Conversas no Escuro
6 Podre
Notas iniciais
A vida sempre pareceu tão entediante para ele, um homem que com lábia e muitas habilidades traiçoeiras sempre tinha o que queria cedo ou tarde em suas mãos. Às vezes acontecia de um nova presa cruzar seu caminho, mas o prazer da diversão que tanto precisava sempre permanecia momentâneo.
Ele odiava ter que aceitar que dependia dos outros para fazer sua existência divertida. Era repugnante, ainda mais quando a maior parte de seus dias eram movidos pelo tédio. Contudo, as coisas que normalmente tem o poder de mudar a vida das pessoas — para o bem e para o mal — acontecem nos momentos em que estamos prestes a desistir e para ele não foi diferente.
Em uma tarde tranquila estava em casa aproveitando o tempo com reflexões e planos quando ouviu o som de batidas em sua porta. Não tinha a intenção de atende-la e menos ainda de ter convidados naquele momento, porém a insistência o fez abrir sendo surpreendido pela notícia que mudaria suas tardes tediosas: seu amigo estava doente e precisando de ajuda.
No primeiro momento a o pedido o surpreendeu. Ele conheci o rapaz e sabia de que sua falta de atenção acabaria o levando ao encontro da morte, mas não esperava que a culpa seria de uma doença. Depois ficou confuso do porquê estarem pedindo a ele para cuidar da situação. Claro, eram amigos, mas isso não cabia a família ou outras pessoas próximas?
Apesar das dúvidas aceitou de bom grado, não podia deixar sua imagem de homem perfeito morrer tão cedo assim ainda mais por culpa de um enfermo inútil.
Assim que chegou a casa do rapaz para conhecer a situação não conseguiu encontrar qualquer vestígio no físico dele. Estava sorridente com seu longo cabelo loiro preso e os olhos tão vivos como sempre. Tão saudável como sempre.
— Peço desculpas por te incomodar com esse tipo de coisa, Malphas.
— Não se preocupe. – Sentando-se na poltrona comentou cheio de sorrisos. — A culpa não é sua.
— E ainda assim você está aqui. – Sem jeito riu, sentando-se a frente ainda envergonhado demais para encara-lo.
Em seguida o silêncio caiu sobre eles. A culpa consumindo um e a curiosidade abrindo o apetite do outro. Não é como se não tivessem o que falar, mas nessa situação era difícil encontrar palavras e saber por onde começar.
—Mey. – A voz soou séria, porém os olhos estavam tão fixos que deixavam claro sua ânsia por respostas. — Que tipo de doença é essa? – A pergunta não trouxe mais coragem para o outro o encarar, na verdade, só o fez morder o lábio perturbado. — Eles não me disseram.
— Não é contagiosa.
— Não é a isso que me refiro. – Insistiu, assistindo os movimentos desiquilibrados das mãos que se tocavam procurando por outras saídas sem nem poder se afastar dali. Malphas não tinha pressa, sabia lidar com esse tipo de agitação muito bem e com toda a calma que possuía o aguardou tomar coragem e erguer a cabeça.
— É algo... estranho. – Engasgou olhando por baixo. — Me deixa com um cheiro forte... É como se a morte estivesse dentro de mim.
A explicação fez tanto sentido quanto comer sopa com garfo. Era a primeira vez que ouviu sobre isso e realmente parecia um absurdo, mas pela expressão do amigo não conseguiu se permitir acreditar facilmente que era uma mentira.
— Isso atrai insetos.
— O que?
— Esse cheiro atrai insetos até mim. – Como se as lembranças estivessem vivas em sua mente ele tentou explicar com o rosto contorcido pelo nojo. — Por isso ninguém quer ficar. – Apertando as mãos confessou com os lábios curvados e olhos apagados pela tristeza. — Parece que estou morrendo... Eu tenho medo.
A palavra, a expressão aterrorizada, era isso que o homem procurava! Ele não conseguiu tirar os olhos do amigo vendo os sentimentos tão vivos em sua face, não conseguiu controlar a agitação em seu corpo fazendo a saliva descer áspera pela garganta sedenta.
— Por isso, pedi pra te chamar. – Finalmente ergueu a cabeça encarando com olhos piedosos a face iluminada do outro. — Não me deixa sozinho.
— Ah... Eu – suspirando afastou o calor que tomava seu corpo para evitar revelar sua excitação — jamais te abandonaria. – Suavemente esticou o braço segurando as mãos dele com carinho e assegurando suas palavras. — Eu vou te ajudar.
• • •
Nas primeiras semanas Malphas acompanhou o amigo em todas as visitas ao médico, prestou atenção nos detalhes e medicamentos. Decorou a rotina que o jovem seguia em casa tomando nota dos horários e tarefas. Até morar junto ele foi.
Depois foi a hora de entrar em ação. Já que as visitas se tornaram menos frequentes resolveu tomar o posto como enfermeiro para ter certeza que a mente vagarosa do rapaz não causasse nenhum acidente sozinho. E ele realmente ajudou trazendo até um pouco de cor a vida do jovem.
Mesmo com tantas coisas para fazer e ajudar havia algo que incomodava Malphas. Já deviam estar no terceiro mês desde que tudo começou e ainda assim não havia nada de errado com a aparência ou atitudes e menos ainda com o cheiro.
Os remédios eram reais — ele pesquisou —, as consultas também então por que ele continuava a parecer saudável?
Os dias seguiram normais mostrando que o tédio o perseguia aonde quer que fosse. Era tão irritante, mas agora que estava nessa situação só podia esperar que o amigo melhorasse e ele pudesse partir de vez ou que morresse logo.
Estava arrumando as prateleiras pensando sobre isso quando viu uma capsula em cima da mesa. Jamey podia ser o que fosse, mas não era desorganizado. Seus olhos seguiram para o relógio vendo ser o horário para a dose da tarde e automaticamente assimilou aquilo ao esquecimento do outro.
Revirou os olhos mal-humorado e quando pegou o produto uma ideia cruzou sua mente. E se ele não tomasse essa dose?
Parecia errado? Era errado, mas isso não o impediu de pegar o item e guarda-lo em uma caixa em seu quarto.
Depois disso Malphas rapidamente foi a procura do outro e evitou sair do lado o tempo todo, curioso, sedento por qualquer mínima reação. E, ah, como foi excitante o momento em que percebeu a presença de dezenas de moscas rodear o jovem como se estivessem presas a ele.
Era absurdo como em questão de uma hora ele parecia atrair a atenção de todas as imundices como um cadáver ao relento por dias. Malphas tinha finalmente cessado suas dúvidas e, com isso, deu início a uma paixão.
— Por que... – se interrompendo entre tapas para afastar os insetos Jamey falava em tom assustado — estão aqui? Eu... tomei o remédio?
— Tenho certeza que sim.
— Ah... Então- – O rapaz nem conseguiu se completar quando sentiu o cheiro saindo de sua boca. Automaticamente colocou as mãos nos lábios como se estivesse desesperado para prender algo.
A reação foi tão violenta que Malphas se assustou achando que algo tinha saído do controle.
— Mey? O que foi-
— Se afasta!
O grito o surpreendeu. Nem Jamey teve a intenção em fazer isso, mas agiu em nome do medo esticando uma das mãos na tentativa de manter uma distância plausível.
— Eu vou tomar outro.
— Não! – Antes que pudesse sair dali em direção a cozinha Malphas agarrou seus punhos. — Você não pode-
Enquanto procurava explicar a situação o cheiro adentrou suas narinas o calando quase automaticamente. Era forte e podre como algo que o homem nunca tinha sentido na vida. Os poucos segundos que estava ali foi suficiente para queimar sua garganta e trazer gosto a sua língua revirando seu estomago.
Jamey viu a reação e abaixou a cabeça humilhado pela doença. Para ele, Malphas o abandonaria agora, mas não foi o que aconteceu. Seria melhor se tivesse.
— Vamos esperar o horário da noite. – As mãos apertaram os punhos chamando atenção de volta para ele. — Eu vou esperar.
Jamey assentiu e apesar de assustado ficou aliviado.
— Eu... vou para o quarto.
Rapidamente correu dali deixando Malphas para trás entorpecido pelo furacão de acontecimentos.
• • •
— Que gosto tem? – Sentado na beirada da cama, questionou pegando o copo que o jovem deitado entregava o fazendo ponderar por alguns instantes.
— De nada, eu acho. – Arrumando a coberta sobre seu corpo respondeu sorrindo. — É porque eu tomo direto. E é capsula né?
— Ah, sim.
Os dias se seguiram nesse mesmo clima pacifico depois do incidente. Aquilo só serviu para deixar claro a Jamey o quão certo tinha sido sua escolha ao chamar o amigo como seu companheiro nesse momento de dificuldade. Se fosse outra pessoa, naquela situação, teria ido embora.
Com isso Malphas tinha agora total confiança do jovem, o que acabou sendo o motivo da causa do segundo e terceiro incidente.
— Não está funcionando! – Desesperado e tremendo Jamey gritava em meio as moscas o atormentando. — Se eu estou tomando o remédio, por que isso está acontecendo?!
Não tinha tomado. Quer dizer, na primeira vez não, já na segunda e terceira tomou a capsula, porém era uma feita por Malphas onde ao invés de remédio tinha açúcar dentro.
— Calma, Jamey! Eu vou ligar para o médico e vou perguntar. – Segurando os ombros do jovem fez o seu melhor para passar a confiança necessária que faltava na situação. — Você vai ficar bem. Prometo.
Ele realmente ligou e fez questão de informar o doutor sobre a ótima condição do amigo. Depois foi o momento de achar uma solução que acalmasse o rapaz.
Inventou então uma desculpa dizendo que o médico prescreveu uma substituição do remédio atual por um mais forte para assim conseguir evitar que a doença crescesse mais. Malphas também explicou dos diferentes efeitos que esse novo medicamente poderia causar nele e com tudo resolvido trocou o remédio, dessa vez, por calmantes.
Eram três doses por dia. Na primeira Jamey sentia somente sonolência, na segunda não conseguia andar e na terceira se perdia entre sonhos e realidade.
— Sabe, Malphas – na segunda semana depois da troca já não queria sair da cama e falava com dificuldade sendo obrigado a viver com as moscas infernais em seu ouvido querendo entrar em seu corpo — eu já nem me importo mais com o cheiro. – Malphas se aproximou solidário sentando-se ao seu lado. — Mas os insetos...
— Eu sei. Eu faço tudo o que posso para afastá-los, mas eles te amam... – o comentário soou amável chamando o olhar do outro confuso.
Não era estranho ver o homem falando dessa forma com ele, na verdade, era até comum. Depois que Malphas teve contato com a doença pela primeira vez Jamey percebeu a atitude dele se tornar mais gentil e às vezes a aproximação era tanta que o deixava desconfortável.
O rapaz acabou se acostumando e colocou na cabeça que o amigo estava sendo compreensivo em relação a doença e talvez por preocupação se tornou tão próximo. Só que, nesse momento, ouvir as palavras dessa forma pareceu estranho.
— Malphas... o cheiro não te incomoda?
— Não. – Sorriu tocando-lhe o rosto carinhosamente enquanto olhava os olhos cansados que talvez nem o vissem direito. — Não se preocupe.
Com o tempo Malphas não precisava se preocupar com os remédios ou como enganar o pobre rapaz já que, com o uso de mais de um mês de calmantes, Jamey não conseguia mais raciocinar como um ser humano normal.
Os insetos enlouqueceram sua mente dia e noite e agora já dominavam seu corpo. Havia perfurações e a magreza era evidentemente culpa dos vermes em seu interior. Ele era um cadáver, mas não estava morto.
Malphas não podia deixar que se fosse. Ele o excitava com a aparência moribunda, com o impossível. O fazia querer viver e arruína-lo ainda mais. Ele tinha se apaixonado como os insetos se apaixonaram, como o verme imundo que era.
Ver a decadência, a morte e a loucura trouxe a luz sua vontade destrutiva. Sua paixão pela derrota alheia estava mais viva do que nunca.
— Sabe Jamey, – erguendo o corpo deteriorado colado ao seu sussurrou entre gemidos contentes — eu nunca pensei que um idiota como você fosse me deixar assim.
Abraçado ao rapaz ele esfregava seus braços ao redor dele sentindo os líquidos viscosos que escorriam pelos buracos e a pele gosmenta entre insetos vivos que caminhavam sobre ele. Jamey só podia assistir sem fazer nada, sem falar nada. Não pensava e nem sabia como se sentir. Queria morrer, mas o máximo que conseguia era resmungar se afogando com algo passeando pela garganta.
— Ah... – Com a mão livre ergueu a cabeça o fazendo o encarar. Seus olhos tão lindos do dia que entrou ali estavam pálidos, tristes e deliciosos. — Eu te amo tanto.
A boca do rapaz que mal conseguia se fechar — assim como nada em seu corpo respondia a suas vontades —estava entreaberta dando espaço para uma lacraia sair trazendo um sorriso ao homem agarrado a ele. Malphas se aproximou mais um pouco e abrindo a boca esticou a língua fazendo o inseto seguir para dentro dele antes de selar um beijo no morto-vivo e assinar um pacto com a insanidade.
♕ Imagem baseada: Malphas & Jamey por TsukiAkii.
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