O silêncio que se instalou entre eles parecia mais denso do que a própria floresta ao redor. Isabella sentia cada segundo não dito pressionar sua pele, seus ossos, sua respiração. Era como se aquele lugar — isolado, belo demais, silencioso demais — a empurrasse pouco a pouco para dentro de uma armadilha da qual talvez não houvesse saída simples.

Edward foi o primeiro a se mover. Caminhou alguns passos em direção à casa, as mãos cerradas ao lado do corpo, os ombros rígidos sob o paletó impecável. Parecia precisar de distância para organizar o que estava prestes a dizer. Ou talvez para impedir que a irritação rompesse a máscara de controle que ele usava tão bem. Parou. Respirou fundo. Então voltou-se para ela. O semblante era sério, duro demais para ser apenas raiva. Havia decisão ali. Frieza. Um tipo de cálculo que fez Isabella sentir o estômago se contrair antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

— Isso saiu completamente do controle — Edward começou, sem rodeios. — E não apenas para mim.

Isabella cruzou os braços, o gesto automático, quase instintivo. Uma tentativa inútil de se proteger daquele homem, daquela casa, daquele dia e de tudo o que parecia se fechar ao redor dela.

— Não me diga.

O sarcasmo saiu fácil, afiado, mas Edward sequer pareceu atingido.

— A Cullen Enterprises está enfrentando dificuldades — ele continuou, no tom preciso de quem apresentava um relatório. — As polêmicas envolvendo meu nome, o término com Irina Denali e, agora… você. — Fez uma pausa breve, calculada demais para ser casual. — Tudo isso está abalando a confiança dos nossos investidores.

Isabella sentiu o estômago se revirar ao ouvir seu nome encaixado naquele contexto, como se fosse apenas mais um item de risco em uma planilha corporativa. Não uma pessoa. Não alguém com uma vida destruída, contas atrasadas e um pai prestes a perder o teto sobre a cabeça. Apenas um problema.

— O que eles querem agora é previsibilidade — concluiu Edward. — Estabilidade. Coerência.

Bella soltou uma risada curta, amarga, sem qualquer traço de humor.

— E você acha que eu sou a solução para isso?

— Não — ele respondeu de imediato, sem hesitar. — Acho que você é parte do problema.

As palavras a atingiram como um soco. Isabella sentiu o rosto esquentar, a raiva subindo rápida, feroz, mas Edward não lhe deu tempo para reagir.

— E exatamente por isso — completou, a voz fria — também pode ser parte da solução.

O sangue dela ferveu.

— Você apareceu na minha vida da pior forma possível — Edward continuou, impassível. — Me confrontou. Danificou meu carro. Me beijou diante de fotógrafos. — Cada verbo era uma marca, um risco traçado com precisão cruel. — O estrago já está feito. Não há como apagar.

Ele deu um passo à frente. Isabella não recuou, embora cada instinto gritasse para fazê-lo.

— Então a única saída que vejo é usar o que aconteceu a nosso favor.

O nojo subiu pela garganta dela.

— Você só pode estar brincando — Bella retrucou, a voz vibrando de raiva.

Edward a encarou por longos segundos. Não havia ironia em seu rosto. Nem dúvida. Apenas cálculo. E aquilo era pior. Muito pior. Quando falou novamente, foi com uma precisão quase cruel:

— Quero que façamos um acordo.

Bella franziu o cenho, o corpo inteiro em alerta.

— Que tipo de acordo?

— Vamos fingir um relacionamento — disse ele, direto demais para permitir fuga. — Um noivado.

O mundo pareceu inclinar sob seus pés.

— O quê?! — Bella explodiu, a incredulidade misturada à fúria. — Você enlouqueceu? Que ideia absurda é essa?

— Pense — Edward rebateu, imperturbável. — Um compromisso público. Sério. Anunciado de forma oficial. Sem rumores. Sem fotos roubadas. Sem especulações.

Ela balançou a cabeça, tentando acompanhar o absurdo daquilo. Noivado. Com Edward Cullen? O homem cujo sobrenome atravessara sua vida como uma lâmina. O homem que ela odiava com uma intensidade que às vezes parecia ser a única coisa capaz de mantê-la em pé.

— A narrativa muda — ele prosseguiu. — A imprensa deixa de falar em traição, escândalo ou descontrole emocional e passa a falar sobre estabilidade. Recomeço. Seriedade.

— Isso só vai gerar ainda mais fofoca — Bella retrucou, sentindo a indignação pulsar nas têmporas.

— Não se tudo for controlado em cada detalhe — respondeu ele, firme. — Cada informação será liberada formalmente. Datas. Aparições. Declarações. Nada fora do script.

Script. A palavra a fez sentir vontade de rir e gritar ao mesmo tempo. Aquilo não era um pedido. Não era uma conversa. Era um plano frio e perigoso sendo colocado diante dela como se sua vida fosse mais uma extensão da Cullen Enterprises.

— Eu não tenho o menor interesse em ajudar você ou a sua família — Bella respondeu, seca. — Para mim, essa empresa pode afundar. Principalmente depois do que fizeram com a Gráfica Swan.

O olhar de Edward escureceu.

— Não distorça as coisas — ele respondeu, gélido. — Você pode odiar minha família o quanto quiser, mas não pode fingir que não está envolvida até o último fio de cabelo agora.

Bella cerrou os punhos. As unhas cravaram na própria pele, uma dor pequena, concreta, necessária.

— Eu não sou obrigada a participar de nada.

— Não — ele concordou, inclinando levemente a cabeça. — Mas você também não está em posição de fingir que não sofrerá as consequências.

O silêncio voltou a se instalar, ainda mais pesado. Isabella sentiu algo frio escorrer por dentro dela. Então Edward avançou para o golpe final.

— Eu sei das dívidas — ele disse, a voz baixa, perigosa. — Sei da ordem de despejo. Sei do estado do seu pai.

O coração de Isabella falhou uma batida. O ar desapareceu. Por um segundo, a floresta, a casa e até Edward pareceram distantes. Havia apenas aquela frase. A invasão contida nela. A violência silenciosa de perceber que sua miséria havia sido observada, medida, organizada e transformada em argumento.

— Isso é chantagem — ela sussurrou, a voz fraca demais para o ódio que sentia.

— É a realidade — ele corrigiu. — E você sabe disso.

Isabella fechou os olhos por um instante. Viu as contas espalhadas sobre a mesa. O envelope amarelado com a ordem de despejo. O olhar cansado de Charlie, tentando fingir que ainda tinha algum controle sobre a própria vida. Viu Jessica Stanley negando seu pedido sem qualquer constrangimento. Viu a agência, o salário miserável, a geladeira quase vazia, os números que jamais fechavam. Tudo veio à tona de uma vez. Esmagador. Humilhante. Real.

Quando voltou a encará-lo, havia algo diferente em seu olhar. Não resignação. Não aceitação. Sobrevivência.

— Quanto? — Bella perguntou, sentindo o gosto amargo da derrota se espalhar pela boca. — Quanto você vai pagar para eu participar desse absurdo?

Edward pareceu relaxar minimamente. Um detalhe quase imperceptível, mas real. Como alguém que finalmente reassumia o controle da situação. Isabella odiou perceber. Odiou ainda mais precisar continuar ouvindo.

— O suficiente para quitar suas dívidas — ele respondeu. — E garantir estabilidade financeira enquanto durar o acordo.

A palavra estabilidade acertou um ponto frágil demais dentro dela. Estabilidade. Não luxo. Não conforto. Não felicidade. Apenas não acordar todos os dias com medo de perder tudo de novo.

— E por quanto tempo? — ela insistiu.

— Alguns meses — disse ele. — Até a poeira baixar. Depois, anunciamos o término de forma civilizada. Sem escândalos.

Isabella passou a mão pelo rosto, exausta. Sentia-se drenada, como se cada palavra arrancasse mais uma parte de sua dignidade.

— Regras — ela exigiu, a voz mais firme do que se sentia. — Nada de controlar a minha vida. Nada de intimidade real. Nada de achar que pode mandar em mim só porque está pagando. Isso vai ser apenas uma encenação.

— Concordo — Edward respondeu de imediato. — Aparições públicas. Eventos selecionados. Entrevistas pontuais. Nada além disso.

Ela sentiu a bile subir por sua garganta.

— Ótimo. Um noivado falso com o homem que eu mais odeio.

— O sentimento é recíproco — ele devolveu, seco e frio.

Isabella respirou fundo. Cada instinto gritava para fugir. Mas fugir para onde? Para o apartamento prestes a ser tomado? Para o emprego que mal pagava suas contas? Para o olhar quebrado de Charlie quando ela precisasse admitir que não conseguira salvá-los?

Não havia saída limpa. Não havia escolha que não custasse alguma coisa.

— Então eu aceito — Bella disse por fim, a voz firme apesar do nó que lhe fechava a garganta. — Mas saiba de uma coisa, Edward Cullen: isso não apaga nada do que a sua família fez.

Ele assentiu lentamente.

— Nunca disse que apagaria.

Ali, diante daquela casa isolada, bela demais para ser real, Isabella teve certeza absoluta de que acabara de cruzar um limite perigoso. O acordo havia sido selado.

~*~

Isabella mal cruzou a porta da agência quando sentiu o impacto. Não foi sutil. Foi físico. O peso dos olhares a atingiu de uma só vez. Conversas cessaram. Teclados pararam. Até o ar pareceu se comprimir ao redor dela. Todos estavam olhando.

Sem exceção.

Bella diminuiu o passo, confusa, o coração acelerando por reflexo. Lançou um olhar rápido para si mesma, quase automático, conferindo se havia cometido algum erro grotesco e óbvio demais para ignorar. A blusa estava certa. O jeans também. A mochila pendia do ombro como sempre. Nenhuma mancha. Nenhuma extravagância. Ela estava normal.

Então a lembrança veio. Violenta. Implacável. O beijo. Os flashes. Edward Cullen.

Bella praguejou em silêncio, sentindo o estômago afundar. Claro que não era sua roupa. Era a pior decisão que tomara nos últimos tempos — sob a influência do álcool, da raiva acumulada e da impulsividade que sempre surgia quando estava cansada demais para lutar contra si mesma.

E agora havia o acordo. A palavra soava absurda até dentro de sua própria cabeça. Noiva. Falsa noiva. De Edward Cullen. A simples ideia lhe causava náusea. Um desconforto lento, persistente, impossível de ignorar. Era como vestir uma pele que não lhe pertencia. Como aceitar um papel em uma peça escrita por alguém que não se importava se ela sairia inteira ao final.

Ela não chegou sequer à sua mesa. A porta do escritório principal se abriu com força, batendo contra a parede num estrondo que fez Bella estremecer.

Jessica Stanley surgiu como um furacão. Os olhos faiscavam, o maxilar estava travado, e o celular em sua mão parecia uma arma pronta para ser usada.

— Isabella. Na minha sala. Agora.

O tom era seco. Autoritário. Irrevogável.

Bella engoliu em seco, sentindo o estômago se contrair ainda mais. Obedeceu. Não por respeito, mas porque sabia que qualquer tentativa de adiar só tornaria tudo pior. Caminhou atrás da chefe sob o silêncio pesado dos colegas, consciente demais dos olhares curiosos que a seguiam. Cada passo parecia mais difícil que o anterior.

Assim que a porta se fechou, abafando o burburinho do lado de fora, Jessica virou o celular na direção dela. Na tela, a imagem era inconfundível. Ela e Edward. Os lábios se tocando. Flashes congelando o erro no instante exato em que ele se tornara público.

— Quer me explicar o que é isso? — Jessica perguntou, a voz afiada como uma lâmina.

Isabella cruzou os braços, mais cansada do que defensiva.

— Um beijo — ela respondeu, seca, sem rodeios.

O maxilar de Jessica se retesou visivelmente.

— Um beijo? — a chefe repetiu, incrédula. — Você tem ideia do que isso significa? Do impacto que isso pode ter para a agência? Para você?

Aproximou-se um passo, os olhos estreitos, avaliadores, cruéis.

— Desde quando você se envolve com gente desse nível?

A pergunta carregava julgamento. Suposição. Um abismo social escancarado. Isabella sentiu algo dentro de si endurecer.

— Isso não é da sua conta — Bella rebateu, a paciência finalmente se esgotando. — E eu não vou entrar em detalhes.

Jessica abriu a boca para retrucar, claramente pronta para continuar o interrogatório, quando uma batida leve interrompeu o momento. Lauren Mallory entrou, visivelmente tensa, o olhar oscilando entre as duas.

— Desculpa interromper, mas… — ela hesitou — tem um motorista de Edward Cullen lá fora.

Bella sentiu o chão sumir por um segundo.

— Ele disse que é urgente — Lauren continuou, lançando um olhar rápido e quase constrangido para Isabella. — Está aguardando por ela.

O ar pareceu rarear dentro da sala. Isabella fechou os olhos por um breve instante, reunindo o pouco de sanidade que ainda lhe restava. Era cedo demais. Rápido demais. Público demais.

Quando se virou para sair, Jessica interceptou seu caminho.

— Essa conversa ainda não acabou.

Bella suspirou fundo, exausta de tudo aquilo.

— Vai ter que ficar para depois.

E saiu sem pedir permissão. Sem olhar para trás.

Do lado de fora da agência, o contraste era impossível de ignorar. Parado junto à calçada, um carro preto de luxo chamava atenção imediatamente. A pintura impecável refletia a luz suave da tarde, destacando-se entre os veículos comuns estacionados ao longo da rua.

Bella mal havia atravessado a porta quando o motorista saiu do veículo. O homem vestia um terno escuro perfeitamente alinhado. Seus movimentos eram precisos e discretos, e sua postura transmitia a formalidade de alguém acostumado a cumprir ordens sem questionamentos.

— Senhorita Swan — ele cumprimentou, inclinando levemente a cabeça. — O Sr. Cullen me enviou.

Bella parou imediatamente. Depois da conversa de mais cedo e da avalanche de mudanças que pareciam acontecer sem lhe dar tempo para respirar, sua paciência estava perigosamente curta.

— Para quê exatamente?

— Esta noite haverá um jantar — respondeu o motorista em tom profissional. — Durante o evento, o Sr. Cullen fará o anúncio oficial do relacionamento de vocês.

Bella fechou os olhos por um segundo. Claro que faria. Tudo naquele acordo parecia avançar em uma velocidade que ela não conseguia acompanhar.

— O Sr. Cullen também pediu que eu a levasse até Alice Cullen — continuou ele. — Ela ficará responsável pelos preparativos para a noite.

Uma risada breve escapou dos lábios de Bella.

— Claro que pediu.

O motorista não demonstrou qualquer reação. Apenas abriu a porta traseira do veículo e aguardou. Por alguns instantes, Bella permaneceu onde estava. Sabia que resistir agora não mudaria nada. O jantar aconteceria naquela noite. O anúncio já estava decidido. E, querendo ou não, ela fazia parte daquilo.

Com um suspiro silencioso, caminhou até o carro e entrou. Assim que a porta se fechou, os sons da rua desapareceram quase por completo. O interior era confortável demais, silencioso demais, distante demais da realidade que conhecia.

Enquanto o veículo deixava a agência para trás, Bella observou pela janela as ruas familiares da cidade. E não conseguiu afastar a sensação de que aquele talvez fosse o último dia em que sua vida pareceria minimamente sua.

~*~

Isabella percebeu que não estava preparada para aquele encontro no exato segundo em que a viu.

— Você deve ser a Isabella! — exclamou Alice Cullen, surgindo praticamente do nada à sua frente, como se tivesse se materializado no espaço entre um piscar de olhos e outro.

Bella piscou, surpresa. O corpo reagiu um segundo antes da mente.

Alice era tudo o que Edward Cullen não era. Onde Edward era linha reta, silêncio e controle, Alice era movimento. Baixinha, de postura elétrica, parecia incapaz de permanecer parada. Os cabelos pretos, curtos e repicados, acompanhavam cada gesto rápido, como se também tivessem vontade própria. O corte moderno parecia sempre em ação, assim como ela. Falava rápido demais. Sorria fácil demais. Chegava perto demais. E seus olhos brilhavam com uma empolgação quase infantil, genuína, contagiante e completamente desconcertante. O sorriso largo não parecia estratégico. Não parecia calculado. Era real. E isso, de alguma forma, deixava Isabella ainda mais desconfortável. Ela estava preparada para frieza. Para julgamento. Para desprezo disfarçado de educação. Não para gentileza.

— Bella — ela corrigiu automaticamente, a voz saindo mais baixa do que pretendia, enquanto ajeitava a alça da bolsa no ombro. Um gesto pequeno. Defensivo.

— Meu Deus, você é ainda mais bonita pessoalmente! — Alice disparou, sem qualquer cerimônia, já segurando seu braço como se aquela intimidade fosse natural, antiga. — Edward não falou nada direito, claro. Ele nunca fala nada direito. Mas eu sabia. Sabia que você seria interessante.

Interessante. A palavra soou estranha demais naquele contexto.

Bella engoliu em seco, sentindo o desconforto subir pela espinha.

— Olha, Alice… eu não sei se—

— Sem “olha, Alice” — interrompeu a irmã de Edward, animada demais para ser contida. — Eu fui oficialmente designada para garantir que você esteja impecável hoje à noite. E nós já estamos atrasadas.

O tom final não admitia discussão. Antes que Isabella pudesse formular um protesto coerente, já estava sendo praticamente arrastada para dentro da primeira loja. Portas se abriram. Luzes fortes a envolveram. Espelhos surgiram por todos os lados, multiplicando sua imagem cansada em ângulos que ela não queria encarar.

— Eu não preciso de nada extravagante — Bella tentou argumentar, lutando para manter algum controle. — E definitivamente não preciso de nada caro.

Alice riu, uma gargalhada leve, despreocupada, como se Bella tivesse contado a melhor piada do dia.

— Bella, hoje não é sobre precisar.

Ela a analisou de cima a baixo, os olhos atentos, avaliadores, mas sem crueldade.

— É sobre impacto.

A palavra ecoou na mente de Isabella como um aviso. Horas se passaram em um borrão de tecidos, cabides, zíperes e reflexos distorcidos. Alice a fazia experimentar vestido após vestido — longos demais, curtos demais, brilhantes demais, ousados demais para alguém que sempre preferira desaparecer a chamar atenção. A cada negativa de Bella, Alice apenas inclinava a cabeça, pensativa, como uma artista diante de uma tela que ainda não estava pronta.

Bella se sentia exausta. Irritada. Exposta. Cada troca de roupa parecia arrancar mais uma camada da pessoa que ela conhecia em si mesma. Como se Alice não estivesse apenas escolhendo um vestido, mas moldando uma versão dela que pudesse caber no mundo dos Cullen. Uma versão elegante. Fotogênica. Aceitável. Uma versão vendável.

Até que Alice parou de repente. Ficou em silêncio. Os olhos brilharam de um jeito diferente.

— Esse — ela disse, com convicção absoluta.

O vestido azul-escuro parecia simples à primeira vista. Elegante. Discreto. Mas, ao vesti-lo, Isabella sentiu algo mudar. O tecido caía com precisão, acompanhando sua silhueta sem exageros, sem esforço. Era sofisticado sem ser chamativo. Maduro. Seguro. Perigoso de uma forma silenciosa.

Ela se encarou no espelho. O coração bateu mais rápido do que deveria. Não parecia apenas bonita. Parecia outra pessoa. Ou talvez uma versão de si mesma que nunca tivera tempo, dinheiro ou coragem de conhecer.

— Alice… — Bella murmurou. — Isso deve custar uma fortuna.

— Custa — respondeu ela, sem sequer olhar novamente para a etiqueta, já passando um cartão preto pelo leitor. — Para o Edward.

Piscou para Bella, de forma conspiratória.

— Considere um investimento.

Isabella suspirou, um misto de derrota e cansaço pesando sobre seus ombros. Investimento. Era isso que ela havia se tornado. Uma peça bem vestida em um acordo de reputação.

O resto da tarde foi uma sequência de rendições silenciosas. Cabelo. Manicure. Maquiagem. Cada etapa a afastava um pouco mais da mulher comum que entrara ali horas antes. O cabelo foi alinhado em ondas suaves. A pele ganhou um brilho discreto. Os olhos, antes marcados pelo cansaço, pareciam mais profundos, mais intensos. A boca recebeu uma cor que não gritava, mas também não pedia desculpas.

Quando finalmente se olhou no espelho pela última vez, o choque foi inevitável. Quase não se reconheceu. Não parecia confortável. Não parecia à vontade. Parecia preparada para uma guerra da qual não conhecia todas as regras. Como se estivesse vestindo uma armadura feita de tecido caro, maquiagem impecável e mentiras bem ensaiadas.

Quando o relógio passou das cinco da tarde, o motorista já as aguardava. Alice observou o resultado final com um sorriso satisfeito, cruzando os braços.

— Pronta para deixar todos e, principalmente, meu irmão completamente desnorteados?

Bella respirou fundo, sentindo o nó se formar na garganta. Conteve a resposta atravessada que ameaçou escapar. Aquela não era a hora. Não mais. Forçou um sorriso pequeno, controlado, e entrou no carro.