Contrato de Amor e Ódio
10 Capítulo 09
Bella permaneceu parada no meio da suíte, encarando a cama. Por alguns segundos, não conseguiu fazer mais nada. Não conseguiu piscar. Não conseguiu respirar direito. Não conseguiu sequer organizar uma frase coerente, porque a imagem diante dela ocupava espaço demais dentro da cabeça. Era como se todo o quarto tivesse desaparecido ao redor daquele único detalhe, daquela única evidência absurda e perfeitamente arrumada.
A cama era enorme. Impecável. Coberta por lençóis claros, travesseiros alinhados com uma precisão irritante e uma colcha pesada em tom vinho-escuro que combinava perfeitamente com as cortinas, o tapete, os móveis entalhados e toda aquela atmosfera antiga demais da residência. Era bonita, como tudo ali. Bonita de um jeito caro, silencioso, sufocante. E justamente por isso parecia ainda mais ofensiva.
Isabella sentiu o sangue aquecer devagar, subindo pelo peito, pelo pescoço, pelo rosto. O silêncio da suíte se estendia ao redor deles como uma provocação. Do lado de fora, o vento movia os ciprestes nos jardins. Em algum ponto distante da propriedade, vozes baixas se misturavam ao som de funcionários preparando o jantar de recepção. Taças sendo alinhadas. Portas sendo abertas. Passos discretos sobre pisos antigos.
Tudo seguia normalmente. Como se não houvesse nada de absurdo em dois estranhos — porque era isso que ela e Edward eram, apesar do anel em seu dedo — serem colocados no mesmo quarto, diante da mesma cama, sob o mesmo teto, em uma propriedade isolada pertencente a uma família poderosa demais para ser contrariada.
Bella virou-se lentamente para Edward. Ele estava próximo à porta, removendo o paletó escuro com uma calma quase cruel. A luz entrava pelas janelas altas e desenhava sombras sobre o rosto dele, acentuando a linha firme do maxilar, a postura controlada, a elegância natural de quem parecia incapaz de se sentir deslocado em qualquer lugar do mundo.
Ele não parecia surpreso. Não parecia incomodado. Muito menos indignado. E aquilo a irritou ainda mais.
— Não — Isabella disse.
A palavra saiu baixa no começo, quase sem força, como se sua mente tivesse conseguido empurrá-la para fora antes que o resto dela acompanhasse.
Edward ergueu os olhos.
— Não?
— Não — ela repetiu, agora mais firme, apontando para a cama como se aquilo fosse uma evidência criminal. — Isso não vai acontecer.
Ele soltou o ar devagar. Não foi exatamente um suspiro. Foi pior. Foi o tipo de expiração controlada de alguém que já esperava aquela reação e, por isso mesmo, não se impressionava com ela.
Edward permaneceu em silêncio por um instante.
A ausência de resposta não a acalmou. Pelo contrário. A serenidade dele tinha o dom de transformar a raiva dela em algo mais afiado, mais preciso, mais perigoso. Bella deu alguns passos pela suíte, não porque tivesse para onde ir, mas porque ficar parada parecia aceitar a situação.
E ela não aceitaria.
As cortinas pesadas filtravam a luz do crepúsculo, tingindo o quarto de dourado e vinho, cores profundas demais, íntimas demais. A lareira apagada, os móveis antigos, a cama no centro de tudo — cada detalhe parecia conspirar para tornar aquela situação mais insuportável.
— Nós temos um acordo — ela continuou, virando-se para ele. — Um acordo bastante claro, inclusive. Aparições públicas. Eventos. Entrevistas, se necessário. Sorrisos falsos. Mãos dadas quando houver plateia. Talvez até um beijo repugnante se algum fotógrafo estiver convenientemente posicionado. Mas dividir quarto? Dividir cama? Isso não estava incluído.
Edward colocou o paletó sobre uma poltrona de veludo escuro.
— Estamos em uma propriedade privada dos Volturi, durante uma conferência empresarial fechada. Todos os convidados foram acomodados de acordo com seus vínculos e posições.
Bella riu, sem humor algum.
— Que forma elegante de dizer que enfiaram nós dois no mesmo quarto porque é isso que casais fazem.
— É exatamente isso que pessoas em um relacionamento fazem.
Bella abaixou os olhos para o anel em sua mão. O diamante capturou a luz âmbar da suíte e a devolveu em pequenos lampejos frios. Parecia mais pesado ali, dentro da mansão dos Volturi. Mais definitivo. Mais perigoso. Como se a propriedade, as paredes antigas e toda aquela demonstração de poder tivessem transformado uma mentira temporária em algo com raízes.
— Nós não temos um relacionamento — ela disse, revoltada, em tom baixo.
— Para todos aqui, nós temos.
A simplicidade da resposta a atingiu como uma porta se fechando.
Edward a encarou por alguns segundos. Havia algo duro em seu rosto, mas não exatamente raiva. Era mais contido do que isso. Mais cansado. Como se ele também soubesse que a situação era desagradável, mas tivesse decidido enterrá-la sob camadas de pragmatismo, porque era isso que homens como Edward Cullen faziam: pegavam o desconforto alheio, davam a ele um nome mais aceitável e o transformavam em estratégia.
— Se pedirmos quartos separados, Aro vai desconfiar — ele disse.
Bella bufou.
— Que ele desconfie...
— Ele entenderá a situação como instabilidade.
A palavra pareceu atravessar o quarto e se alojar em algum ponto sensível dentro dela.
Instabilidade. Mais uma palavra bonita para dizer que Bella precisava fingir melhor. Que precisava caber no papel com mais precisão. Que precisava ser convincente o bastante para que homens como Aro Volturi não encontrassem rachaduras na encenação.
Ela respirou fundo, mas o ar pareceu arranhar sua garganta. Havia raiva nela, sim, mas também havia outra coisa. Algo pior. A sensação amarga e antiga de ter sua vida reduzida a decisões tomadas por pessoas com mais dinheiro, mais influência e mais opções do que ela.
— Eu dormirei no sofá — Edward disse por fim.
Isabella piscou.
A resposta a pegou desprevenida. Tão simples. Tão direta. Quase razoável. Isso a irritou também.
— Ótimo.
— Satisfeita?
— Não. Mas menos propensa a cometer um crime.
Edward passou a mão pela nuca, soltando um suspiro discreto. Pela primeira vez desde que haviam entrado naquela suíte, ele pareceu menos uma estátua talhada em mármore caro e mais um homem cansado tentando calcular danos.
Isabella não queria sentir pena dele. Não queria notar o cansaço nos ombros dele, nem a tensão quase imperceptível em sua boca, nem o modo como seus olhos, apesar de frios, pareciam atentos demais a cada reação dela.
Ele era mais fácil de odiar quando parecia inteiramente feito de controle e rigidez. Quando parecia humano, mesmo que por um segundo, tornava tudo mais difícil.
— Aro solicitou pontualidade no jantar — Edward disse. — Temos pouco mais de uma hora.
— Claro...
— Você precisa se trocar.
Bella estreitou os olhos. — Eu sei me vestir sozinha.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Com você, nunca dá para saber.
Edward caminhou até a própria mala, posicionada perto de uma cômoda antiga. Abriu o zíper com movimentos eficientes e começou a remexer o interior com uma expressão que, pela primeira vez desde que haviam chegado, pareceu se alterar. O cenho dele se franziu.
Bella observou, desconfiada.
— O que foi?
Edward retirou de dentro da mala um envelope branco. Depois outro. Em seguida, uma capa protetora de tecido preto. E então mais duas. Bella viu o instante exato em que ele compreendeu. A expressão dele ficou rígida.
— Alice... — ele murmurou.
Bella cruzou os braços.
— Devo me preocupar?
Edward abriu uma das capas e revelou um vestido longo em tecido verde-escuro, profundo, quase esmeralda, com caimento elegante e discreto. Nada brilhante demais. Nada vulgar. Sofisticado, preciso, caro. O tipo de peça que parecia saber exatamente a que mundo pertencia.
Isabella ficou imóvel.
Ele retirou outra capa. Um vestido preto de corte clássico. Depois um conjunto de alfaiataria marfim. Depois sapatos. Depois uma pequena caixa com brincos discretos.
Cada item parecia mais cuidadosamente escolhido do que o anterior. Nada ali parecia improvisado. Nada parecia genérico. As roupas não tinham sido apenas colocadas em uma mala. Tinham sido pensadas. Calculadas. Selecionadas para ela.
Bella sentiu algo desconfortável apertar seu peito. Não gratidão. Não exatamente. Era pior do que isso. Era a sensação perturbadora de ter sido vista por alguém que mal a conhecia. Vista não como um problema, nem como uma peça do acordo, mas como uma mulher que precisaria entrar naquele salão e sobreviver a ele.
Por fim, Edward encontrou um bilhete dobrado entre as peças. Ele o abriu. A leitura durou poucos segundos. O maxilar dele se contraiu.
— O que ela escreveu? — Bella perguntou, embora já sentisse a resposta antes mesmo de ouvi-la.
Edward hesitou. A hesitação dele foi suficiente. Isabella atravessou o quarto e arrancou o bilhete de sua mão. A letra de Alice era pequena, inclinada e absurdamente elegante.
“Querido Edward..., como você certamente esqueceria que Bella precisa de roupas adequadas para uma conferência empresarial na propriedade de uma família italiana assustadoramente poderosa, resolvi salvar você de si mesmo. Não discuta. Escolhi tudo pensando nela, não em você. Bella, se estiver lendo isso: eu sei que meu irmão é insuportável. Use o vestido verde no primeiro dia. Vai combinar com seu cabelo, com seus olhos e com a cara de arrependimento que Edward fará quando perceber que você ficou maravilhosa. Com carinho, Alice.”
Isabella leu uma vez. Depois outra. Uma parte dela quis rir. Outra quis jogar o bilhete no rosto de Edward.
— Sua irmã é inacreditável.
— Eu sei...
— E você sabia disso?
— Não.
Bella ergueu o olhar.
— Está dizendo que Alice enfiou uma semana inteira de roupas para mim dentro da sua mala sem você perceber?
Edward fechou a mala com mais força do que o necessário.
— Alice tem métodos próprios.
As roupas continuavam espalhadas sobre a cama, lindas demais para aquele momento, delicadas demais para o tipo de raiva que Bella queria preservar. Ela se aproximou devagar, contra a própria vontade, e tocou o tecido verde com a ponta dos dedos.
Era macio. Pesado. Frio de início, depois morno contra sua pele.
O tipo de vestido que ela jamais compraria. Jamais experimentaria. Jamais imaginaria usar em um jantar cercada por investidores estrangeiros, herdeiros silenciosos e homens como Aro Volturi.
Ela soltou o tecido e se virou para a própria mala, pequena demais, simples demais, quase patética ao lado da bagagem dele e das roupas escolhidas por Alice.
A diferença doía. Não por vaidade. Mas porque tudo ali parecia lembrá-la de que, sozinha, ela jamais teria acesso a nada daquilo. Roupas, viagens, propriedades históricas, jantares com homens poderosos. Nada. Sua entrada naquele mundo não vinha por mérito, nem escolha, nem pertencimento.
Vinha por contrato. Por necessidade. Por desespero. E talvez fosse isso que mais a humilhava: não o luxo, mas a consciência de que precisava dele por razões que não tinham nada de glamorosas.
Edward abriu uma pasta de couro sobre a mesa.
— Antes do jantar, há outro assunto.
Bella fechou os olhos por um instante.
— É claro que há.
Quando se virou, ele já segurava um cheque. O papel branco parecia pequeno demais para o peso que carregava. Edward o estendeu na direção dela.
— Metade do pagamento combinado.
Isabella ficou parada. O quarto pareceu ficar mais silencioso. Até o vento do lado de fora pareceu desaparecer por um segundo.
— Agora? — ela perguntou.
— Sim.
— Por quê?
— Porque você cumpriu a primeira parte do acordo. O anúncio foi feito. A imprensa respondeu como esperado. Sua presença aqui consolida a narrativa diante dos investidores.
Bella encarou o cheque sem pegá-lo.
A palavra narrativa voltou a arranhá-la por dentro. Ela odiava aquela palavra. Odiava o quanto sua vida cabia nela agora.
— Você fala como se eu fosse um relatório que apresentou bons resultados.
— Estou cumprindo minha parte.
— Sua parte — ela repetiu, amarga.
Os olhos dela desceram para o valor. Por um segundo, o mundo perdeu contorno.
Era dinheiro demais. Metade do acordo, ele dissera. Apenas metade. E, ainda assim, era mais do que Bella havia visto junto em qualquer conta, qualquer pagamento, qualquer possibilidade real de futuro desde que a Gráfica Swan fechara.
O aluguel. As contas atrasadas. O hospital. Charlie fingindo que estava bem, mesmo quando a dor deixava sua voz mais lenta. Renée dizendo que tudo se resolveria, com aquela leveza irresponsável de quem sempre acreditava que problemas eram coisas que o tempo, ou outra pessoa, acabaria levando embora.
Bella sentiu a garganta fechar.
Não queria aquele dinheiro. Queria precisar dele menos do que precisava. Queria ter o luxo de recusar. De erguer o queixo, rasgar o cheque e dizer que sua dignidade não estava à venda. Queria ser o tipo de pessoa que ainda tinha escolhas limpas. Mas não era. Não naquele momento.
Ela pegou o cheque. Os dedos tocaram o papel com cuidado quase cerimonial. Como se pudesse rasgar, queimar ou marcar sua pele.
— Não pense que isso compra minha gratidão — ela disse, a voz baixa.
Edward sustentou seu olhar.
— Eu não espero gratidão.
— E isso também não apaga o que sua empresa fez com a minha família.
— Eu sei.
A resposta deveria soar fria. Mas não soou tanto quanto ela esperava.
Bella desviou o olhar primeiro. Guardou o cheque dentro da bolsa, entre a carteira e um caderno pequeno que carregava desde Seattle. O gesto parecia simples, mas algo dentro dela se curvou sob o peso dele.
Metade do pagamento. Metade da dívida emocional. Metade da armadilha.
— Vista-se — Edward disse depois de um momento. — O jantar começa em quarenta minutos.
Bella respirou fundo.
— Eu vou me trocar no banheiro.
Edward ergueu os olhos para ela.
— Certo.
— E você vai ficar aqui.
A frase saiu antes que ela tivesse certeza de que queria dizê-la. Edward franziu levemente o cenho.
— Aqui?
— No quarto — ela esclareceu, apontando para o espaço entre eles. — Não no banheiro. Obviamente.
— Eu tinha entendido essa parte.
Bella apertou os lábios.
A verdade era que queria mandá-lo sair. Queria tomar posse daquela suíte por alguns minutos, mesmo que a posse fosse falsa, mesmo que o quarto pertencesse aos Volturi e nada ali fosse realmente dela. Mas havia algo no corredor, na propriedade, na forma como funcionários apareciam silenciosos demais, que a impedia.
Ela não queria Edward dentro do banheiro. Mas também não queria ficar completamente sozinha naquela casa. Naquele quarto. A constatação a irritou profundamente.
— Se você sair — ela disse, escolhendo as palavras com cuidado — algum funcionário pode aparecer. Ou Aro pode mandar alguém. Ou qualquer pessoa dessa casa assustadoramente silenciosa pode decidir que precisa verificar se estamos representando bem o casal feliz...
Edward observou-a por um segundo longo demais. Bella odiou perceber que ele entendeu. Entendeu o medo que ela não queria nomear. Entendeu que aquela não era uma concessão a ele, mas uma tentativa desesperada de criar uma fronteira possível dentro de uma situação impossível.
— Eu fico aqui — ele disse.
Simples. Sem ironia. Sem vitória na voz. Isso a desarmou mais do que qualquer arrogância.
— Mas de costas... — ela acrescentou, porque precisava recuperar alguma coisa. Algum controle. Alguma ponta de orgulho.
Um canto da boca dele quase se moveu.
— Você vai estar no banheiro, Isabella.
— E você é irritantemente presente mesmo do outro lado de uma parede.
Dessa vez, ele não escondeu por completo o quase sorriso. Bella odiou ter notado. Odiou mais ainda a pequena descarga de calor que aquilo provocou em seu peito, como se alguma parte estúpida dela tivesse interpretado aquele mínimo sinal de humor como intimidade.
Não era intimidade. Era sobrevivência social com um homem insuportável. Nada além disso.
Ela pegou o vestido verde, os sapatos, a pequena caixa de brincos e sua nécessaire. Antes de entrar no banheiro, voltou-se para Edward.
— Não abra a porta.
— Não pretendo.
— Não faça comentários.
— Sobre o quê?
— Sobre qualquer coisa.
Edward inclinou a cabeça de leve. Ela fechou a porta do banheiro antes que ele pudesse responder. O clique da fechadura soou pequeno, mas, para Bella, pareceu a única coisa firme do mundo.
O banheiro era maior que o seu quarto em Seattle.
Isabella ficou parada logo depois da porta, segurando o vestido contra o corpo, tentando absorver o absurdo de estar ali. As paredes eram revestidas por mármore claro atravessado por veios cinzentos delicados. O piso frio refletia a luz dourada das arandelas. Havia uma banheira antiga de pés ornamentados próxima à janela estreita, uma bancada ampla de pedra polida, torneiras douradas, toalhas dobradas com uma perfeição quase ofensiva e pequenos frascos de vidro dispostos sobre uma bandeja de prata.
Tudo cheirava a lavanda, sabonete caro e pedra fria. Tudo parecia ter sido preparado para uma mulher que sabia ocupar aquele tipo de lugar.
Bella não sabia.
Ela largou as peças sobre a bancada e apoiou as duas mãos na borda da pia. O espelho oval à sua frente devolveu uma imagem que ela reconhecia e, ao mesmo tempo, não suportava encarar. Cansada. Pálida. Olhos grandes demais. Boca apertada demais. Cabelos desarrumados depois de horas de voo e estrada. O anel brilhando em sua mão como uma mentira insolente.
Por alguns segundos, ela só olhou para si mesma. Sem Edward no mesmo espaço, sem a necessidade imediata de responder, provocar ou se defender, a raiva perdeu parte do alvo. O que restou foi mais difícil de suportar.
Medo. Vergonha. Exaustão. E uma tristeza densa, profunda, que vinha sendo empurrada para baixo do tapete desde o primeiro momento em que dissera sim ao acordo.
A mulher no espelho parecia alguém tentando passar por adulta em um mundo que nunca a esperou. Alguém com contas demais, orgulho demais, opções de menos. Alguém que aprendera a ser dura não porque nascera assim, mas porque a delicadeza tinha se tornado cara demais.
Isabella tocou o próprio rosto com a ponta dos dedos. Não se achava feia. Nunca tinha pensado em si mesma nesses termos com muita frequência. Havia dias em que se sentia comum. Outros em que se sentia invisível. Na maior parte do tempo, sentia-se prática: um corpo para trabalhar, correr, resolver problemas, chegar a tempo, cuidar de Charlie, engolir preocupações, sobreviver.
Mas ali, naquele banheiro de mármore, com um vestido caro esperando sobre a bancada e Edward Cullen do outro lado da porta, ela se sentiu exposta de uma forma nova. Como se alguém tivesse retirado dela suas defesas habituais — jeans, sarcasmo, pressa, cansaço — e deixado apenas uma pergunta cruel no lugar:
“Quem era Isabella Swan quando não estava tentando resistir?”
Ela fechou os olhos.
Do outro lado da porta, ouviu um ruído baixo. Provavelmente Edward se movendo pelo quarto. Talvez abrindo a própria mala. Talvez consultando o celular. Talvez sendo Edward Cullen com toda aquela eficiência fria que parecia ocupar o espaço mesmo em silêncio.
Bella imaginou-o ali fora: a camisa clara, os cabelos perfeitamente desalinhados de um jeito que nenhuma pessoa comum conseguiria sem esforço. A postura elegante. Aquele rosto que irritava justamente porque era bonito demais para alguém tão odiável. Edward parecia pertencer aquele mundo.
Ela, não. Ela era o elemento deslocado. A peça improvisada.
Isabella abriu os olhos e começou a se despir com movimentos rápidos, quase agressivos, como se pudesse arrancar também a sensação de inadequação junto com as roupas amassadas da viagem. A blusa caiu sobre uma cadeira estofada. A calça foi dobrada sem cuidado. Os sapatos ficaram perto da porta.
Quando pegou o vestido, hesitou. O tecido escorreu entre seus dedos como água escura.
Alice escolhera tudo com gentil minuciosidade. E gentileza, naquele mundo, podia ser tão perigosa quanto crueldade. Crueldade Isabella reconhecia. Crueldade tinha dentes, bordas, aviso. Gentileza confundia. Gentileza fazia a prisão parecer quarto de hóspedes.
— Só por alguns dias — Bella murmurou para si mesma.
Mas a mentira soou fraca. Porque nada daquilo parecia durar apenas por alguns dias.
Ela vestiu. O vestido era pior do que imaginara. Não por ser inadequado. Mas por ser perfeito. O tecido deslizou pelo corpo com uma delicadeza quase líquida, moldando sua silhueta sem apertar, sem expor demais, sem pedir desculpas por existir. Era macio contra a pele, pesado na medida certa, elegante de um modo quase cruel. A cor escura fazia sua pele parecer mais clara, seus olhos mais profundos, seus cabelos mais vivos mesmo antes de prendê-los. O decote era discreto. O caimento, impecável. Ainda assim, havia algo naquela peça que a obrigava a sustentar a própria presença. Como se o vestido não a escondesse. Como se exigisse que ela entrasse em qualquer sala sabendo que seria vista.
Bella não sabia se odiava mais Alice por ter acertado tanto ou a si mesma por perceber isso.
Ela se inclinou sobre a bancada, prendeu os cabelos de forma simples na nuca e soltou alguns fios ao redor do rosto. Passou um pouco de maquiagem, apenas o suficiente para disfarçar o cansaço e devolver cor às bochechas. Colocou os brincos pequenos, elegantes, delicados o bastante para parecerem casuais e caros demais para realmente serem.
Depois calçou os sapatos. A altura mudou sua postura imediatamente. Seus ombros se alinharam. O pescoço pareceu mais longo. O corpo, mais firme. Como se a roupa soubesse comandá-la antes que ela pudesse decidir quem queria ser.
Isabella se encarou no espelho. Por alguns segundos, não se reconheceu.
Não parecia a garota que calculava dívidas na mesa da cozinha, somando números impossíveis enquanto tentava descobrir qual conta poderia atrasar sem que tudo desmoronasse. Não parecia a funcionária exausta da agência Stanley, engolindo respostas afiadas porque precisava do emprego mais do que precisava do orgulho. Não parecia a filha que mentia para Charlie dizendo que estava tudo sob controle, quando o controle já havia escapado de suas mãos havia tempo demais.
Parecia outra pessoa. Uma mulher capaz de entrar em um salão cheio de investidores e sustentar olhares venenosos sem baixar a cabeça. Uma mulher capaz de sorrir para Aro Volturi sem deixar que ele percebesse o quanto suas mãos estavam frias. Uma mulher que talvez pudesse sobreviver àquela noite.
A versão dela no espelho era bonita. Forte. Convincente. E inteiramente construída sobre uma mentira.
Ela baixou os olhos para o anel em sua mão. O diamante capturou a luz suave do banheiro e brilhou com uma frieza quase insultante. Naquela combinação — o vestido, o anel, o cabelo preso, os brincos discretos — finalmente parecia aquilo que todos esperavam que fosse.
A noiva de Edward Cullen.
A ideia deveria soar absurda. Mas, por um instante perigoso, diante do espelho, pareceu possível. E Isabella odiou isso. Odiou porque a mentira estava ficando boa demais. Porque o mundo de Edward Cullen tinha maneiras silenciosas de ajustar as pessoas até que elas coubessem em papéis que nunca escolheram. Um vestido certo. Um anel caro. Uma suíte antiga. Um jantar com homens poderosos. Um cheque escondido na bolsa. Peça por peça, a armadilha ganhava beleza. E ela sabia que armadilhas bonitas ainda eram armadilhas.
Bella respirou fundo uma vez. Depois outra.
Ela recolheu as roupas antigas, organizou-as de qualquer jeito sobre uma cadeira e passou as mãos pelo vestido uma última vez. O tecido respondeu ao toque como se pertencesse à sua pele.
E destrancou a porta. Antes de sair, hesitou. Então abriu a porta. Edward estava no quarto. Perto da janela alta, com uma das mãos apoiada no encosto de uma poltrona e o corpo meio voltado para o jardim escurecendo do lado de fora. Já estava vestido para o jantar. Calça escura. Camisa clara. Gravata perfeitamente alinhada. A postura impecável. O rosto fechado.
O Edward Cullen que o mundo conhecia. Frio. Elegante. Intocável. O homem que entrava em reuniões milionárias como se cada sala tivesse sido construída esperando sua chegada. O homem que, para todos naquela propriedade, parecia incapaz de hesitar.
Mas hesitou quando a viu. Foi pouco. Quase nada. Ainda assim, Bella percebeu. Os olhos dele desceram pelo vestido antes que ele pudesse impedir. Demoraram-se por uma fração de segundo no caimento do tecido, no contraste da cor contra sua pele, na linha discreta de seus ombros, no anel em sua mão. Depois retornaram ao rosto dela e permaneceram ali tempo demais.
Não havia desprezo. Não havia indiferença. Havia surpresa, cuidadosamente reprimida. Havia uma pausa. Uma falha pequena no controle dele. E algo mais, algo que aqueceu o silêncio entre os dois antes que Edward enterrasse aquilo sob a máscara habitual.
Bella sentiu o próprio corpo reagir antes que pudesse impedir. Ela odiou o calor que subiu por seu pescoço. Odiou a pequena satisfação, rápida e vergonhosa, que tentou nascer em algum lugar dentro dela ao perceber que Edward Cullen — aquele homem arrogante, impossível, detestável e irritantemente bonito — havia perdido o controle por um segundo ao observá-la.
Edward endireitou-se.
— Alice estava certa — ele disse por fim.
A voz dele saiu baixa. Controlada. Mas não indiferente. Bella ergueu o queixo, usando a irritação como escudo.
— Sobre o vestido?
Os olhos dele ficaram presos nos dela.
— Sobre o impacto.
Por um instante, Bella não soube o que responder.
A frase não era exatamente um elogio. Não do jeito comum. Edward Cullen provavelmente consideraria elogios diretos uma vulnerabilidade desnecessária. Mas havia algo naquela contenção que a atingiu com mais força do que qualquer palavra bonita teria atingido.
Ela desviou o olhar primeiro.
— Ótimo. Pelo menos alguém nessa família sabe fazer algo útil...
— Alice ficaria emocionada em ouvir isso.
— Não conte a ela. Eu negarei sob juramento.
O quase sorriso voltou ao rosto dele, breve e perigoso. Bella sentiu a armadura interna falhar outra vez. E detestou.
Ele pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona e o vestiu com movimentos precisos. Depois caminhou até ela, parando a uma distância educada, quase formal. Perto o bastante para que Bella sentisse o perfume discreto dele — limpo, amadeirado, caro — misturado ao cheiro de pedra fria, flores antigas e lareira apagada.
— Pronta? — ele perguntou.
Edward ofereceu o braço. O gesto era formal. Ensaiado. Necessário. O tipo de gesto que um homem como ele faria diante de câmeras, acionistas ou inimigos educados demais para assumirem o próprio veneno. Isabella olhou para o braço dele por um instante, hesitando.
Uma parte dela quis recusar apenas para provar que ainda podia. Outra parte, mais prática e irritada, lembrou-se de onde estavam. Em uma propriedade onde até as paredes pareciam escutar. Então aceitou.
O contato a atingiu com aquela mesma contradição irritante de sempre. A proximidade de Edward era desconfortável, mas não repulsiva. E ela odiou essa constatação.
~*~
As portas do salão leste eram maiores do que Isabella esperava. Eram altas, pesadas, antigas. Feitas de uma madeira escura que parecia ter atravessado séculos sem ceder ao tempo. Dois guardas estavam posicionados diante delas, imóveis em ternos escuros, com a postura rígida e o olhar impassível de quem não servia apenas a uma casa, mas a uma linhagem.
Ela parou por uma fração de segundo. Não porque quisesse. Mas porque seu corpo simplesmente decidiu hesitar antes dela. Ao seu lado, Edward percebeu.
Ele não disse nada de imediato. Apenas permaneceu próximo, elegante demais, sereno demais, usando aquele terno escuro como se tivesse nascido para atravessar propriedades históricas e ser recebido por homens poderosos. A luz quente das arandelas caía sobre o rosto dele, desenhando o maxilar firme, a boca controlada, os olhos atentos. Havia nele uma compostura quase ofensiva.
Os guardas inclinaram a cabeça em cumprimento. Um deles tocou a maçaneta de bronze. O outro fez o mesmo do lado oposto.
Então as portas se abriram. Devagar.
O som da madeira antiga deslizando sobre dobradiças pesadas ecoou pelo corredor como o anúncio de algo solene, quase cerimonial. Não foi apenas uma entrada. Pareceu uma apresentação. Como se a própria casa estivesse revelando Isabella e Edward aos olhos reunidos em seu interior.
E, no instante seguinte, todas as conversas cessaram. Não de uma vez só. Primeiro, as vozes mais próximas diminuíram. Depois, as risadas discretas morreram no ar. Taças pararam a meio caminho dos lábios. Cabeças se viraram. Ombros se alinharam. Olhares começaram a convergir para a entrada do salão leste até que Bella teve a impressão absurda de que a sala inteira respirava em sua direção.
Para eles. Para Edward Cullen, vice-presidente da Cullen Enterprises. E para ela. Isabella Swan. A noiva dele. A mentira ao lado dele.
Ela sentiu o impacto físico daquela atenção como se tivesse entrado em uma correnteza gelada. Não era apenas curiosidade. Era avaliação. Era cálculo. Era uma forma elegante de dissecação social. Olhares desciam pelo vestido verde, pelo cabelo preso, pelos brincos discretos, pelo anel em sua mão. Voltavam ao rosto dela. Mediam sua postura, seu sorriso, sua respiração.
Isabella se sentiu analisada. Julgada. Exposta até a alma.
“Não abaixe a cabeça.”
O pensamento surgiu com força em sua mente.Bella ergueu o queixo um pouco mais.
O salão leste era deslumbrante. E terrível. O teto alto se perdia em sombras atravessadas pela luz dourada de lustres de ferro antigo. As paredes de pedra aparente estavam cobertas por tapeçarias pesadas, retratos de gerações Volturi e brasões bordados em fios escuros, como se todos os antepassados da família tivessem sido convidados a vigiar o jantar. Uma lareira monumental ardia ao fundo, lançando clarões âmbar sobre o piso polido. O cheiro de madeira queimada misturava-se ao de vinho, cera de vela, ervas frescas e comida quente.
Grandes janelas em arco se abriam para os jardins. Lá fora, a noite havia tomado a propriedade, mas lanternas de ferro iluminavam ciprestes, fontes de mármore e caminhos de pedra com uma beleza quase irreal.
No centro do salão, uma mesa gigantesca de madeira escura dominava o espaço. Não era apenas uma mesa de jantar. Era uma declaração. Comprida, imponente, polida até refletir a luz dos castiçais, cercada por cadeiras altas de encosto entalhado. Sobre ela, havia louças de porcelana branca com filetes dourados, talheres de prata, taças finíssimas, arranjos baixos de flores, ramos de oliveira, figos abertos, velas altas e pequenas travessas de entrada dispostas com precisão.
Tudo parecia antigo. Tudo parecia caro. Tudo parecia planejado para lembrar a qualquer convidado que estar ali era uma concessão.
Edward inclinou-se discretamente em sua direção.
— Relaxe — ele sussurrou.
A voz dele tocou seu ouvido antes que Bella pudesse se preparar. Baixa. Controlada. Quente.
A proximidade fez cócegas em seu rosto. A respiração dele roçou sua pele de forma quase imperceptível, mas o suficiente para que um arrepio pequeno, traidor, atravessasse a lateral de seu pescoço. Isabella sentiu o corpo reagir antes que pudesse impedir, uma tensão estranha misturada ao calor repentino nas bochechas.
Por um segundo, esqueceu o salão. Esqueceu Aro. Esqueceu os empresários, os olhares, os guardas, o jantar, a mentira. Só existiu Edward perto demais. A voz dele perto demais. O perfume discreto dele — limpo, amadeirado, caro — misturado ao ar da propriedade.
Bella odiou aquilo com uma força quase desesperada.
Então fez a única coisa que poderia fazer. Sorriu. Um sorriso pequeno, controlado, bonito o bastante para parecer natural. Para os presentes, talvez parecesse uma reação íntima ao comentário de Edward. Talvez parecesse ternura. Talvez parecesse cumplicidade entre noivos, um daqueles momentos discretos que pessoas ricas e observadoras adoravam interpretar como prova de uma ligação verdadeira.
Isabella percebeu isso no instante em que alguns rostos suavizaram. Uma mulher perto da lareira inclinou a cabeça com um sorriso curioso. Um homem grisalho cochichou algo para a esposa. Dois convidados trocaram olhares rápidos, como se tivessem acabado de presenciar uma pequena confirmação da história que fora vendida à imprensa. Romântico. Era isso que parecia.
A ideia quase a fez rir. Ou gritar.
Edward, ao lado dela, manteve a expressão impecável. Mas Bella sentiu, pelo modo como a mão dele tocou levemente suas costas, que ele também havia entendido. O gesto se encaixou no teatro com perfeição: protetor, discreto, íntimo o bastante para convencer, formal o bastante para não parecer vulgar.
Bella continuou sorrindo. Por dentro, sentia-se à beira de um colapso.
— Edward Cullen — disse uma voz do outro lado do salão.
Aro Volturi estava de pé próximo à cabeceira da mesa.
Naturalmente, ocupava o centro gravitacional da sala. Não precisava estar no ponto mais alto. Não precisava falar alto. Não precisava fazer qualquer esforço aparente. Ainda assim, todos pareciam organizados ao redor dele, como se a disposição das pessoas, das cadeiras, das conversas e até da luz tivesse sido planejada para conduzir a atenção até sua figura.
Ele segurava uma taça de vinho tinto. O líquido escuro brilhava sob a luz dos castiçais como rubi líquido.
Aro sorriu. Um sorriso amplo. Cordial. Quase caloroso. Quase.
— Senhorita Swan — acrescentou ele, e o som do nome dela em sua boca fez a pele de Bella se arrepiar. — Que prazer tê-los conosco esta noite.
Aro ergueu a taça. O gesto foi simples. Ainda assim, o salão inteiro obedeceu. Taças foram erguidas em resposta. Conversas desapareceram completamente. Até o crepitar da lareira pareceu ficar mais audível.
— Aos nossos convidados recém-chegados — Aro declarou, a voz suave e perfeitamente projetada. — E à presença honrosa da Cullen Enterprises nesta casa. Que esta noite seja apenas o início de uma semana proveitosa.
Os olhos dele pousaram em Edward. Depois em Bella. Demoraram-se nela um segundo a mais.
— E que todos sejam muito bem-vindos à Villa Volturi.
— À Villa Volturi — repetiram algumas vozes.
Edward ergueu sua taça, retirada por um funcionário que surgira ao lado deles como uma sombra bem treinada. Bella imitou o gesto um segundo depois, tentando não parecer atrasada. O vinho tinto balançou dentro do cristal, escuro, denso, quase solene. Ela sequer havia bebido e já sentia o gosto amargo da noite na língua.
Aro inclinou levemente a cabeça, satisfeito.
— Seus lugares estão reservados ali — disse Aro, apontando com a taça para uma posição próxima à cabeceira da mesa. — Fiz questão de mantê-los perto.
Bella seguiu a direção indicada e sentiu o estômago apertar. Perto demais.
Os lugares reservados ficavam a poucos assentos de Aro. Marcus estava sentado não muito distante, silencioso como uma escultura melancólica, os olhos fundos e a expressão de alguém que observava o mundo apenas por hábito. Caius permanecia de pé junto à lareira, rígido, pálido, com um olhar tão claro e cortante que parecia atravessar tudo antes mesmo que algo fosse dito.
Edward não demonstrou desconforto.
— Agradecemos a gentileza — disse ele.
— Gentileza alguma — Aro respondeu. — Apenas reconhecimento.
A palavra pairou no ar. Reconhecimento. Bella não soube se aquilo era elogio, aviso ou posse. Talvez, vindo de Aro Volturi, fosse tudo ao mesmo tempo.
Eles ainda não haviam chegado à mesa quando alguns convidados se aproximaram. A movimentação ocorreu com uma elegância quase coreografada. Ninguém se lançou sobre Edward. Ninguém parecia ansioso. Mas, um a um, homens e mulheres em ternos impecáveis, vestidos discretamente luxuosos e joias que não precisavam brilhar para valer fortunas começaram a fechar a distância.
Cumprimentaram Edward com familiaridade contida, respeito calculado e sorrisos profissionais. Alguns o chamavam apenas de Cullen. Outros faziam questão de mencionar o cargo.
Vice-presidente da Cullen Enterprises.
Ali, no salão leste da propriedade dos Volturi, o título parecia ganhar corpo.
Bella observou em silêncio enquanto presidentes de grupos europeus, banqueiros privados, herdeiros industriais e diretores de fundos internacionais apertavam a mão de Edward como se não estivessem apenas saudando um convidado, mas reconhecendo uma força. Havia cautela na forma como falavam com ele. Não o respeito automático dado ao filho de uma família rica, mas algo mais específico, mais profissional, mais conquistado. Como se Edward, apesar da juventude, já tivesse provado ser alguém que não podia ser ignorado sem custo.
Ele respondia com a mesma eficiência fria de sempre. Um cumprimento aqui. Uma frase breve ali. Um comentário preciso sobre Zurique, Genebra, Munique, expansão, mercado europeu, aquisições recentes.
Nada demais. Nada excessivo. Edward Cullen não desperdiçava palavras. Isabella começou a perceber aquilo com uma clareza incômoda. Cada frase dele parecia cuidadosamente pesada antes de existir. Ele sabia quando responder, quando devolver uma pergunta, quando fingir não ter ouvido uma provocação, quando aceitar um elogio sem parecer satisfeito. Sabia manter a mão em sua cintura apenas o suficiente para sustentar a farsa sem transformá-la em espetáculo.
E isso a irritou. Porque era impossível não notar. Edward não era apenas o homem que havia bagunçado a vida dela. Não era apenas arrogância em terno caro. Naquele salão, entre pessoas acostumadas a falar de milhões como se discutissem o clima, ele era uma figura reconhecida. Um homem que pertencia àquele mundo de decisões silenciosas, alianças perigosas e cordialidade afiada.
Bella, ao lado dele, sentia-se uma tradução imperfeita.
Ela também foi apresentada algumas vezes. Isabella Swan. A noiva de Edward Cullen. O sobrenome dela saía da boca de estranhos com uma curiosidade polida, como se tentassem descobrir de que família vinha, que fortuna carregava, que utilidade justificava sua presença ali. Alguns elogiaram seu vestido. Uma mulher francesa comentou que esperava vê-la no jardim na manhã seguinte. Um banqueiro suíço mencionou, com um sorriso fino, a “discrição estratégica” do noivado. Uma empresária japonesa inclinou a cabeça com elegância e disse que Carlisle Cullen falava muito bem do filho em conferências internacionais.
Isabella sorriu quando precisava. Agradeceu quando era necessário. Respondeu pouco. O suficiente para parecer educada. Não o bastante para se expor. Ainda assim, cada apresentação a fazia sentir-se menos pessoa e mais peça. Uma informação nova acrescentada ao perfil público de Edward. Uma variável com vestido verde, anel caro e um sorriso cuidadosamente treinado no espelho de um banheiro de mármore.
Por fim, um funcionário aproximou-se e conduziu os dois até seus lugares. A cadeira de Bella foi puxada com uma discrição perfeita. Edward esperou que ela se sentasse antes de ocupar o lugar ao lado. O gesto foi impecável. Gentil. Público. Falso.
A mesa parecia ainda maior vista de perto. A madeira escura refletia a luz das velas em faixas douradas. Diante de cada convidado havia uma sucessão de talheres que Bella precisou encarar por um segundo a mais para fingir saber exatamente qual usar. Os pratos tinham bordas delicadas, quase finas demais para serem reais. Os guardanapos de linho estavam dobrados em formato simples, presos por pequenos anéis de prata gravados com o brasão dos Volturi.
Até os guardanapos tinham linhagem. Isabella teve vontade de rir. Em vez disso, colocou o seu no colo.
O jantar começou sem anúncio formal. Apenas uma mudança sutil no movimento dos funcionários. Portas laterais se abriram, e homens e mulheres uniformizados entraram carregando bandejas de prata com uma coordenação silenciosa. Pareciam surgir de dentro das paredes, tão discretos que Bella se perguntou quantos olhos invisíveis aquela casa tinha.
O primeiro serviço trouxe pequenas entradas frias: burrata cremosa com tomate confitado e manjericão fresco; figos maduros envolvidos em fatias finas de presunto cru; crostini com cogumelos salteados e trufas; azeitonas verdes e negras brilhando em azeite; lascas de queijo pecorino envelhecido servidas com mel dourado. O cheiro era rico e delicado, uma mistura de ervas, pão tostado, azeite e sal.
Bella pegou o garfo com cuidado.
Ao redor, todos conversavam como se fosse perfeitamente natural comer algo tão bonito que quase parecia indecente.
Ela provou a burrata. O sabor era macio, fresco, levemente doce pelo tomate, perfumado pelo manjericão. Era excelente. Provavelmente uma das melhores coisas que ela já havia comido.
E, ainda assim, a culpa veio junto.
Bella pensou em Charlie. Em jantares simples. Em comida requentada. Em contas abertas sobre a mesa da cozinha. Pensou no cheque escondido em sua bolsa, como um segredo sujo vestido de salvação.
Ela engoliu devagar. Edward percebeu.
— Está ruim? — ele perguntou baixo.
Bella o olhou de lado.
— Está perfeito. Esse é o problema.
Ele não respondeu de imediato.
— Você consegue transformar até comida em acusação?
— Só quando ela vem acompanhada de crise existencial.
O olhar dele permaneceu nela por um segundo. Quase suave.
— Então tente comer apesar da crise.
— Que conselho profundo. Deveria escrever um livro...
— Eu colocaria você na dedicatória.
Bella quase sorriu. Quase. E esse quase se tornou perigoso quando, ao erguer os olhos, percebeu Aro observando.
Ele estava na cabeceira da mesa, alguns lugares à frente, conversando com uma convidada de cabelos escuros e joias discretas. Pelo menos parecia conversar. Sua cabeça estava inclinada na direção da mulher, a taça repousava entre seus dedos longos, o sorriso era atento e educado. Mas os olhos dele, por breves intervalos, retornavam sempre para Isabella e Edward.
Não de modo óbvio. Não de modo grosseiro. Aro Volturi era refinado demais para ser pego observando. Mas Bella sentia. Sentia como se o olhar dele tocasse sua pele, abrisse pequenas gavetas dentro dela e examinasse o conteúdo sem pedir licença.
O segundo prato foi servido: risoto de açafrão, cremoso e dourado, finalizado com parmesão envelhecido e um fio escuro de redução de vinho. O aroma de manteiga, caldo quente e especiarias subiu em uma nuvem delicada. Depois vieram massas pequenas recheadas com ricota e ervas, cobertas por manteiga de sálvia e nozes tostadas. Peixe branco em crosta de ervas. Legumes assados com azeite e sal grosso. Carne lentamente cozida em vinho tinto, tão macia que se desfazia ao toque do garfo.
As taças eram preenchidas antes de esvaziarem. Vinho branco com o peixe. Tinto profundo com a carne. Água com gás em copos finos. Pão rústico em cestas de prata. Tudo era servido com uma precisão tão silenciosa que Isabella se sentia dentro de um ritual, não de um jantar.
As conversas fluíam ao redor dela em inglês, italiano e francês. Pessoas falavam sobre mercados emergentes, regulamentações, energia, tecnologia, sucessão familiar, riscos políticos e investimentos de longo prazo. Falavam de milhões como outras pessoas falavam de compras no supermercado. Sorriam ao mencionar crises. Faziam brindes discretos a fusões. Comentavam aquisições com a leveza de quem descrevia o tempo.
Bella ouvia e absorvia. Não entendia tudo. Mas entendia o suficiente para perceber que aquele salão estava cheio de gente acostumada a movimentar o mundo sem precisar pedir licença a ele.
Em determinado momento, Aro levantou-se.
O efeito foi imediato. Conversas reduziram-se até desaparecerem. Talheres pousaram sobre pratos. Olhares voltaram-se para ele com uma obediência quase instintiva. Bella sentiu um arrepio subir por sua nuca.
Aro ergueu sua taça novamente.
— Meus caros amigos — começou ele, a voz suave, elegante, perfeitamente controlada. — Permitam-me dizer, mais uma vez, o quanto é um prazer recebê-los em nossa propriedade.
Ele fez uma pausa, olhando ao redor da mesa como se cada pessoa ali fosse, por alguns segundos, o centro de sua atenção. Bella percebeu que era parte do talento dele. Aro fazia as pessoas se sentirem vistas. E talvez fosse exatamente por isso que parecia tão perigoso.
— A Villa Volturi tem testemunhado encontros importantes ao longo de muitas gerações. Alguns públicos, outros discretos. Alguns registrados em contratos, outros preservados apenas pela memória daqueles que compreenderam sua importância. Para minha família, abrir estas portas nunca foi um gesto casual. Receber alguém aqui é reconhecer valor, história e possibilidade.
Alguns convidados inclinaram a cabeça, quase reverentes. Bella observou aquilo com o estômago apertado. Não era bajulação comum. Era respeito treinado pelo medo, pela admiração ou por uma mistura dos dois.
— Amanhã pela manhã — Aro continuou — iniciaremos oficialmente nossa conferência empresarial. Teremos discussões sobre expansão internacional, cooperação estratégica, infraestrutura, tecnologia e os caminhos que cada um de nós pretende seguir em um mercado que muda depressa demais para aqueles que não sabem preservar o essencial.
Seus olhos encontraram os de Edward por um instante. Depois os de Bella.
— Enquanto isso, nossos respectivos parceiros e convidadas poderão participar de uma atividade organizada por minha esposa nos jardins da propriedade. Sulpicia preparou algo menos árido do que nossas conversas sobre números, embora eu suspeite que, em sua companhia, até os jardins possam revelar estratégias próprias.
Algumas risadas discretas percorreram a mesa. Aro sorriu, satisfeito.
— Que esta noite seja de boa conversa, bons acordos futuros e, acima de tudo, confiança. Pois nenhuma negociação verdadeiramente duradoura se constrói sem ela.
Ele ergueu a taça um pouco mais.
— À confiança.
— À confiança — repetiram os convidados.
Bella ergueu sua taça. A palavra ficou presa dentro dela.
Confiança... Quase irônico. Quase cruel. Ela estava sentada ao lado de um homem em quem não confiava completamente, fingindo um noivado que não existia, diante de um anfitrião que parecia capaz de enxergar rachaduras invisíveis. E todos brindavam à confiança como se aquilo não fosse a moeda mais falsa do salão.
O vinho tocou seus lábios. Escuro. Encorpado. Amargo no final. Como uma advertência.
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