Cooly Doctor
6 Pequenos Imbecis
Notas iniciais
Se eu ganhasse uma moeda a cada vez que um alienígena bizarro me acordasse ao som de uma guitarra, eu ganharia duas moedas... o que não é muito, mas eu acho estranho que isso tenha acontecido duas vezes...
E sim, senhoras e senhores, isso me aconteceu e estou comentando esse velho comentário roubado de um meme da internet que o Kamon me falou, mesmo eu não fazendo ideia do que seja um meme. Ele tocava algum som incrivelmente marcante e que eu poderia dizer que seria o tema dele, marcadamente extraterrestre, mas com manchas humanas. Completamente instrumental, mas foi suficiente para me acordar frustrado acompanhado de um susto. Quando percebi que não era a guitarra dele que estava tocando, eu me levantei imediatamente da cama e tomei à força o que não era dele. Mal-humorado, mimosa caricatura para sua rabugenta pessoa, ele ainda quis retrucar comigo, ainda que com um forte tom de educação, típico de escocês:
— Eu só queria ver se estava com as tarraxas prestando...
— As regras são simples: o que é seu é sua propriedade. As coisas que não são de sua propriedade, portanto, não são suas. Especialmente as mais sensíveis ao toque...
Ainda de mau-humor, descontraiu pegando o seu próprio pertence, testando mais uma vez. Interessado pelo gesto, entreti-me a perguntar:
— Gosta de música?
—... O universo nasceu da música, você sabe...
— Não. Foi uma explosão, na verdade.
— E do que você acha que é feito explosões?
— O som não se propaga pelo vácuo, até onde eu saiba...
— A música está presente através do espírito. O som é um mero meio de comunicação.
— Não existe espírito sem uma forma de vida que o tenha.
— Tem certeza disso? – Ele questionou – Eu não tenho. Eu não sei...
Ele levemente brincava com aquela guitarra de tal maneira que seus movimentos com as cordas seduziam minha atenção.
—... E se tocássemos alguma coisa? – Eu sugeri.
—... Tipo, juntos?
— É. — Respondi afirmativamente. – Que música te lembra de mim?
—... – Ele ficou pensando e pensando, até que conseguiu uma resposta parcialmente completa. — Eu sei de uma. Mas eu não sei se ela lembra você diretamente, mas algum tipo de impressão que eu teria sobre a sua vida...
Ele começou a tocar algo típico de rock alternativo entrando na fase punk revival. Um ritmo bem familiar, cativante e profundo para mim. Então começamos a tocar juntos e cantar essa velha música que beija minha nostalgia. E combinava muito com nós dois, dois "Pequenos Imbecis":
— WITH THE KIDS SING OUT THE FUTURE (Com os pirralhos, cantemos ao futuro)
MAYBE THE KIDS DON’T NEED THEIR MASTERS (Talvez os pirralhos não precisem dos mestres)
JUST WAITING FOR THE LITTLE BUSTERS, OH YEAH! (Só esperando pelos pequenos imbecis!)
— Iro awasenai kidonappu myuujikku te to te ga shitteru... (Uma música de seqüestro ininterrupta é isso que eu sei, de mãos dadas.)
— Onaji doa wo nokku shitai, kono koe ga kikoetara tobidashite... (Eu quero bater nas mesmas portas, mas se você ouvir a minha voz, crie asas e voe...)
— With the kids sing out the future; maybe the kids don't need the masters; just waiting for the little busters, oh yeah!
Eu não sou do tipo de cara que facilmente se empolga com alguma coisa, caso não tenhas notado ainda. Mas eu vou ter que admitir isto: aquele foi um momento bem divertido. O homem de aparência profundamente séria e neurótica realmente mostrou-se ser uma pessoa bastante interativa naquela hora, presenteando-me até com um sorriso, e eu o respondi com outro. Ele até me veio com uma pergunta:
— Onde você aprendeu a tocar tão bem?
— Eu tenho uma banda. Nós fazemos ensaios de rock e essa é justamente a nossa banda mais tocada. Acertou em cheio, justo à minha música favorita.
— Sei...
— E você? Como aprendeu a tocar guitarra?
— Com os vikings... — Novamente, eu não sei se ele estava sendo irônico ou falando a verdade. Acho que eu nunca conseguiria entender bem a mensagem que ele me passa, mas sempre, e de todas as maneiras, é um argumento muito intrigante.
Passado o momento, guardamos as coisas e começamo-nos a arrumar para a grande jornada. Canti vinha conosco, para a infelicidade de Kamon.
— Ei, Naota! – Eis que o Doutor chama a minha atenção.
— Sim? – Perguntei, querendo ouvir sua indagação.
— O seu pai, o Sr. Kamon já fez Kumon? – Era para ser uma piada, percebi pelo sorriso, e apenas. Por mais confusa que eu pareça ter estado, ainda estava tentando raciocinar a graça daquela (dicotomia).
—... Muito engraçado. – Falei com um tom sarcástico, demonstrando minha falta de interesse naquela palhaçada: — Guarde os gracejos para mais tarde e vamos direto para a TARDIS.
— Ei, sou em quem deveria estar falando isso!
— Pena que trocou sua personagem pela do palhaço.
— Você está roubando minhas falas! Isto é antiético!
— Vocês vêm ou não? – Chamei com uma frase de duplo uso, tanto para calar a boca dele como para apressar a situação.
Quando estávamos entrando, eu tinha me esquecido da encomenda que Kamon queria enviar para a nossa vizinha. Na verdade, quem me lembrou disso foi o Doutor:
— Você não tinha alguma entrega super-importante ou algo do tipo?
— As entregas do meu pai nunca são importantes ...
— Se eu fosse você eu ia cumprir essa tarefa.
— Kamon é um sem-noção! Sem chance que eu vou fazer isso!
— Tome uma decisão madura, ao menos!
— ESTÁ BEM! EU VOU ENTREGAR A MALDITA ENCOMENDA!
Eu não faço ideia do que tinha na encomenda ou o que o meu pai queria entregar para a nossa vizinha. Talvez fosse só um pacote de revistas em quadrinhos, ou um pão de noz mascada (eu não errei a digitação, é noz mascada mesmo. Kamon tem que inventar algumas coisas esquisitas, talvez por isso nunca vende nada). Eu pensava nisso porque não tinha nada melhor para pensar, nem mesmo o fato de que eu vou viajar numa estranha máquina de teletransporte. Até que eu cheguei na alameda do nosso destinatário. E lá estava ela: fugindo de casa para evitar polêmica com a sua divorciada mãe (que, por algum motivo, meu pai sabia onde era a localização exata do esconderijo secreto dela): Eri Ninamori.
— Naota-kun. – Ela me chamou. – Percebo que você tem alguma coisa pra mim. Algo como uma revista em quadrinhos ou um pão com nozes...
— Isso mesmo. Agora tome, por favor.
— Você parece tenso, Naota-kun. Está apressado com alguma coisa?
— Eu vou... eh... – Eu tentava inventar alguma desculpa rápida para não demorar, embora com certeza ela fosse decifrar de qualquer jeito. – Eu estou indo em uma viagem e talvez eu fique fora por uns dias, ou horas, ou minutos...
—.... Está bem, então. Boa viagem.
Quanta naturalidade, eu pensava. Mas enfim, eu fui embora em direção à TARDIS e começar a minha nova jornada com esse senhor do tempo maluco.
Chegando ao local esperado, ele estava conversando com o Canti e pareciam estar se divertindo, mesmo Canti não sabendo falar uma palavra.
— Então, vamos ou não? – Perguntei.
— É claro que vamos. – Ele respondeu, com naturalidade. – A propósito, vamos comprar algumas revistas no caminho para o Canti ler.
— Já vi que vocês conseguiram se enturmar bem. Não se esqueça de que eu sou meio que “pai” dele.
Pai. Que termo estranho para designar a um adolescente e um robô. Mas quem disse para eu me meter com Haruko, não é mesmo? Mas esse homem..., esse “doutor”..., ele guarda muitos segredos, não é?
Só sei que no caminho da viagem, o Doutor e Canti estavam bem animados, treinando seus dotes musicais com uma canção que eu suponho ter sido escrito em homenagem à ele:
— Hoje é domingo, missa, praia e céu de anil. Tem sangue no jornal e bandeiras na avenida Zil. Lá por detrás da triste e linda zona sul, vai tudo muito bem. Formigas que trafegam sem porquê. E da janela desses quartos de pensão, eu como vetor tranquilo tento uma transmutação:
“Oh! Seu moço do disco voador, me leve com você para onde você for. Seu moço, mas não me deixe aqui enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí! ”
Conhecendo um pouco da letra, decidi entrar na brincadeira:
— Andei rezando para totens e Jesus. Jamais olhei para o céu, meu disco voador além.... Já fui macaco em domingos glaciais, Atlantas colossais que eu não soube como utilizar. E nas mensagens que nos chegam sem parar, ninguém pode notar. Estão muito ocupados para pensar. Mas, oh, seu moço, do disco voador, me leve com você para onde você for! Seu moço, mas não me deixe aqui enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí...
Eu parei para pensar em quão bizarra aquela situação poderia ser, desde que eu estava trafegando em um disco voador no formato de uma cabine telefônica ao lado de um senhor esquisito. Mas considerando tudo o que eu vivi até agora, eu poderia ver isso como uma mera atividade de lazer.
Ele ia me mostrar alguns pontos durante a nossa viagem, mesmo que essa tenha sido, teoricamente, rápida. E eu ainda fico pensando se a Haruko já teria vivido alguma situação de alguma forma parecida com isso?
Enfim, nós chegamos ao nosso destino: Londres. Uma cidade apaixonante e melancólica. Seus resquícios, ao menos. Acredito que o Doutor sinta isso bem mais do que eu. Pelo o que me pareceu, ele tinha se naturalizado naquela região.
— Então, o que acha? – Ele me pergunta.
— Grande coisa. – Respondi com naturalidade e um certo tom de decepção. – Continua sendo uma mera metrópole terráquea.
— Concordo. – Ele respondeu com sinceridade. – Mas deve-se dar o mínimo respeito. As pessoas desse planeta a admiram de forma especial.
— Especialmente levando em conta à condição primitiva que estamos sujeitos. – Virei-me e percebi que estávamos bem na região central da cidade, nas proximidades do ilusório palácio de Westminster. Alguém naturalmente a chamaria de “poderosa” ou algo do tipo, mas o que isso significaria, ao menos? O parlamento tem pouca relevância na nossa vida, mas algo me chamava atenção: aquela torre. – “Big Ben”, é como chamam, certo? Eu admito: pelo menos isso me deixa surpreso. É algo de valor, afinal de contas, representa um avanço. Avanço interminável, para falar a verdade...
Eu compreendo a importância histórica da torre e o que ela representa. Mas, eu devo ser sincero com quem eu falasse sobre minhas opiniões, e sinceramente...
— É só uma torre. – Eu disse.
— Então o planeta Terra é só um planeta. – Ele respondeu de forma retrucada.
— Não falou nada além da verdade...
Depois de discutir sinceras opiniões, continuamos o nosso passo atrás da fonte do tal Furi Kuri.
— Você sabe que eu detesto utilizar termos pornográficos para se referir a uma fonte perigosa e de sério risco, não é? – Aparentemente o Doutor lê mentes também, e expõe isso da forma mais antiética possível.
— E você sabe que ler a mente dos outros sem autorização é falta de educação, não sabe? – Ele calou-se, com um olhar ainda levemente confuso. Não sei se ele expressou isso porque ele não fez nada, o que é possível. Mas como eu não sei bem a anatomia desse estranho ser, dei como palpite que eu pus um pouco de moral na sua personalidade, embora isso também seja bastante contraditório.
— E aí? – Ele me pergunta subitamente após uma pequena pausa silenciosa. Acredito que ele queria amigar comigo, sem saber a dificuldade que eu posso ser como uma companhia.
— E aí o quê?
— Achou algum sinal? – Ele estava querendo saber do N.O.
— Do N.O.?
— Sim! – Falou de forma ríspida.
— N.W.
Talvez ele até quisesse curtir o trocadilho, mas o foco em nossa missão era tanto que ele se esqueceu de até mesmo de dar um sorriso, coisa que nem mesmo eu ousaria dar:
— Daria para se acalmar? – Pedi. – Não precisa ficar tão impaciente... – Eis que naquele mesmo momento o sinalizador indicava altas cargas de N.O. em um beco próximo dali. Saímos correndo atrás para saber o que aquilo indicaria. Pelo que as cargas indicavam, aquela fonte era tanta que seu portador já estava vivo e ativo. Seria mais um oponente? De qualquer forma, eu e o Doutor ficamos em posição, preparados para que aquela coisa fosse nos atacar, seja ela o que fosse.
Qualquer um poderia perambular por uma cidade como um moribundo e ninguém sequer notaria sua presença ali, por mais estranho que ela a fosse. E de fato, seria estranho pensar que ninguém estranharia nossas atitudes. E o Doutor já devia estar acostumado com aquilo. E as pessoas dessa grande metrópole também. E, por mais longe que eu estivesse, também estava acostumado com este tipo de suspense.
Também não notamos a presença de nada, e é que estávamos bem atenciosos com tudo o que nós estávamos enfrentando. O Doutor fez sinal para que eu visualizasse o sinal novamente, e tudo o que estava indicado como sendo nocivamente furi-kuri desapareceu do raio de visão, como se nem existisse. E desapontado eu fiquei:
— Não está aí? – o Doutor desafiou o óbvio, como qualquer escocês irado faria. E ao responder negativamente, ele tem a mesma reação que eu, ou para pior.
— Acontece! Ou você acha que tudo vai aparecer como se a sorte estivesse ao nosso favor? – ele não me ouvia, então apelei para a rispidez: – Só vamos continuar a procurar o furi-kuri!
— Eu não me importo com furi-kuri, kuri-kuri, ou qual seja o chiku wo chiku-chiri que você está se referindo! Isso é perigoso e não pode escapar subitamente das nossas mãos!
— Ou dos nossos pés... – E pés eram de importância para nos fazer pensar. E foi exatamente o que eu pensei quando puxei o Doutor pelo braço e vimos uma porta no canto diagonal do beco. Estava pintada de vermelho. Vi um balde de graxa do outro lado e pedi sem frescura para que o Doutor a trouxesse para mim.
— Eu não sei o que você planeja fazer.
— Ninguém saberia se estivesse pensando apenas no óbvio. – respondi. – Vamos lá, Doutor, você pode fazer mais do que isso.
Quando eu falei, ele se tocou no exato momento o que eu deveria fazer. Tinha um portão vermelho à nossa frente. Eu não gosto disso, e eu quero ela printada de preto (não impressa). Então, exatamente outro beco, de quase mesma aparência que o nosso, estava à nossa vista. Com surpresa, o Doutor indagou:
— Como você sabia que isso ia dar certo…?
— Ouvi numa música daqui mesmo.
Voltamos a ver os sinalizadores e, mais uma vez, altas cargas de N.O. voltam a aparecer na mesma posição que estavam originalmente.
— Já sabe o que fazer, não é, Naota? – Doutor dá aviso para eu me preparar para o ataque. Mas a voz de uma moça interrompe a nossa atenção:
“Cuidado com os pés, Ta-kun!”
— Não é possível... – Minha mente deu um sinal de inesperado desespero ao ouvir essa voz e esses termos. – Eu não posso estar ouvindo isso... não aqui, nem agora!
O Doutor ainda estava com a esperança parada desde que nos preparamos para atacar, mas eu dei sinal para se acalmar, novamente. Dei uma rápida espiada, e lá estava ela: a ruivinha de remendos escolares da mais baixa qualidade com uma beleza triste no rosto, lindos lábios queimados pelo cigarro e um charme sujo, brincando com alguma coisa que eu não sabia definir o que era, mas parecia ter decisões próprias. Minha mente explodiu quando ela se virou e falou:
— Oi, Ta-kun. Veio fazer uma visita?
Não restava dúvida. Era a Mamimi.
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