Convergencial
5 Nós enxergamos no escuro
Quase duas dezenas de magos estavam reunidas no jardim e no salão da residência de Rui Arroxelas, reitor do Colégio Imperial, para aquele evento tão aguardado, e, ao mesmo tempo, tão em cima da hora. A maioria deles eram rostos que Thea já conhecia, pessoas ricas e influentes em Sagrada, mas também haviam quatro ou cinco rostos novos por ali, cujas roupas pouco elaboradas e os modos simplórios denunciavam alguma diferença social; mas a diferença parecia acabar aí. Eram apenas magos se reunindo, todos recebendo o mesmo respeito e consideração, o que, na visão de Thea, era surpreendente. Vergonhosamente surpreendente.
Era difícil admitir que algo pudesse forçá-la a propositalmente desviar tanto de sua personalidade, mas em situações como aquela, Theodora Dias preferia passar despercebida. Apesar de seus esforços, essa era uma tarefa seguramente impossível para a neta de Altair e Lourdes Andrade em qualquer evento em que os acompanhasse. Desde que chegara na imensa casa do Magister Rui, muitos dos magos se aproximaram de seus avós, e, estando sempre perto deles, a conversa em algum momento desviava para ela.
Theodora não era uma garota tímida, nem um pouco, e talvez fosse esse o problema. A rigidez formal dos espaços frequentados por magos não era elástica o bastante para ela, e tudo parecia opressivamente menor. Não existia uma sala ou um jardim, o evento todo parecia acontecer confinado dentro dela e a deixavam querendo poder fugir do próprio corpo. Mas enquanto as mãos alisavam a saia plissada de seu vestido para ocasiões elegantes e o salto baixo do sapato batucava no chão quando ninguém estava olhando, ela conseguia manter o rosto sereno e um sorriso educado para todos que apareciam para cumprimentá-la. O segredo era fingir que estava em uma peça de teatro; era irônico como se imaginar em um palco aliviava o desconforto de justamente chamar atenção daquele público desafiadoramente antiquado. Mas que atriz não se sentiria um pouco mais confortável com a ansiedade familiar de estar no palco?
A longa mesa de mogno avermelhado suportava uma dúzia de bandejas de prata cobertas com símbolos incandescentes, assegurando-se da tarefa de manter a temperatura adequada dos diversos pratos, ainda intocados. O encontro havia começado há mais de uma hora. Thea não tinha ideia do que estavam esperando, mas as diversas velas enfeitadas posicionadas sobre a mesa e os demais móveis sugeria que aquilo era mais importante do que um mero jantar.
Seus avós conversavam com o Magister Rui sobre mudanças arquitetônicas nas torres de astronomia do Colégio Imperial, mas ela não estava muito atenta. Felizmente não estava com suas roupas habituais, ou já teria escondido as mãos nos bolsos da calça, postura que sua avó criticava bastante. O bolso discreto do vestido tinha espaço apenas para sua caneta de marfim, que não quis deixar no carro junto com o caderno quando chegaram. Ela captava as partes da conversa em que o Magister a parabenizava por seguir o legado dos avós, ouvindo-o com um sorriso contido. Thea não entendia o porquê de seus avós terem insistido para que ela entrasse na Convergencial, se eram tão próximos do reitor de uma universidade de Ciências Superiores igualmente prestigiada, mas era grata pelo tempo extra na companhia de Dante que a Convergencial lhe proporcionava diariamente.
Enquanto seus avós sugeriam alterações nos projetos, fazendo bom uso de seus conhecimentos de magia cinética aplicada, o tédio lhe fizera notar, pelo reflexo na taça que segurava, que o broche de libélula em seu peito estava um pouco torto. Thea pousou a taça em uma pequena mesa de mármore ao seu lado e usou o reflexo pouco confiável para reposicioná-lo próximo ao laço na gola do vestido. A elegante peça de prata, com suas pequenas zircônias em tons claros de rosa e azul, era a única semelhança com seu estilo diário, um dos motivos pelos quais Thea o conferia com frequência. Sua mãe dizia que o broche era a única alegria em seus uniformes monocromáticos de engenheira mecânica, e Thea sorriu percebendo que sentia o mesmo naquele momento, sendo ele o único traço de cor sobre o vestido branco.
Ainda avaliando o resultado no reflexo da taça, Thea notou que a conversa tediosa do Magister e todos os murmúrios mais distantes haviam cessado. Virou-se a tempo de perceber os olhares dos convidados na direção da porta, a expectativa contida durante todo o evento finalmente começando a se soltar. Uma mulher de cabelos castanhos curtos, vestida de forma simples demais para os magos daquele jantar, acabara de chegar. Recebida com um abraço de Astride, anfitriã da casa e esposa do Magister Rui, ela olhou para os convidados ansiosos e abriu um sorriso sem jeito, desfazendo-se da jaqueta marrom larga e revelando a blusa bege de gola alta por baixo.
— Por favor, digam que eu não estou muito atrasada…
Os outros riram. A despretensão da recém-chegada teve sobre eles o mesmo efeito do sol sobre a geada; o despertar de um estupor que, por um momento, havia-os congelado.
— Você nunca está atrasada, Lygia. — Rui se aproximou para cumprimentá-la após a esposa.
— Vocês podiam ao menos ter começado o jantar! Espero que não tenham ficado com fome por minha causa.
Thea estava com fome, mas a curiosidade lhe distraíra disso. Sentiu as mãos afetuosas de sua avó em seus ombros.
— Ela é uma maga cinética, querida — Lourdes informou baixinho. — Uma das melhores, como você.
Por algum motivo, Thea sentiu que a apresentação estava incompleta. Conhecia sua avó bem o bastante para reconhecer o silêncio abrupto de quando ela desistia de falar algo, e teve a impressão de que, apesar do que a avó dissera, a recém-chegada não era exatamente como ela.
Lygia cumprimentou rapidamente os convidados um por um, demorando-se um pouco mais em alguns. Seus avós não foram o caso, apesar do respeitoso cumprimento para eles e o sorriso amável que dirigiu a Thea. Mas Lygia e os anfitriões logo guiaram os outros para o salão, aparentemente querendo compensar seu atraso. Apesar de não ser a anfitriã, Lygia se sentou no centro, com Astride e Rui a sua direita, e um rapaz de cabelo castanho desgrenhado e óculos que Thea não conhecia. Astride se inclinou para perto dela, os gestos demonstrando uma intimidade antiga.
— Faria as honras, Lygia?
— Claro. — Lygia levantou. — Rui querido, as velas, por favor.
O Magister Rui ergueu a mão displicentemente. Um silvo agitou o ar, leve demais para uma brisa, mas indubitavelmente presente. Thea sentiu algo serpentear pelo ar e cariciar sua pele antes de se dispersar pelo salão. A temperatura subiu. Todas as dezenas de velas soltavam uma fina coluna de fumaça esbranquiçada, queimando com o fogo invisível conjurado pelo reitor, um fogo que só aparecia quando nenhuma outra luz o alcançava.
— Que o fogo oculto nos sirva de lembrete: a magia contida não deixa de existir. O Omnioculto empresta sua força aos filhos que fraquejam, e portanto, nunca estamos sozinhos. Nós enxergamos no escuro.
— Nós enxergamos no escuro.
Mesmo acostumada com o mantra da Igreja do Omnioculto que frequentava toda semana com os avós, Thea respondeu baixo. O sermão era inesperado, mas algo além disso a deixara em alerta. Lygia se sentou e o jantar começou, mas ela havia perdido a fome, então ficou apenas movendo a comida com o garfo e evitando olhar ao redor e pensar demais no que não queria saber.
— Theodora, não é?
Thea respondeu com um meneio e um sorriso acanhado. Lygia parecia satisfeita com alguma coisa.
— Seus avós me falaram muito de você. Soube que é bem habilidosa. O que você faz?
Thea não entendeu o porquê da pergunta, se seus avós tinham mesmo falado sobre ela. Estudante de engenharia era seu sobrenome de acordo com eles. Segurou a resposta na língua por um instante, quando a imagem de um grupo pequeno atravessou sua mente. Uma sala fechada, um roteiro nas mãos, um teatro vazio depois do ensaio. Thea piscou, afastando o pensamento.
— Engenharia mecânica. Na Convergencial.
— É uma ótima universidade. Eu fiz o mesmo curso, mas na Imperial. Só fui na Convergencial uma vez para assistir uma palestra. Ela é bem longe, não é? Deve ser entediante ir e voltar sozinha todo dia.
Thea franziu as sobrancelhas, por um instante deixando escapar seu estranhamento por aquele assunto. Mas a voz de Dante em sua cabeça desviou sua atenção. Não vamos dar motivo para nos jogarem para fora do trem. Ela passava boas horas na companhia do irmão diariamente. O Perpétuo era rápido e nunca parava no percurso, mas a Convergencial fora criada nos anos 60 e teve muita resistência do governo pela proposta de oferecer cursos para magos e mundanos, e só pôde ser construída fora da cidade. A cidade havia crescido até englobá-la, mas ainda era um longo caminho dos bairros mais antigos até ela. Diferente de antes, a memória de Dante recuou rapidamente, como se não fosse a resposta certa.
— É um bom tempo para ler e estudar — respondeu, esperando para ver se seus avós mencionavam algo sobre Dante. O silêncio deles foi um sinal que não soube interpretar. Mas por um lado, talvez fosse bom. Não queria compartilhar nada sobre Dante naquele momento, naquele lugar. Não para aquelas pessoas.
Lygia comentou qualquer coisa em concordância. Thea não conseguiu prestar atenção. Uma suspeita crescia em seu peito. Alguém estava em sua cabeça. Instintivamente levou as mãos aos bolsos, inquieta, mas recuou quando a ponta dos dedos encontrou o corpo da caneta, lembrando-lhe precisaria esconder a ansiedade de outra forma. Então bebeu um gole da taça, aproveitando para lançar um olhar desconfiado para Lygia, mas ela conversava inocentemente com uma senhora elegante de cabelos brancos no lado oposto da mesa. Não fazia sentindo, ela era uma maga cinética. Se estivesse mesmo interessada em sua mente, por qualquer motivo que fosse, precisaria de um intermediário psíquico. Rui e Astride eram elementais. Mas o outro…
Assim que olhou para o homem ao lado esquerdo de Lygia, ele virou o rosto em sua direção, os olhos diretamente nos dela por trás das lentes dos óculos. Intuitivamente, Lygia a olhou de relance, mas continuou a conversar com a senhora sem dar muita atenção. Thea se sentiu exposta ao ser descoberta, como se ele pudesse... não, ele podia ler sua desconfiança. Mas ela não conseguiu afastar o rosto. Desviar o olhar do dele parecia exigir tanto esforço que ela se sentiu exausta só de pensar. Era mais simples continuar olhando, mesmo que, no íntimo, soubesse que algo estava sendo roubado. Algo pequeno, irrelevante. Felizmente, o ladrão não queria deixar nada no lugar. Então ele rompeu o estranho momento e voltou a ouvir a conversa.
Thea remoeu por alguns instantes o que ela estava fazendo. Tinha perdido uma linha de pensamento que parecia importante. A noite trouxera o brilho verde-azulado das velas. Quando voltou a comer, estranhou que a comida que havia acabado de pôr no prato já estava fria.
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Poucas pessoas seguiram Lygia, Rui e Astride para uma sala particular. Além de Lourdes e Altair, apenas mais dois magos entraram, Marcos Iranos e Paulo Gonçalves, ambos chefes de suas famílias e pequenos tenentes do pequeno exército de Lygia.
— Luzes no máximo — ela pediu. Os orbes comuns da sala derramaram uma luz branca no ambiente. Mesmo verde-azulado, o fogo oculto iluminava como nenhuma outra coisa. Para eles, que acabavam de presenciá-lo, a nova sala parecia imersa em penumbra. Paciência. — Vou direto ao ponto sobre os novos rostos de hoje. Desirée e Lucas podem começar imediatamente; Theodora, não.
A expressão de orgulho no rosto de Paulo, pai dos aprovados, era diametralmente oposta à surpresa de Altair e Lourdes. Lygia deixou a taça vazia sobre a mesa em que se apoiava, e, notando a preocupação dos Andrade, logo os tranquilizou.
— A garota é incrível. Acho impressionante como sua família só teve magos cinéticos e parece que cada geração vem mais forte, por sinal. Mas ela não pensa como nós. E vocês mentiram para mim. — Um silêncio desconfortável ameaçou se instalar, os outros magos com um misto de surpresa e ofensa em seus olhares. Lygia agitou a mão como se buscasse dispersar qualquer desentendimento futuro logo ali. — Isso não é uma acusação, é só um fato. Eu não ligo a mínima que vocês criem um garoto mundano. Qual o nome dele?
— Dante — respondeu Lourdes, depois de uns instantes de hesitação.
— Estudante de Direito, estagiário na delegacia, muito intransigente com magos... Não é? — As informações repentinas a aturdiram um pouco, mas Lourdes apenas confirmou com a cabeça. Sabia que Lygia usava um psíquico para ajudá-la a avaliar novos integrantes do movimento. Tinha sido Thea quem dera aquelas informações, mesmo sem sequer saber. — Isso não é um problema, sra. Andrade. O que me preocupa é não terem dito nada, como se quisessem esconder isso de mim. É por que, se eu soubesse, não teria permitido a vinda de Theodora?
— Ela é muito apegada ao irmão — Lourdes concordou, hesitante.
— O apego pelo irmão não é o único fator. Mas não importa. Tê-la aqui foi um risco. O orgulho de ter sua neta como uma de nós não pode jamais pôr em risco todos nós. Por que pensaram que ela estava pronta para os Sânticos?
— Como um mago pode não querer voltar à antiga glória? — Altair rebateu. Ao contrário de Lourdes, parecia mais decepcionado do que preocupado. — Como um devoto, seja ele mago ou mundano, pode não querer o respeito devido aos escolhidos do Omnioculto?
Lygia assentiu com complacência. A única resposta em que podia pensar era que talvez ela não fosse tão devota, mas seria ofensivo questionar a educação que deram a ela.
— Ela não está pronta. Isso pode mudar, mas por enquanto minha resposta é não. — Ela aprumou a postura para falar com todos os presentes. — Agora vocês. Atualizações. Rápido.
— A alquimista não tem aparecido — disse Paulo. — Ela não abriu a floricultura essa semana, mas também não se encontrou com nenhum cliente paralelo. Segui alguns deles. Mundanos, mas ainda não tenho provas de sejam do Levante.
Lygia ouviu sem se pronunciar. Não falava sobre o que ainda não tinha informações suficientes para entender.
— A Magistra Anis foi para Monte Luzeiro ontem — Astride falou.
Lygia comprimiu os lábios em desagrado.
— Estou me atrasando para tudo. — Ela franziu as sobrancelhas para um pensamento, mas logo o espantou e deu um leve sorriso convencido. — Espero que não seja um mau presságio.
— Não conseguimos contatá-la antes de forma alguma. Ela tem um grande desprezo pelos Sânticos, e motivos para deduzir que Rui e eu somos parte deles.
— Ela tem um grande desprezo por tudo. — Marcos revirou os olhos. — Achei que ela nunca mais iria sair de casa. Foi bem repentina a renúncia da reitoria e a viagem para Monte Luzeiro.
— Interessante.
— Você tem outra chave em mente? — Rui perguntou.
— Eu não tinha. A Magistra seria ideal pelo convite da Cátedra, mas... — Lygia ergueu um rosto, os olhos semicerrados fitando o orbe luminoso flutuando no teto. Um sorriso leve, mas bastante animado, despontou em seu rosto. — É, temos alguém. Ele esteve aqui hoje.
— É um dos nossos?
Lygia negou com a cabeça.
— Não somos os únicos que enxergamos no escuro. Vinte e duas pessoas estavam no jantar, mas eu contei vinte e três sombras. Conhece algum mago umbrático, Magister Rui?
Rui hesitou. Se Lygia estava tranquila com a ideia de uma sombra os espionando, Rui tinha mais a perder caso alguma informação vazasse.
— Acho que o mesmo que você. Ele é igualmente difícil.
Talvez nesse ponto, Thea pudesse ser útil, mas Lygia não punha muita fé naquele caminho. O caminho estava aberto apenas para uma eventualidade.
— Certo. Podem ir. Amanhã eu começo a redimir meus atrasos.
— O que vai fazer? — Astride perguntou.
Lygia sorriu como uma criança.
— Vou chamar atenção. Alguma sugestão?
— Você não precisa de ajuda para isso — Astride riu. — Vimos você no jornal, torturando aquela pobre delegada.
— Ah, eu ouvi dizer que ela é divertida de irritar. Não resisti. Além disso, precisava dar uma informação sem que ela me perguntasse como eu sei.
— E ela entendeu a informação?
— Perfeitamente. Ela parece inteligente. — O sorriso infantil se alargou em algo maliciosamente entusiasmado. — Eu realmente espero que ela se torne um problema.
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A Magistra Anis não ia à igreja desde que perdera sua família, mas os anos de fé desiludida não foram suficientes para esquecer das ostentosas construções que pareciam ter como único propósito fazer os fiéis se sentirem pequenos. Nenhuma delas se comparava a Monte Luzeiro. Da metade do monte até o topo, a cidade inteira parecia ser uma única e gigantesca igreja, a Cátedra, incorporada ao relevo de forma que parecia surgir de dentro da terra e rasgá-la rumo a superfície. Dezenas de alas com símbolos mágicos entalhados no chão de mármore, tetos e paredes abertas recebendo a calidez do sol sob o filtro da copa das árvores no exterior. Qualquer brisa trazia o perfume dos ipês e das catléias e tudo confluía para que a Cátedra fosse um lugar de paz.
Mas Anis não se sentia em paz. Tinha sido sua escolha aceitar o convite dos catedráticos, mas tudo o que via eram peças de um quebra-cabeças formando a mesma pergunta: O que estou fazendo aqui?
— Perdi seu interesse, Magistra? — A Catedrática Verônica perguntou da mesma forma que fazia quando era sua professora, muitos anos atrás. Agora as rugas no rosto de Anis não estavam tão distantes das de sua antiga magistra.
— Desculpe — falou. — Não achei que voltaria aqui. Ainda não entendi o porquê de ter vindo.
Monte Luzeiro tinha sido o último lugar em que sua família esteve junta e feliz. Era fácil perder a visão em meio às árvores e ver seus filhos correndo, brincando sem nenhuma preocupação. Mas a proximidade que tinha com Verônica não era suficiente para que compartilhasse isso. O pesar parecia mais forte agora que estava ali, como se o carregasse por duas pessoas. No lago a dor terminará, pensou. Um lugar especial.
— Isso quer dizer que você não pensa em aceitar o lugar na Cátedra? — Verônica julgou, decepcionada. — Não tem outra pessoa no país tão capacitada quanto você, pelo menos nenhuma que tenha conseguido a unanimidade dos catedráticos. E não tem uma única pessoa que recusaria esse convite.
Anis cruzou os braços, os passos lentos quase não faziam barulho contra o piso. Ela encarou a antiga magistra, que tinha parado de andar, mas não respondeu de imediato. Brincou com a ponta do xale azul-esverdeado nos dedos, as pequenas estrelas no tecido translúcido refletindo a luz ambiente, um contraste chamativo contra o conjunto de linho bege que vestia.
— Prefiro deixar para responder no fim da visitação.
Verônica riu com amabilidade.
— Ainda não aprendeu a dizer “não” diretamente, menina? Já não tem mais nada para mostrar, a visitação acabou.
— Já?
— O que mais esperava ver?
Anis ficou em silêncio. Um lugar especial. Não queria compartilhar isso também.
— Certo — Verônica continuou. — Então eu lhe espero no jantar. Com uma resposta.
Verônica se afastou sem demora. Em vez de seguir de volta o corredor, ela atravessou o pátio de grama, que abafou seus passos antes mesmo que ela desaparecesse do campo de visão da Magistra. Sozinha, Anis pressionou as têmporas, incomodada pela dor que seus feitiços não foram capazes de minorar. Uma ofensa a uma maga do seu nível. Uma maga psíquica deveria conseguir cuidar da própria cabeça, mas, no momento, vagar por aí parecia ser a única coisa que a distraía.
Então ela vagou. Voltou para o pátio interno da Cátedra, onde devotos voluntários varriam e poliam as pedras. Embora a maioria fosse de mundanos, a diferença numérica entre eles e os voluntários magos não era muito grande. A manutenção da Cátedra era só mais uma forma de demonstrar respeito e devoção ao Omnioculto, alguns nem viviam em Monte Luzeiro, mas vinham com frequência para realizar o trabalho santo. Anis pensou até ter reconhecido alguns rostos famosos no meio dos voluntários, mas não prestou atenção nem parou para conferir.
Sua caminhada só foi interrompida por um aluno de férias com a família e uma funcionária oferecendo uma muda de roupa para o trabalho de limpeza. Anis dispensou ambos da forma mais delicada que pôde. Passou por corredores vazios e não vigiados, pois ninguém desrespeitaria o lugar ultrapassando os limites permitidos. Nos fundos do térreo, após os salões elegantes, centros de ensino e bibliotecas, havia uma escada espiral antiga que descia abaixo do chão. Anis a tomou prontamente, pensando apenas em como o metal era limpo e polido apesar do tempo.
Assim que encontrou o lugar, uma voz no seu íntimo lembrou que ela não deveria. Um salão primitivo estava no subsolo da Cátedra, com um teto cavernoso alto, iluminado pelo brilho metálico de um lago anormalmente calmo. Anis lembrava daquele lugar, mas não daquele jeito. Em um gesto questionável, se curvou até conseguir encontrar um ângulo em que a visão lhe fosse familiar. Por um momento, pareceu ter encontrado, mas logo se esvaiu.
— Para alguém que não quer ser uma catedrática, você anda por lugares bem restritos. — Atrás dela, Verônica a observava com seriedade, sem decepção ou ameaça no rosto. — O que veio fazer aqui?
Conseguir paz.
— Revisitar uma memória.
Verônica deu um riso descrente.
— Duvido muito que já tenha estado aqui. O lugar é protegido. Só encontrou a entrada hoje porque eu suspendi os feitiços quando vi para onde você ia.
— O que é esse lugar?
— Não posso responder antes de você aceitar o convite. Esse conhecimento pertence à Cátedra.
Anis assentiu, envergonhada por ter sido descoberta sem nem mesmo ter um bom motivo. O que estou fazendo aqui? Um minuto atrás ela tinha um motivo. Agora o havia perdido para sempre.
— Então? — Verônica perguntou, um pouco impaciente. — Quando esteve aqui?
— Acho que não estive — murmurou. Os dedos agarravam o xale verde-azulado como se quisesse rasgá-lo.
Os outros sinais fizeram sentido. A erraticidade de seus atos, a impulsividade com que deixara Sagrada, a dor de cabeça persistente que não poderia resistir aos feitiços se tivesse uma origem mundana. A caminhada sem motivo ou pensamentos até o coração de Monte Luzeiro, a um lugar que estava em sua memória sem nunca tê-lo visto.
Possessão.
— Eu tenho que sair daqui.
Anis passou correndo pela antiga professora, que não fez nada para barrar seu caminho. Subiu às pressas as escadas e andou de volta por corredores que ela não reconhecia, mesmo que tivesse encontrado o caminho tão facilmente antes, quando apenas pensava estar no controle. Finalmente reencontrou o pátio e o ar puro lhe fez bem, embora a pele suasse frio.
Por quê? Durante todo o caminho, essa pergunta ecoava. Por que estava ali, por que ela, por que o lago? Talvez Verônica pudesse explicar, mas segurou o ímpeto de dar meia volta para insistir e questioná-la.
Não tinha certeza de essa ideia tinha sido sua.
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A noite de Dante tinha sido tranquila. Encontrara a casa vazia após o estágio, com um jantar modesto separado para ele na geladeira. Thea costumava pedir esse favor para Lúcia, a cozinheira, quando ela e os avós o deixavam sozinho, mas agora já nem era necessário pedir, ela fazia espontaneamente e, às vezes, até almoçava com ele quando Altair e Lourdes saíam com Thea sem avisar. Dante lembraria de agradecer no dia seguinte. Comeu e lavou a louça às pressas, antes de subir para estudar um pouco.
Quase às 22h, ele deu uma pausa e pegou o violão do pai para dedilhar sem muita atenção. Não queria realmente tocar uma música, apenas se distrair das matérias e ouvir as notas metálicas nítidas contra o silêncio da casa. Mal tinha começado e ouviu o som do carro estacionando. Segurou o braço do violão com a mão esquerda, interrompendo o som das cordas. Passos apressados subiram a escada, o corredor se iluminou e Thea sorriu para ele da porta aberta do quarto.
— Oi. E aí, como foi a tarde?
— Caótica. Como foi o jantar?
— A comida era ruim, e a companhia, um martírio excruciante, como pode adivinhar. Eu já volto com as fofocas, vou tomar um banho.
Menos de dez minutos depois, Thea já estava em seu próprio quarto após o banho. Tinha uma pequena dúvida sobre o que diria para Dante. Os conhecidos de seus avós geralmente eram pessoas antiquadas, na melhor das hipóteses, e preconceituosos arrogantes na pior. Mas tinha algo mais naquele jantar, apesar de não saber expressar a desconfiança que sentira arranhar sob sua pele. Por que não tinha conseguido puxá-la para o mundo de fora, onde as coisas eram claras e pequenas desconfianças podiam receber nomes?
Terminando de secar o cabelo, Thea jogou a toalha sobre o ombro e recolheu o vestido atirado pelo avesso sobre a cama. A caneta de marfim caiu no colchão quando pegou o vestido. Thea a guardou com gentileza no porta-objetos da escrivaninha, onde sempre a deixava à noite e pegava novamente pela manhã. Tinha sido um presente de Dante, uma caneta encantada para nunca perder suas suas ideias de histórias mirabolantes. Bastava segurar a caneta e tudo ia direto para o papel, então raramente se separava dela.
Quando foi deixar o vestido no cesto de roupas, uma mancha preta no tecido impecavelmente branco chamou sua atenção. Parecia ter vazado do forro do bolso escondido. Ela estranhou, imaginando se a caneta poderia ter vazado, mas objetos encantados não costumam apresentar problemas assim, e ela teria percebido alguma coisa nas vezes em que tocou na caneta durante o jantar. Thea franziu a testa ao perceber que as manchas tinham as formas definidas de letras ao contrário. Puxou o forro para fora, revelando palavras que ela não lembrava de ter desejado escrever.
Tem alguém na minha mente.
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