Cooly Doctor
7 Never Knows Best
Está bem, vou tentar dar uma rápida recapitulada, se eu conseguir, me elogiem:
Mamimi Samejima é uma estudante do ensino médio, embora nunca estude de verdade. Ela é uma boêmia inveterada de origem contraditória, solitária e depressiva, além de tudo, uma piromaníaca nata, se é que isso pode ser considerado um problema na nossa cidade. Ela adota vários tipos de mascote, sendo eles existentes ou imaginários (incluindo eu), e dá a eles o nome de Ta-kun para substituir o seu crush, Tasuku, que nunca realmente se importou tanto com ela. Entretanto, ela aprendeu a se tornar independente conforme eu fiz o mesmo.
Ela também é a ex-namorada do meu irmão.
Mas, acredite se quiser, e se duvidar, eu devo uma ponte a vendê-la, ou seja; ela não é uma pessoa má: ela pode até ser uma drogada, tarada, incendiadora, inclinada à pedofilia, mendiga consciente, viciada em games, uma pessoa má, ou o que quer que ela tenha vontade de ser no momento. Felizmente, ela tem virtudes, como ser uma ótima fotógrafa e pelo seu auto poder de percepção e busca, eu diria que era até esperado que ela se encontrasse aqui em Londres. Só o motivo que permanece um mistério.
Enfim, voltemos para o ponto inicial:
— Oi, Ta-kun. – Eu sei que ela se refere a mim quando me chama desse jeito, mas eu não duvidaria de jeito nenhum que ela começasse a usar este náufrago alienígena do meu lado, se esse não fosse inteligente o bastante para se defender do seu cruel instinto de sobrevivência.
— Eu deveria perguntar o que você estava fazendo aqui? – Tentei ser bastante natural, como se a cena não fosse bizarra o bastante.
— Verdade, isso não é nem um pouco conveniente. – o Doutor concorda comigo, seja lá o porquê – Não tinha nenhum outro lugar melhor para morar não?
— Ah, isso mesmo. – Ela continuou. – Sabe, eu não queria me lembrar daquela cidade monótona e sem importância, muito menos das coisas que eu vivi lá nos últimos meses. Eu vim para Londres me sentindo atraída pelo seu espírito monótono e fúnebre, mas também agitado e moderno. É o local perfeito para eu me refugiar.
— Refugiar por quê? – o Doutor fica curioso com o comentário da Mamimi. – Você está sendo perseguida?
— Sim. Pelos meus inimigos.
Ela não falou nada mais além disso para responder a pergunta dele, mantendo sua cabeça bem agitada e confusa. Eu poderia entender um pouquinho do que ela falou, tentando exprimir em palavras para o Doutor:
— Acredite, ela longe de Mabase é muito melhor; para ela, e para a cidade.
— Vai dizer que não sente a minha falta? – Ela comenta, com um falso ar de carência. Eu sei que ela não tem nada comigo (pelo menos, é o que eu acredito/não acredito.)
— Falando de um ponto de vista cósmico, não.
Ainda com seu mimoso ar desapontado, ela anda em direção ao Doutor, a quem sente uma leve atração. Naquele exato momento eu penso comigo mesmo: “de novo não...”
— Qual é o seu nome, senhor?
—... Basil. – Ele responde disfarçando sua sensação de desconforto.
— Ah sim. Vou te chamar de “Ta-kun”. – Era isso o que eu mais temia... – O que é isso que vocês estão segurando?
Ousadamente, ela toma o rastreador que estava na minha mão, observando como se fosse uma criança vendo um brinquedo completamente novinho em folha. Só espero que essa criança não vá querer quebra-lo...
— Bacana! – Usou um termo completamente fora de moda (dependendo do ponto de vista: para o Doutor, pelo menos. Para ela, claramente que não. Quanto a mim, eu estava com fome e pensando se a culinária londrina era melhor que o café da manhã do meu pai). Acho que estava bem interessada naquilo que carregávamos. Talvez até soubesse o que era, desde que tinha um produto de N.O. carregado consigo. Ela continua sua fala:
— Talvez eu saiba onde encontrar o que vocês procuram. – Não sei por que ela falou daquele jeito. Era como se estivesse do nosso lado desde o começo do dia. – Venham comigo!
Só a segui porque não tinha nada melhor para fazer. Se alguém estivesse preocupado, só poderia ser o Doutor, mas acho que esse é velho demais para não ter visto nada mais estranho.
— Eu já disse que não sou velho...
— E eu já disse que é falta de educação ler a mente dos outros... – Me lembrando do papo anterior, retomei a palavra por curiosidade: – Sério que esse é o seu nome de verdade?
— Tire suas próprias conclusões...
Só sei que um pouco antes ou um pouco depois, ou do término ou do início da jornada, meu avô e Kamon perguntariam/responderiam:
— "QUER DIZER QUE AQUELA DELINQUENTE ESTAVA CONTIGO ESSE TEMPO TODO?"
— "Se acalma, meu pai, lembre-se que ele estava com Mildred!"
— "Mildred?"
— "É como eu decidi chamar aquele cara estranho. Algum problema com o nome?"
— "Sim! Você está nomeando uma pessoa!"
— "Ora, por favor, fazemos isso com cães e gatos, qual o problema?"
...
— Certamente, eu posso tirar...
Nós caminhávamos pela cidade. Deveras bonitas, pelo menos para Mamimi. Nunca percebi o quanto combinava com a mesma.
— Há quanto tempo está em Londres? – Eu queria perguntar, mas o Doutor já fez isso por mim.
— Alguns meses. – É chato que nós nunca podemos ser exatos nessa narrativa. “alguns meses desde lá”, “alguns meses a partir de cá”... Por acaso as pessoas tem medos de números? Não fazem mais ou menos 13 meses e nem estamos nos Estados Unidos.
— Mas estamos na Inglaterra. – Não sei se alguém leu minha mente ou eu perdi a concentração da conversa. Pelo o que parece, Mamimi estava falando do seu caminho desde que deixou Mabase:
— Eu pensei: Tóquio? Não, muito óbvio... Eu deveria deixar não apenas o meu interior, mas tudo ligado a ele. – Mudasse de universo, então... – Pensei nas grandes metrópoles: se eu fosse para Beijing, eu teria problemas de entrada. Pyongyang seria um bom destino?
— Só se fosse para você mesmo... ou o Kamon. – Respondi.
— Bem, em Nova York, acho que eu prosperaria, mas não era disso que eu estava atrás. Por isso que eu pensei em São Paulo, esta cidade combinava com o que eu desejava, mas quando procurei, parecia tão sem graça...
— Acredite, qualquer momento a partir daqui até antes de 2020 pode estar ótimo por lá, ou em qualquer canto do mundo... – o Doutor respondeu, embora eu não entendesse muito bem.
— Talvez eu passe por lá, mas, por enquanto, eu tenho que aprender a me desapegar daqui...
De repente, ela parou. Eu já vi isso antes em filmes: não me diga que ela vai cantar?
I'm wandering round and round nowhere to go. I'm lonely in London, London is lovely so. I cross the streets without fear. Everybody keeps the way clear. I know, I know no one here to say hello. (Eu dou voltas e voltas sem lugar para ir. Estou só em Londres, mas Londres é gentil. Eu cruzo as ruas sem estar aflita. Todo mundo deixa livre o caminho. Eu sei, eu sei, não tem ninguém aqui para dizer olá.)
Aparentemente, era o que sentia, sem ninguém por perto. Já era triste em Mabase, mas, pelo o que parece, passar uma temporada sozinha foi boa para ela, mas lhe rendeu alguns sacrifícios...
I know they keep the way clear. I am lonely in London without fear. I'm wandering round and round here, nowhere to go. While my eyes go looking for flying saucers in the sky… While my eyes go looking for flying saucers in the sky… (Eu sei que eles deixam o caminho livre. Estou só em Londres sem estar aflita. Eu dou voltas e voltas por aqui, sem rumo. Enquanto os meus olhos procuram por discos voadores lá no céu. E os meus olhos procuram por discos voadores lá no céu...)
Será que ela sente falta de Canti? Será que ao menos parou para pensar nele? Nunca ou sempre?
Oh Sunday, Monday, autumn pass by me. And people hurry on so peacefully… A group approaches a policeman: he seems so pleased to please them. It's good at least to live and I agree. (Domingo, Segunda, outono passam Na minha frente. E as pessoas correm tão pacificamente… Um grupo se aproxima de um policial: ele parece tão alegre em alegrá-los. (Ao menos é bom viver aqui, e eu concordo.)
Espero que ela não tenha incendiado nada, senão ela estava em grandes encrencas. Em São Paulo, pelo menos, ela estaria em guerra sempre. Piromania é como uma droga: você gosta da sensação, mas ela não é saudável.
He seems so pleased at least and it's so good to live in peace and Sunday, Monday, years and I agree. While my eyes go looking for flying saucers in the sky. While my eyes go looking for flying saucers… I choose no face to look at, choose no way. I just happen to be here and it's okay. Green grass, blue eyes, grey sky, God bless. Silent pain and happiness. I came around to say yes, and I say. (Ele parece tão feliz, ao menos, e é tão bom vive em paz. Domingo, Segunda, anos passam, e eu ainda concordo. Enquanto meus olhos procuram por discos voadores lá no céu... Eu não escolho nenhum rosto para olhar, nem escolho nenhum caminho para andar. Acontece que eu só estou aqui e tá tudo de boas. Grama verde, olhos azuis, céus cinzentos, abençoados por Deus. Dor silenciosa e alegre. Eu cheguei aqui para aceitar, e eu aceitei.)
A ausência de Haruko a fez mudar muito. As pessoas são assim: em eterna metamorfose ambulante. Embora não pareça, isso foi bom. Pelo menos, agora está em plena independência, talvez, já alcançou a vida adulta que eu tanto queria.
Sei bem disso, Mamimi... Eu também procuro por discos voadores lá no céu...
E continuamos nosso caminho para algum lugar, em lugar nenhum, com uma verdadeira Mulher de Lugar Nenhum.
— Não é "homem de lugar nenhum"? — Mamimi pergunta, se referindo à minha referência.
— Acho que ele só quis adaptar os gêneros. — o Doutor comenta.
— Ta-kun, você é um fofo!
— Mamimi, você não precisa mais me chamar de "Ta-kun".
— Eu sei... — Ela concorda. Pela primeira vez, posso vê-la sendo sincera de verdade. — Sabe, essa música foi criada por um cara também estrangeiro. Ele passava por uma situação de refúgio parecida com a minha.
— Ele também era piromaníaco e estava tentando curar sua alucinação?
— Na verdade, ele estava fugindo de uma ditadura...
— É, pensei que fosse isso mesmo...
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