Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Mais um capítulo aqui para vocês. Eu quero agradecer aos comentários maravilhosos da AndreaNeves, VacuumCleaner e Mari no capítulo passado. Espero que gostem do que está por vir. Boa leitura...

ROMANCES MENSAIS

LIVRO IX – CONTRATO DE SETEMBRO

CAPÍTULO XIII – PASSADO

Assim que termino de tomar meu banho, saio da banheira e uso uma das toalhas limpas no armário do banheiro para me secar. Com a toalha em volta do meu corpo, passo a mão pelo espelho embaçado do banheiro e encaro a minha imagem por alguns instantes. Suspiro, ao ver o nariz e os olhos inchados depois de tanto chorar e me sentia patética por não ser tão forte e controlada com as minhas emoções como minha irmã mais nova.

Eu sempre fui uma manteiga derretida, mas desde a morte de meu pai, chorar se tornou quase um ritual para mim. Todas as noites, assim que eu chegava em casa e me deparava com o silêncio e a escuridão, a solidão me atingia como um golpe certeiro. Eu sentia falta de Sam e seu jeito divertido. Sentia falta de ouvir as piadas sem graça de meu pai e suas narrações exageradas sobre o seu dia.

Mas o pior de tudo era ter que lidar diariamente com a lembrança de encontrar o corpo gelado de meu pai caído no chão da cozinha com inúmeros vidros de alguns medicamentos que eu usava para me acalmar. Por mais que eu tentasse esquecer, a dor me dilacerava todas as vezes em que eu retornava para casa, depois de passar o dia na empresa que ele batalhou tanto para construir.

Encontrar com Maggie após um dia cheio de momentos felizes não estava em meus planos. Não que eu sentisse raiva da mulher. Mesmo com todos os motivos do mundo, ela sempre me tratou muito bem e se esforçou muito para tentar conquistar a minha confiança. Mas todas as vezes que eu olhava em seus olhos tão idênticos aos de Hershel, eu não conseguia fingir que estava tudo bem.

Eu estava com a carga emocional alta demais. Ir para casa só me traria ainda mais dor e pensamentos perigosos. Eu não queria ficar sozinha em uma noite chuvosa com tantas lembranças em minha mente. Encaro minha mão e sorrio ao ver o anel de noivado brilhando em meu dedo anelar. Daryl era mesmo um homem maravilhoso.

Ainda era difícil de acreditar que ele havia concordado em me trazer para o seu apartamento sem qualquer questionamento ou relutância. Daryl tem fugido de mim por muito tempo. Na verdade, ele sempre parece ter a guarda levantada para qualquer pessoa que tenta se aproximar dele. Ele nunca fala sobre si e parece esconder o universo em seus lindos olhos azuis. Isso só despertava ainda mais o meu desejo de saber mais sobre ele.

Ainda que nos conhecêssemos há dez anos, essa era a primeira vez que eu vinha ao apartamento de Daryl. E era por isso que assim que saímos da casa de Maggie e que compartilhei com ele uma das histórias de minha vida que eu mais gostaria de esquecer, eu me animei em visitar o seu lar. Esperava encontrar alguma coisa que me dissesse mais sobre Daryl e sobre a sua família, já que até algumas semanas atrás, eu nem mesmo sabia que ele possuía um irmão mais velho.

O apartamento de Daryl ficava no último andar de um luxuoso condomínio no centro de Hawkins. Mas ao contrário do que eu imaginei, não havia fotos ou objetos que me desse informações sobre Daryl. Minimamente decorado em cores neutras, apesar de muito bonito e elegante, tudo naquele lugar era bastante impessoal e sem vida.

Deixo o banheiro e volto para seu quarto, encontrando sobre a cama uma muda de roupa, assim como ele havia dito que deixaria. Observo o cômodo e bufo ao ver que nem mesmo seu quarto não possuía objetos que me dissessem mais ele. Era frustrante como ele parecia saber tudo sobre mim e eu continuava a nadar no escuro sobre seus traumas e seu passado.

Desanimada, visto a camiseta branca de Daryl, que parecia mais um vestido para mim e uma cueca nova dele. Minhas roupas molhadas estavam lavando e não havíamos passado em minha casa para pegar minhas coisas, por isso, essa noite eu teria que vestir suas roupas. Não que eu achasse ruim essa situação. Era reconfortante sentir seu cheiro tão próximo de mim, ainda que não da maneira como eu gostaria.

Seco meus cabelos e uso um pente que eu encontrei no banheiro para pentear meu cabelo, na tentativa de ficar minimamente apresentável, já que os olhos inchados, o nariz vermelho e a falta de maquiagem não ajudavam em nada a mostrar um lado mais bonito meu. Estendo a toalha que usei ao lado da de Daryl e deixo o quarto.

Enquanto ando pelo corredor principal do apartamento, sinto um aroma delicioso se espalhar pela casa. Meu estômago se revira, ansiando para experimentar o prato preparado por Daryl. Apresso os passos e assim que chego à sala de estar, encontro Daryl parado de frente a enorme janela de vidro que dava a visão privilegiada de Hawkins, que mesmo tomada pela chuva, continuava incrivelmente bonita.

Temendo assustá-lo, aproximo-me devagar. Ele bebia um pouco de vinho e fumava, perdido em pensamentos. Desastrada como sou e por estar tão concentrada em admirar os braços definidos de Daryl expostos na regata preta que ele usava, acabo tropeçando no tapete da sala e por muito pouco não acabo de cara na mesa de vidro no centro do cômodo, onde estava uma garrafa de um dos meus vinhos preferidos.

Daryl se vira para mim e eu rapidamente me recomponho. Já não bastava estar com a aparência desastrosa, eu não precisava acabar ainda mais com a minha imagem. O homem fixa seus olhos em mim e eu tenho a impressão de que o tempo parou naquele momento. Ele me observa com tanta intensidade que sinto o ar em meus pulmões faltarem. Mordo meu lábio inferior, fazendo um imenso esforço para não cometer nenhuma loucura.

Ele retira o cigarro da boca e assopra a fumaça. Engolindo em seco, Daryl termina de beber sua taça de vinho, desviando o olhar. O clima entre nós se torna estranho. Há uma intensa tensão sexual entre nós. Eu queria dizer alguma coisa, mas ainda estava afetada pela forma como ele me encarou. E nesse momento eu tive certeza de que eu não serei capaz de suportar nove meses de abstinência se vivermos debaixo do mesmo teto.

— Você deve estar com fome. Eu preparei uma macarronada. Não sei se você gosta, mas...

— Eu gosto. – Prontamente respondo e ele assente lentamente. Com os olhos presos nos dele, umedeço meus lábios e tento melhorar minha voz que estava mais aguda do que deveria. – Eu amo... macarrão.

— Tudo bem. Sente-se. Eu vou colocar para você. – Responde Daryl, colocando a taça vazia sobre a mesa de centro da sala. Ele apaga o cigarro no cinzeiro que havia sobre sua mesa e aponta para a mesa de jantar.

Sem esperar por uma resposta minha, Daryl segue para a cozinha conjugada a sala. Meu coração batia como um louco e minha garganta estava seca. Meu corpo parecia em chamas e meu estômago se revirava, ansioso, agitado. O meu fluxo sanguíneo havia aumentado em proporções perigosas demais para o meu autocontrole.

— Céus. – Murmuro, sentindo meu corpo ferver assim que ele se afasta. Vejo a taça dele sobre a mesa e a encho de vinho.

Bebo o líquido na taça de uma vez. Encho a taça mais uma vez e, novamente, nem mesmo respiro para beber. Depois de me incendiar com o seu olhar sobre mim com a casa sozinha para nós dois, vendo-o com aquela blusa regata preta colada em seu corpo definido, eu precisava de muito álcool no sangue para tentar apagar aquele desejo ardente de me jogar em cima de Daryl.

— Vai devagar com o vinho. Ele é muito mais forte do que parece. – Alerta Daryl ao me ver beber a minha terceira taça.

— Não se preocupe. Eu sou bastante tolerante ao álcool e esse é um dos meus vinhos preferidos. Você te bom gosto. – Comento, tentando distrair minha mente, enquanto me aproximo de Daryl, que deixava um prato com macarrão com molho de tomate sobre a mesa. – Parece delicioso.

— Eu espero que esteja mesmo. – Responde Daryl, colocando macarrão em seu prato. Ele se aproxima com o prato e o coloca sobre a mesa. Em seguida, ele vai até a bonita adega que ele havia na cozinha e pega uma nova garrafa de vinho – já que eu havia esvaziado a anterior — e duas novas taças. – Mais vinho?

— Por favor. – Digo, pegando uma das taças. Ele enche a minha e coloca um pouco na sua, antes de se sentar de frente para mim. Experimento o macarrão com curiosidade e me surpreendo com o sabor. – Isso está incrível! Eu não sabia que você cozinhava.

— Eu não faço com frequência, já que moro sozinho, mas gosto de inventar na cozinha. – Comenta, bebendo um pouco do Brunello di Montalcino que ele havia colocado em sua taça.

— Daryl Dixon e seus mistérios. – Comento, levantando a taça para brindar com ele. Daryl dá uma risada anasalada e toca sua taça na minha. Bebo um pouco da bebida encorpada e complexa, mas equilibrada e muito elegante que combinava perfeitamente com a macarronada ao molho de tomate e almôndegas. – O que mais você esconde de mim? Vai me dizer que você tem um filho que estuda no exterior. Você é sempre tão misterioso sobre sua vida que eu não duvido nada que realmente tenha.

— Eu não sou tão misterioso assim. Apenas não tenho uma história de vida muito bonita. – Responde, dando de ombros. Ele come um pouco de seu macarrão e me encara, limpando a boca com o guardanapo que estava sobre a mesa.

— Então me fala sobre você. Nós nos conhecemos há dez anos e somente há alguns dias é que eu descobri que você tem um irmão mais velho e que ainda não tinha um visto de permanência no país. Mesmo vindo a sua casa, não há fotos em família e nem objetos que me ajudem a entender sua mente. – Resmungo, bebendo um pouco mais de vinho.

— O que você quer saber? – Pergunta, incerto sobre o que deveria dizer.

— Eu quero saber como é a sua relação com seus pais? Você tem mais irmãos? Por que veio para Hawkins? Quem foi o seu primeiro amor? – Indago e ele ergue as sobrancelhas, como se questionasse o que eu estava fazendo. – O quê? Eu quero saber tudo. Além disso, nós iremos nos casar em duas semanas e em breve devemos passar por uma entrevista com a embaixada americana. Eu preciso saber tudo sobre você. Não sabemos o que o entrevistador vai perguntar. Você já sabe tudo sobre mim, mas eu não sei nada sobre você, então tenho que aproveitar o milagre de você estar disposto a responder minhas perguntas.

— Você escolheu os piores tópicos para começar seu interrogatório. – Resmunga Daryl, parecendo incomodado. Apesar de não querer pressioná-lo a falar, eu também sabia que os entrevistadores da embaixada são excelentes farejadores de mentiras.

Nessas entrevistas tudo pode acontecer. O casal pode ser entrevistado separadamente ou não, e te perguntaram coisas do dia a dia, detalhes bem pessoais, como por exemplo, qual é a cor da escova de dentes de um, qual o nome do cachorro do outro ou em que escola cada um estudou. Tudo isso para poder ter certeza de que o casamento é legítimo. E definitivamente, o tópico família do casal é sempre abordado durante as entrevistas.

— Eu sinto muito. Gostaria de ter mais tempo para conquistar sua confiança, mas se Glenn já deu entrada no pedido de visto permanente por casamento, nós seremos chamados para sermos entrevistados em no máximo um mês. Nós vamos ter que conversar sobre isso em algum momento ou todo o esforço que fizemos até aqui será em vão. – Pego na mão de Daryl e a aperto com intensidade, tentando transmitir algum consolo ao homem. Ele me encara com insegurança e eu acaricio seu rosto. – Eu sei que é difícil, mas será que pode confiar um pouquinho em mim e me falar sobre a sua família?

— Minha mãe foi embora quando eu tinha sete anos e eu fui criado pelo meu pai. – Começa Daryl e eu o encaro surpresa. Ele bebe um pouco mais de vinho e encara o macarrão em seu prato. – Ela não aguentou as agressões que sofria do meu pai todas as noites quando ele chegava caindo de bêbado em casa e fugiu. Ele ainda a procurou por um ano, mas não conseguiu encontrá-la.

“Frustrado por ter sido abandonado pela esposa, meu pai começou a se envolver com drogas também. A partir desse momento, sem minha mãe para se tornar o saco de pancadas dele, eu assumi esse papel contra a minha vontade. Ele me torturou física e psicologicamente durante anos. Eu perdi as contas de quantas vezes quebrei algum osso do corpo ou parei inconsciente no hospital. Conforme eu crescia, mais violento ele se tornava. Eu também cheguei a passar fome, porque todo o dinheiro que ele ganhava era gasto em drogas e bebidas alcóolicas.

Diferente de Merle, que o enfrentava sem se importar com o que poderia acontecer, eu tinha medo dele e não conseguia me impor. Meu pai me ameaçava. Dizia que me mataria se eu contasse para alguém o que acontecia em nossa casa. Assim, eu aguentei tudo calado por anos.

Aos quinze anos eu encontrei um emprego de meio período sem que meu pai soubesse. Eu comecei a juntar dinheiro para fugir do país e provavelmente teria conseguido se Merle, o babaca do meu irmão mais velho, não tivesse contado ao meu pai e roubado todo o dinheiro que juntei por um ano para apostar em jogos.

Meu pai ficou furioso e me espancou ao ponto de me fazer ficar dois dias em coma. Ele foi preso e minha guarda foi passada a Merle que já era maior de idade. Alguns meses depois, ele acabou sendo morto em uma briga de detentos. Pensei que as coisas pudessem melhorar, mas meu irmão estava sempre me prejudicando. Não importava o quanto eu trabalhasse para colocar comida em casa, Merle sempre se metia em problemas e eu acabava tendo que trabalhar o triplo para pagar suas dividas e não acabar sendo morto por agiotas.” – Conta Daryl e eu aperto mais a sua mão, completamente em choque com sua história.

— Daryl... Eu... eu nem sei o que dizer. – Confesso e ele bebe mais vinho, suspirando. – Eu sinto muito mesmo.

Depois de ouvir sobre o que ele passou na mão do pai, eu começava a entender o porquê de Daryl ser tão fechado com as pessoas e o motivo de evitar contato físico. Ele passou a infância e a adolescência sendo vítima de maus tratos domésticos. Não era de se estranhar que fosse difícil para ele confiar nas pessoas.

— Bom, aos vinte e dois anos, eu finalmente consegui juntar dinheiro para pelo menos para comprar minha passagem para sair de Montreal. A partir desse momento, minha vida começou a melhorar. Com a ajuda de uma amiga americana, que tinha feito intercâmbio em minha escola e ficou na casa ao lado da minha, eu vim para Hawkins. Comecei a minha faculdade de Administração e me especializei na área de consultoria. Morei com Marissa e o marido dela, Leonard Benson, por quase dez anos até conseguir estabilizar minha primeira empresa, que abri com um amigo da faculdade. Infelizmente, a minha calmaria deu lugar a uma forte tempestade quando esse amigo fugiu com a minha noiva e deixou uma dívida extensa para mim. Isso me levou a falência e ainda complicou o meu processo de visto. – Continua Daryl, dando um fraco sorriso.

— Espera. Você já esteve noivo antes? – Questiono, surpresa. – Como assim? Por que eu nunca soube disso? Meu pai sabia disso? Qual era o nome dela?

— Claire Lonsdale. E sim. Seu pai sabia, mas eu pedi que não falasse sobre ela. Ela foi a primeira mulher por quem eu realmente me apaixonei. Era difícil lidar com a traição dela. Claire foi a primeira mulher que me fez acreditar no amor. Não foi fácil ser apunhalado pelas costas e ter experimentado o abandono de novo. Foi uma época difícil. Lidar com a fuga de Claire e com Merle, que também acabou vindo para os Estados Unidos não foi fácil e se não fosse por Glenn, Rick, Marissa e seu pai, acho que eu não teria suportado toda a pressão e a raiva que eu sentia. Eu declarei falência e vendi a empresa. Com o dinheiro que eu consegui, apostei tudo no que hoje veio se tornar as Corporações Puckett.

Meu irmão continuou a aprontar aqui e não foram poucas as vezes que eu tive que o tirar da prisão para não me prejudicar. Merle sempre complicou a minha vida e a sua última cartada foi esse tráfico de drogas e caçada de animais em área ilegal para fábricas de tecido. E foi assim que eu pedir a chance mais uma vez de conquistar o meu Green Card.” – Relata Daryl, visivelmente frustrado. Ele bebe mais vinho e me encara. – O restante da história você já sabe.

— Obrigada por me contar. – Agradeço, levantando-me. Aproximo-me de Daryl e o abraço de forma desengonçada, já que ele ainda estava sentado, esboçando uma expressão desolada. – Você não merecia viver o que viveu. Eu estou muito orgulhosa de você, Daryl, por ter se tornado essa pessoa incrível, mesmo com tudo o que passou. Assim como você me disse, eu quero que saiba que não importa o que aconteça, eu sempre estarei com você e darei o meu melhor para te fazer superar todos os seus traumas. Eu prometo.

Deixo um beijo em sua testa e continuo a abraçá-lo apertado, encarando a grandiosa janela da sala de estar. Observo a imagem da cidade, ainda tentando digerir tudo o que ele havia passado. Eu queria ter o poder de apagar os traumas de Daryl. Eu queria ser capaz de invadir seu coração e substituir dele todas as dores e lembranças que ele deve guardar dentro de si desde que era uma criança por mim, de forma que ninguém nunca mais volte a machucar seu gigantesco e delicado coração.

Notas finais
Quarto: https://blog.cyrela.com.br/wp-content/uploads/2019/01/decoracao-apartamentos-luxo-08.jpg Sala de estar: https://blog.cyrela.com.br/wp-content/uploads/2019/01/sall.jpg oOo Família Cupcake 2.0: https://chat.whatsapp.com/BbOG6KJnuHy2dQIs1sC9Ss Cupcakes da Lara: https://www.facebook.com/groups/677328449023646 Instagram: @_cupcakesdalara