Contrato de Amor e Ódio
6 Capítulo 05
Por um instante que pareceu se esticar além do possível, Isabella esqueceu quem era. Esqueceu o restaurante lotado, as conversas ao redor, o som dos talheres contra os pratos e a música baixa preenchendo o ambiente com uma elegância artificial. Esqueceu os olhares curiosos, os celulares erguidos, os fotógrafos atentos como predadores à espera de uma falha. Esqueceu até o próprio nome. Tudo desapareceu. Tudo, exceto ele.
As mãos de Edward permaneciam firmes em sua cintura. O calor dos dedos atravessava o tecido fino de sua camiseta e alcançava sua pele, espalhando por seu corpo uma sensação desconfortavelmente agradável. A proximidade entre os dois era absurda, sufocante, perigosa. Errada de tantas formas que Isabella deveria ter recuado no primeiro segundo. Mas não recuou.
Seu coração batia tão rápido que chegava a doer. Cada pulsação ecoava dentro de seus ouvidos enquanto sua mente lutava para compreender o que estava acontecendo. Aquilo não deveria estar acontecendo. Não fazia sentido. Não era planejado. Não era racional.
Mas já era tarde demais.
O beijo a atingira como uma colisão. Não havia sido delicado, romântico ou cuidadosamente calculado. Simplesmente acontecera. Como uma faísca lançada sobre gasolina. Como um impulso irracional que surgiu antes que seu cérebro tivesse a chance de protestar.
Ela sentia a respiração dele. Sentia o perfume discreto que o envolvia. Sentia a firmeza de sua presença ocupando cada espaço ao seu redor. E, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se completamente vulnerável. Aquilo a assustava. Porque nenhum beijo em toda a sua vida havia provocado aquela reação. Nenhum homem jamais fora capaz de deixá-la sem pensamentos, sem argumentos, sem controle. Por alguns segundos, sua mente ficara vazia. As dívidas desapareceram. O medo pelo futuro desapareceu. A ordem de despejo desapareceu. A dor de assistir à gráfica de sua família ser engolida pelo fracasso pareceu distante demais para alcançá-la.
Até mesmo Edward Cullen pareceu distante de quem ele realmente era. Naquele instante, ele não parecia o homem que carregava o sobrenome que ela aprendera a desprezar. Não parecia o empresário frio e arrogante que surgia em sua vida apenas para desestabilizá-la. Não parecia seu inimigo. Parecia apenas um homem. E talvez fosse exatamente isso que a aterrorizava. Porque era muito mais fácil odiá-lo quando lembrava quem ele era.
Então os flashes explodiram. Um clarão. Outro. E mais outro.
O som das câmeras atravessou a névoa que envolvia seus pensamentos, despedaçando aquele momento como vidro contra o chão. A realidade voltou de uma só vez. Brutal. Cruel. Implacável.
Os olhos de Isabella se arregalaram. Seu corpo inteiro congelou.
Meu Deus. O que foi que eu fiz?
O ar desapareceu de seus pulmões. A consciência do que acabara de acontecer atingiu-a como uma onda devastadora. Ela estava beijando Edward Cullen.
Edward Cullen!
O nome ecoou dentro de sua cabeça como uma sentença. Não um desconhecido. Não um homem qualquer. Mas justamente ele. O homem que ela mais odiava. O homem cujo sobrenome estava ligado à destruição de tudo o que sua família construíra. O homem que representava exatamente tudo contra o que ela lutava. E ela o havia beijado. Voluntariamente.
A náusea quase a dominou. Porque aquilo já seria terrível por si só, mas havia algo ainda pior.
Muito pior.
Edward Cullen não era apenas um empresário influente. Era uma figura pública. Um dos rostos mais conhecidos de Seattle. Um homem cuja vida frequentemente estampava manchetes, revistas e colunas sociais.
E agora ela fazia parte daquela história. Os celulares erguidos ao redor eram prova suficiente. As câmeras. Os cochichos. Os olhares curiosos. As expressões surpresas.
Nada daquilo passaria despercebido.
Antes mesmo do amanhecer, aquelas fotos estariam circulando pela cidade inteira. Talvez pelo país inteiro. E não importaria o que realmente tivesse acontecido. Não importaria o álcool, a raiva, o impulso ou o desespero. A imprensa contaria a história que vendesse melhor. E Isabella seria engolida por ela.
O pânico espalhou-se por suas veias. Sem pensar, recuou bruscamente. O movimento foi tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. As mãos de Edward deslizaram de sua cintura.
A ausência daquele contato deveria ter sido um alívio. Deveria. Mas, para sua completa irritação, deixou apenas uma estranha sensação de vazio. Como se algo tivesse sido arrancado dela abruptamente. Ela odiou aquilo imediatamente. Odiou a sensação. Odiou a própria reação. Odiou a si mesma. E odiou Edward Cullen mais do que nunca.
Sem dizer uma palavra, virou-se e atravessou o restaurante praticamente correndo. Ouviu vozes chamando seu nome. Ignorou todas. Não queria olhar para os fotógrafos. Não queria encarar os curiosos. E definitivamente não queria descobrir qual era a expressão de Edward naquele momento.
Que ele resolvesse aquela confusão sozinho. Ele era especialista em lidar com atenção pública, não era?
Pois que lidasse.
Quando atravessou as portas do restaurante, o ar frio de Seattle atingiu seu rosto como um tapa. Ainda assim, não foi suficiente para acalmar o caos dentro dela. Continuou andando. Rápido. Sem direção. Os tênis batiam contra a calçada, e a cabeça girava levemente por causa do álcool.
— Que droga… — murmurou entre os dentes.
Passou as mãos pelos cabelos, soltando uma risada nervosa, sem qualquer humor.
— Que droga, Isabella. O que deu em você?
Sua própria voz carregava incredulidade, como se repreendesse uma desconhecida.
A vergonha queimava sob sua pele.
Nunca mais beberia. Nunca. Nem vinho. Nem champanhe. Nem qualquer coisa que pudesse levá-la a cometer uma estupidez daquela magnitude.
Ela continuou caminhando, tentando organizar os pensamentos. Mas então percebeu algo.
Seu passo vacilou. Lentamente, levou os dedos aos próprios lábios. E sentiu.
Menta.
O sabor ainda estava ali. Persistente. Fresco. Como uma lembrança que se recusava a desaparecer. Como uma marca invisível. Como uma prova silenciosa do que acabara de acontecer.
O gosto do beijo de Edward Cullen.
Seu coração disparou novamente. E aquilo a irritou profundamente.
Por quê? Por que ela o havia beijado? A pergunta surgiu antes que pudesse impedi-la.
Teria sido pena? As pessoas estavam falando dele. Julgando-o. Talvez ela apenas quisesse interromper aquela situação constrangedora. Talvez tivesse agido por impulso para protegê-lo da humilhação pública. Mas aquela explicação soava absurda. Proteger Edward Cullen? Ridículo.
Talvez fosse o álcool. Sim. O álcool era uma explicação lógica. Conveniente. Segura. O álcool distorcia julgamentos, inflamava impulsos, derrubava barreiras.
Mas havia uma terceira possibilidade. Uma que ela se recusava até mesmo a formular completamente.
Seu estômago revirou.
Não. Absolutamente não. Porque admitir aquela hipótese significava admitir algo muito pior. Significava reconhecer que, por alguns segundos, ela havia desejado aquele beijo.
Não por pena. Não por estratégia. Não apenas pelo álcool. Porque quis. Porque, naquele instante absurdo, beijá-lo pareceu a coisa mais natural do mundo.
— Não — ela disse em voz alta, firme, quase agressiva.
Balançou a cabeça, como se pudesse expulsar o pensamento.
— Foi impulsividade. Só isso.
Precisava ter sido. Tinha que ter sido. Qualquer outra explicação era inaceitável. Porque a alternativa significava encarar uma verdade para a qual ainda não estava preparada.
Que, durante aqueles poucos segundos devastadores, ela não enxergara o inimigo. Não enxergara o empresário. Não enxergara o sobrenome Cullen. Tinha enxergado apenas o homem. E essa era uma verdade perigosa demais para ser admitida.
Isabella continuou andando sem rumo, tentando fugir do peso esmagador do que havia acontecido. Do escândalo. Das consequências. Dos próprios pensamentos.
Foi então que um carro preto reduziu a velocidade ao seu lado. Luxuoso demais. Silencioso demais. Familiar demais.
Seu coração disparou instantaneamente. Antes mesmo que o vidro escuro começasse a baixar, um pressentimento atravessou seu corpo como um choque. Ela nem precisava olhar. De alguma forma, já sabia quem estava ali.
Quando o vidro desceu por completo, a confirmação trouxe uma nova onda de irritação — mais densa, mais afiada. Edward Cullen estava ali. Os óculos escuros escondiam seus olhos. As mãos permaneciam firmes demais no volante. A postura era impecável, controlada demais para ser tranquila. Havia algo errado naquela calma. Algo tenso, contido à força, como uma fissura prestes a se abrir.
— Entre — ordenou, sem rodeios.
O tom não admitia negociação. Nem réplica.
Isabella deu um passo instintivo para trás. O impulso de fugir gritou em cada músculo do corpo. Mas bastou tentar acelerar o passo para perceber que confiar no próprio equilíbrio naquele momento seria uma péssima ideia. O chão ainda não parecia completamente sólido sob seus pés, e o mundo insistia em oscilar nas bordas de sua visão.
Praguejando baixo, abriu a porta e entrou no carro, batendo-a com força excessiva. O som seco ecoou no interior luxuoso.
— O que você quer comigo? — disparou de imediato, o tom ácido, cruzando os braços como quem erguia uma barreira invisível.
Edward arrancou com o veículo antes de responder. O motor rugiu baixo, controlado, tão contido quanto o homem ao volante.
— Não — Edward disse por fim, lançando-lhe um breve olhar por cima dos óculos escuros. — A pergunta certa é: o que você quer com tudo isso?
Isabella soltou uma risada curta, sem humor algum. Uma risada amarga, quase um espasmo.
— Já não bastava riscar meu carro na semana passada? — ele continuou, a voz baixa, tensionada como um fio esticado ao limite. — Agora resolveu me envergonhar em público?
O sangue dela ferveu.
— Envergonhado você já estava antes de eu te beijar — ela retrucou, sem delicadeza. Sem filtro. — As pessoas estavam comentando. Eu ouvi.
Virou-se levemente em sua direção, os olhos faiscando.
— Sobre você e sua ex-namorada. Sobre como foi trocado sem cerimônia. Estavam te chamando de corno manso — completou ela, fria, cirúrgica.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Denso como concreto fresco. Pela primeira vez desde que o vira, Edward pareceu genuinamente pego de surpresa. O maxilar se contraiu com força visível, e sua postura impecável vacilou por um instante mínimo — quase imperceptível, mas real. Ele desviou o olhar para a rua à frente, concentrando-se no caminho com intensidade excessiva, como se precisasse daquilo para não perder o controle.
O carro avançava pela cidade, engolindo quarteirões. As luzes passavam rápidas demais do lado de fora. Isabella não reconhecia o trajeto, e isso só aumentava a sensação de vulnerabilidade que começava a se instalar.
— Para onde você está me levando? — ela questionou, a voz carregada de nervosismo, irritação e resquícios de álcool. — Pare o carro agora.
Edward não diminuiu a velocidade.
— No momento, você não está em condição de exigir nada, Swan — ele retrucou, o maxilar rígido, a tensão finalmente escapando pelas bordas da voz.
O carro deixou para trás o movimento excessivo do centro de Seattle como quem atravessa uma fronteira invisível. À medida que avançavam por ruas cada vez mais estreitas e silenciosas, Isabella sentiu o estômago se contrair lentamente, como se seu corpo tivesse entendido o perigo antes mesmo de sua mente aceitar.
Os prédios deram lugar a casas espaçadas demais. Depois, a nada além de árvores. A vegetação fechava-se em torno da estrada, alta e escura, criando túneis naturais onde a luz parecia ser engolida. O ar ali era diferente — mais frio, mais limpo e perigosamente vazio. Cada quilômetro afastava-a não apenas da cidade, mas da sensação ilusória de segurança que ela oferecia. Era como se Seattle tivesse sido deixada em outra realidade.
Quando o carro finalmente parou, o silêncio que se instalou foi quase ensurdecedor.
Não havia trânsito. Nenhum som de pneus ao longe. Nenhuma voz humana. Apenas o leve estalar da lataria esfriando e o sussurro distante da floresta, viva demais para ser ignorada.
A estrada era estreita, ladeada por árvores altas que se inclinavam levemente, como sentinelas imóveis. A sombra da mata se estendia até onde seus olhos alcançavam, um aviso mudo de que dali em diante não haveria testemunhas.
O único sinal de civilização era uma casa ao fundo. Isolada demais.
Isabella engoliu em seco ao perceber o quão afastada ela estava de qualquer outra construção. Se existisse um vizinho — e isso já era ser otimista — deveria estar a uma distância inútil. Longe o bastante para que qualquer pedido de ajuda se perdesse entre as árvores.
Edward desligou o motor. O som seco pareceu definitivo demais.
Sem dizer uma palavra, ele desceu do carro e fechou a porta com mais força do que o necessário. O estalo ecoou no silêncio absoluto. Caminhou alguns passos à frente e parou, o corpo tenso, impaciente, como se já esperasse que ela o seguisse. Como se aquela fosse a única opção possível.
Isabella permaneceu sentada por um instante a mais do que devia. O coração batia rápido demais. Seus pensamentos correram em cálculos automáticos, frios, desesperadamente racionais. A distância até a estrada. O quanto o álcool ainda turvava seus reflexos. O quanto seu equilíbrio estava comprometido. Se precisasse correr, teria poucos segundos de vantagem. Poucos segundos não significavam nada.
Com um suspiro contido, reuniu o que lhe restava de coragem, abriu a porta e saiu do carro.
Foi então que viu a casa de verdade. E parou. Era impossível não fazê-lo.
Branca, clássica, elegante de um modo quase atemporal, a construção parecia deslocada da realidade ao redor, como se tivesse sido retirada de uma pintura antiga e cuidadosamente posicionada à margem da floresta. As linhas eram limpas, precisas. Grandes paredes de vidro refletiam a luz suave do exterior, revelando apenas sombras alongadas e um interior que prometia amplitude, ordem e silêncio absoluto.
Era bonita. Bonita demais. E, justamente por isso, ainda mais intimidadora. Um contraste cruel entre beleza e autoridade, entre sofisticação e isolamento. Isabella sentiu um arrepio involuntário. Piscou algumas vezes, tentando se recompor, como se o simples ato de observar pudesse ancorá-la novamente na realidade.
— Por que estamos aqui? — Bella perguntou, a voz rompendo o silêncio antes que ele se tornasse insuportável. — O que você quer comigo?
Edward demorou a responder. Passou a mão pelo rosto num gesto cansado, contido demais. Retirou os óculos escuros e os guardou no bolso do paletó. À luz suave da manhã, seus olhos pareciam ainda mais frios — não apenas irritados, mas exaustos, tensos, carregando algo mais profundo do que raiva. Havia ali uma pressão constante. Como se ele estivesse segurando algo prestes a romper.
Edward Cullen soltou um suspiro pesado.
— Eu poderia perguntar a mesma coisa — ele respondeu, a voz baixa, controlada até o limite. — Porque, aparentemente, o universo decidiu testar a minha paciência usando você.
Isabella estreitou os olhos, sentindo a irritação se misturar ao desconforto crescente.
— Por que você me trouxe aqui?
— Porque preciso encerrar essa confusão. De uma vez por todas.
O tom era firme. Definitivo demais.
Ela cruzou os braços, o gesto automático e defensivo, como se pudesse criar uma barreira física entre os dois.
— Encerrar o quê?
— A história da gráfica. As ameaças. As fotos. O beijo. E, agora, a narrativa que estão criando sobre nós.
O coração de Isabella acelerou, um baque surdo contra as costelas. Ainda assim, manteve o queixo erguido, recusando-se a demonstrar qualquer fragilidade.
— E como pretende fazer isso?
Edward a observou em silêncio por tempo demais. Seu olhar parecia medir cada detalhe: a rigidez de seus ombros, a tensão em seu maxilar, o desafio misturado à inquietação. Como se avaliasse não apenas sua resposta, mas sua resistência.
Então, falou:
— Tenho uma proposta para você.
A palavra pairou entre eles, densa, carregada de promessas e ameaças na mesma medida. Não era um convite. Era um movimento estratégico.
— Uma proposta que pode resolver os seus problemas… — ele continuou, dando um passo à frente, invadindo sutilmente seu espaço — …e os meus.
Isabella sentiu um arrepio subir lento pela espinha, um aviso instintivo que não conseguiu ignorar.
Ali, diante daquela casa bela e isolada, no limite entre a floresta e o silêncio absoluto, ela teve certeza de uma coisa: qualquer coisa que Edward Cullen estivesse prestes a propor não seria simples. Não seria limpa. E certamente não viria sem custo.
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