Contrato de Setembro
23 Fantasmas do Passado
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IX – CONTRATO DE SETEMBRO
CAPÍTULO XXII — FANTASMAS DO PASSADO
Beijar Beth sempre era como estar em uma montanha de sentimentos. Eu sentia a meu corpo em chamas, roubando todo o meu fôlego e me fazendo experimentar aquela paixão incandescente que vemos em filmes adolescentes de romance. Tudo é único e intenso. Ela despertava em mim um desejo carnal que jamais senti com nenhuma outra mulher.
Suas delicadas mãos tremiam e apertavam minha camisa como se temesse que eu me afastasse. O aroma floral de seu perfume invade meu olfato e me embriaga, enquanto seu corpo aquecia o meu em meio a tempestade que continuava a cair intensamente do lado de fora da capela em que estávamos. Com as mãos firmes em sua cintura, eu me perdia nessa labareda e impetuosa paixão que parece ter tomado o controle de minha mente. Nossas bocas se fundiam de uma forma quase poética.
Ouvir com tamanha sinceridade que seus votos de casamento haviam sido sinceros me pegou de surpresa e trouxe um alívio que jamais imaginei sentir. Eu ainda me encontrava em estado de choque, tentando absorver todas as informações dadas pela garota ao mesmo tempo em que eu me sentia eufórico. Era como se eu tivesse voltado a minha juventude e estivesse vivendo o primeiro amor novamente.
Beth se aproxima mais e senta em meu colo em uma facilidade impressionante. Ela desliza a mão pelo meu tórax e começa a levantar a minha camisa. Eu sabia que estávamos indo longe demais e no local menos apropriado possível. Não bastava estarmos nos beijando intensamente em um cemitério, estávamos fazendo isso em frente a estátua de Jesus Cristo. Eu não era exatamente um homem religioso, mas estava ciente de que isso ia completamente contra as morais cristãs.
O grande problema é que Beth sempre parecia ter um efeito alucinógeno sobre mim que me fazia perder completamente a minha razão e a noção dos meus princípios. Na verdade, naquele momento, eu não conseguia pensar em nada além de experimentar mais daquela mulher que me tirava noites de sonos e me fazia cometer tantas loucuras.
Minhas mãos parecem ganhar vida e se movem automaticamente, dedilhando e gravando cada curva de seu corpo. Seus suspiros sôfregos e os movimentos insinuantes sobre meu colo não colaborava muito para manter meu autocontrole.
Impaciente, Beth desabotoa minha camisa social e a tira. Em seguida, a loira remove a própria blusa e volta a me beijar sem se importar com nada que acontecia a sua volta. Aperto-a mais contra mim e deslizo minhas mãos pelas suas costas, até chegar ao fecho de seu sutiã. No entanto, antes que eu prosseguisse com aquela loucura, o celular de Beth começa a tocar, fazendo com que um pouco de minha razão retornasse.
— Seu... celular. – Tento falar entre os beijos afoitos de Beth.
— Deixa tocar. – Responde a loira, disposta a ignorar quem quer que estivesse ligando naquele momento.
— Pode... pode ser... importante. – Digo, enfrentando uma luta ferrenha entre ouvir a razão ou dar voz aos meus instintos e a tentação que Beth me causava em diversos sentidos. Beth se afasta e me encara por alguns instantes, mas sorri ao ver que o celular parou de tocar.
— Pronto. Parou de tocar. – A loira volta a me beijar daquela forma envolvente que me tirava o fôlego e qualquer discernimento do que eu estava fazendo. Naquele momento, eu era apenas um ser dominado pela devassidão sexual. Mas, para o bem da minha consciência e para o meu histórico criminal, que definitivamente seria manchado se alguém aparecesse na capela, o celular de Beth volta a tocar.
— Beth... – Sussurro, fazendo um grande esforço para me afastar. O calor subindo pelo meu corpo junto ao prazer que sentia, que enevoava minha mente, não me ajudavam a manter minha voz firme.
— Droga. – Ela resmunga, levantando-se do meu colo para pegar a bolsa que estava sobre o banco da capela.
Enquanto Beth procurava pelo celular dentro da bolsa, tento me recompor e regular minha respiração. A situação em que eu me encontrava estava longe de ser as melhores e parando para pensar no que estávamos prestes a fazer, sinto a vergonha e o desconforto por estar “animado” demais me atingirem. Respiro fundo e volto a vestir minha blusa.
— O que foi, Ben? Eu espero que seja importante, porque eu estava prestes a consumar meu casamento e... – Ela para de falar e arfa, arregalando os olhos. – Como assim Barry e Cait sofreram um acidente de carro? O que aconteceu? Onde eles estão? Eles estão bem?
Levanto-me no mesmo instante e me aproximo da loira, tentando entender o que estava acontecendo. Um alto trovão ecoa pela cidade, mostrando que a chuva não acabaria tão cedo. Beth respirava ansiosa e assustada. A preocupação estava presente em seus olhos, enquanto ela ouvia atentamente toda a explicação de Ben sobre o acidente envolvendo o primo e a namorada dele.
— Deus! Não. Está bem. Sim. Eu já estou indo para aí agora mesmo. Me mantenha informada se tiver alguma novidade. Tudo bem. Obrigada. – Beth encerra a ligação e me encara em desespero. – Nós precisamos ir agora mesmo para o IU Health Methodist Hospital. Barry e Cait se envolveram em um acidente e acabaram capotando o carro. Ben não soube dizer como eles, mas Austin disse que eles estão bem machucados.
— Claro. Vamos lá. – Digo, entregando a blusa que ela havia tirado antes. A garota veste a blusa e pega a bolsa, mexendo em seu celular. – Espere aqui. Está chovendo muito forte. Eu vou trazer o carro para mais perto e...
— Não. Eu vou com você. – Responde, ansiosa. – Nós temos que ir logo para o hospital. Até você ir e volta iremos perder muito tempo.
— Certo. – Concordo, vendo que Beth estava nervosa e a preocupação pelo que poderia ter acontecido, então não adiantava em nada tentar convencer a garota do contrário.
Pegando os guarda-chuvas quebrados, deixamos a capela e corremos o mais rápido possível até o carro. Sem perder tempo, assim que chegamos ao veículo, partimos para o hospital. Enquanto Beth digitava freneticamente em seu celular, provavelmente conversando com os primos, fixo minha atenção na pista, esperando que tudo não passasse de um grande susto e que Barry e Cait ficassem bem.
Assim que chegamos ao hospital, Beth nem mesmo esperou que eu estacionasse o carro direito. Ela simplesmente desceu do veículo, quando eu parei o veículo no estacionamento e saiu correndo na chuva para o hospital. Suspiro e pego meu casaco no banco de trás para cobrir a garota, que provavelmente ficaria doente depois de pegar tanta chuva.
Sigo para a recepção do hospital e eu a encontro conversando com as recepcionistas em busca de informações. O IU Health Methodist Hospital é o maior hospital da cidade e pertence a família de Austin, Oliver, Thea e Barry. Basicamente, era o local onde todos os médicos da família Barton trabalham. Aproximo-me da loira e coloco o casaco sobre os seus ombros, surpreendendo-a.
— Desculpa. – Sussurro e ela nega, suspirando. Beth veste melhor o casaco e encara a recepcionista com apreensão.
— Beth? – Uma voz masculina soa próxima a nós, chamando nossa atenção. Ao nos virar, vejo um homem alto e corpulento de cabelos castanhos e olhos verdes se aproximar. Ele usava um jaleco, crachá, um estetoscópio ao redor do pescoço e a prancheta em mãos, mostrando que era um dos médicos do hospital.
— Cop! – A loira corre até ele e o abraça apertado. Assisto a cena, tentando entender o que estava acontecendo e quem era aquele homem que ela abraçava com tanta intensidade. – Eu não acredito que está de volta na cidade e trabalhando no IU Health.
— Eu voltei tem pouco tempo. É muito bom te ver novamente. Está tudo bem? – Pergunta o homem, afastando-se para encarar a loira.
— Não. Quer dizer, sim. – Responde de maneira apressada e o médico a encara confuso. – Eu estou bem, mas meu primo talvez não esteja.
— Seu primo? Por acaso está falando de Barry Allen? – Questiona o homem e Beth concorda, balançando a cabeça. – Ah, o hospital todo estava um caos por causa disso. Dr. Henry e a dra. Echo estavam desesperados pelo estado do filho, então o dr. Robert colocou todos os melhores médicos para cuidar dele e da namorada. Se eu não me engano, eles estão passando por exames na ala especial do hospital. Eu posso te levar até lá se quiser.
— Por favor. A recepcionista estava procurando por ele, mas não parece muito animada para me passar informações. – Responde Beth e a mulher a encara com uma expressão nada agradável.
— Eu vou levar a Beth até o local onde estão os membros da família Allen, Sydney. – Avisa o médico, sorrindo simpático para a recepcionista, que suspira e volta a encarar a tela do computador. O homem volta a encarar Beth e passa o braço por cima dos ombros da mulher. – Vamos lá?
— Sim. Por favor. Eu preciso saber se eles estão bem. – Pede Beth, ansiosa.
— Obrigado por ajudar a minha esposa, doutor. – Agradeço, puxando Beth para perto de mim. O homem me encara confuso e loira finalmente parece perceber a minha presença.
— Esposa? – Questiona o médico, encarando Beth.
— Sim. Desculpa. – Ela suspira e me dá um sorriso sem graça. – Cop, esse é Daryl Dixon, meu marido. Daryl, esse é o dr. Cooper Seldon. Nós somos... amigos de longa data, eu acho.
— Uau. Quem diria que Beth Greene se casaria. – Comenta o médico com humor. Ele estende a mão e sorri. – É um prazer conhecê-lo. Beth e eu estudamos na mesma escola quando crianças, mesmo que fôssemos de séries diferentes, e voltamos a nos encontrar na faculdade. Frequentamos muitas festas juntos naquela época.
Encaro o homem por alguns instantes. Ele parecia ser apenas um pouco mais velho que Beth. Era jovem e bonito. E pela maneira como encarava Beth, eu tinha certeza de que eles já se envolveram de alguma forma. E de repente, passo a me sentir incomodado com a presença dele.
— Prazer. – Respondo, fazendo questão de apertar a mão do médico com mais força. Ele parece sentir dor e sorri sem graça. Assim que eu solto sua mão, ele passa a massageá-la. – Não queremos tomar muito do seu tempo. Você deve estar ocupado. Por que não nos diz aonde eles estão e nós vamos sozinhos.
— Ah, não será incomodo algum. Eu...
— Por favor. Eu insisto. – Interrompo o médico, forçando um sorriso. Ele parece entender que eu não o queria por perto e dá uma risada anasalada. Beth nos encara confusa.
— Claro. Obrigado. – Agradece o homem, rindo, enquanto balança a cabeça em negação. – Vocês devem seguir esse corredor e virar à direita. Depois de dois corredores, virem à esquerda e peguem o elevador no final do corredor. Vá para o décimo quinto andar. Lá, vocês informam o nome dos pacientes na recepção e se identifiquem como parentes. A recepcionista vai orientar vocês para onde devem ir.
— Obrigada, Cop. – Agradece Beth, abraçando o homem mais uma vez.
— Não precisa agradecer, Beth. Espero que seu primo fique bem e que a gente se encontre novamente em uma situação melhor. – Responde o médico, afastando-se da mulher. Ele então me encara e sorri educado. – E mais uma vez foi um grande prazer o conhecer, sr. Dixon. Você é um homem de sorte. Beth é uma mulher incrível.
— Eu sei. Obrigado. – Afirmo, apertando a mão dele mais uma vez em despedida.
Para o meu alívio, não demora muito para que o médico bonitão que parecia ter mais intimidade do que deveria com Beth vai embora. A loira então me puxa pela mão para irmos até o local indicado pelo dr. Cooper onde Barry e Cait deveriam estar. Eu sentia a sua angústia e o medo do que poderia ter ocorrido com os dois. Isso me lembrava a época em que Sara Hopper morreu. Era uma das primas da família Barton e eu tinha me tornado sócio de Kyle há pouco tempo.
Sam e Beth ficaram arrasadas com a morte precoce da garota, que na época tinha apenas treze anos e já vinha lutando há muito tempo contra o câncer. Por ser a mais velha dos primos, Beth foi quem sentiu mais com a perda, já que que conhecia a garotinha desde que ela estava na barriga da mãe. Lembro-me de ver a loira passar meses lidando com o luto e a dor de perder alguém que tinha como uma irmã mais nova.
Não era de se estranhar que Beth estivesse tão nervosa. Ela já estava lidando com muitas perdas recentemente. Sam tinha acabado de voltar e provavelmente as lembranças sobre o dia que perdeu o pai e do momento em que recebeu a notícia de que Sara havia morrido estavam rondando sua mente naquele momento. Os fantasmas do passado mais cedo ou mais tarde sempre voltam para nos atormentar.
E enquanto corríamos, desviando de médicos, enfermeiros e pacientes que andavam de um lado para o outro, Beth e eu acabamos esbarrando em uma mulher. Por instinto, acabo puxando o braço da mulher, impedindo que ela fosse ao chão. No entanto, o impulso foi mais forte do que eu planejava e ela acaba batendo contra meu peito.
— Desculpe. Você está bem? – Pergunto, afastando a mulher com cuidado, enquanto Beth solta meu pulso, preocupada. A mulher se apoia em mim, parecendo um pouco perdida.
— Sim. Eu... – Ela levanta o rosto e eu me surpreendo ao reconhecer a afro-americana de longos cabelos cacheados, olhos negros e lábios carnudos. A mulher arregala os olhos e aperta meu braço que usava de apoio. – Daryl?
— Claire? – Sussurro, atônito.
— Ei, eu... oi. – Cumprimenta Claire, envergonhada. Um clima pesado se faz presente. Eu não conseguia acreditar que depois de tantos anos, eu a encontraria novamente. – Nem parece que o tempo passou para você. Não mudou nada durante esses anos.
— O tempo também não parece ter passado para você. – Comento, ainda atordoado. Encarando-a com mais atenção, as únicas mudanças que eu via em Claire era o seu cabelo, que agora estava mais longo e claro, e o estilo de roupa que usava.
Nós finalmente percebemos que ainda estávamos próximos e nos afastamos por completo. Novamente o clima se torna pesado. Eu não sabia bem como reagir e ela também parecia incomodada. Na última vez que nos vimos, palavras que não deveriam ter sido ditas foram trocadas e meu coração se partiu por completo ao descobrir que ela havia fugido com Dominic Windsor, deixando-me completamente endividado.
— Eu... não esperava encontrar você por aqui. – Comenta Claire, dando um fraco sorriso. – Mas já que aconteceu, será que podemos conversar? Acho que temos alguns assuntos pendentes para tratar.
— Eu não sei. – Respondo, desconfortável com a situação.
— Por favor, Daryl. Eu... por favor, me deixa explicar tudo o que aconteceu. Eu... você merece uma explicação. Por favor. – Insiste a mulher, pegando em meus braços quase em desespero. Encaro-a de volta, incerto sobre o que deveria fazer. Durante anos, eu esperei por explicações e agora eu já não tinha certeza se queria desenterrar um passado que aos poucos estava ficando para trás.
Nesse momento, o toque de um celular quebra o silêncio ensurdecedor que fazia no corredor em que estávamos. Desvio o olhar de Claire para Beth que me encarava desolada. A loira desvia o olhar e pega o celular que estava em sua bolsa. Ela respira fundo e atende à ligação.
— Oi Austin. – A voz de Beth soa fraca e ela parecia vulnerável. Eu não sabia dizer se era a preocupação com o Barry e Cait que havia a deixado assim ou se era a presença de Claire que a incomodava. – Eu já estou no hospital. Não. Eu chego em cinco minutos. Está bem. Tchau.
— Alguma notícia de Barry e Cait? – Pergunto e Beth suspira, guardando o celular na bolsa.
— Não sei. Meus primos estavam preocupados com a minha demora e por isso ligaram. Eu... eu vou na frente. – Responde Beth, mordendo o lábio em seguida. E sem esperar qualquer resposta, ela dá as costas e continua o caminho de forma apressada.
— O quê? Beth! Espera... – Mas meus chamados parecem não chegar aos ouvidos da garota que simplesmente desaparece sem olhar para trás.
— Quem é ela? Sua filha? Neta? – Pergunta Claire, confusa.
— Esposa. – Respondo e a mulher me encara surpresa.
— Esposa? Desde quando você gosta de menores de idade? Ela parece ter uns quinze anos. – Comenta Claire e eu a encaro com seriedade. – O quê? É a verdade. Não sabia que gostava de garotinhas.
— Ela tem vinte e oito anos e é uma mulher incrível. – Respondo, irritado com o olhar de julgamento que recebia de Claire.
— Vinte anos de diferença? Você realmente tem idade para ser o pai dela. – O tom de desdém usado pela mulher acaba com o pouco de paciência que ainda me restava.
— O que você quer, Claire? Dez anos se passaram. Não temos mais nada para conversar. – Resmungo, irritado.
— Eu disse que eu queria explicar tudo o que aconteceu. – Retruca a mulher, suspirando cansada.
— Você e Dominic afundaram a empresa em dívidas, roubaram meu dinheiro e fugiram, sabendo que o idiota aqui iria pagar tudo o que vocês deixaram para trás. Não tem o que mais explicar. – Resumo os acontecimentos do passado e ela se encolhe, parecendo se sentir exposta.
— Não foi bem assim... – Começa, mas eu a corto.
— Se isso é tudo, eu irei atrás da minha esposa que está precisando de mim. Com licença. – Digo, afastando-me da mulher, mas ela puxa meu braço, impedindo que eu continuasse.
— Daryl, por favor, não seja tão teimoso. Eu quero me desculpar com você. Será que dá para você me ouvir? É exatamente por isso que eu fui embora. Você nunca escuta as pessoas, quer ser sempre o dono da razão. Nenhuma mulher aguenta isso. – Resmunga Claire e eu a encaro, incrédulo com as palavras usadas pela minha ex-noiva.
— Então está dizendo que a culpa de você ter me traído é minha? – Pergunto, rindo descrente. – Só pode ser brincadeira.
— Eu só estou dizendo que você sempre colocou todo mundo antes de mim. Você sempre estava preso no trabalho e raramente me dava atenção. Eu nunca sabia dizer o que se passava em sua mente. Até mesmo para te tocar eu tinha que ter cuidado. Acha que era fácil para mim lidar com seus traumas e todas as suas desconfianças? Era como se eu estivesse sempre pisando em ovos. No começo, eu achei que suportaria ou que você mudaria, mas chegou um momento em que eu cansei. Eu simplesmente cansei de suas cobranças e inseguranças. Você queria ter filhos, mesmo sabendo que eu não me dou bem com crianças e que provavelmente nunca seria um bom pai. Ainda esperava que eu participasse da sua vida filantrópica e estava sempre me obrigando a estudar. Nenhuma mulher suporta isso, Daryl. E eu tenho certeza de que essa sua esposa não vai aguentar também. Em algum momento ela vai acabar se cansando de você, assim como eu. Ela ainda é jovem. Tem uma vida inteira pela frente. Por enquanto, você é só o velho que ela vai exibir para as amiguinhas. Quando ela ver como é cansativo estar ao seu lado, a garotinha vai te dar um pé na bunda e encontrar alguém da idade dela. – Responde Claire e por mais que eu quisesse ignorar, suas palavras atingem meu ponto fraco e fazem minha insegurança falar mais alto.
— Ela não é assim. Beth não é como você. – Afirmo, sentindo meu sangue ferver e um turbilhão de pensamentos rondar a minha mente.
— Será mesmo? – Questiona Claire, plantando aquela semente maligna da dúvida em meu coração. – Você tem certeza de que não é só mais um brinquedo que ela está usando?
— Como eu pude um dia me apaixonar por uma pessoa tão cruel, sem caráter e amargurada como você? – Indago, decepcionado. No entanto, eu não daria o prazer a minha ex-noiva de me ver sofrendo ou incomodado com suas palavras. Aproximo-me mais de Claire e ela dá alguns passos para trás, intimidada. – Sinceramente, obrigado. Obrigado por ter ido embora e mais ainda por ter aparecido para me mostrar que durante todos esses anos eu estive apaixonado por alguém que criei e projetei em você. Você me fez perceber que eu fiz a escolha certa. Felizmente, eu me casei com uma mulher linda, decidida, amável, teimosa, inteligente, altruísta e sincera, que ama a família e que faz de tudo para proteger as pessoas que ama. E agora, depois de conversar com você, eu tenho a certeza de que ela é a mulher que eu amo e a única pessoa com quem quero passar o resto da minha vida. Então, mais uma vez, muito obrigado, Claire.
Com o orgulho ferido, Claire engole em seco e vai embora com uma expressão de insatisfação. Suspiro e levo as mãos ao rosto, sentindo minha cabeça latejar. Por muitos anos eu idealizei nosso encontro. Em algum ponto durante esse tempo, até mesmo imaginei que ela pediria o meu perdão, diria que só agiu daquela maneira por causa de Dominic e que reataríamos nosso noivado.
Mas tudo mudou desde que Beth entrou se pedir licença em minha vida. Sua espontaneidade, teimosia e imprevisibilidade eram difíceis de ser ignoradas. E antes que eu percebesse, qualquer esperança de retornar com Claire deu lugar ao desejo de descobrir mais sobre aquela garota que aparentava ser um furacão com toda a sua determinação, mas que no fundo é alguém sensível, que luta bravamente para proteger tudo o que acredita e ama.
Eu achei que meu amor por Beth fosse o bastante para ignorar as minhas inseguranças e receios do que as pessoas vão pensar de nós, mas era como se Claire tivesse aberto a ferida e colocado sal sobre ela. Novamente, eu me via naquele ponto de partida, sem saber se seria forte o bastante para proteger Beth, para lutar contra todos os que ainda irão se opor ao nosso relacionamento, para manter o bonito sorriso da mulher que eu amo sempre em seu lindo rosto.
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