Contrato de Setembro
26 Invasão
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IX – CONTRATO DE SETEMBRO
CAPÍTULO XXV — INVASÃO
O poeta e dramaturgo Victor Hugo dizia que a suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados e ele não poderia estar mais certo. Eu estava feliz. Tão feliz que era incapaz de esconder o sorriso em meu rosto. Nem mesmo ter que lidar com os velhos babacas da empresa durante essa semana que se passou foi o bastante para me aborrecer ou me irritar com as provocações ou comentários estúpidos.
Uma semana havia se passado desde que Hugh foi preso, após ser bastante espancado por Sam como vingança, e minha vida parecia ter dado um giro de trezentos e sessenta graus. Sem o maléfico tio que mais parecia ter saído de um dos contos macabros dos irmãos Grimm à solta, Sam não precisava mais se esconder e tinha finalmente retornado para casa. Morrendo de saudades e querendo recuperar o tempo perdido, passei os últimos dias dormindo com ela, já que Freddie precisou ir visitar a mãe em Seattle, que já estava enlouquecendo sem notícias do filho.
Sam queria ir junto, mas devido ao histórico de ódio de Marissa Benson por minha irmã, Freddie resolveu que dessa vez era melhor ele ir sozinho. Desde que o rapaz era criança, Marissa era superprotetora com ele, tudo piorou com a morte do pai de Freddie e a mudança para Seattle. Juntando isso com o fato de Sam ter sido a principal causa dos traumas físicos e psicológicos do filho na infância, a mulher preferia comer centenas de agulhas a ter que ver Sam e Freddie namorando.
É claro que eu amava passar o tempo com a minha irmã. Nós tínhamos tantas histórias e aventuras para compartilha que parecia que o assunto nunca tinha fim. No entanto, eu estava morrendo de saudades de ter um tempo à sós com Daryl. Não que Sam fosse a principal causa disso. Ela até mesmo havia sugerido que eu fosse para casa para aproveitar a minha vida de casada, mas ele também andava bastante ocupado.
Com a entrevista da embaixada sendo adiada para o fim do mês e recebendo a garantia que ele poderia ficar no país por mais algum tempo até que toda a situação fosse resolvida, Daryl passou a colocar em prática o seu projeto de criar uma ONG para ajudar crianças e adolescentes que sofreram ou sofrem violência doméstica. Isso estava ocupando todo o tempo dele, que nem mesmo estava indo para empresa. O que me restava era receber suas mensagens de “bom dia” e atualizações rápidas sobre os processos que ele estava lidando.
Para complicar mais os nossos desencontros, eu acabei assumindo a presidência da empresa, ainda que temporariamente. Depois de todo o estresse que passou no último mês, Sam preferiu descansar por algumas semanas antes de voltar oficialmente ao trabalho e ganhar o cargo que tem se preparado por anos para assumir. Enquanto isso, eu estava tendo que lidar com diversos problemas que me tirava todas as energias e o pouco de tempo que ainda me restava quando ainda trabalhava apenas com o jurídico da empresa.
Suspiro, cansada de verificar os balanços financeiros da empresa do último mês. Cuidar de uma corporação tão gigantesca quanto a construída por meu pai demandava uma paciência impressionante. Não era à toa que Kyle Puckett parecia estar sempre prestes a ter um infarto e sofria com dores de cabeça crônicas. Era tantos detalhes para prestar atenção que eu sentia que enlouqueceria a qualquer momento.
Minha situação piorava ainda mais por não ter um vice-presidente para me apoiar durante esse tempo. Por um milagre os investidores haviam me dado o aval para escolher alguém que pudesse ser meu braço direito, mas como meu cargo era algo apenas temporário, já que todos estavam de acordo em ter Sam como presidente da empresa, eu preferia não envolver mais pessoas nessa história maluca.
— Pode entrar. – Digo após ouvir as batidas que de repente ecoam pela sala. Desvio o olhar da papelada em minhas mãos para encarar quem estava na porta. Sorrio ao reconhecer o casal que me encaravam com um sorriso doce nos lábios. – Cait! Barry! Entre, por favor.
— Esperamos não estar atrapalhando. Por causa da ansiedade, acabamos chegando mais cedo. – Comenta Barry, entrando na sala, apoiando-se nas muletas. Ele ainda usava o gesso, mas os ferimentos superficiais que sofreu no acidente estavam bem melhores.
— Vocês nunca me atrapalham. – Garanto, sorrindo. Levanto-me e puxo a cadeira para que Barry pudesse se sentar mais confortável. Ele se senta com dificuldade e usa as muletas para ficar mais erguer a perna quebrada. Deixo um beijo em sua testa e cumprimento Cait com um abraço desengonçado, já que ela ainda usava uma faixa para imobilizar o ombro e o braço.
— Trouxemos café. – Cait me entrega o copo e eu sorrio ainda mais animada. – Imaginamos que você fosse precisar.
— Ah, vocês leram os meus pensamentos. Eu ia agora mesmo pedir para Carol me trazer um pouco. – Respondo, pegando o copo. Enquanto bebo um gole da bebida, faço sinal para que Cait se sentasse na cadeira ao lado de Barry. Ela assente e coloca a pasta que estava debaixo no braço sobre a minha mesa, sentando-se finalmente. – E como vocês estão?
— Bem nervosos. – Confessa meu primo, suspirando e sorrindo tenso. – Mas estamos tentando nos manter otimistas.
— Foi bem difícil dormir essa noite. – Conta Cait, dando um sorriso sem graça. – Eu perdi as contas de quantas vezes eu repassei o texto de explicação que iremos apresentar.
Rio de seu comportamento, não podendo julgar muito seu nervosismo. Eu também não havia dormido nada durante a noite. O dia de apresentar o projeto do iogurte biofortificado de Barry e Cait a Michonne e Rick havia chegado. Depois de muitos adiamentos e problemas com choques de horários de nossas agendas, o casal Grimes finalmente conseguiu algum tempo para vir a empresa.
Eu não precisava mais fechar uma parceria com eles para assumir a presidência da empresa, mas ainda assim, era algo que eu gostaria e muito de fazer. Não apenas pela parte lucrativa do negócio, que com certeza renderia excelentes resultados financeiros, mas também pela proposta de meus primos. Era algo que poderia ajudar milhares de pessoas no mundo se colocarmos o projeto em prática. Seria uma revolução para a indústria alimentícia e para a queda na desnutrição mundial.
— Vocês vão se sair bem. Eu tenho certeza. – Garanto, bebendo mais do meu café. – Além disso, vocês já apresentaram esse projeto em Tóquio para um público gigantesco. Apresentá-lo novamente para um casal não vai ser tão difícil assim. Não se preocupem. E se precisarem de algum apoio, eu estarei aqui para conduzir a reunião.
— É isso que nos deixa mais calmos. Confiamos totalmente em você. – Responde a namorada de meu primo e eu sorrio agradecida.
— Obrigada. – Agradeço, suspirando após tomar um saboroso gole de café. Encaro o relógio em meu pulso e vejo que faltava apenas dez minutos até o horário que marcamos com o casal Grimes. – Michonne e Rick devem estar para chegar. É melhor nós irmos para a sala de reuniões para preparar tudo para a apresentação.
— Vamos nessa! – Responde Barry, levantando-se com cautela.
Em meio a risos e conversas banais, nós seguimos para a sala de reunião principal da empresa. Eu tentava me distrair e me concentrar no casal ao meu lado, mas a verdade é que eu sentia que estava prestes a ter uma crise nervosa. Eu havia me preparado por um mês para apresentar a proposta a Michonne e Rick, mas ainda me sentia apreensiva.
Enquanto Cait coloca o slide que ela e o namorado usaram em Tóquio para apresentar o iogurte biofortificado em uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, o telefone da sala de reuniões começa a tocar. Encaro meu primo e ele sorri nervoso. A hora havia chegado.
— Beth, o sr. e a sra. Grimes acabaram de chegar. – Avisa Carol do outro lado da linha.
— Certo. Conduza-os até a sala de reunião e prepare água e café para todos, por favor. – Peço, respirando fundo.
— Tudo bem. – Concorda Carol, encerrando a ligação.
— Michonne e Rick chegaram. Vocês estão prontos? – Pergunto, encarando o casal, que prende a respiração, ansiosos.
— Não. – Nega Barry e eu acabo rindo da sua expressão de pânico. – Acho que eu vou vomitar de tão nervoso que eu estou.
— Olha como minhas mãos estão. – A mão de Cait tremia intensamente e ela parecia ter dificuldade para respirar.
— Fiquem calmos. Eles são... – Sou interrompida pela entrada de Carol com o casal Grimes, exibindo sorrisos calorosos. Correspondo ao sorriso e me aproximo, cumprimentando-os com abraços. – Michonne! Rick! Sejam muito bem-vindos a Corporação Puckett.
— Obrigada, Beth. – Michonne agradece, sorrindo gentil.
— Uau. Que vista incrível. – Comenta Rick, encarando a grandiosa parede de vidro que tinha vista para a toda a cidade.
— Foi exatamente por isso que meu pai decidiu construir a sede da empresa aqui. Sempre quando ele estava cansado da rotina complicada ou precisava tomar uma decisão importante, ele sempre vinha para essa sala e ficava horas refletindo. – Conto, sorrindo nostálgica. Recebo sorrisos compadecidos dos casais na sala. Respiro fundo, tentando não me afetar com as lembranças. – Bom, deixa-me apresentar meu primo Barry Allen e a namorada dele, Cait Snow. Cait e Barry, esses são Michonne e Rick Grimes.
— É um prazer conhece-los, sr. e sra. Grimes. Beth falou muito sobre vocês. – Cumprimenta Barry, tentando se levantar.
— Não precisa se levantar, Barry. Imagino que deve estar complicado por aí. – Afirma Rick, aproximando de meu primo, encarando a perna engessada. – O que aconteceu com vocês?
— Eles sofreram um acidente de carro há duas semanas. – Respondo, passando o braço pelos ombros de Cait. – Felizmente, o que precisamos deles está funcionando perfeitamente. O cérebro genial desses dois.
— Estou curiosa para saber o que vocês irão nos apresentar. – Comenta Michonne, sorrindo animada. – À propósito, sua irmã e Daryl não irão participar da reunião?
— Infelizmente, Sam não conseguiu vir por estar em uma consulta que não poderia ser adiada e Daryl iniciou o projeto social dele. Eu não sei se ele chegou a comentar com vocês sobre a ONG que ele estava planejando criar. – Conto e Rick assente, concordando.
— Eu me lembro dele ter comentado sobre o desejo de criar uma ONG que desse apoio a pessoas com histórias parecidas com a dele. – Responde o homem, sorrindo discretamente. – Fico feliz que ele tenha conseguido tirar a ideia do papel.
— Sim. Por causa disso, ele tem passado mais tempo visitando instituições que prestam esse tipo de assistência e quase não tem vindo a empresa. Ele me pediu para se desculpar com vocês por não estar aqui, mas em nome dele, faço o convite para que vocês e as crianças venham almoçar com a gente no fim de semana na casa da minha irmã mais velha. Nós iremos fazer um churrasco e reunir toda a família. A casa dela tem piscina também e ela tem um filho da idade do RJ. Eu tenho certeza de que eles vão se dar bem. – Respondo e a ideia parece animar o casal.
— É claro. Iremos com todo o prazer. Eu adoro churrasco. – Afirma Rick, após trocar olhares animados com a esposa. – É só nos dizer o dia, horário e local, que com certeza estaremos lá.
— Eu só vou confirmar direitinho com Daryl e minha irmã. Mas até amanhã eu mando mensagem para Michonne, passando todas as informações. – Digo, ansiosa com a possibilidade de nos reunir e passar um tempo nos divertindo em família com os amigos de Daryl.
Encaro Barry e Cait, que pareciam cada vez mais nervosos. Sorrio, tentando transmitir um pouco de confiança para o casal. Meu primo respira fundo e assente, mostrando que estava pronto para apresentar.
— Agora que todos estão aqui e prontos para iniciar a apresentação, por que não nos sentamos? – Sugiro, apontando para a mesa de reuniões. Nesse momento, Carol entra na sala com café e água, assim como eu havia solicitado. – Obrigada, Carol.
— Não foi nada. – Responde a mulher de cabelos grisalhos, deixando a sala.
Observo Michonne e Rick se sentarem, pegando os copos de café que Carol havia colocado sobre a mesa. Aproximo-me de Cait e ela suspira pesado, enquanto aciona o recurso do passador de slide. Nós havíamos combinado que eu introduziria a reunião e passaria a palavra para Cait e Barry apresentarem a parte técnica do iogurte e tirariam dúvidas que pudessem surgir sobre a matéria prima e outros detalhes de produção.
— Bom, primeiro, quero agradecer a presença de vocês. Eu sei que a agenda de vocês é bastante apertada, então muito obrigada por terem vindo. – Agradeço, sorrindo com sinceridade. Eles negam agradecimento, correspondendo ao sorriso. – Antes de iniciar a apresentação, eu tenho uma pergunta para vocês. O que vocês diriam se eu disse que esses dois jovens encontraram a fórmula para extinguir a desnutrição mundial?
— Extinguir a desnutrição mundial? – Repete Michonne, incerta sobre a minha pergunta. – Essa ideia não é um pouco utópica?
— Até alguns meses atrás, isso poderia ser verdade. Mas Cait e Barry desenvolveram uma bebida láctea que pode ser a solução do que a ciência tem buscado há anos. – Respondo, sorrindo para meu primo e sua namorada. – Por que não explicam a ideia de vocês e como a desenvolveu?
— Primeiro de tudo, muito obrigado pela oportunidade que estão nos dando. O que iremos apresentar para vocês se iniciou a partir de um projeto da faculdade. Cait e eu precisávamos desenvolver um projeto viável de caráter educativo, esportivo, cultural, social, científico, artístico ou tecnológico para solucionar um dos inúmeros problemas da humanidade. Aqueles que desenvolvessem a melhor proposta, ganhariam uma viagem para Tóquio e ainda apresentariam a proposta na maior feira de tecnologia do país. Com muito esforço e diversas noites sem dormir, Cait e eu conseguimos o primeiro lugar e ganhamos a oportunidade de conhecer a capital japonesa. – Começa Barry, ajeitando-se na cadeira em que estava sentado. As informações parecem surpreender Michonne e Rick.
— Nós usamos a como base do nosso projeto os dezessete desafios da ONU da Agenda 2030. Dentre os desafios propostos, a ideia de acabar com a fome mundial foi o que mais chamou a nossa atenção. Sabíamos que era uma ideia utópica, se pensarmos na situação econômica e política mundial, mas pensamos que podíamos fazer algo que possa diminuir a desnutrição mundial. Alguns dos produtos de origem vegetal vêm sendo transformados em superalimentos, graças à ajuda da biotecnologia. Os laboratórios realizam a biofortificação dos alimentos, que ao contrário da transgenia, não promove modificação, apenas melhoramento genético. Assim, nós decidimos desenvolver um alimento que fornecesse elementos essenciais como vitaminas e sais minerais necessários para o bom funcionamento do corpo e dá início ao fim da desnutrição mundial, trabalhando a economia local de regiões mais carentes. A ideia é fazer como grandes empresas como McDonald’s, que personaliza seu cardápio, para desenvolver a agricultura e o comércio local. – Completa Cait, encarando a tela onde apresentava o slide. – E foi assim que criamos o iogurte biofortificado.
Cait e Barry passaram a explicar toda a composição do iogurte e modo de preparo. Mostraram os resultados de seus estudos práticos e como as crianças que participaram do experimento reagiram ao ter o iogurte introduzido em sua alimentação. Após a apresentação da parte técnica do produto, chegou a minha vez de falar de números e dos termos legais para iniciar a produção em grande escala do iogurte.
Para comercializar o produto, nós precisaríamos visitar as cidades onde apresenta a maior taxa de desnutrição do mundo e estudar a sua vegetação, possibilidade de mercado e mão de obra. O investimento inicial seria alto, afinal, seria necessário construir fábricas, treinar os trabalhadores para fabricação e o uso das máquinas, escolher os fornecedores das matérias primas fundamentais da fórmula, toda a logística e forma de armazenamento do produto, que teria que se adaptar a diversos tipos de temperatura e ainda tinha a parte de marketing que teria que ser atrativo, mas sem deixar de lado a sustentabilidade e o foco social do produto.
Michonne e Rick assistiram a tudo com atenção, fazendo perguntas vez ou outra sobre valores e questões que poderiam gerar problemas para a empresa, caso eles resolvessem investir nesse projeto. E era esse interesse do casal em ouvir mais sobre a proposta e até mesmo levantar pontos importantes que me animava. Era um sinal de que eles estavam ponderando seriamente em investir na ideia.
Ao fim da apresentação, Michonne e Rick permanecem em silêncio por alguns instantes e trocam olhares. Eu não conseguia imaginar o que se passava na mente do casal e sua falta de respostas estava começando a me deixar nervosa. Barry e Cait me encaravam inseguros e infelizmente, naquele momento, eu não era capaz de dar qualquer apoio.
— Confesso que fazia tempo que eu não era tão surpreendida assim, Beth. – Comenta Michonne, encarando-me com um sorriso discreto. – Como você sabe, eu estou nesse mercado alimentício há anos e já vi muitos projetos. Alguns bons, outros nem tanto. Mas nenhum deles foi tão inovador quanto essa ideia de vocês. Como filantrópicos, Rick e eu estamos sempre tentando tornar nosso negócio o mais sustentável e social possível. Não é à toa que nossa maior fábrica fica na Etiópia. Acabar com a fome no mundo sempre foi um sonho que nós compartilhamos, mas infelizmente nunca havíamos encontrado nenhuma solução que pudesse tornar esse sonho realidade. Pelo menos, não até encontrar com vocês hoje.
— Nós não fazíamos ideia do que você iria nos apresentar hoje, mas confesso que tínhamos grandes expectativas. Minha esposa sempre foi uma mulher bastante intuitiva e ela sentia que você nos surpreenderia. No entanto, jamais imaginamos que você tivesse uma carta tão forte na manga. Esse projeto é espetacular. – Afirma Rick e é inevitável não me sentir aliviada por ver que eu havia superado as expectativas do casal.
— Em resumo, nós amamos tudo. O cuidado que vocês tiveram em engajar a economia local, dando trabalho a famílias mais carentes, colocando treinamento de mão de obra como uma parte essencial do produto, a atenção com o meio ambiente, mostrando embalagens ecologicamente sustentáveis. Tudo isso com um preço final para o consumidor muito mais baixo do que o preço de iogurtes normais é surreal. Vocês até mesmo trouxeram orçamentos e notas fiscais da produção atual para comprovar que o produto possui mesmo um valor baixo de produção por unidade. – Michonne sorri mais abertamente e nos lança aquele olhar orgulhoso.
— Isso significa que...? – Incentivo que eles dissessem em voz alta a decisão que eles haviam tomado, ainda que eu já tivesse suspeitas do que diriam.
— Significa que iremos assinar um contrato de parceria com a Corporação Puckett e que estamos dispostos a investir inicialmente os cinco milhões de dólares que vocês precisam para a produção do iogurte biofortificado em larga escala. – Responde Michonne e eu acabo prendendo minha respiração, sem acreditar que isso estava mesmo acontecendo.
— Isso! – Comemora Barry, sorrindo para Cait, que estava estática, parecendo tão em choque quanto eu pelas palavras a presidente das indústrias Grimes.
— Eu... uau. Eu não acredito. – Balbucio, emocionada. A felicidade que eu sentia parecia não caber em meu peito. – Eu não sei nem o que dizer. Obrigada. Muito obrigada mesmo.
— Não nos agradeça ainda. A reunião ainda não terminou. Nós temos muito o que conversar e muitas dúvidas para tirar com os nossos geniais criadores dessa revolução na indústria alimentícia e na economia mundial. – Rick nos lança um olhar divertido.
Michonne se levanta e vem até mim. Com seu olhar confiante e esboçando toda a magnitude dela, a mulher estende sua mão. Ainda atordoada com a notícia, demoro algum tempo até cair a ficha do que estava acontecendo. Sorrio emocionada e correspondo ao seu aperto de mão.
— Parabéns, Beth. Graças à sua inteligência, teimosia e brilhantismo, a partir de hoje, as Indústria Grimes e a Corporação Puckett se tornam oficialmente parceiras. – Declara Michonne, sorrindo orgulhosa. – Você venceu e superou qualquer homem que um dia ousou fazer metade de seus feitos.
[...]
Assim que chego ao andar do prédio de Daryl, sorrio ao ouvir o toque de meu celular e ver seu nome brilhando na tela. Respiro fundo e levo o aparelho a orelha, após atender a ligação.
— Desculpa a demora. Eu sei que você disse que era urgente, mas eu estava em reunião com a Madre Abigail, responsável pelo maior orfanato da cidade. — Responde Daryl, referindo-se a mensagem que eu havia enviado para ele assim que a reunião com Michonne e Rick terminou, informando que eu precisava falar urgente com ele e que me ligasse assim que visse a mensagem. – Aconteceu alguma coisa? Como foi a sua reunião com Michonne e Rick? Eles concordaram e formar uma parceria com a empresa?
— Mais importante que isso. Qual é a sua cor de lingerie favorita? – Pergunto maliciosa, prendendo o riso ao pensar na expressão confusa que deveria estar presente em sua face nesse momento.
— O que você disse? — Balbucia o homem do outro lado da linha.
— Qual é a sua cor de lingerie favorita? – Repito, procurando a minha cópia da chave do apartamento dentro de minha bolsa, enquanto apoio o celular no ombro para falar com Daryl.
— Beth. – Ele suspira, parecendo descrente que eu insistisse no assunto.
— Vermelho cor da paixão e da ousadia? Preto para ser mais sexy? Branca para dar o ar de pureza? Ou você prefere cores ousadas? Você gosta de renda ou fantasias? Já sei. Você prefere transparente ou sem lingerie. Safado! Eu sempre soube que essa carinha de certinho e toda a seriedade era só um disfarce. – Brinco e ele bufa.
— A urgência que você tinha era essa? Você queria que eu ligasse apenas para você me perguntar sobre... bem, sobre isso? – Questiona Daryl, parecendo envergonhado com as minhas palavras. Rio, divertindo-me com sua reação.
— Mas é um caso de urgência. Como eu vou saber o que vestir para te levar a loucura se eu não souber de algo assim? – Pergunto, fingindo-me de inocente. – Eu quero despertar seu lado mais selvagem durante o sexo, então eu preciso ir para a batalha com as minhas melhores armas. Isso me lembra de uma coisa? Você gosta de brinquedos sexuais? Eu tenho alguns, mas posso comprar algum mais específico se você gostar.
— Beth! Eu estou na igreja! – Repreende o homem, como se isso justificasse que ele não podia conversar sobre o assunto. Acabo rindo novamente, enquanto ando pelo corredor com a chave do apartamento em mãos.
— E qual é o problema? Sexo só é pecado antes do casamento, certo? Nós seguimos a tradição. Casamos de abstinência e mesmo depois de semanas casados, nós continuamos castos. – Respondo, humorada. O que eu não daria para ver sua cara nesse momento. – De qualquer forma, você não respondeu minhas perguntas. Qual cor eu devo usar hoje para comemorar a minha parceria com Michonne? Posso trazer algum brinquedo?
— Espera. Michonne gostou do projeto? – Questiona o homem, animado com a notícia.
— Sim! Ela até mesmo fez questão de assinar um termo provisório de parceria para que eu apresentasse aos sócios e investidores amanhã. – Conto, sem conseguir conter a minha euforia. – Semana que vem marcaremos uma nova reunião para combinar todos os detalhes que ficaram faltando como decidir onde iremos implantar a primeira fábrica e quais matérias primas precisaremos para atender a demanda da região.
— Beth! Meus parabéns! Eu sabia que você iria conseguir. Eu te disse ontem que o seu nervosismo era infundado e que você não tinha com o que se preocupar. — Daryl parecia ainda mais eufórico. Ele então suspira. – Eu sinto muito por não ter participado da reunião e não estar ao seu lado nesse momento tão importante. Na verdade, me desculpe por estar afastado da empresa essa semana. Eu sei como deve estar sendo difícil para você. Então perdão por isso.
— Não se preocupe com isso. Você estava comigo em pensamento e isso é o suficiente para mim. Além disso, você vai poder compensar toda essa sua ausência hoje a noite. Estou chegando em casa agora e irei preparar um jantar maravilhoso de entrada com muito vinho e me tornarei seu prato principal. Então é melhor se preparar. – Digo com malícia e posso ouvir ele engolindo em seco. Paro de frente a porta do apartamento e quando vou levar a chave para destrancar a porta, noto que ela estava apenas encostada. – Mas... o quê? Que estranho.
— O que foi? — Pergunta Daryl, estranhando meu comentário. – Está tudo bem?
— Sim. Só... você por acaso trancou a porta de casa hoje antes de sair? – Questiono, cautelosa.
— Claro que sim. Você sabe que eu sempre confiro duas vezes se eu tranquei a porta antes de sair. Por quê? A porta está destrancada? – Indaga meu marido com preocupação.
— E você estava esperando alguma visita para hoje? Ou pediu que alguém viesse ao apartamento? – Questiono, vendo que a porta estava com sinal de ter sido destrancada com uma faca.
— Não. Eu não estava esperando ninguém. O que está acontecendo, Beth?
De repente ouço um barulho de algo se quebrando vindo do apartamento. Rapidamente me coloco em alerta e procuro o spray de pimenta que sempre carrego em minha bolsa e a arma de eletrochoque que comprei desde que passei a ter certeza de que estava sendo seguida pelos homens de Hugh.
— Acho que alguém entrou em casa. A porta está destrancada e ouvi o som de alguma coisa se que– Sussurro para Daryl, pegando as armas. – Eu vou entrar para ver quem é.
— O quê? Não mesmo! Saia daí agora mesmo, Beth! Ficou maluca? E se for um ladrão armado? Vai embora e ligue imediatamente para a polícia. — Exige Daryl, desesperado. — Beth, você precisa...
Ignoro seus avisos e entro com cautela no apartamento. Escuto uma voz masculina resmungando e o som de vidro quebrado sendo recolhido vindos da cozinha. Jogo o celular dentro da bolsa, ainda ouvindo Daryl me alertar e implorar que eu fosse para bem longe do apartamento. Com cuidado, aproximo-me com cuidado do cômodo, segurando a arma de choque com firmeza em uma mão, enquanto na outra eu tinha o meu spray de pimenta.
Assim que alcanço a cozinha, o invasor se levanta e me surpreendo ao ver o homem de aparência envelhecida e sorriso irônico, com um cigarro em sua boca. Ele também segurava uma garrafa de whisky e parecia muito mais a vontade do que deveria estar. Engulo em seco e me aproximo, ainda em posição de ataque. Eu não abaixaria minha guarda, ainda que eu estivesse diante do irmão mais velho de meu marido.
— Olá, cunhadinha. Parece que nós finalmente nos conhecemos. — Cumprimenta Merle, sorrindo irônico. Ele bebe um gole do whisky direto da boca da garrafa e faz uma careta, antes de alargar seu sorriso e se aproximar de mim. — Eu estava mesmo esperando por você.
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