Cooly Doctor

4 Nostalgia Caoticamente Perigosa


Notas iniciais
Aqui que começa o momento mais "vergonha alheia". Como FLCL trata do surrealismo como algo.... surreal, algumas cenas ficarão desconfortavelmente complexas. Trilha sonora recomendável: One Life; Advice (The Pillows)

Saímos da TARDIS e fizemos rumo às ruinas da Mechanical Mechine. Aquele prédio em formato de ferro de passar roupa ainda me dá arrepios relacionados ao tempo em que tentava neutralizar o N.O.
Estranhamente, para um homem de aparência tão rígida e severa, ele até que apreciou a cidade. Talvez porque eu dei más expectativas, e ele deve ter ido um pouquinho longe demais. No caminho, ele decidiu continuar a conversar:

— Como você chamava a energia N.O., exatamente?

— Furi Kuri?

— Exato. Fale-me mais sobre "Furi Kuri".

—... Furi Kuri, seria algo como “Trabalho Frenético", o apelido que Haruko e eu demos à energia N.O. como uma referência à forma que ela era desbloqueada.

— Ah sim! "Fooly Cooly", você diria. Talvez por isso que eu entendi como se fosse alguma expressão em japonês.

— ?! Mas você não sabe falar japonês?

— Tentei minha sorte em algumas aulas de japonês com Murasaki Shikibu. Por maior que fosse seu conhecimento com a gramática, nunca consegui me apegar verdadeiramente ao idioma.

— Mas você fala tão bem! Parece até que é fluente!

— Ah sim, isso explica. Se andasse mais comigo, talvez se perguntaria porque aliens e anglo-saxões todos falariam japonês também. Ou você acha que a Haruko também perderia tempo aprendendo um idioma específico de uma região da Terra, que por sinal nem é um dos mais falados?

—... – Pensando bem nisso, ele tinha razão. Era uma perda de tempo. Quem deseja implantar o caos cegamente não vai querer saber em quem causar. E foi exatamente com esse intuito que ela veio à Mabase. É o melhor lugar onde ela poderia se disfarçar.

À medida que conversávamos, mais perto chegávamos da Medical Mechanical Mechine e as ruínas daquela fábrica. Ficamos analisando por um tempo algumas fontes, mas nenhum sucesso obtido. Então, subimos até o topo. Vendo aqueles escombros e a altura da cidade, eu fiquei parado, assistindo à cena. Quando você é ator em algum episódio da vida real, não é possível você ser também telespectador dessa cena ao vivo, portanto, você só poderia assisti-la através de reprise. E era o que estava reprisando na minha cabeça...


"O PODER DE ATOMSK É SOMENTE MEU E NINGUÉM MAIS DEVERÁ CONSUMI-LO!"
"Ela não desistirá dessa obsessão! Acabe com isso de uma vez por todas!"
"Eu te amo..."
"Você é só um garoto, no final das contas..."

Fiquei tão distraído nessa loucura que quase não me lembrava do que eu ia fazer ali com o Doutor. Na verdade, não percebia nem que ele também desviou o foco da missão para mim.

— É a Haruko? – Ele perguntou, pensando no que eu poderia pensar, e estando correto novamente. – Ela era importante para você...?

Uma vez que o Doutor perguntou isso, eu não respondi nada. Deixei que a conclusão fosse mútua.

— Eu entendo. Clara também era assim..., ao menos o que eu sei dela...

— Tens sorte de ela não tenha causado nenhum problema contigo.... ou com o mundo... – Falei, em referência a todo o caos que a Haruko nos submeteu. Ainda assim, o rosto do Doutor deixou escapar alguma insegurança sobre a minha fala, mas deixei isso despercebido. – Eu acho que você não é o tipo de gente que gostaria de uma vida caótica assim tanto... — Um pouco frustrado com esse engano, ele retrucou dizendo:

— Já me compararam com um dalek, para você ter noção. – Mesmo que eu não soubesse o que é um dalek, eu também deixei passar, adicionando mais comentários:

— Sabe, eu tomaria cuidado se fosse você. – Falei. – Existem pessoas que não conseguem se livrar da dependência de viver no caos. E uma vez que este se vá, é hora de sair à procura de uma nova vida...

Acredito que ele não tenha ficado confuso, levando em conta seu alto poder de interpretação. Pois é, existia outra personagem na jogada. Mas eu não falarei sobre ela. Não paga a pena para literalmente ninguém. E também não convém lembrarmos de pessoas assim...

— Vamos, Naota. – Ele falou, querendo dar um fim nessa sádica nostalgia. – O passado existe realmente para guardar ideias que ficaram incompletas, que podem ou não continuar. Se sim, então a esperança domina. Se não, de nada vale desespero, pois ele não trará o que você deseja de volta mesmo...

—... A não ser que...!

— A não ser que o quê?

— Se a energia N.O. ainda está presente em Mabase... é porque a missão dela ainda não está completa! – Meu entusiasmo preocupou o Doutor. Era óbvio que depois desses meses, eu já tinha maturidade para saber do que penso. Mas o que eu penso não convém ao interesse de ninguém que seja normal. Nem mesmo um extraterrestre como ele.

— Isso é ridículo!

— Por isso a Haruko faria!

— Talvez eu também... Entretanto, eu quero guardar os registros de energia para eu dar uma rápida averiguada, e então entregar para o conselho de pesquisa espacial, ou quem sabe eu vendo em um leilão.

Essa última afirmação me deixou bem espantado, por sinal, mas ele retrucou:

— É óbvio que eu não vou fazer isso. Poupe-me, por gentileza... — Não sei até que ponto isso era verdade, mas dava para ver que ele carrega consigo boas intenções.

Continuando a nossa procura, achamos um abismo. Foi na proximidade desse abismo que eu evitei que um asteróide produzido por Furi Kuri se colidisse com a minha cidade, tudo usando uma guitarra como bastão de beisebol. A partir daquele dia, as pessoas me refeririam como "herói municipal". Conforme nos aproximamos do abismo, o sinal de N.O. aumentava cada vez mais...

— Vampiros de Veneza que me mordam! — Estranha exclamação, fez o Doutor. Ele checou mais uma vez aquele estranho rastreador em forma de barra. Mais estranho ainda é o barulho que aquela coisa fazia quando tentava rastrear algo.

— Ao que parece, a fonte só pode ser alcançada através do efeito que a desbloqueia.

— Então é isso... depois de quase um ano ter se passado, essa história de "Furi Kuri" ainda está presente na minha vida. — Depois disso, comecei a usar todo o meu louvor para comemorar esse desejado fato: — Mas que saco! Quando é que a puberdade vai ir embora?! Como ela gosta de duvidar a minha maturidade!

— Ou talvez você que se engane.... O jeito correto é desbloqueando-a através de contato direto, mas com uma mira certeira, cronologia perfeita e exata.

— E como estamos supostos a fazer isso?

— Por que não pulamos as etapas?

— É arriscado, especialmente porque se algum detalhe for esquecido, nossa pesquisa fica incompleta e sem qualidade.

— Não, na verdade eu quis dizer por que nós não vamos caindo pelas etapas?! — Ele disse enquanto me jogou ao lado dele numa atitude completamente suicida e louca.

— SE LEMBRA QUANDO EU DISSE QUE VOCÊ ME LEMBRAVA A HARUKO?! AQUILO NÃO ERA NECESSARIAMENTE UM ELOGIO! — Acreditava que aquelas seriam as minhas últimas palavras, então tentei ser o mais sincero possível.

— Eu sempre quis falar isso depois de tanto tempo em desuso:... na verdade, não. Eu era um louco e não sinto falta de mim, mas se eu estivesse aqui, gritaria isso: GERONIMOOOOOOOOO!!!!

Sim, ficou muito estranho, um arrependimento ter gritado isso.

— Doutor, sou eu que narro a história, não você!

Ah, que saco...

Enquanto nós dois caímos, eu sentia que estava ficando desnorteado, até que eu senti outra sensação que há tempos não sinto: a energia biomecânica que saía da minha testa e que personificava o meu nervosismo na forma de alguma máquina: isso era Furi Kuri! A ingrata e desgraçada enxaqueca alienígena ainda estava guardada na minha cabeça mesmo depois desse tempo todo...

A máquina que foi formada agora era móvel e aérea, que conseguiu nos fazer levitar e não colidir.

— Já entendi porque eu não gostava do meu outro eu. – O Doutor comentou outro comentário. – Nunca mais faço algo impulsivo de novo...

Após recuperarmos o fôlego, voltamos nossas atenções para o robô que eu acabava de criar. Desta vez, no entanto, ele estava mais calmo do que os outros robôs que eu criei. Ele estava parado na nossa frente, e nem reagiu ao barulho caótico daquele rastreador que carregava consigo.

— Bingo! – O Doutor exclamou e fez sua conclusão — N.O. materializado na forma dos seus pensamentos, urgências e emoções.

—... Furi Kuri...

— Exato, “Furi Kuri”. — Ele concordou, ainda que um pouco frustrado com esse nome que eu dei. – Mas na verdade, não. Eu acho que seja uma versão limitada e menos sexy de Furi Kuri.

— Faz sentido... em seu estado natural, o resultado teria sido bem maior e mais... radical.

— Sem dúvida...

— Aliás, o que é esse rastreador que você segura?

— É uma chave de fenda sônica. Multiuso: ela serve para rastrear e detectar sinais e localidades, analisar seres vivos e não vivos, destravar seguranças, amplificar volumes, concertar ligas, desmontar peças, ouvir música, levar o cachorro para passear e ajuda até a chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.

— Sim, mas por que uma chave de fenda?

— Por que uma guitarra elétrica?

— Por que isso vêm ao caso?

— Por que estamos fazendo perguntas consecutivas?

— Por que nós temos apêndice?!

—... Aí já é uma boa pergunta...

Durante essa discussão infantil e nada produtiva, não demos conta de que o robô tinha fugido, e quando viramos o olhar, ele não estava mais lá.

— Como é que você perde essas coisas de vista, Naota?! – Ele tenta me dar bronca, mesmo não percebendo que ele também estava agindo infantilmente.

Nós fomos atrás do robô e percebemos que ele estava agindo muito estranho e tentando danificar e deteriorar o ambiente, só para variar...

— Você sabe como essa energia é produzida. – O Doutor falou – Ela se adequa à sensação que a deu luz durante seu nascimento. Neste caso, ela desenvolveu um medo constante por abismos ou buracos!

— Ele está destruindo o ambiente para deixar tudo plano! Desse jeito, a cidade vai ser destruída pelos destroços!

À medida que ele deteriorava os escombros da Medical Mechanica, alguns restos caíam sobre nós e tentávamos fugir. Só porque estava quebrado, tenho certeza. Naquela hora, eu devia ter pensado: “isso aqui está destruído, mas ainda não está o suficiente, então vamos quebrar mais ainda para não sobrar nem o pó da mandioca...” afinal, o que é mandioca?! Só fico imaginando o que o meu pai diria se estivesse aqui:

— A “mandioca” é o nome dado a uma planta-raiz nativa da América do Sul usada pelos seus povos autóctones na culinária e que posteriormente seria um dos produtos mais importantes da exportação brasileira, sendo inclusive reverenciada pela sua futura ex-pre...

— ESSA CENA NÃO É SUA AINDA, SEU LOUCO!

— ENTÃO PARE DE GRITAR E FOQUE NA MISSÃO, SEU CABEÇA DE VENTO! Pare de pensar em mim, pelo amor de Hiroki Sato!

Voltando dessa cessão de terapia nada recomendável, eu percebi o que estava acontecendo em nosso redor e falei ao Doutor:

— Não poderemos fugir assim se não dermos um fim naquela coisa!

— Você tem razão..., mas eu preciso voltar para TARDIS e pegar alguma coisa.

— O QUÊ?! – A situação estava muito perigosa naquela hora.

— Fique com isso! – Ele jogou sua chave de fenda para mim.

— O que eu supostamente deveria fazer com isso?!

— Sei lá, só aperta o botão e veja no que dá.... Eu volto logo!

Eu tive que pensar rapidamente no que fazer.... O que a Haruko faria nessas situações?

O robô estava vindo em minha direção. Sem pensar, eu usei a chave de fenda de algum jeito para alguma coisa acontecer: e naquela hora, por sorte ele se desmontou!

No entanto, acredito que ou a chave não funcionou, eu que era ignorante ou a máquina que era resistente, pois eu lembro que ela tinha se recomposto e ficado ainda mais poderosa e agressiva depois disso, com a tendência de querer me eliminar através da queda de blocos que já estava fazendo.

Eis que aparece o Doutor, que já tinha voltado da TARDIS, segurando uma guitarra, e eu já esperava o que fosse acontecer, embora não cresse que ele fosse a pessoa a fazer isso. Ele a beijou levemente e partiu com ela para cima do combate contra a coisa.

Ele destruiu o núcleo do robô quando bateu aquela guitarra, de uma forma um pouco mais agressiva do que a Haruko, sendo que enquanto ela usava a guitarra como se fosse um martelo, o Doutor balançava-o da forma de um machado. Mesmo com uma natureza racional e pacífica, ele era um homem que sabia como demonstrar ira de forma discreta.

A máquina foi destruída e voltamos para a TARDIS. Por aquele momento, ainda estava abismado pelo fato de que o Doutor cometeria aquela ação também.

— Saiba que aquela foi a forma de defesa mais imediata que eu pude pensar. – Ele respondeu. – Não vá ficar pensando que eu sou uma pessoa que apoia a agressividade ou a robofobia.

Mas eu não estava interessado nesse ponto. O que ainda me intrigava era o fato de que, naquele momento, ele fez o que a Haruko faria. Talvez eles tenham alguma semelhança, no final das contas...?