Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Aqui estou eu com mais um capítulo para vocês. Quero agradecer aos comentários fantásticos de VacuumCleaner, AndreaNeves e Mari no capítulo passado. Vocês são maravilhosas demais. Obrigada pelo carinho. Espero de verdade que gostem desse. Boa leitura...

ROMANCES MENSAIS

LIVRO IX – CONTRATO DE SETEMBRO

CAPÍTULO XII – MÁGOAS

— Por que você não me disse que a noiva de Daryl era a minha irmã?

— Eu não sabia! Ele apenas me disse que tinha noivado e que a garota de chamava Beth. Pensei que fosse um apelido, não que era realmente o nome dela e que ela também era a sua irmã.

— Você é o melhor amigo dele. Deveria ter insistido. Ele acabaria te contando e você poderia ter me avisado. Assim, eu conseguiria me preparar.

— E isso faria alguma diferença? Saber que sua irmã mais nova viria te deixaria mais calma ou mudaria a situação estranha em que estamos?

— Não. Mas pelo menos eu saberia que ela estava vindo.

Maggie e Glenn continuavam a cochichar na cozinha, em uma discussão estranha, sem se lembrar que o cômodo era perto o bastante para que Bethe e eu escutássemos da sala de estar da casa. O filho do casal, Hershel, brincava com dois carrinhos na mesa de centro, completamente alheio ao que acontecia a sua volta.

Desvio o olhar para Beth e ela brincava com o anel de noivado, encarando-o de maneira pensativa. Era nítido o seu desconforto e eu não sabia o que fazer para que ela se sentisse melhor. A conversa nada discreta de meu melhor amigo e sua esposa não ajudava em nada a tornar o clima mais agradável. Eu também temia dizer alguma coisa e acabar deixando Beth ainda mais introvertida.

— Desculpa a demora. – Lamenta Maggie, aparecendo na sala com uma bandeja e mãos. – Com licença, filho. Deixa a mamãe colocar a bandeja na mesa de centro. Está na hora de comer.

Hershel se vira da mesa para o sofá e continua a brincar com seus carrinhos. Maggie coloca a bandeja com a jarra de suco, copos e alguns biscoitos na mesa de centro e se senta no sofá de frente para nós ao lado do filho. Glenn aparece na sala e observa as duas garotas, incomodado. Encaro meu melhor amigo e com o olhar, exijo alguma explicação, mas tudo o que ele faz é dar de ombros, como se não soubesse o que fazer.

Com exceção dos barulhos que Hershel fazia, imitando o som de carro e de batida, o ambiente fica completamente em silêncio. Beth continua a mexer no anel de noivado em seu dedo anelar da mão esquerda. Ela estava tensa e evitava encarar Maggie. Glenn se senta ao lado da esposa no apoio de braço do sofá e faz sinal para que ela começasse a conversar.

— O seu anel de noivado é muito bonito, Beth. – Comenta Maggie, sorrindo nervosa.

— Sim. – Responde Beth, monossilábica. A loira continua a encarar o anel, sem dar qualquer abertura a Maggie, que balança as pernas de maneira inquieta e nervosa.

— Você está com fome? Eu trouxe biscoitos, mas posso preparar alguma outra coisa para você comer, se não gostar. – A esposa de meu melhor amigo tenta mais uma vez se aproximar de Beth, que balança a cabeça negando.

— Não estou com fome. Obrigada. – Agradece, encarando-a minimamente antes de se encolher no sofá e voltar a encarar o anel de noivado fixamente, como se ele fosse o objeto mais valioso no mundo.

Novamente, o silêncio se instala entre nós. Tento pensar em alguma coisa para falar e aliviar o clima pesado, mas nada parecia ser bom o bastante. Não saber sobre a história de Beth e Maggie serem irmãs também não me ajudava em nada a descobrir como deveria reagir naquele momento. Glenn também parecia deslocado, encarando a esposa e Beth.

— Bom... Beth, é um prazer finalmente te conhecer. Ainda que Daryl não tenha me dito seu nome completo, ele falou muito sobre você. – Glenn se levanta do sofá e se aproxima de Beth, estendendo a mão. – Eu me chamo Glenn Rhee e sou uma das poucas pessoas que ainda aguenta o rabugento do Daryl.

— É também um prazer finalmente te conhecer, Glenn. Daryl também me falou muito sobre você. – Beth cumprimenta o homem, apertando sua mão. Ela ainda parecia um pouco incomodada, mas dá um sorriso gentil, enquanto o responde.

— Espero que ele tenha falado apenas coisas boas. – Comenta Glenn mais animado depois da resposta mais agradável de Beth. Essa era a primeira vez que ela abria a boca para falar mais de uma palavra desde que chegou à residência de meus amigos.

— Todas muito boas. Inclusive, sinto que devo agradecer por ter o ajudado tanto desde que se conheceram. Acho que não preciso dizer isso, mas Daryl não é muito bom com as palavras e tem dificuldades para externar o que sente, então eu tenho quase certeza de ele nunca disse isso, mas ele é realmente muito grato a você por tudo o que fez e continua a fazer por ele. – Responde Beth, parecendo mais confortável.

— Ei! Não precisa ficar agradecendo as pessoas em meu lugar. – Resmungo, um pouco envergonhado por ela ter dito tudo o que eu sentia em voz alta e por ter acertado que eu nunca havia agradecido a Glenn por ser um amigo tão generoso e companheiro.

— Eu conheço muito bem essa peça, então eu sei disso. Ainda assim, é muito bom ouvir isso. Obrigado, Beth. Na verdade, eu que sou grato a ele por ter me dado tantos conselhos e ter sido como um irmão mais velho para mim. – Responde Glenn, encarando-me com um grande sorriso.

Correspondo ao sorriso, porque eu realmente não tinha palavras para expressar a gratidão que sentia por Glenn. O silêncio volta a se instala entre nós, até que Hershel se levanta do chão com seu carrinho e se aproxima de nós com curiosidade. Ele observa Beth e entrega um dos carrinhos para ela, que hesitante acaba pegando.

— Vamos brincar. – Pede Hershel, puxando a mão de Beth.

— Filho, não. A tia Beth está cansada. Vai guardar seus carrinhos no seu quarto para irmos comer. – Maggie encara Beth com um fraco sorriso e tenta puxar o filho, mas o garoto se afasta para mais perto de Beth, negando-se a guardar os brinquedos.

— Mas eu quero brincar, mãe! – Choraminga o garoto, apertando o carrinho em sua mão contra o peito.

— Mas...

— Está tudo bem. Eu não me importo de brincar com ele. – Responde Beth, deixando sua bolsa sobre o sofá. Ela se levanta e se senta no chão com o carrinho que Hershel a deu em mãos. Ela se vira para o garoto e dá um sorriso amável, enquanto bate a mão ao seu lado. – Senta aqui. Vamos brincar de carrinho.

Hershel sorri e seus pequenos olhos puxados herdados da herança coreana da família pai se fecham formando traços adoráveis. Ele se senta ao lado de Beth e começa a mover o carrinho que tinha em mãos. Beth também o move e eles passam a simular batidas, assim como o garoto fazia sozinho instantes atrás.

— Não precisa fazer isso, Beth. Imagino que esteja cansada. Se der corta a ele, vai acabar esgotando todas as suas energias. – Avisa Maggie, encarando a irmã com um sorriso emocionado. Ela parecia querer chorar, enquanto assistia o filho brincar com a loira.

— Não tem problema. Eu gosto de brincar com crianças. – Garante Beth, prestando atenção em sua brincadeira com Hershel.

Eu continuava a não entender o que estava acontecendo. Kyle e Beth nunca me disseram que a garota tinha uma irmã mais velha. Minha mente passa a criar inúmeras teorias, mas nenhuma parecia explicar a inesperada relação entre Beth e Maggie.

— Já faz anos desde que você viu o Hershel. – Comenta Maggie e vejo Beth ficar tensa. As duas mulheres se encaram, mas não demora muito para que Beth volte a prestar atenção no sobrinho. — Ele está muito maior desde a última vez que o viu. Você deve estar muito surpresa.

— Hershel... – Sussurra Beth e o garotinho a encara com seus olhos miúdos, tão negros quanto os do pai.

— Sim. Eu decidi colocar o nome dele em homenagem ao nosso pai. – Conta Maggie e Beth dá uma risada desgostosa.

— Seu pai. – Corrige Beth, finalmente encarando Maggie. – Meu pai se chamava Kyle Puckett. Hershel e eu apenas tivemos a infeliz coincidência de compartilhar do mesmo sangue.

— Beth, eu sei que você tem motivos para odiar o nosso pai, mas ele realmente se arrependeu do que fez com você. Nos últimos dois anos de vida dele, não teve um dia em que ele não dissesse que se arrependia... – Maggie é interrompida mais uma vez pelo sorriso sarcástico de Beth, carregado de amargura e mágoas.

— Ele se arrependeu? – Repete Beth, dando uma risada anasalada. – Não foi o que pareceu na última vez que nos encontramos.

— Beth, ele se desculpou com você. – Insiste Maggie e vejo o rosto de Beth começar a adquirir uma coloração avermelhada.

— Não, Maggie. Ele não se desculpou. Tudo o que Hershel fez foi tentar justificar suas ações. Não tente colocar palavras na boca daquele homem inescrupuloso. – Responde Beth de maneira fria. Maggie se encolhe, parecendo intimidada com a forma como era encarada pela irmã.

— Eu sei que ele não era perfeito e que errou muito com você, mas...

— Não tem “mas” nessa história, Maggie. Ele foi cruel comigo e com a minha mãe. Ponto final. Eu entendo que ele foi um excelente pai para você e Shawn, mas não tente jogar sua visão de herói dele para cima de mim, quando nós duas sabemos muito bem que isso não é verdade. – Beth suspira e entrega o carrinho de Hershel para a criança. Ela se levanta e pega a bolsa no sofá. – É melhor eu ir. Obrigada pela recepção.

— Beth, espere por favor. – Implora Maggie, levantando-se do sofá. Ela segura o braço da irmã e a encara com desespero. – Vamos conversar. Já faz seis anos desde que nos vimos pela última vez. Pelo menos jante com a gente. Eu prometo não falar sobre o nosso... sobre o meu pai.

Beth suspira mais uma vez. Ela me encara e posso ver seus olhos suplicando para irmos embora. Eu ainda não havia entendido tudo por completo, mas era evidente que ela não se sentia bem. Levanto-me e me aproximo das duas garotas.

— Vamos deixar para outro dia, Maggie. Beth teve um dia corrido e está cansada. – Respondo, passando o braço por cima dos ombros de Beth. A agente do FBI me encara desolada e eu tento dar um sorriso encorajador. — Mas eu prometo que voltaremos aqui novamente para jantar. Vocês ainda terão muito tempo para colocar o assunto em dia. Apenas a deixe descansar por hoje.

— Tudo bem. – Concorda Maggie, soltando o braço de Beth. A mulher passa os braços em volta de si, parecendo destruída. Ela força um sorriso e posso ver como Beth também se sente machucada com a situação. – Vocês são sempre serão bem-vindos para voltarem a nossa casa. Espero que me dê a oportunidade de saber mais sobre você, Beth.

— Desculpa, Maggie. – Lamenta a loira com a voz embargada, encolhendo-se contra mim. – Você é uma pessoa boa e que não tem nada a ver com o Hershel. Eu sei disso. Mas... o problema sou eu. Sinto muito.

— Não se preocupe com isso, Beth. Eu entendo. Mas saiba que eu não vou desistir de você. Eu fui sincera há seis anos atrás quando disse que queria me aproximar de você e recuperar o tempo perdido. Eu ainda penso assim. Não importa quanto tempo se passe, eu vou continuar a lutar para conseguir a sua confiança. – Garante Maggie com determinação.

Beth morde o lábio inferior e respira fundo, assentindo lentamente. Depois de encarar Glenn e Hershel pela última vez, a loira acena em despedida e rapidamente deixa a casa. Dando um sorriso, em um pedido de desculpas silencioso, despeço-me de meu melhor amigo, que assente compreensível, e de sua família, antes de seguir minha noiva.

Assim que estamos do lado de fora da casa, noto que chovia intensamente. Beth estava parada de costas para a casa e tremia, enquanto tinhas os punhos fechados com todas as suas forças. Aproximo-me lentamente da garota e toco seu ombro. Como resposta, Beth se vira para mim e me abraça, escondendo o rosto em meu peito.

Surpreso por sua ação repentina, correspondo ao abraço, acariciando sua cabeça. Beth parecia tão frágil e desolada quanto no dia do enterro de Kyle. Observo a chuva cair, esperando que ela conseguisse se acalmar. Apesar de não entender o que aconteceu entre ela e o pai de Maggie, era nítido o quanto o homem havia aberto uma profunda mágoa no delicado coração de Beth. Aperto-a ainda mais contra mim, tentando retirar toda a dor que ela sentia naquele momento.

Não tenho ideia de quanto tempo permanecemos abraços debaixo da chuva em frente a casa de Glenn, mas quando Beth se afasta, ela parecia muito mais calma. Um suspiro doloroso deixa seus lábios e um sorriso triste aparece. Eu não gostava de ver esse sorriso em seu rosto.

— Por que não saímos dessa chuva? Eu te levo para casa. Você precisa de um bom banho e uma longa noite de sono. – Sugiro e ela me encara com os olhos levemente arregalados. Ela umedece os lábios e parece nervosa. – Algum problema?

— Não. É só que... – Ela hesita. Beth nunca hesita para falar o que pensa. Isso me faz ficar ainda mais preocupado.

— O que foi? – Pergunto, cauteloso.

— Nada. É só que... bem, será que eu posso passar essa noite com você? – Questiona Beth, encarando os próprios pés. Ela parece notar o que havia dito e prontamente tenta se explicar. – Eu não tenho segundas intenções. Eu juro. É que eu... eu não quero ficar sozinha essa noite. Eu... bem, não tem problema se não...

— Tudo bem. Você pode dormir essa noite em minha casa. Agora vamos entrar no carro. Você vai ficar doente se continuar nessa chuva. – Respondo, abrindo a porta do carro.

— É sério? – Ela pergunta, surpresa.

— Sim. Agora entra. – Peço, empurrando-a levemente para que entrasse no carro. Eu sabia que, ao contrário de Sam, que nunca fica doente, Beth parece ter uma imensa facilidade de adoecer. Não eram poucas as vezes que eu a via gripada ou que Kyle saia do trabalho mais cedo para cuidar da filha mais velha, que estava com febre por ter se esforçado demais.

Beth assente e entra no carro. Fecho a porta do passageiro e entro no lado do motorista. Assim que fecho a porta, pego o casaco que nunca tiro do banco traseiro e estendo para Beth, incentivando a garota a vesti-lo. Timidamente, a loira agradece e veste o casaco, que fica duas vezes maior do que ela, antes de colocar o cinto de segurança.

Assim que coloco o meu cinto, ligo o carro e sigo em direção ao meu apartamento que fica no centro da cidade. A chuva de verão caia abundantemente, tornando a visão da pista um pouco comprometida. No som do carro, passava uma música qualquer da rádio e observo Beth pelo canto do olho, que encarava a paisagem com a mente distante.

Suspiro, frustrado. Eu queria saber o que se passava em sua mente e quais eram as mágoas que machucavam tanto seu coração. Era estranho eu sentir esse interesse repentino. Ainda assim, eu odiava vê-la tão calada e cabisbaixa no banco do carro. A Beth que eu conheço, está sempre sorrindo, falando e procurando formas de me deixar sem graça. E é essa mesma garota que eu gostaria de ver nesse momento.

— Acho que deu para entender, mas Maggie e eu somos irmãs por parte de “pai”. – Conta Beth, fazendo aspas com as mãos ao falar a palavra pai. Ela se acomoda melhor no banco do carro, apertando mais o meu casaco contra meu corpo. Seus olhos se encontram com os meus e posso ver a dor que eles carregavam. – Ela descobriu isso assim que o Hershel adoeceu, um pouco depois dela ter ganhado bebê. Maggie me procurou na época. Ela queria me conhecer e insistiu que eu fosse visitá-lo para que ele se desculpasse comigo. Apesar de não estar muito feliz com isso, eu acabei indo. Esperava ouvir desculpas sinceras, mas tudo o que eu ganhei foram palavras vazias e justificativas frívolas. Depois disso, eu sai daquele hospital e prometi a mim mesma que nunca mais eu voltaria a vê-lo. Ele faleceu dois anos depois, após de lutar contra um câncer no fígado. Eu realmente não voltei ao hospital depois daquele dia e também não compareci ao enterro dele.

— Eu sinto muito, Beth. – Lamento e ela dá um fraco sorriso, negando.

— Maggie ainda tentou entrar em contato comigo algumas vezes, mas eu sempre fugi. Ela ainda possui uma visão perfeita sobre Hershel, então todas as vezes que nos encontramos, eu me sinto mal por não conseguir perdoar o pai dela e por ter amaldiçoado tanto sua família, mesmo sabendo que a culpa sempre foi unicamente de Hershel. – Beth suspira e dá um riso amargurado. – Ela e o irmão são boas pessoas. Nunca me trataram mal por ser um fruto de uma traição. Pelo contrário. Eles sempre tentaram se aproximar de mim, mas eu nunca consegui me relacionar com eles.

“Hershel Scott se envolveu com a minha mãe em uma de suas viagens a trabalho. Assim como ele sempre fazia, ele escondeu que era casado e minha mãe caiu em seus encantos. Em uma noite de sexo, ela acabou engravidando. Hershel voltou para sua família depois disso. Quando minha mãe descobriu que estava grávida, ela foi atrás dele e descobriu que ele era casado. Como inúmeros casos espalhados pelo mundo, Hershel disse que ele não era o pai. Minha mãe insistiu e recebeu dinheiro para ela abortar.

Inteligente e impulsiva como era, minha mãe aceitou o dinheiro, mas ao invés de abortar, ela usou para comprar meu enxoval e me deu o seu sobrenome de solteira. Para minha mãe, eu não precisava do nome do pai em meus documentos. Ela seria meu pai e minha mãe e me daria amor em dobro se fosse preciso para compensar o abandono paternal.

Durante três anos, minha mãe trabalhou duro para nos sustentar e me criar sozinha. Foi então que ela conheceu meu pai. Eles se apaixonaram e ele me assumiu como filha. Um pouco depois do casamento deles, Hershel descobriu que minha mãe tinha me tido e resolveu tirar proveito da situação.

Esperando receber um bom dinheiro de minha mãe e de meu pai, que tinha uma condição de vida considerável, ele entrou na justiça para tomar minha guarda. Hershel até mesmo passou a me visitar e a fingir que se importava comigo, mas tudo mudou assim que ele descobriu que eu não poderia ser a sua galinha dos ovos de ouro. Quando soube que ele não conseguiria arrancar dinheiro algum da minha família, ele foi embora, deixando claro que eu não tinha serventia alguma a ele.

No meu aniversário de dezesseis anos, eu pedi para tio Clint como presente de aniversário que eu conhecesse meu pai biológico. Como a sua participação em minha vida ocorreu quando eu tinha apenas quatro anos, eu não me lembrava dele. Eu já havia questionado meu pai sobre Hershel, mas você conhecia Kyle Puckett. Quando ele criava ódio de alguém, ele não suportava falar nem mesmo o nome da pessoa. Das poucas pessoas que meu pai odiava, Hershel era a primeira de sua lista. Por isso, ele nunca respondeu minhas perguntas.

Tio Clint concordou à contragosto. Ele também odiava Hershel e sendo protetor, não o agradava a ideia de me fazer ter contato com meu pai biológico. Mas você sabe. Eu sou teimosa e quando coloco algo na minha cabeça, ninguém consegue tirar. Tio Clint me deu o endereço de Hershel em seu trabalho e eu fui atrás dele. Animada para conhecer meu pai biológico, eu fui no mesmo dia sozinha para visitar, mesmo tendo combinado com tio Clint de irmos no dia seguinte, após a escola.

Assim que eu o encontrei e revelei minha identidade, Hershel me disse que eu havia sido o pior erro da vida dele, que se pudesse voltar no tempo, teria me tirado do útero da minha mãe com as próprias mãos. Ele não suportava me olhar, porque eu tinha os mesmos olhos irritantes e determinados de minha mãe e isso o enojava. Hershel disse muitas outras coisas terríveis, exigindo que eu nunca mais aparecesse em sua frente e que se a família dele sequer desconfiasse da minha existência, ele me mataria e me faria visitar minha mãe no inferno mais cedo.

Quando eu tentei defender a honra da minha mãe, ele ameaçou me bater, mas tio Clint apareceu na hora e deu uma surra nele. Eu me lembro de chorar durante horas no colo de tio Clint, que me consolou e cuidou de mim até que eu me acalmasse. De coração partido e finalmente entendendo o motivo de meu pai e tio Clint nunca terem me falado sobre o homem, eu decidi que não voltaria a procurar por ele.

Kyle Puckett era o meu pai. Foi ele quem cuidou de mim e me criou para ser uma mulher forte e independente. Foi ele quem esteve ao meu lado nos momentos bons e ruins da minha vida. E foi graças a isso que eu entendi o objetivo de tio Clint criar a família Barton. Nós não precisávamos carregar o mesmo sangue para sermos pai e filha. O amor que compartilharmos um pelo outro era o suficiente para tornar essa relação uma verdade absoluta, assim como meus primos da família Barton, que mesmo não tendo o mesmo sangue que o meu, não deixavam de ser a minha família.

Eu realmente sinto muito por não conseguir me envolver com Maggie e quero mudar essa situação. Mas...” – Beth suspira e leva as mãos ao rosto, permitindo que as lágrimas que segurava desde que saiu da casa de Glenn caíssem. – Quando eu penso em me aproximar da família de Hershel, eu sinto como se estivesse traindo meu pai e Sam. Eu sei que é besteira e que eles não têm culpa de quem Hershel era, mas ainda assim...

— Você se envolver com seus irmãos não te faz ser menos parte da sua família. Isso não vai mudar o fato de Kyle continuar sendo seu pai, de Sam continuar sendo sua irmã ou de seus primos continuarem sendo seus primos. Está tudo bem se sentir insegura, mas seu pai só queria que você fosse feliz, Beth, independentemente de suas escolhas. – Respondo e ela abaixa as mãos do rosto para me encarar. Paro o carro no acostamento e me viro para Beth, limpando seu rosto delicado que estava marcado pelas lágrimas. Ela arfa algumas vezes, tentando se recuperar. Acaricio a face alva. – Eu posso ver o quanto você quer se aproximar de Maggie. Vi como foi doloroso para você a afastar.

— Eu estou com medo. – Admite a garota em um sussurro, quase como um segredo que guardava no fundo de seu coração.

— É normal sentir medo e está tudo bem, mas você não está sozinha, Beth. Você não precisa dar um grande passo e inseri-la de uma vez. Comece aos poucos. Tenha uma refeição com Maggie. Conte sobre o que você gosta de comer, o que gosta de fazer. Enfim, de pouquinho em pouquinho, as coisas vão começar a se tornar mais naturais, até o dia em que você conseguirá ver em Maggie a figura de uma irmã mais velha. – Aconselho, colocando uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha. – E se as coisas estiverem pesadas demais para você carregar, eu estarei ao seu lado para te ajudar a superar esse desafio. Está bem?

— Sim. – Concorda Beth, sorrindo chorosa.

Ela apoia o rosto em minha mão e aquele sorriso que chega aos seus olhos de tão intenso finalmente aparece em seu rosto. Acabo correspondendo ao sorriso com um discreto. Aquele era o sorriso que eu amo ver em seu rosto. Tomado por um sentimento desconhecido e um desejo exorbitante, juro a mim mesmo que farei de tudo para garantir que esse sorriso jamais desapareça, não importa o que aconteça.

Notas finais
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