escondidos de todos e revelavam uma fragilidade que uma amazona certamente não estava disposta a mostrar a ninguém, especialmente à Bruce. Mas logo percebeu que precisava ser honesto sobre tudo e, de algum modo, isso aproximaria Bruce de Diana e não o contrário.

— Alguma coisa rompeu o escudo de raiva que ela ergueu para proteger seus sentimentos em relação a você, Bruce. – Disse Clark, num tom ainda mais afável que o habitual, tentando chegar ao duro coração do amigo – Ela parecia tão frágil, Bruce... tão machucada... tão cansada de lutar consigo mesma, que eu a pressionei a me dizer o que estava havendo. E ela finalmente confirmou aquilo que eu já desconfiava: algo no passado de vocês causou todo esse ressentimento convertido em raiva.

Bruce sentiu uma inegável pontada de dor ao ouvir que Diana se sentia machucada. Em seu íntimo, por mais mágoa que guardasse, não sentiu a satisfação que achou que sentiria ao saber que a feriu de forma tão profunda.

Dando as costas ao amigo, Bruce dirigiu-se à sala principal, convidando Kent à acompanhá-lo. Queria mais privacidade, mas acima disso, precisava recostar-se em uma cadeira ou sofá que lhe trouxessem o alívio para os músculos que agora estavam tensos.

— Devo presumir que ela lhe contou a história? – perguntou, com a voz um tanto vacilante e longe de seu habitual tom imperativo. – É por isso que você está aqui? Para saber a minha versão ou para arrancar de mim detalhes que você desconfia que ela tenha omitido?

— Não, Bruce... Ela me disse que estava disposta a compartilhar comigo essa parte de seu passado, mas que não poderia fazer isso sem a sua permissão. – revelou – Porque ela considera imperdoável o fato de revelar uma passagem íntima da vida dela que o envolve.

— Eu confesso que não estou surpreso. – rebateu o morcego de Gotham – Ela sempre foi uma pessoa de posturas muito éticas em absolutamente tudo. – completou com um sorriso incapaz de esconder um lampejo de tristeza. – Eu recomendo que você se sente, Clark. E procure uma posição bem confortável porque a nossa conversa irá tomar-lhe um tempo considerável. Espero que não tenha compromissos marcados para o início da manhã, meu amigo!

Clark exibiu um meio sorriso que dava sinais de satisfação mesclado com um receio do que estava por vir. Finalmente ele descobriria a história por traz da inimizade de seus melhores amigos e, quem sabe, poderia agir, com conhecimento de causa, de modo a restaurar, pelo menos, uma amizade entre eles.

— Eu e Diana nos conhecemos bem antes do que você imagina que fora nosso primeiro encontro, quando você me apresentou a ela na Universidade de Metrópolis, há três anos. A primeira vez que nos vimos foi em Gotham, por acaso, há seis anos, quando eu estava patrulhando. Eu ainda estava no começo da minha história como Homem morcego. O meu uniforme ainda não possuía as blindagens que possui agora com a combinação do Kevlar e de Nomax, desenvolvidos pela Divisão de Ciência Aplicada da Wayne Enterprises. Nessa época eu ainda estava exposto à mordidas de cães, balas, facadas, choques e todo tipo de ferimento que você pode imaginar... Meu primeiro ano em Gotham foi uma fase dolorosa de adaptação e formação da lenda do morcego. O Pobre Alfred perdera a noção de quantas vezes foi obrigado a me costurar, recolocar no lugar ossos quebrados, retirar balas... Enfim...

Clark permitiu-se um sorriso amigável, considerando o amor que o mordomo de Bruce deveria nutrir por ele, ao ser capaz de considerar fazer parte de um processo tão doloroso para a pessoa a quem criou como um filho.

— Eu estava caçando um homem que havia fugido após eu tê-lo impedido de estuprar uma jovem, saindo de uma lanchonete numa das áreas onde a polícia não se atreve a patrulhar. Ouvi os gritos e fui até lá, saindo furtivamente das sombras, desferindo um chute no estuprador, que caiu longe, surpreso com a intervenção. Quando ele viu a figura assustadora do morcego, saiu correndo em direção à escuridão de ruas paralelas à nossa direita, que não tinham nenhuma (ou quase) iluminação.

— O encontrei rapidamente – continuou Bruce – não muito longe dali e o encurralei num beco sem saída, onde poderia imobilizá-lo e chamar a polícia. Mas cometi um erro, Clark. Um erro que, quem sabe não fosse o destino, teria me causado a morte: Ele não estava sozinho! Alguém o dava cobertura para cometer seu crime e, obviamente, deve tê-lo seguido até o beco, posicionando-se atrás de mim, portando uma arma de fogo.

Bruce prosseguiu sob os olhares atentos de Clark:

— O capuz ainda não tinha os mecanismos de ampliação do som em larga escala e eu só ouvi a aproximação do outro bandido quando já era tarde. Eu vi quando o comparsa do estuprador sacou a arma automática, o que significava que eu não dispunha da velocidade suficiente para fugir do alvo. Eu ia ser alvejado, Kent... Eu estava exposto!

De repente, Bruce interrompe a empolgante narrativa com um suspiro lento e profundo. Dando-lhe a pausa necessária para assumir o controle de suas emoções justamente neste momento da história, como se buscasse forças em si mesmo, afim de não despertar demônios emocionais outrora já domados.

— Então eu ouvi os disparos despejados pelo comparsa em minha direção e esperei pelo pior... Cobrindo-me imediatamente com a capa, imaginando que me incorporar à escuridão do beco me faria um alvo mesmo óbvio... Mas para minha surpresa, à medida que os disparos foram dados em minha direção, eu ouvi um som frenético semelhante ao som do metal rebatendo no metal... Removi parcialmente a capa que me cobria e vi, através das lentes opacas da máscara, com visão noturna, uma figura posicionada entre mim e o homem que disparava os tiros. (...) Olhei com mais atenção e percebi a estrutura corporal delgada e curvilínea, mas garanto que duvidei daquilo que minha visão mostrava: uma mulher desviando balas de uma pistola automática utilizando seus pulsos.

Então Bruce riu com a lembrança de seu espanto inicial.

— Foquei a visão noturna nela, percebendo que seus pulsos tinham uma espécie de bracelete que tomavam boa parte dos antebraços e observei atentamente seus passos em direção ao atirador. Foi quando a vi esmagar a pistola com apenas uma das mãos, como se fosse um pedaço inútil de papel e em seguida, suspender o home pelo colarinho da camisa como se fosse um boneco de pano, jogando-o violentamente contra a parede ao fundo do beco, na direção do estuprador, atingindo-o e derrubando-os de uma única vez, com força suficiente para deixá-los inconscientes. – revelou Bruce, sem esconder as reações que deixavam claros seus sentimentos de respeito e admiração para com a princesa de Themyscira. – E eu obviamente imagino que você já saiba, pela minha descrição dos fatos, que estou falando de Diana, não é Clark?!

— Sim! – respondeu o kryptoniano rapidamente.

— Apesar do que pareceu uma surpresa inicial de Diana, quando se aproximou de mim e se deparou com a sombria figura de uma criatura, segundo ela, que parecia um demônio recém-saído dos poços do Tártaro. Um tempo depois, numa das nossas longas conversas durante a época em que patrulhamos juntos, eu perguntei porque ela não teve medo de mim... Ela me disse, sorrindo, que apesar de ter achado a figura do Batman estranha, para ela não era surpresa se os habitantes do patriarcado apresentassem formas distintas como reconhecidas criaturas da cultura grega que, no mundo de Diana, estavam longe de ser figuras meramente folclóricas, pois existiam na realidade.

Foi quando seu pensamento o levou Bruce ao passado, numa viagem de volta ao telhado da Igreja São Pedro, construída no fim do século XV, ainda sob influência da arquitetura gótica do catolicismo, cercada por assustadoras gárgulas, que segundo a tradição, serviam para afastar os maus espíritos... Lembrou-se de Diana, de seu cheiro, dos cabelos negros longos lançados ao vento, de seus olhos, de sua parceria... Sua mente o levou de volta para ela e era isso que ele queria evitar.

Sentindo-se traído pela lembrança, ele reclinou a cabeça para traz, para relaxar os músculos tensos do pescoço, amparado no conforto luxuoso sofá e fechando imediatamente os olhos. Era como se saboreasse um prato especial, fechando os olhos ao provar, para ampliar o alcance dos sentidos e perceber não só o paladar apurado, mas também os aromas emanados pela comida. Foi então que ele jurou ter sentido o cheiro dela novamente, bem ali, diante dele. Mas ao abrir os olhos, percebeu que se travava apenas dos truques ludibriantes da sua saudade.

— Calma aí... que Diana apareceu do nada em Gotham e te salvou, eu até acredito... o que eu não entendo é vocês patrulhando juntos?! Aliás, você permitir alguém – especialmente um meta-humano – na sua cidade e ainda trabalhando com você. – Afirmou Kent visivelmente chocado.

— A história de como ela chegou aqui até o patrulhamento é longa e eu vou tentar resumir, pra você entender: Diana chegou aqui com a missão de capturar uma de suas irmãs, como ela diz. A fugitiva era uma amazona julgada e condenada por desobediência às Leis de Themyscira e grave ofensa aos deuses, que estava presa aguardando a sentença. Mas que por razões desconhecidas, obteve ajuda externa para escapar. Diana me disse que Athena informou a ela seu paradeiro e a mandou em missão ao mundo dos homens, para buscar a infratora, trazendo-a até Gotham. Foi assim que ‘magicamente’ ela apareceu de repente, próxima ao beco em que fui encurralado. E, ao ver o homem armado, se colocou instintivamente a defender a criatura que ela viu acuada nas sombras.

— Como eles foram capazes de mandarem-na completamente sozinha a este mundo, Bruce? Especialmente à Gotham que, não me leve a mal, amigo, abriga todo tipo de violência, corrupção e sordidez que os seres humanos são capazes de apresentar. – Disse Clark, com um raiva que não costumava apresentar – Agora entendo porque você sempre detestou os deuses dela.

— Foi exatamente o que me ocorreu, quando ela me contou quem era, de onde vinha e porque estava lá. (...) No começo, confesso que duvidei de todo aquele enredo fantasioso que Diana me contara, que incluía uma ‘ilha onde os homens estão proibidos de pisar, guerreiras amazonas imortais e deuses gregos tão reais quanto nós’. E sumi nas sombras da noite rumo aos telhado da cidade... mas ela veio atrás de mim, pairando na ar, como um anjo.

Bruce continuou... – Contrariando todas as minhas regras, eu a trouxe comigo para Batcaverna, sem lhe revelar a entrada da mansão e sem expor minha identidade. Lá ela teria tudo que precisava: chuveiro, cama e comida. (...) É claro que eu ofereci minhas habilidades de detetive para ajudar Diana em sua missão. Mas, em minha mente lógica e analítica, não era por altruísmo. Era pela curiosidade avassaladora que eu tinha de estudar, testar e avaliar um indivíduo meta-humano, através de suas habilidades, sua estrutura molecular, seu desenvolvimento ósseo, suas capacidades intelectuais, etc. Diana teria abrigo e eu teria uma cobaia. Era uma relação ‘win-win’, onde todos sairiam ganhando. Por isso eu a levava na patrulha, apenas quando íamos caçar a amazona, claro.

Bruce recebeu o olhar repressor de Clark com sua tradicional postura indiferente. Ele sabia que seu amigo estava descontente com sua tentativa de tirar proveito da ingenuidade de Diana.

— Bom, não deve ser surpresa para você que Alfred logo se afeiçoou a ela. Não foram raras as vezes em que eu o encontrei lá embaixo, fazendo-lhe companhia durante as refeições ou tomando chá com ela, enquanto conversavam amigavelmente ora sobre a cultura grega, ora sobre a vida de Diana em sua ilha – e suas aventuras como uma nobre princesa guerreira – ora sobre mim, o que deixava particularmente irritado e carrancudo, para deleite de ambos.

Mas subitamente Clark mudou o semblante... pela primeira vez eu observou seu amigo com brilhos nos olhos que indicavam claramente a formação de lágrimas. Ele não viu Bruce chorar, mas foi o mais perto que ele chegou...

— A verdade é que eu nunca estive tão enganado em toda minha vida, Kansas boy – disse Bruce, ao levantar-se do sofá para encarar a vista na varanda, olhando para as estrelas com um olhar perdido e um sorriso amargo no rosto. – Todo aquele discurso lógico de trazê-la comigo por razões científicas não passava de um monte de merda racional que eu inventei para não admitir que minhas emoções estavam no controle desde que a vi pela primeira vez, não minha mente.

— Não foi só Alfred que se afeiçoou imediatamente a ela, Clark... embora eu negasse, até pra mim mesmo, eu sei que eu também caí em seus encantos. – revelou Bruce, mantendo o olhar longe de seu amigo, que agora estava de pé, encostado na outra extremidade da varanda, apoiado sob os cotovelos, observando o burburinho das pessoas saindo do térreo do prédio, provavelmente do badalado restaurante que ocupava quase todo andar térreo.

— Você se apaixonou por ela, Bruce? E ela... (suspirou) também se apaixonou por você? – Perguntou Clark, experimentando uma estranha sensação de aperto em seu peito, como se estivesse com medo da resposta.

— Se eu lhe dissesse que não, eu estaria mentindo, Kent. – Disse Bruce, com uma voz quase inaudível, como um sussurro, que só seria captada por uma superaudição. – Eu perdi totalmente o controle e, até agora, eu ainda não sou capaz de avaliar meus erros de forma racional, Clark. Não consigo ver claramente tudo que fiz de errado para nunca mais na vida passar pelo que eu passei... eu simplesmente não consegui afastá-la a tempo, como afastei todas as mulheres que amei... Foi tudo tão rápido, tão intenso...

E Bruce continuou: – Em um momento ela estava momentaneamente confinada à caverna até cumprir sua missão, Clark... essa era a ideia, mas ela conseguiu impregnar todo o lugar com aquele maldito perfume que ela usa, me causando distrações desnecessárias... Eu simplesmente não conseguia trabalhar nas minhas investigações direito; Pouco tempo depois, ela já era a menina dos olhos de Alfred e ele lhe dedicava boa parte do seu tempo; Não demorou muito até Diana já estar devidamente acomodada no melhor quarto de hóspedes da mansão, com acesso livre a absolutamente tudo, inclusive à minha identidade e à história dos meus pais, que me transformou no Batman.

Bruce parecia ter finalmente baixado todos os escudos naquele momento. Ele já não tinha mais vergonha ou pudores para revelar-se tão frágil em seus sentimentos e Clark, no fundo, sentia-se imensamente honrado dessa prova de confiança desmedida – especialmente para alguém tão fechado como Bruce.

— Ela conseguia iluminar toda aquela casa, que antes, parecia um mausoléu, com os ecos das suas gargalhadas com Alfred ou com algum dos empregados na cozinha, na sala de cinema, na biblioteca... Não demorou até que eu começasse a sentir uma vontade incontrolável de ir pra casa, de estar em casa, de aproveitar o dia com ela... Eu simplesmente não conseguia ficar longe dela, Kent!

Tentando por fim à conversa, temendo o rumo dos fatos a partir Dalí e, ainda sem entender porque sentia-se aborrecido ao ouvir uma história que ele mesmo insistiu em escavar no passado de Diana e Bruce, Clark interrompeu: – Eu suponho que vocês tenham brigado porque depois disso, vocês acharam a fugitiva e Diana teve que voltar à Themyscira. Ela partiu seu coração e você a odeia?!

— Isso aconteceu de fato, mas não foi tão simples assim, Kent. – Disse Bruce, voltando-se para o kryptoniano, assumindo sua habitual postura estóica e rígida; o rosto já não trazia mais nenhum sinal de expressividade ligada a qualquer emoção; só o brilho contido nos seus olhos não se dissolveu quando ele retomou o controle de suas emoções e voltou a ter domínio de si mesmo... Mas diferentemente dos sentimentos de afeto, nostalgia e saudade que Clark vira em seus olhos durante toda narrativa, Bruce agora ostentava um olhar enfurecido, magoado e descrente.

— Quando nós encontramos e capturamos a fugitiva, eu e Diana já estávamos apaixonados, Clark. Já era tarde para desistir do que sentíamos e dizer adeus um ao outro. Eu pedi que ela ficasse e ela prometeu que voltaria pra mim. – Disse Bruce, com raiva e mágoa evidentes em sua voz. – Ela disse que me amava, que desistiria até de sua imortalidade por mim, caso os deuses a condenassem por unir-se a um mortal. Mas ela não voltou, Clark, ela mentiu pra mim. – esbravejou, num tom de voz alterado. – E sabe o que o idiota aqui fez? Moveu mundos até encontrar um modo de localizar Themyscira e trazê-la de volta, achando que sua mãe ou seus deuses a obrigaram a ficar lá.

— Bruce, você é louco, você sabe que homens são proibidos na ilha! – ponderou o Superman.

– Eu pouco me importava com minha vida, desde que pudesse olhá-la nos olhos e tê-la em meus braços uma última vez. Então fui até lá, mas assim que pus os pés na ilha, fui preso por um grupo de amazonas que me espancou e encarcerou imediatamente. – Prosseguiu. – Então pedi uma audiência com a rainha Hipólita e a princesa Diana... E ela estava lá, sentada ao lado da mãe, incapaz de olhar-me nos olhos e dizendo a sua mãe que me exilasse, porque eu não passava de um mortal patético. (...) Eu gritei que a amava, Clark, a plenos pulmões, para que todo palácio e qualquer habitante daquela maldita ilha de lésbicas estúpidas me ouvisse. Eu gritei para ela que minha vida sem ela não fazia sentido. Pedi que se casasse comigo. Lembrei-lhe todas as vezes que ela disse que me amava, olhando nos meus olhos.

Clark não conseguia esconder o choque diante do que estava ouvindo. Era o relato mais profundo de entrega de um homem à uma mulher que ele já ouvira... Mas o que mais surpreendia era que toda essa demonstração inefável de sensibilidade, amor incondicional e desprendimento foram dados pela última pessoa na face da terra que ele imaginou ser capaz de um ato assim.

— Mas ela foi incapaz de olhar pra mim... E tudo que eu ouvi, antes de receber uma pancada na cabeça, que me apagou por um bom tempo foi: ‘Eu não amo você. Nunca amei... Não seja ridículo... Você não passa de um mortal. Não tem nada a oferecer a uma princesa imortal. Levem-no, guardas!’ – finalizou Bruce com um suspiro libertador. – depois disso, acordei dentro de um barco, às margens de uma ilha Grega e nunca mais soube dela, até você nos apresentar em Metrópolis.

Notas finais
*Bruce teve sua chance de explicar seus motivos, mas isso não é tudo, certo? *Diana terá sua chance, mas ainda não será no próximo capítulo... * Para o oitavo, estou guardando algo mais 'apimentado' e uma cena de flashback muito picante. *Vamos adiante!