Conversas no Escuro
5 Filha
Notas iniciais
Deve fazer mais de uma hora que estou sentada nessa cadeira esperando por algo ou alguém, mas ninguém veio me dar qualquer informação ou tentar mostrar simpatia. Eu sei que estão me olhando. Sinto seus olhos e suas bocas sobre mim desde que cheguei. Sua atenção sou eu, tudo o que invejam, amam e odeiam sou eu. A garota sem falhas da família mais conhecida na cidade.
— Querida, o que está fazendo? Venha aqui.
A voz da mulher atraiu ainda mais olhares para mim que fingi não ver concentrada em apenas seguir com o roteiro que criei mais cedo.
Finalmente. Vou me levantar com a coluna ainda mais ereta do que estava enquanto sentada, meu vestido vai balançar fazendo o encaixe perfeito modelando meu corpo e todos vão comentar como se eu fosse uma aberração.
— Cadê seu sorriso?
Ah, esqueci. Provavelmente passar tanto tempo pensando me fez lembrar que não há motivos para isso aqui, mas, pela expressão tempestuosa dela, eu com certeza estava errada.
— Isso não é uma aula. Então sorria!
— Sim, claro.
— Muito melhor.
Nem faço esforço para levantar os lábios. Agir dessa forma é quase como uma ação robótica programada em meu cérebro e mesmo assim a pele do meu rosto se estica tão forçadamente para parecer sutil que sinto como se tivesse acabado de acordar depois de uma noite de pesadelos.
— A filha dos White perguntou de você.
— Provavelmente querendo tirar proveito de algo, aquela vagabunda.
São dois. Eu nem tinha reparado que o homem estava ali ao lado dela esse tempo todo. Não é como se fizesse diferença. Assim como meu sorriso também não faz.
— Disso não tenho dúvidas. Ah, olha ela ali. Se achando maravilhosa.
Continuam repetindo as mesmas frases desde que os rumores começaram. Tudo isso porque a garota cometeu o erro de fazer contato com o homem errado. Foi atraída por sonhos fantasiosos de uma língua venenosa só para ser jogada em um abismo de pesadelos que ele mesmo criou. Esse é o preço que se paga por querer ser feliz nesse mundo.
— Você não fale com ela!
— Sim, claro.
— Arruma essa postura.
— Sim cla-
— E sorria!
Sorrir. Sorrir e não falar. O sorriso vai resolver.
— Lá vem aqueles dois insuportáveis.
— Estava demorando. Você, não cometa erros.
— Sim, claro.
Os donos da festa. Sim, são dois insuportáveis, mas o que isso faz de nós? Aceitamos estar aqui para julgar outros na intenção de proteger aquilo que consideramos precioso. Somos melhores por reconhecer o certo e errado enquanto esfregamos esse valor no rosto daqueles que vivem diferentemente?
— Encontrei vocês. A família que mais adoro!
— Ora, gentil como sempre.
— Fico feliz que tenham aceitado o convite.
Conversas fingidas com sorrisos fingidos. Pessoas vestindo máscaras o tempo todo por cada canto que se olha tentando subir um sobre o outro nesse amontoado de cadáveres fracassados. Somos melhores?
— A jovenzinha cresceu tanto também.
— Está uma moça maravilhosa.
Sorria. Não é o meu rosto que ele está olhando. Sorria. Eu conheço esse olhar lascivo para cima de mim. Sorria. Meu vestido parece não cobrir minha pele. Sorria. Meu estomago está doendo. Sorria.
— Tenho certeza que é uma dama impecável.
— Claro! Entendida das artes e sabe como manter o lar em harmonia.
Me forçaram a sorrir para que meus lábios ficassem para sempre selados. Quero gritar, quero fugir, quero arrancar os olhos dele, mas esse selo me faz continuar a sorrir.
— E já está quase na hora de arranjar um marido.
Não quero.
— Com certeza será um homem de sorte.
Não quero viver assim. Não quero sorrir.
— Ela quem terá sorte se arranjar alguém como o senhor, não é?
— Sim, claro.
— Fico encantado. Se eu fosse mais jovem não teria deixado passar a oportunidade.
Ele gargalha. Eles. Sua esposa está bem do seu lado, mas está sorrindo também.
— Arrume a postura.
— Sim, claro.
E sorria.
— Eu adoraria que a jovem viesse me ver mais vezes. Tenho contatos que poderão ajuda-la nesse momento.
— Mas é claro! Ficaríamos muito gratos.
— Aproveitem a festa.
Não quero contato. Não posso falar.
— Vamos adiante! Movimentos suaves são importantes. Encante todos os olhos.
— Sim, claro.
Se continuar assim.
— Faça com que olhem somente para você.
Minha mente não se cala e meu corpo não a responde. Dói.
— Mas não se ofereça!
— Sim, claro.
— Você não é aquela puta.
— Sim, claro.
Não quero continuar. Não quero continuar!
— Sorria!
— Seja bela!
Se eu não fizer nada eu vou ficar presa para sempre.
— Você é perfeita.
— Eu disse para sorrir!
Nessa caixa apertada.
— Dance!
— Agora cante!
— Recite!
— Sorria sua inútil!
Mais um pouco e eu não vou aguentar.
— Minha filha é a melhor de todas.
— É um orgulho. Meu.
Eles... Deles... Sorria e um dia vão me ouvir, certo? Um dia tudo isso vai acabar, certo?
— Não vai me decepcionar.
Sorria.
— Agora
Sorria.
— Dance.
— Sim, claro.
♕ Imagem baseada: Blood por TsukiAkii.
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