Conversas no Escuro
3 Serei a forma
Notas iniciais
A escuridão constantemente foi um dos maiores medos da humanidade. Olhar para um buraco sem encontrar seu fim e nem ter certeza se realmente existe um fim sempre foi motivo para se desesperar. E nesse momento era só isso que ela conseguia ver: escuridão.
A jovem não podia enxergar nem um único fragmento de luz em sua frente mesmo acreditando estar com os olhos abertos. Ela não fazia ideia de onde estava, mas sabia que seu corpo não podia se mover por estar espremido no que parecia ser uma caixa sem tampa. Acreditou estar sentada com as pernas encolhidas sentindo as paredes frias dar apoio a seu corpo.
A primeira coisa que pensou foi tentar fazer o mínimo de movimento para se localizar e assim que o fez quase instantaneamente sentiu a dor intensa correr por sua pele a fazendo gritar por entre os dentes.
A simples tentativa de afastar suas coxas pareceu ser impossível. Era como se estivessem unidas contra a própria vontade e nem mesmo ela conseguia as separar. Não fazia ideia do que era, mas tinha certeza que se fizesse algo iria causar uma sensação ainda mais temerosa.
Consciente que suas pernas estavam feridas logo passou pela sua mente que o resto do corpo talvez também estivesse e por isso tentou se acalmar evitando fazer qualquer movimento que exigisse muito esforço.
Sua atenção se voltou para o escuro novamente, era como um abismo. Nesse momento sentiu a caixa se mover. Seu coração gelou a fazendo prender a respiração. Logo esse movimento se tornou estável fazendo sons de roda em um piso liso. Esse som foi seguido de vozes a cercando com palavras que não compreendia ajudando a formar imagens desastrosas em sua mente assustada.
Eram vozes graves desesperadas como se temessem algo ou alguém. Em seu abismo os imaginou ao seu redor, dois homens, com expressões dolorosas que a deixava ainda mais instável.
Pensou que deveria questionar o que estava acontecendo, mas ao entender o tom deles achou que talvez o motivo de estar sofrendo estivesse bem ali.
No meio da tensão uma coceira em seu cotovelo a fez instintivamente buscar pelo ponto causando dor em seus dedos e percebendo que seus braços estavam livres. Ela não conseguiu entender o choque em sua pele e com cuidado usou a outra mão para toca-los. Tremula sentiu a ponta de seu dedo apalpar a carne viva onde sua unha deveria estar. Ela afastou as mãos com a respiração se descontrolar e outra coisa chamou sua atenção.
Seus dedos não se movimentavam individualmente, era como se um tivesse sido preso ao outro. Engolindo duramente ariscou entrelaçar os dedos quando sentiu algo impedir. Com cuidado tocou percebendo uma textura áspera que fez o coração estremecer. Ela tentou puxar, mas só se feriu mais. O que quer que estivesse ali estava bem preso e agora fazia parte de seu corpo.
O movimento que sentia parou a fazendo imaginar agora estar em um carinho de compras. Sem ter tempo de se localizar sentiu um toque frio em seus ombros similares a mãos. Ela se assustou institivamente tentando desviar, porém a dor a dominou e em seguida a voz grave ordenou obediência.
Seu coração disparou. A voz estava próxima e tão clara que a fez sentir-se pequena. Sem se mover sentiu as mãos correrem por seu corpo a colocando nos braços e aproximando do tórax desconhecido.
Ela gritou ao ser levantada. Foi um grito agudo, doloroso e aterrorizado. Seu corpo ardia como se milhares de pregos puxassem sua pele tentando arrancar de sua carne e no colo os passos rápidos de quem a carregava não ajudava em seu sofrimento.
De repente parou. Sua respiração desenfreada, seu corpo agarrado a roupa do homem com vigor gritando, implorando por misericórdia e o rosto molhado pelas lágrimas. Percebeu então não só estar com os olhos fechados, mas vendados o tempo todo.
Sem ter sua reflexão respeitada sentiu o corpo ser arremessado no ar flutuando rapidamente em direção ao nada. Quis gritar, mas antes que pudesse sentiu o choque pesado contra o que deveria ser água a puxando lentamente para baixo.
Primeiro seu corpo foi sugado a prendendo numa bolha a fazendo sentir o líquido adentrar a boca e o nariz antes de tomar consciência total da situação. Então começou a se debater desesperadamente contra o peso da água parada que parecia a esmagar fazendo a venda frouxa finalmente abandonar seus olhos.
Tentou prender a respiração, mas já era tarde. A garganta estava fechando, o nariz ardia e o coração batia loucamente. Seu pulmão parecia estar sendo prensado por algo que não conseguia parar.
Seus braços balançavam agitando a água em busca de uma saída, em busca da vida que lhe fugia. Suas pernas ainda presas lutavam a própria batalha em movimentos que ela não podia controlar. Sua nuca queimava sentindo a cabeça pesar e os olhos embaçarem o nada.
Acreditou ser o fim quando fechou os olhos se permitindo ser engolida pelo abismo. Contudo nada aconteceu. Ela permaneceu ali flutuando no mesmo lugar agora com as bolhas não mais ao redor. O corpo dolorido estava começando a se aliviar, tentou respirar sentindo a água adentrar seu corpo da forma mais dolorosa, porém não mortal.
Não conseguia entender e foi quando uma luz se acendeu no meio do nada a cegando. Seus braços instintivamente taparam seus olhos ouvindo sons de vozes abafadas e sentindo toques tremerem a água.
Sua visão se acostumou e com cuidado tentou ver o que estava a sua frente. Era a resposta.
Diante dela deformações pareciam a encarar de trás de um vidro gigantesco. Com medo se aproximou vendo fracamente o que seu reflexo a fez recuar.
Entre seus dedos escamas tinham sido costuradas de mal jeito assim como todo o resto do seu corpo. Suas pernas sangravam entre as amarras que as uniam como uma cauda a transformando no que deveria ser o mais belo dos seres. Sua boca se abriu na tentativa de gritar, mas a única coisa que se ouviu foi o silêncio na escuridão.
♛ Imagem baseada: Alcione por TsukiAkii.
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