Contrato de Setembro
22 Plano
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IX – CONTRATO DE SETEMBRO
CAPÍTULO XXI — PLANO
Ainda era difícil de acreditar que minha irmã estava diante de mim, sorrindo daquele modo cúmplice da mesma forma que fazíamos quando íamos aprontar alguma coisa contra a nossa babá rabugenta e maldosa quando ainda éramos crianças. Sam estava mais magra e era evidente que não dormia direito a algum tempo pelas olheiras profundas em seu rosto.
Abro meus braços mais uma vez, ansiando por mais contato. Ela sorri compreensiva e imediatamente se joga contra mim. Aperto-a com todas as minhas forças, procurando acalmar meu coração que ainda estava bastante agitado desde que a encontrei de frente ao túmulo de nossa família. Era um alívio imenso tê-la em casa depois de todo o pesadelo que ela viveu em Paris durante o mês passado.
— É tão bom ter você de volta. Não sabe o quanto eu desejei por isso. – Sussurro em seu ouvido e ela esconde mais o rosto na curva do meu pescoço. – Foram tantas noites me perguntando se você estaria bem.
— Eu estou aqui agora e logo vamos nos livrar de Hugh. Esse maldito vai pagar caro por tudo o que ele fez contra nós e a nossa família. – Afirma Sam, afastando-se de mim.
— Desculpa atrapalhar, mas qual é o plano? – Pergunta Freddie, tirando o boné, a peruca e os óculos de grau falsos do rosto.
Observo-o por alguns instantes. Ele realmente estava diferente desde a última vez que nos vimos pessoalmente, quando ele deveria ter uns dez anos de idade. Mesmo não tendo crescido tanto, ele estava muito mais corpulento e ainda mais bonito do que eu me lembrava de ter visto na chamada de vídeo que fizemos quando Sam viajou a primeira vez para Paris. Eu realmente estava feliz por minha irmã ter reencontrado o seu amor de infância e finalmente ter se acertado com ele.
— Sendo sincera, ainda preciso elaborar os detalhes e provavelmente vou precisar da ajuda de Barry para isso, já que ele é muito melhor do que eu em tecnologia. – Respondo, suspirando.
— Se o problema é tecnologia, o nerd pode cuidar disso. Não gosto de admitir isso, mas ele é incrível quando se refere a criar essas parafernálias tecnológicas. – Sam puxa o namorado para mais perto e ele sorri, parecendo orgulhoso do elogio de minha irmã.
— É só dizer o que precisa e eu vou tentar dar um jeito. – Responde Freddie, trocando olhares doces com Sam. Sorrio, encantada com a doçura do casal e a evidente cumplicidade que eles compartilham.
— Certo. – Concordo e paro para pensar como colocar em prática a loucura que eu tinha em mente. – Depois de amanhã, Ben e Mal irão participar do United States Figure Skating Championships, o torneio de patinação artística. A competição irá ocorrer no Bankers Life Fieldhouse e toda a família vai estar reunida. Hugh já deve saber que você está em Hawkins e por isso me atacou ontem a noite. Ele...
— Espera. Ele o quê? – Questiona Sam, irritada. – O que ele fez com você, Beth?
— Isso não...
— O que ele fez? – Insiste minha irmã, visivelmente alterada.
— Ele a esfaqueou. – Responde Daryl e eu lanço um olhar repreendedor. – O quê? É a verdade.
— Também não precisa dizer assim. – Resmungo, vendo minha irmã me encarar em um misto de preocupação e fúria. – Sam, eu estou bem. Não foi profundo. Eu precisei levar alguns pontos, mas não é tão ruim quanto Daryl fez parecer. Está tudo bem agora.
— Eu vou acabar com aquele desgraçado. Farei questão de quebrar o pescoço dele com as minhas próprias mãos. – Ameaça minha irmã caçula, dando um sorriso perigoso.
— Eu também estou ansioso para fazer isso. – Confessa Daryl e eu o encaro, surpresa por sua fala.
Ele cruza os braços e corresponde ao meu olhar com intensidade, deixando claro que estava falando sério. Mordo meu lábio, tentando controlar a vontade que sinto de sorrir. Mesmo depois de tudo o que falei e ele tendo motivos para me odiar, eu não conseguia evitar que meu coração batesse mais forte todas as vezes em que ele se mostrava protetor comigo. Não de uma forma paterna, como era nossa relação antigamente, mas daquela forma mais intensa e apaixonante.
— Você acha que Hugh irá aparecer no Bankers Life Fieldhouse? – Questiona Freddie, tentando amenizar o clima pesado que se fez presente.
— Ele está desesperado, buscando uma forma de escapar da CIA e do FBI. A primeira forma que ele encontrou foi me chantageando usando a sua vida, Sam. Eu tenho certeza de que ele grampeou meu celular. Levando em consideração que ele sabe que a família Barton sempre se reúne em momentos importantes como esse, não importa o que aconteça, eu tenho quase certeza de que ele deve esperar que Sam apareça para assistir à apresentação de Ben. Minha aposta é que se eu der a entender que ela vai, Hugh aparece. – Respondo, encarando o casal a minha frente. – Ou pelo menos deve enviar seus capangas para levar Sam ao esconderijo dele. Pensei em contar com o apoio de tia Tasha e com o auxílio de tecnologia para segui-los ou interferir se ele tentar te machucar. Hugh também deve tentar me atingir, porque ele precisa de algo que somente eu posso dar no momento.
— E o que seria? – Pergunta Sam com preocupação.
— O controle majoritário da empresa. – Conto e minha irmã suspira, incomodada. – É quase certo de que irei me tornar presidente da Corporação Puckett em alguns dias.
— Você está sugerindo que as duas se tornem iscas de Hugh? – Questiona Freddie e posso sentir a insatisfação em seu tom de voz.
— É a única alternativa que temos. – Responde Sam, seguindo a mesma linha de raciocínio que a minha. – A CIA e o FBI estão nessa investigação há muito tempo e até agora não conseguiram detê-lo. O babaca conseguiu até mesmo aparecer e machucar a Beth sem que eles o pegassem. Nós precisamos agir antes que ele consiga o que quer. Odeio essa situação, mas temos que ser realista sobre o fato dele ter uma organização criminosa mundial ao lado dele que tem perseguido a gente desde Paris.
— Ao contrário da gente, ele não tem mais nada a perder. Com os capangas dele em nossa cola, é só questão de tempo até que o pior aconteça. – Completo e Freddie suspira, dando-se por vencido. Ele provavelmente sabia que não adiantava tentar tirar a ideia de nossa cabeça. Sam e eu já estávamos decididas. Por outro lado, posso ver como Daryl estava incomodado com a situação. Eu quase podia ver que ele estava preparando os argumentos para tentar me impedir de seguir em frente com o nosso plano. – Daryl, é a nossa única chance. E se o Freddie conseguir criar um aparelho de escuta e rastreamento, que mostre tudo o que acontece em tempo real tudo o que acontece, podemos conseguir finalmente prender o Hugh. Algo bem semelhante ao que vemos em filmes de espionagem. Além disso, podemos manter os olhos nos capangas de Hugh se conseguirmos acesso as câmeras de segurança de todas as saídas do ginásio.
— Eu posso fazer isso. – Afirma Freddie com simplicidade. – Acho que também consigo criar um aplicativo para ajudar a nos manter sempre em contato e que emita um sinal de alerta em caso de perda de comunicação.
— Viu? Nós teremos tudo sob controle. – Comento, sorrindo animada.
— A CIA e o FBI estão trabalhando nisso. Vamos confiar neles. Não quero que você e sua irmã se arrisquem dessa forma. – Daryl me encara com preocupação e é Sam que suspira.
— Nós vamos ficar bem, Daryl. Confie em nós. – Garante minha irmã, chamando a atenção do homem. Daryl suspira, incomodado.
— Por favor, Daryl. Eu prometo que não vamos nos arriscar mais do que necessário e nós teremos o apoio da tia Tasha. Eu só não suporto mais viver com sem saber o que Hugh pode fazer com você ou com a minha irmã. – Peço, pegando em sua mão. Ele me encara por alguns instantes.
— Tudo bem. Mas, vocês vão ter que contar tudo o que vai acontecer. – Exige Daryl e eu sorrio, balançando a cabeça em concordância. – E eu vocês não vão ficar sozinhas nenhum minuto.
— Eu concordo com o Daryl. É muito perigoso vocês encontrarem o louco do Hugh sozinhas. Ele já deixou claro que é capaz de fazer qualquer coisa. – Responde Freddie, cruzando os braços. Sam suspira, insatisfeita. – É sério, Sam. Essa história já foi longe demais. Eu sei que você é forte e que pode dar conta de muitas coisas, mas Hugh também sabe disso. Não vou te deixar encontrar esse louco sozinha.
— Tudo bem. – Responde minha irmã, dando-se por vencida. Isso me pega de surpresa. Sam dificilmente mudava de opinião quando colocava algo na cabeça, além de ter a mania de afastar as pessoas para protegê-las, algo que infelizmente compartilhamos. E nesse momento, consigo perceber que a garota mudou muito mais do que eu imaginei durante esse tempo em que esteve fora. – Vocês podem participar, mas nada de se meter demais. Essa história é algo que quero resolver por conta própria. É um acerto de contas que tenho esperado desde que ele me enviou para o Troubled Waters. E agora que eu sei que ele machucou a minha irmã, eu não abro mão de dar uma surrar nesse desgraçado.
— Sam... – Começo, tentando acalmar a garota, mas seu celular começa a tocar. Ela levanta a mão, impedindo que eu continuasse a falar e atender o aparelho, enquanto encara o namorado com seriedade.
— Sim. – Fala minha irmã, levando o celular a orelha. – Não. Eu disse que viríamos ao cemitério visitar o túmulo do meu pai. A chuva aumentou e tivemos que ir para um abrigo esperar ela diminuir para voltarmos. Eu sei. Eu sei disso. Não precisa se preocupar. Nós já estamos indo. Não. Não é para vir. Não. Eu disse que não precisa. Nós chegamos em quinze minutos. Espere pela gente no apartamento. Eu tenho algo para te contar. Tudo bem. Tchau.
— Quem era? – Pergunto com curiosidade.
— A agente que está cuidando de nós desde que saímos de Paris. Eu avisei que iríamos vir, mas ela está preocupada com a demora. – Explica Sam, guardando o celular no bolso. Ela se vira para Freddie. – É melhor a gente ir. Tia Tasha vai ficar brava se não voltarmos logo. Além disso, você vai precisar criar um aplicativo e aparelhos de escuta e rastreamento para nós.
— Claro. – Concorda Freddie, dando um fraco sorriso. Ele vai até Daryl e o abraça apertado. Encaro a cena com confusão. – Foi muito bom te ver depois de tanto tempo. Espero que depois que essa loucura passar, a gente possa conversar mais.
— Nós vamos. – Afirma Daryl, correspondendo ao abraço.
Enquanto eles se despedem, viro-me para minha irmã e a puxo para um abraço. Eu não queria que ela fosse embora. Mesmo sabendo que voltaríamos a nos encontrar em dois dias, eu ainda me sentia insegura por não poder ficar mais tempo ao lado dela. Ainda que tenhamos ficado separadas por um mês, eu não me acostumei a viver longe de minha irmã.
— Vai ficar tudo bem. Logo nós estaremos juntas novamente. E eu vou mandar a localização do nosso esconderijo algumas horas antes da competição começar. Vou pedir para tia Tasha entrar em contato com você e acertar os últimos detalhes do plano. – Sussurra Sam, parecendo ler a minha mente. Suspiro, apertando mais seu corpo. – Eu te amo.
— Eu também te amo. – Sussurro de volta, sentindo um aperto em meu peito por ter que me despedir.
— Eu preciso ir. – Avisa, afastando-se de mim.
— Cuide bem dela, Freddie. – Peço, preocupada.
— Pode deixar. – Afirma o garoto, sorrindo compreensivo. Ele me abraça com carinho. – Eu vou cuidar dela. Eu prometo.
— Obrigada. – Agradeço e suspiro, deixando que os dois fossem embora.
Freddie coloca de volta o seu disfarce e Sam arruma o dela. Eles dão as mãos e nos encaram pela última vez, antes de abrir as portas da capela e sair. Observo-os partir, acenando em despedida até que as portas da capela se fecham novamente.
— Tudo bem? – Pergunta Daryl, assim que ficamos sozinhos. Viro-me para o meu marido e ele me encarava com atenção.
— Sim. – Respondo, suspirando. Sorrio e estendo minha mão para ele. – Acho que chegou a hora de cumprir a minha promessa.
Ele pega em minha mão e permite que eu o guie para um dos bancos da capela. Nós nos sentamos em frente ao altar da capela e passo a observar a escultura de Jesus Cristo na cruz e todos os vitrais da capela, tentando organizar a minha mente. Daryl estava ao meu lado, encarando-me em silêncio, enquanto nossas mãos continuavam entrelaçadas.
Um pouco mais calma, eu me sentia aliviada por ter Sam de volta a cidade e por sentir que as coisas estavam começando a dar certo. Com minha irmã sob a proteção da CIA, eu sabia que Hugh dificilmente conseguiria machucá-la. Pelo menos, não até que ela revelasse seu paradeiro. Assim, se meu plano desse certo, minha família finalmente estaria livre e segura.
— Você parece feliz. – Comenta o homem, despertando-me de meus pensamentos. – Pelo menos, mais do que tenho visto nesse último mês.
— Sam está de volta à Hawkins e segura. Ela está namorando alguém que ela realmente ama e que também a ama. Além disso, essa era a chance que eu precisava para me ver livre de uma vez por todas das armações de Hugh. – Respondo, dando um fraco sorriso. Daryl exibe aquela expressão neutra, na qual eu não fazia ideia do que passava em sua mente.
— Quando vamos conversar sobre o que tem escondido de mim? – Pergunta, tentando soltar nossas mãos, mas eu não permito que isso aconteça e ele me encara como se questionasse o que eu estava fazendo.
— Tudo começou com o dia em que anunciamos nosso noivado. – Começo, engolindo em seco. – Ele invadiu a minha sala e tentou me matar. A marca de mão que você viu em meu rosto tinha sido dado por ele. Hugh estava furioso, porque ele sabia que tinha perdido a presidência e que a polícia já estava atrás dele depois de minhas denúncias. Ele queria vingança. E se não fosse por Jimmy, ele provavelmente teria conseguido. Hugh afirmou que voltaria e que me mataria. Depois disso, eu passei a ser seguida e a lidar com seus capangas, tentando me machucar. Por causa dos treinamentos de tio Clint e tia Tasha, eu sabia me defender muito bem e não me importava com os ataques, porque eu sabia que era questão de tempo até que ele fosse preso. Eu não queria te preocupar e nem te colocar em perigo, porque eu sabia que você acabaria se arriscando para me proteger. Por isso escondi de você o que acontecia.
— Beth! – Ele me encara irritado.
— Eu sei. Eu não deveria ter feito isso. Mas... – Suspiro e o encaro com seriedade. – Olha, eu tenho dificuldade para compartilhar meus problemas com as pessoas. Minha família tem o dom de acabar se envolvendo em problemas e eu não conseguiria lidar com mais uma perda importante em minha vida. Em apenas um mês, eu perdi o meu pai e minha irmã. Não podia perder você também e por isso achei que seria mais fácil se eu lidasse com tudo sozinha. Eu sinto muito por esconder algo tão importante assim de você.
Ele suspira e parece ponderar sobre o que eu havia dito. Permaneço em silêncio, esperando que ele absorvesse as informações. Encaro a imagem de Jesus Cristo, esperando que Ele pudesse me acalmar e que me ajudasse a desfazer todo o mal entendido com Daryl.
— Ontem, eu estava muito feliz. Mesmo não sendo algo que eu imaginava fazer algum dia, eu me casei com você, o homem que tenho desejado há dez anos e que jamais pensei que fosse me notar. E tudo estava indo perfeitamente bem até que eu esbarrei em Hugh. Ele descobriu meu ponto fraco e o usou para me atingir. Assim como ele estava na festa, diversos capangas armados dele estavam espalhados pelo jardim e miravam em você, esperando apenas um comando de Hugh para te matar. Eu me desesperei. Ele me levou ao depósito da casa e me mostrou diversas fotos e vídeos suas, mostrando a sua rotina. Ele também tirou fotos de Glenn, Maggie, Hershel, Rick e Michonne com você para mostrar que até mesmo seus amigos se tornariam alvos dele se eu não concordasse com suas chantagens de passar as minhas ações e a presidência da empresa para ele. Em seguida, ele ameaçou entregar diversas provas de que estávamos mentindo sobre o nosso casamento ao consulado americano. Você acabaria sendo deportado e preso. Eu acabei abaixando a guarda e ele aproveitou a chance para me esfaquear. – Respondo, apertando mais nossas mãos, encarando-as, envergonhada e furiosa comigo mesma por ter sido tão fraca.
— Beth. – Ele me chama e ao ver que eu não o encararia, Daryl puxa meu queixo com delicadeza e me obriga a encará-lo.
— Eu sinto muito por ter colocado você e seus amigos em perigo, Daryl. Eu tentei resolver tudo sozinha. Achei que seria mais fácil assim, mas eu só o magoei. – Sussurro e mordo meu lábio, tentando me acalmar. – Os meus votos de casamento... eles eram verdadeiros. Meus sentimentos por você sempre foram sinceros. Eu posso ter cometido muitas loucuras em minha vida, mas propor o casamento de contrato foi a minha maior e melhor loucura, porque dentre todas as pessoas com quem já me envolvi, você foi a primeira que despertou um sentimento que sempre tive medo de sentir. Talvez você não acredite em mim e esse pode ser o pior momento para estar confessando isso, mas, Daryl, eu amo você. Amo como nunca amei e jamais irei amar outro homem.
Ele me encara com seus olhos brilhando com intensidade, surpreso com as minhas palavras. Temendo receber uma rejeição de sua parte, eu não espero que ele me responda e o puxo, chocando nossos lábios de maneira brusca assim como fiz em nosso casamento. Desesperada e apaixonadamente eu o beijo, desejando a todas divindades possíveis que realizassem o meu desejo e me fizesse permanecer para sempre em seus braços.
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