A primeira coisa que Isabella percebeu ao acordar foi o cheiro. Lavanda. Não a lavanda artificial de sabonetes baratos ou sachês esquecidos em gavetas antigas, mas algo mais limpo, mais fresco, mais delicado. Lavanda misturada ao perfume de lençóis recém-lavados, ao ar frio que entrava pelas frestas quase invisíveis das janelas altas e àquele odor mineral da pedra antiga que parecia impregnar cada canto da Villa Volturi.

Por alguns segundos, Bella não abriu os olhos. Não quis abrir.

O travesseiro sob sua cabeça era macio de uma forma indecente, moldando-se ao seu rosto como se tivesse sido feito para convencê-la a nunca mais levantar. Os lençóis eram leves e frios contra sua pele, mas o cobertor pesado sobre seu corpo mantinha um calor perfeito, profundo, quase protetor. A cama era enorme. Espaçosa demais. Confortável demais. Silenciosa demais.

Isabella afundou um pouco mais no travesseiro e soltou uma respiração lenta. Havia dormido bem. Não apenas bem. Havia dormido melhor do que dormira em muitos dias. Talvez semanas. Talvez meses. O tipo de sono profundo e inteiro que seu corpo parecia ter roubado sem pedir permissão, aproveitando-se da primeira superfície realmente macia que encontrara depois de dias de tensão, dívidas, problemas, acordos, mentiras e olhares que a faziam sentir-se desmontada por dentro.

Foi quase ofensivo acordar tão descansada em um lugar onde tudo deveria deixá-la em alerta.

Aos poucos, porém, a consciência começou a voltar.

Itália. Volterra. A propriedade dos Volturi. O jantar de recepção. Aro observando. Edward dormindo no sofá.

Isabella abriu os olhos de uma vez.

O teto alto da suíte surgiu acima dela, com vigas escuras de madeira antiga cruzando a pedra clara. A luz da manhã entrava pelas janelas em feixes dourados, tocando as cortinas vinho, o tapete espesso, os móveis entalhados e a lareira apagada com uma calma quase cruel. Do lado de fora, ciprestes se moviam devagar com o vento, e em algum ponto distante da propriedade uma fonte murmurava como se a manhã não tivesse qualquer obrigação de ser gentil.

Bella virou a cabeça.

Edward Cullen já estava de pé. Não apenas acordado. De pé. Vestido. Intacto.

Ele estava próximo à cômoda escura, ajustando o punho da camisa sob o paletó de um terno azul-escuro perfeitamente alinhado. A cor realçava a pele clara, os cabelos acobreados, a postura rígida que parecia tão natural nele quanto respirar. A gravata estava impecável. Os sapatos, polidos. O rosto, fechado e calmo. Não havia uma dobra fora do lugar. Nenhum sinal evidente de desconforto. Nenhuma olheira dramática. Nenhum traço de uma noite maldormida.

Bella piscou. Depois olhou para o sofá. O pequeno sofá italiano continuava ali, estreito, antigo, elegante e claramente inútil como cama. O veludo escuro parecia bonito demais para ter qualquer compromisso com conforto humano. A manta que Edward usara durante a noite estava dobrada sobre o encosto com uma precisão irritante. O travesseiro pequeno havia sido recolocado em seu lugar.

Ela sentiu a indignação subir antes mesmo de encontrar palavras. Aquilo era absurdo. Inaceitável. Um insulto às leis básicas do corpo humano.

— Você está brincando... — Isabella murmurou, a voz rouca de sono.

Edward ergueu os olhos.

— Bom dia para você também.

Bella se apoiou nos cotovelos, ainda envolta pelos lençóis caros demais.

— Como você está de pé?

Ele franziu levemente o cenho, como se a pergunta fosse genuinamente estranha.

— Costumo ficar de pé pela manhã.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Fingir que é uma pessoa normal. Você dormiu ali.

Ela apontou para o sofá como se apresentasse uma prova criminal. Edward acompanhou o gesto com o olhar. Depois voltou a ajustar o relógio no pulso.

— Dormi.

— Aquilo não é uma cama. Aquilo é uma ameaça decorativa.

— Já dormi em lugares piores.

— Duvido muito. Você parece alguém que nasceu em um colchão de luxo e recebeu uma fusão empresarial no berço.

Um canto da boca dele se moveu em um sorriso tímido. Bella odiou ter reparado.

Edward terminou de prender o relógio e virou-se completamente para ela. A luz da manhã desenhava linhas frias em seu rosto, acentuando a compostura rígida, o controle impecável, aquele ar de homem que poderia sofrer uma queda de avião e ainda sair dos destroços pedindo um relatório empresarial.

— Eu estou bem — disse ele.

— Você não deveria estar.

— Sinto muito por decepcioná-la.

— Você dormiu em um sofá minúsculo.

— Italiano — ele corrigiu, seco.

Bella estreitou os olhos.

— Isso não melhora...

— Não foi uma experiência confortável.

A confissão a pegou desprevenida. Não porque fosse surpreendente. Era óbvio. O sofá parecia ter sido construído para punir a coluna de aristocratas culpados. Mas ouvir Edward admitir qualquer desconforto tinha algo de estranhamente íntimo. Ele não reclamava. Não dramatizava. Não pedia reconhecimento. Apenas declarava o fato como se o corpo dele fosse mais uma variável administrativa.

Bella detestou o pequeno impulso de se preocupar. Detestou mais ainda a rapidez com que tentou esmagá-lo. Edward Cullen não precisava da piedade dela.

— Você poderia pelo menos parecer destruído — ela disse, jogando o cobertor para o lado. — Seria educado comigo.

— Vou me esforçar mais da próxima vez.

— Haverá uma próxima vez?

A pergunta escapou antes que ela pudesse avaliar o peso. O silêncio que surgiu entre eles durou pouco, mas foi o suficiente para que Bella se lembrasse da cama. Do acordo. Da suíte compartilhada. Da mentira que precisava parecer estável. Da possibilidade de que aquela encenação continuasse exigindo pequenas violências íntimas, pequenas concessões, pequenas cenas domésticas que não deveriam existir entre dois estranhos.

Edward sustentou seu olhar.

— Enquanto estivermos aqui, sim.

Bella desviou primeiro. Odiou isso.

Desceu da cama e sentiu o piso frio sob os pés. O choque gelado subiu por suas pernas, acordando-a por completo. Puxou o robe deixado ao lado da cama e o vestiu rapidamente, tentando recuperar alguma dignidade. Dormir naquela cama tinha sido bom demais. E isso a incomodava. Havia algo humilhante em perceber que seu corpo aceitara o conforto da prisão antes que sua mente pudesse protestar.

A bandeja de café da manhã estava sobre a mesa perto da janela. Naturalmente. Porque na Villa Volturi até a manhã parecia coreografada. Havia café em uma jarra prateada, chá, pães pequenos ainda mornos, frutas cortadas, manteiga em uma cúpula de vidro, geleias em potes minúsculos, queijo fresco e xícaras de porcelana fina. Tudo disposto com uma perfeição silenciosa que fazia Bella sentir vontade de desalinhar alguma coisa apenas por princípio.

Edward pegou uma pasta de couro sobre a cômoda.

— Troque de roupa.

Bella parou com a mão a meio caminho da jarra de café.

— O quê?

— Você precisa se trocar.

Ela virou o rosto lentamente.

— Isso é uma ordem?

— Em breve você será acompanhada ao jardim.

— Ao jardim?

— O banquete organizado por Sulpicia Volturi começará em breve.

Bella ficou imóvel.

A palavra banquete pareceu exagerada demais para a manhã. Jardim, por outro lado, parecia inocente demais para os Volturi. A combinação das duas coisas era profundamente suspeita.

— Banquete no jardim — ela repetiu. — Isso é uma reunião ou uma armadilha com flores?

— Possivelmente ambos.

Edward consultou o relógio.

— Enquanto isso, estarei na primeira reunião da conferência empresarial.

Bella olhou para ele.

O terno azul-escuro. A postura impecável. A pasta de couro. O rosto frio, concentrado, perfeitamente preparado para entrar em alguma sala e falar sobre expansão, investimentos, alianças e milhões de dólares como se tudo aquilo fosse apenas parte de sua respiração.

Ele iria para a conferência. Para o território dele. Para um lugar onde saberia exatamente o que dizer, como se sentar, quando calar, que ameaça responder e qual ignorar.

E ela?

Ela seria enviada para o jardim.Sozinha.Com Sulpicia Volturi.Com os parceiros dos grandes empresários. Com aquelas pessoas ricas, impecáveis, treinadas para sorrir sem revelar nada, acostumadas a usar sobrenomes como chaves e joias como pontuação. Pessoas que provavelmente saberiam, apenas pelo modo como Bella segurasse uma xícara, que ela não pertencia ali.

O estômago dela se fechou.

— Eu não vou.

Edward ergueu os olhos da pasta.

— Isabella.

— Não.

— Não é opcional.

— Nada nunca é opcional com você?

A frase saiu mais áspera do que ela pretendia. Mas, naquela manhã bonita demais, dentro daquela suíte cara demais, a sensação de encurralamento voltou com força.

Bella pegou a xícara de café e bebeu um gole quase agressivo. O líquido estava quente, amargo, perfeito. Ela odiou isso também.

— Eu passei a noite inteira sendo observada por Aro como se ele estivesse tentando encontrar defeitos de fabricação em mim — Isabella continuou. — Agora você quer que eu passe a manhã com a esposa dele e um grupo de pessoas que provavelmente chamam humilhação social de conversa leve?

Edward ficou em silêncio por um segundo.

— Sim.

Bella soltou uma risada incrédula.

— Pelo menos você é sincero...

Ele caminhou até a mesa e colocou uma pequena pasta ao lado da bandeja. Havia um cansaço quase invisível na forma como se movia. Uma rigidez breve nos ombros. Uma contenção no pescoço.

— Você precisa estar presente — ele disse. — Aro anunciou ontem diante de todos. Sulpicia espera você.

— Sulpicia espera uma versão de mim que não existe.

— Então entregue uma versão convincente.

Bella o encarou.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não acho que seja fácil.

A resposta a pegou de surpresa. Edward sustentou o olhar dela, frio, direto, mas sem ironia.

— Mas é necessário.

Necessário... Bella fechou os olhos.E viu o contrato.O cheque.Charlie.As dívidas.A gráfica. O hospital. O dinheiro escondido em sua bolsa como uma vergonha e uma salvação ao mesmo tempo.

Ela podia reclamar. Podia provocar Edward. Podia odiar o jardim, a conferência, Aro, Sulpicia, os Volturi, a Toscana inteira se quisesse. Mas a verdade permanecia ali, sólida, sem piedade: ela havia aceitado. Havia feito um acordo. E cada dia naquela propriedade era parte do preço. Não havia escapatória limpa.

Isabella abriu os olhos.

— Eu detesto você um pouco mais a cada dia...

Edward inclinou a cabeça.

— Fico impressionado com sua capacidade de crescimento constante.

— Cuidado. Posso começar a me dedicar de verdade.

Dessa vez, ele sorriu abertamente.

Bella apontou para a porta do banheiro.

— Eu vou me trocar. Não dê ordens enquanto eu estiver lá dentro. Vou fingir que você não existe por quinze minutos.

— Vinte seria melhor. Precisamos sair logo.

Ela pegou uma fatia de pão da bandeja e mordeu antes de responder, apenas para irritá-lo. Edward apenas olhou para ela.

— Você é insuportável — disse ela, de boca quase cheia.

— Já me informaram.

— Não o bastante...

Bella caminhou até o armário e abriu as capas enviadas por Alice. O conjunto de alfaiataria marfim parecia esperá-la. Ela ficou olhando para ele por alguns segundos. Era bonito de um jeito completamente diferente do vestido verde da noite anterior. O vestido tinha sido uma armadilha elegante, uma pele emprestada para sobreviver ao jantar, ao vinho, aos olhares e ao falso romantismo ao lado de Edward. O marfim era outra coisa. Mais limpo. Mais firme. Mais claro.

A calça de cintura alta, o top discreto, o blazer de corte impecável. Tudo transmitia controle. Não suavidade. Não sedução. Controle. Como se Alice tivesse previsto que Isabella precisaria de uma armadura matinal para enfrentar mulheres que sorriam em jardins e homens que moviam fortunas atrás de portas fechadas. Ela tocou o tecido. Macio. Estruturado. Caro.

— Maldita Alice — Bella murmurou.

— Ela geralmente costuma estar certa — Edward disse do outro lado do quarto.

Isabella virou-se para ele.

— Não ajude.

Ela pegou o conjunto, os sapatos de salto baixo e sua nécessaire antes de entrar no banheiro. Fechou a porta.

O clique da fechadura trouxe um alívio pequeno, quase ridículo. Bella apoiou as mãos na pia e encarou o espelho. A mulher refletida parecia descansada. Isso a surpreendeu. Não em paz. Não feliz. Mas descansada. O sono profundo suavizara parte das sombras sob seus olhos. A pele parecia menos pálida. Os cabelos, ainda soltos, caíam em ondas desordenadas ao redor do rosto. Por um instante, ela pareceu menos à beira de um colapso. Pareceu quase... bem. Bella odiou o pensamento. Porque estar bem ali parecia uma traição.

Como podia acordar descansada em uma casa onde se sentia vigiada? Como podia apreciar lençóis lavados e travesseiros macios enquanto carregava um cheque que lembrava o motivo de estar ali? Como podia odiar Edward Cullen e, ao mesmo tempo, notar a rigidez escondida em seus ombros depois de uma noite no sofá?

Ela fechou os olhos por um segundo.

Depois começou a se arrumar. Vestiu a calça marfim. O tecido deslizou por suas pernas e assentou com perfeição. O top era discreto, elegante, confortável. O blazer transformou sua postura no instante em que tocou seus ombros. O conjunto não a fazia parecer doce. Fazia parecer preparada.

Ela calçou um pequeno salto, baixo o suficiente para não parecer absurdo em um jardim, alto o suficiente para alterar sua forma de andar. Fez uma maquiagem leve, quase imperceptível: um pouco de cor nas bochechas, máscara nos cílios, algo suave nos lábios. Prendeu parcialmente o cabelo, deixando alguns fios soltos emoldurando o rosto.

Quando terminou, ficou parada diante do espelho. Isabella Swan a encarava de volta. Mas não exatamente. Aquela versão dela parecia mais rica do que era, mais tranquila do que se sentia, mais pertencente do que jamais seria. A mentira havia encontrado uma nova forma. Na noite anterior, vestira verde-esmeralda. Pela manhã, usava marfim.

Bella passou as mãos pelo blazer.

— É só uma roupa — ela sussurrou para si mesma.

Mas não era. Naquele mundo, nada era só alguma coisa. Roupa era linguagem. Anel era contrato. Sorriso era defesa. Silêncio era estratégia. E ela, que nunca havia sido treinada para falar aquele idioma, teria que improvisar fluência diante de Sulpicia Volturi.

Quando saiu do banheiro, Edward estava perto da janela, já com a pasta em uma das mãos. Ele virou-se ao ouvir a porta. Mais uma vez, houve aquela pausa. Pequena. Quase imperceptível. Mas Bella já a conhecia.

Os olhos dele percorreram o conjunto marfim, o cabelo preso, o rosto dela. Não demoraram demais. Edward tinha autocontrole suficiente para transformar qualquer reação em algo socialmente aceitável. Ainda assim, Bella sentiu a atenção dele como um toque.

— Está adequada — ele disse.

Bella estreitou os olhos.

— Adequada?

— Muito adequada.

— Uau. Cuidado, Cullen. Assim você me deixa sem graça.

— Duvido.

Ele disse de forma tão rápida que Bella sorriu. E isso foi irritante, porque naquela manhã ela precisava se sentir furiosa, não confortável. Precisava lembrar que Edward era o motivo de ela estar ali, prestes a ser entregue a um jardim cheio de estranhos ricos e sorridentes.

— Você vai me acompanhar? — ela perguntou, pegando a pequena bolsa.

— Um funcionário virá buscá-la.

Bella parou.

— Ah, claro. Porque agora eu preciso de escolta.

Antes que Isabella pudesse falar mais alguma coisa, uma batida soou na porta. Três toques discretos. Polidos. Terrivelmente pontuais.

Edward caminhou até a porta e abriu. Do lado de fora, havia um funcionário jovem, impecável em uniforme escuro. Ele fez uma reverência discreta, primeiro a Edward, depois a Isabella. O gesto era tão perfeitamente treinado que Bella se perguntou se os Volturi mantinham uma escola subterrânea onde ensinavam pessoas a se mover sem fazer barulho.

— Signor Cullen — disse ele. — Signorina Swan. Bom dia.

— Bom dia — Edward respondeu.

O funcionário voltou-se para Bella com um sorriso solícito.

— Fui enviado para acompanhar a senhorita Swan até os jardins da propriedade. A senhora Volturi aguarda seus convidados para o banquete da manhã.

Senhora Volturi. Sulpicia.

Isabella sentiu o estômago se apertar.

Banquete da manhã parecia uma expressão absurda. Em sua vida normal, café da manhã era uma xícara tomada às pressas, uma torrada queimada, às vezes nada. Na Villa Volturi, aparentemente, até comer frutas no jardim exigia escolta e sobrenomes.

— Claro — Bella disse, com um sorriso educado.

O funcionário pareceu satisfeito. Não se moveu, porém. Apenas aguardou com as mãos discretamente unidas à frente do corpo.

Isabella deu um passo em direção à porta, mas Edward se aproximou antes que ela pudesse sair. Ele invadiu seu espaço com naturalidade suficiente para parecer íntimo e controle suficiente para não parecer invasivo. Do ponto de vista do funcionário, provavelmente era apenas um noivo atencioso. Um gesto delicado antes de separarem seus caminhos pela manhã.

Bella percebeu tarde demais. Edward inclinou-se. A boca dele chegou perto de seu ouvido.

Tome cuidado com o que fala — ele sussurrou.

A voz baixa fez cócegas em sua pele. Bella ficou rígida. O calor da respiração dele tocou a lateral de seu rosto, desceu pelo pescoço e espalhou uma reação estúpida por seu corpo antes que ela pudesse controlá-la.

Havia algo irritantemente íntimo naquele tom. Não era apenas a advertência. Era a proximidade. O perfume dele. O fato de que, mesmo dizendo algo que a irritava profundamente, Edward parecia capaz de reduzir o mundo a alguns centímetros de distância.

E boa sorte — acrescentou ele, ainda baixo.

Bella virou o rosto para retrucar ou responder algo afiado. Mas foi um erro...

Porque Edward Cullen a beijou. Rápido. Leve. Breve o suficiente para ser socialmente aceitável. Discreto o bastante para parecer natural. Apenas um toque dos lábios dele nos dela, seco e controlado, uma despedida de noivo antes de uma manhã separada.

Mas, para Isabella, o tempo falhou. Por um segundo, não houve funcionário. Não houve o sobrenome Volturi. Não houve jardim, Sulpicia, conferência, acordo ou mentira. Houve apenas a surpresa quente da boca de Edward sobre a sua. A firmeza sutil da mão dele próxima à sua cintura. O cheiro limpo e amadeirado dele. A consciência brutal de que aquele beijo era falso. E de que o corpo dela não reagira como se fosse.

Quando Edward se afastou, Bella ficou imóvel. Imóvel demais. A reclamação subiu imediatamente à garganta.

Você ficou louco? Não faça isso. Não encoste em mim sem avisar.”

Mas antes que qualquer palavra saísse, ela viu o funcionário. O homem desviava o olhar com uma discrição quase encantada, mas não rápido o suficiente para esconder a expressão. Havia um sorriso pequeno em seu rosto. Tocado. Quase enternecido. Como se tivesse acabado de presenciar uma cena íntima e romântica entre dois noivos apaixonados demais para se separarem sem um beijo.

Bella sentiu o rosto aquecer. De raiva. Claro. Apenas raiva... Edward mantinha a expressão perfeitamente serena.

Um grande canalha. Isabella pensou irritada. Ele havia calculado tudo. O funcionário à porta. A necessidade de reforçar a encenação. A proximidade. O beijo breve o bastante para não parecer excessivo, natural o bastante para convencer.

E funcionara. Funcionara tão bem que Bella quase odiou mais a si mesma do que a ele. Porque, por um segundo, ela também quase acreditara.

Edward recuou meio passo.

— Vejo você depois da reunião — ele disse, em voz normal.

Isabella sustentou o olhar dele. Havia um aviso nos olhos dela. Havia algo ilegível nos dele.

— Claro — Bella respondeu, com um sorriso que doía de tão falso. — Boa reunião, querido.

A palavra querido saiu doce demais. Ameaçadora demais. Edward quase sorriu. O funcionário, ao contrário, pareceu ainda mais comovido.

— Por aqui, signorina Swan — disse ele, indicando o corredor.

Isabella passou pela porta com o queixo erguido. Não olhou para trás imediatamente. Recusou-se. Mas sentia Edward ainda ali, observando-a partir da suíte, impecável em seu terno azul-escuro, escondendo a noite no sofá, a dor no corpo, as intenções e qualquer emoção real atrás daquela postura rígida de sempre.

Só quando já estava alguns passos à frente, acompanhada pelo funcionário, Bella permitiu-se respirar fundo. Seus lábios ainda lembravam o toque dele. Aquilo era imperdoável. Absolutamente imperdoável.

O corredor da Villa Volturi se estendia diante dela, iluminado por uma manhã suave que fazia a pedra antiga parecer menos severa. Funcionários passavam em silêncio. Ao longe, vozes masculinas vinham de alguma sala onde os empresários começavam a se reunir. O som de portas abrindo, passos contidos, papéis sendo organizados.

Edward iria para lá. Para a conferência. Para o espaço que compreendia. Bella seguiria para o jardim. Para Sulpicia. Para os parceiros. Para uma encenação dentro da encenação.

O funcionário caminhava ao seu lado com discrição.

— A manhã está muito bonita para o banquete, signorina — comentou ele, em inglês cuidadoso. — A senhora Volturi escolheu pessoalmente os arranjos.

— Imagino que ela escolha pessoalmente muitas coisas — Bella respondeu.

Ele sorriu com reverência imediata.

— A senhora Volturi tem excelente gosto.

Isabella não duvidava. Também não duvidava de que, naquela casa, “excelente gosto” provavelmente significava perceber exatamente onde cada flor, cada prato, cada convidado e cada mentira deveria ser colocado.

Ao alcançar a entrada para os jardins, a luz da manhã a envolveu por completo. O ar tinha cheiro de cipreste, lavanda e pão fresco. Vozes elegantes flutuavam entre as fontes. Risos baixos se misturavam ao som da água. Sob uma pérgola coberta por videiras, mesas claras estavam montadas com porcelanas delicadas, frutas, pães, flores e taças que capturavam o sol como pequenos fragmentos de cristal.

E, no centro de tudo, Sulpicia Volturi aguardava.

Bella endireitou os ombros. O conjunto marfim pareceu se ajustar ao corpo como armadura. Edward dissera para tomar cuidado com o que falava. Desejara boa sorte. Beijara seus lábios como se tivesse direito de fazer aquilo. Ela sentiu a irritação reacender, firme e útil. Ótimo. Raiva era melhor do que medo.

Ela abriu um sorriso pequeno, educado e cuidadosamente afiado enquanto o funcionário anunciava sua chegada.

— Signorina Isabella Swan.

Vários rostos se voltaram para ela. Mais uma vez, Bella sentiu a avaliação começar. Mas dessa vez, por trás do sorriso, ela segurou a própria raiva como uma lâmina escondida. Se os Volturi queriam observá-la, que observassem.

Ela não pertencia àquele lugar. Não era uma herdeira. Não era a noiva apaixonada de Edward Cullen. Mas estava ali. E, naquela manhã, teria que ser suficiente.

~*~

O jardim dos Volturi não parecia feito para descanso. À primeira vista, era belo o bastante para enganar qualquer um. A manhã derramava uma luz dourada e limpa sobre os caminhos de pedra, aquecendo sem ferir, suavizando as bordas austeras da propriedade. O vento movia as copas dos ciprestes em um balanço lento, quase cerimonial, e as fontes espalhadas pelo jardim murmuravam sem pressa, como se repetissem segredos antigos para quem soubesse escutar.

Havia lavanda em grandes maciços arroxeados. Roseiras pálidas, vermelhas e quase negras cresciam em círculos cuidadosamente desenhados. Oliveiras antigas marcavam a extremidade do jardim, seus troncos retorcidos como mãos enrugadas saindo da terra. Mais adiante, uma pérgola coberta por videiras protegia uma mesa comprida, onde o banquete da manhã fora disposto com uma delicadeza excessiva.

Frutas cortadas em travessas de cerâmica. Figos abertos ao meio, brilhantes como joias. Pêssegos dourados, uvas verdes, morangos pequenos e escuros. Pães rústicos ainda mornos, focaccias com alecrim, queijos macios, mel em potes de vidro, geleias vermelhas, amêndoas tostadas, pequenos doces cobertos de açúcar fino. Jarras de água com limão e hortelã. Café em bules prateados. Xícaras de porcelana floral tão finas que Bella tinha medo de quebrá-las apenas por segurar.

Tudo ali parecia leve. E ainda assim, Isabella sentia o peso de cada olhar.

Sulpicia Volturi a recebeu no início do caminho central, diante de uma fonte baixa de mármore. A esposa de Aro usava um vestido claro, de corte impecável, e luvas finas presas entre os dedos. Não havia exagero em sua aparência. Nenhuma joia chamativa, nenhuma cor vibrante, nada que disputasse atenção com o jardim ao redor. E talvez fosse exatamente isso que a tornasse tão imponente.

Sulpicia não precisava competir com o ambiente. O ambiente parecia obedecê-la. Seus cabelos escuros estavam presos em um coque baixo, perfeito, revelando o pescoço longo e o rosto sereno. A boca desenhava um sorriso educado, receptivo, quase maternal. Mas os olhos não acompanhavam a suavidade do gesto. Os olhos de Sulpicia eram ácidos. Não de forma cruel ou aberta. Eram piores por isso. Pareciam claros demais por dentro, atentos demais, capazes de dissolver a camada polida de qualquer frase até encontrar a intenção verdadeira escondida no fundo.

— Isabella — disse ela, estendendo a mão. — Que bom que se juntou a nós.

Bella aceitou o cumprimento.

— Obrigada por me receber.

Sulpicia apertou seus dedos com delicadeza.

— A casa recebe aqueles que Aro considera relevantes.

Bella sustentou o sorriso. Relevante. Não convidada. Não bem-vinda. Relevante. A diferença parecia pequena, mas era possível sentir a lâmina escondida nela.

— Espero corresponder à honra — Isabella respondeu.

O olhar de Sulpicia brilhou, satisfeito.

— Uma resposta prudente.

Bella não soube se aquilo era elogio. Provavelmente, naquele lugar, os elogios eram apenas outra forma de aviso.

As demais convidadas estavam reunidas sob a sombra da pérgola, em pequenos grupos que se reorganizaram discretamente quando Sulpicia conduziu Bella até elas. Camille Beaumont, elegante em azul-claro, sorriu com gentileza treinada. Naomi Sato inclinou a cabeça com uma calma quase impenetrável. Havia também duas mulheres que Bella lembrava vagamente do jantar, ambas impecáveis, ambas atentas.

E havia Victoria. A ruiva estava de pé junto à mesa do banquete, segurando uma taça de água com gás. O sol parecia gostar dela. Pegava em seus cabelos e os transformava em cobre vivo, em chamas controladas. Usava um vestido verde-musgo que tornava sua pele ainda mais clara e seus olhos ainda mais afiados. Seu sorriso veio antes da apresentação, como se ela já soubesse exatamente quem Bella era e estivesse apenas esperando a oportunidade de se divertir com isso.

— Victoria Moreau — disse Sulpicia. — Uma companhia sempre... estimulante.

Victoria levou uma das mãos ao peito.

— Sulpicia, isso soou quase como uma acusação.

— Conheço poucas verdades que não soem como acusação quando ditas corretamente.

Algumas mulheres riram baixo. Bella percebeu que, naquele grupo, até o humor tinha dentes. Victoria estendeu a mão.

— Isabella Swan. A noiva que ninguém esperava.

A frase foi dita com leveza demais para ser insulto aberto. Bella apertou sua mão.

— Imagino que isso me torne fácil de lembrar.

— Ou difícil de explicar — Victoria respondeu.

Camille interveio com um sorriso.

— Victoria gosta de testar as pessoas antes do café terminar.

— Mentira — disse Victoria. — Eu testo depois também.

Sulpicia apenas observava. Bella compreendeu, então, que ninguém ali falava sem plateia. Cada comentário era lançado como uma pedra pequena em água parada, e todas esperavam para ver até onde as ondas chegariam.

Ela decidiu, naquele momento, que falaria pouco. Edward havia dito para tomar cuidado com o que falava.

A lembrança da voz dele em seu ouvido ainda a irritava. Mais ainda porque vinha acompanhada da lembrança do beijo rápido, calculado, diante do funcionário. Um beijo de cena. Um beijo para sustentar a narrativa. Um beijo que seu corpo, para sua humilhação, ainda não havia esquecido completamente.

Isabella pegou uma xícara de café oferecida por um funcionário e se concentrou no calor da porcelana contra os dedos. Sulpicia bateu levemente as mãos, chamando a atenção do grupo.

— Começaremos pelo jardim antigo. Depois voltaremos à pérgola para a composição floral. Nada muito exigente. Apenas uma forma agradável de passar a manhã enquanto nossos parceiros discutem assuntos menos perfumados dentro da casa.

— Menos perfumados, talvez — Victoria comentou. — Não necessariamente menos espinhosos.

Sulpicia sorriu.

— Espinhos são parte de qualquer composição bem feita.

Bella olhou para as roseiras. Subitamente, a manhã pareceu menos inocente.

O grupo começou a caminhar. Sulpicia seguia à frente, em ritmo tranquilo, apontando detalhes do jardim como uma anfitriã exemplar. Falava sobre espécies antigas de rosas, sobre oliveiras trazidas de propriedades familiares, sobre fontes restauradas a partir de desenhos originais. Sua voz era baixa e elegante, mas todos a ouviam. O jardim parecia organizar-se ao redor dela.

Bella caminhava um pouco atrás, entre Camille e Naomi, tentando absorver tudo sem parecer impressionada demais. O conjunto marfim de Alice parecia adequado ao ambiente: claro, estruturado, discreto. Ainda assim, ela sentia a diferença entre a roupa e a pele por baixo dela. A roupa pertencia àquele mundo. Bella, não.

— Alice Cullen escolheu muito bem — disse Camille, observando o blazer. — O marfim é difícil de usar sem parecer pálida. Em você, funciona.

— Alice parece ter opiniões fortes sobre o que funciona — Bella respondeu.

Victoria, alguns passos à frente, olhou por cima do ombro.

— Alice tem opiniões fortes sobre tudo. É uma das características menos irritantes dela.

Bella quase sorriu. E Camille perguntou:

— Há outras mais irritantes?

— Ela é uma Cullen. Isso já responde.

Naomi falou pela primeira vez:

— Os Cullen costumam despertar reações intensas.

Victoria riu.

— Edward Cullen, sobretudo.

O nome dele alterou algo no ar. Nada evidente. Ninguém parou de caminhar. As fontes continuaram murmurando. O sol continuou agradável. Mas Bella sentiu a atenção das mulheres se ajustar em torno dela como uma fita sendo puxada devagar.

Ela levou a xícara aos lábios para ganhar tempo. O café estava forte. Amargo. Necessário.

— Edward costuma despertar opiniões — Sulpicia disse, sem se virar. — Intensidade talvez seja uma palavra mais adequada para o modo como os outros reagem a ele.

— Ou para o modo como ele parece reagir agora — Victoria acrescentou.

Bella manteve o rosto neutro. Agora... A palavra ficou suspensa. Sulpicia parou diante de uma roseira de flores vermelho-escuras. Tocou uma pétala com cuidado, sem arrancá-la.

— O anúncio de vocês surpreendeu muitas pessoas, Isabella.

Bella sentiu o estômago apertar.

— Imagino que sim.

— Pela rapidez — Sulpicia continuou. — E pela firmeza. Edward Cullen não é conhecido por assumir compromissos pessoais com tanta facilidade.

Victoria se aproximou de uma rosa, inclinando-se para sentir o perfume.

— Na verdade, por um tempo, muitos acreditaram que ele simplesmente nunca assumiria nada que não pudesse ser assinado por advogados.

Camille lançou a ela um olhar repreensivo.

— Victoria.

— Estou sendo gentil. Eu poderia dizer mais.

Bella manteve a xícara firme entre os dedos. Não reaja. Não pergunte demais. Não pareça saber de menos.

— Edward é cuidadoso — disse Isabella.

Sulpicia finalmente voltou o rosto em sua direção.

— Essa é uma palavra curiosa.

— É a mais específica que encontrei.

Victoria riu, satisfeita.

— Ah, ela é melhor do que parece.

Bella não sabia se aquilo era elogio ou provocação. Decidiu que não importava. Sulpicia observou Isabella por um instante longo, como se medisse a resistência de uma peça de porcelana antes de decidir se a colocaria na mesa ou contra o chão.

— Sim — ela disse por fim. — Cuidadoso. Talvez seja mesmo a palavra. Ele também foi cuidadoso com Irina Denali.

O nome entrou no jardim como uma sombra atravessando o sol.

Bella sentiu, contra a própria vontade, o corpo ficar mais atento.

Irina Denali. A ex-companheira de Edward.

O nome que ela conhecia sem conhecer. A mulher que habitava um território da vida dele onde Bella não tinha entrada, embora agora usasse o anel que todos associavam ao futuro dele.

Ela deveria não se importar. Deveria.

— Já ouvi um pouco sobre ela — Bella disse, com cuidado.

Victoria sorriu.

— Seria estranho se não tivesse ouvido.

Camille aproximou-se da roseira, fingindo examinar as flores.

— Irina e Edward estiveram juntos por muito tempo.

— Tempo suficiente para algumas pessoas comprarem chapéus mentalmente para o casamento — Victoria disse.

Sulpicia não a repreendeu. E a ausência de repreensão foi, por si só, uma autorização.

O grupo retomou a caminhada, agora por um caminho ladeado de lavandas. O perfume ficou mais forte. Bella respirou devagar, tentando manter o rosto sereno enquanto cada palavra se prendia a ela como espinhos invisíveis.

Sulpicia falou com a calma de quem comentava algo conhecido demais para ser segredo.

— As famílias Denali e Cullen se conhecem há décadas. Carlisle e Eleazar têm negócios antigos, interesses em comum, eventos compartilhados, conselhos, fundações. Irina e Edward cresceram atravessando os mesmos salões, sentando-se às mesmas mesas, ouvindo os mesmos adultos decidirem o mundo ao redor deles.

Bella imaginou Edward criança. Não conseguiu por muito tempo. Sua mente imediatamente o vestiu com uma versão menor da mesma compostura rígida. Um menino sério demais, bonito demais, já aprendendo a não demonstrar desconforto. Ao lado dele, uma garota Denali talvez impecável, talvez confiante, talvez pertencente a tudo aquilo desde o primeiro passo.

Ao contrário de Bella.

— O relacionamento começou no ensino médio, não foi? — Camille perguntou, embora parecesse já saber.

Sulpicia assentiu.

— Oficialmente, sim. Mas a expectativa veio antes. Às vezes, famílias poderosas planejam alianças sem jamais pronunciar a palavra.

— Um Cullen e uma Denali — Naomi disse, a voz baixa e precisa. — Era uma combinação lógica.

Lógica. Isabella quase sentiu vontade de rir. Edward e Irina eram lógica. Edward e Bella eram uma história improvisada para encobrir um acordo.

— E bonita — Victoria acrescentou. — Não sejamos hipócritas. Eles eram bonitos juntos. A imprensa adorava. Dois sobrenomes importantes, dois rostos adequados, duas famílias satisfeitas demais para fingir surpresa.

Bella olhou para uma fonte pequena à esquerda, observando a água cair sobre uma bacia de mármore.

A imagem de Edward com Irina formou-se apesar de sua resistência. Um casal elegante. Natural. Esperado. Aprovado. Ele com sua frieza controlada, ela com beleza refinada e sobrenome certo. Os dois em eventos, fotografias, jantares, viagens. Ele talvez tocando a cintura dela do mesmo modo como tocara a de Bella na noite anterior. Talvez sussurrando em seu ouvido com aquela voz baixa que fazia cócegas na pele. Talvez beijando-a sem precisar de plateia.

Bella apertou a xícara. Não era ciúme. Não podia ser... Ciúme exigia alguma espécie de direito. E ela não tinha direito algum sobre Edward Cullen. Tinha um acordo. Um anel. E um papel a cumprir.

— Todos esperavam casamento — Sulpicia continuou.

Victoria arrancou, com permissão silenciosa de ninguém, uma pétala solta que já caía de uma flor.

— Irina esperava mais do que todos.

Camille suspirou.

— Ela era bem apaixonada.

— Ela era impaciente — Victoria corrigiu. — Há diferença.

— As duas coisas podem coexistir — Naomi disse.

Sulpicia olhou para Naomi com aprovação discreta.

— De fato. Irina tinha uma personalidade intensa. Difícil, às vezes. Brilhante, educada, bela, mas pouco inclinada a esperar quando acreditava que algo lhe era devido.

Bella sentiu a frase como um aviso disfarçado. Algo lhe era devido. Irina achava que Edward lhe era devido? Ou apenas o futuro que todos haviam prometido sem assinar?

— Ela queria casar — Camille disse, mais suave. — Queria segurança talvez. Depois de tantos anos, não era absurdo.

— Não era absurdo — Victoria concordou. — Mas pressionar Edward Cullen raramente produz o resultado desejado. Ele tem uma habilidade quase artística para recuar quando alguém tenta empurrá-lo.

Isabella guardou essa informação em algum lugar dentro de si. Edward recuava quando pressionado. Edward evitava compromissos pessoais. Edward era cuidadoso. Edward havia se comprometido com ela rápido demais.

A contradição era exatamente o que Sulpicia queria que ela enxergasse.

— Ele não parecia confortável com a pressão? — Bella perguntou. A pergunta saiu antes que ela pudesse contê-la.

Sulpicia sorriu de leve. Não de forma gentil. De forma interessada. Isabella se odiou um pouco. Perguntara demais. Mostrara curiosidade. Abrira uma fresta.

— Não... — respondeu Sulpicia. — Não parecia. Mas Edward sempre foi hábil em esconder desconfortos. Quase tão hábil quanto Carlisle.

Bella pensou no sofá pequeno da suíte. No terno azul-escuro impecável naquela manhã. Na ausência de reclamação. Na dor escondida nos ombros. Sim. Edward era hábil em esconder desconfortos. Hábil demais.

— Houve uma discussão — Camille disse, baixando um pouco a voz, como se o jardim não estivesse cercado por funcionários discretos e convidados atentos. — Em Londres, se me lembro bem.

Victoria sorriu.

— Lembra perfeitamente.

Camille ignorou.

— Um evento privado. Nada oficial. Mas havia pessoas suficientes para que o silêncio posterior se tornasse inútil.

Sulpicia parou diante de um arco coberto por rosas claras. A luz atravessava as flores, deixando as pétalas quase translúcidas. Ela passou os dedos por uma delas antes de falar.

— Irina queria o anúncio. Edward queria tempo. E tempo, para uma mulher que acredita ter esperado desde a infância, pode soar como rejeição.

Bella ouviu a frase em silêncio. Não queria sentir nada por Irina. Não queria simpatizar com uma mulher que, até minutos antes, era apenas uma sombra inconveniente. Mas havia algo dolorosamente humano naquilo. Esperar por alguém durante anos. Acreditar em um futuro porque todos ao redor pareciam tratá-lo como certo. Pedir uma confirmação. Ou exigir. E receber apenas a frieza controlada de Edward Cullen, sua cautela, seus adiamentos, suas palavras medidas.

Isabella podia imaginá-lo. E isso a incomodou. Porque, de alguma maneira, conseguia entender os dois.

— E então ela apareceu com Laurent — Victoria disse, satisfeita por finalmente chegar ao melhor ponto da história.

Bella olhou para ela.

— Laurent?

— Laurent Desmarais — respondeu Victoria. — Jogador de beisebol. Famoso, bonito, muito consciente das duas coisas.

— Uma escolha pública demais para ser acidental — Naomi observou.

— Exatamente — Victoria disse. — Irina apareceu com ele pouco depois da discussão. Sorridente. Deslumbrante. Vestida como alguém que queria ser fotografada de todos os ângulos possíveis.

Camille fez uma careta delicada.

— Foi constrangedor.

— Foi magnífico — Victoria corrigiu. — Constrangedor para os Denali, talvez. Para o resto de nós, foi entretenimento de alta qualidade.

— Victoria! — Sulpicia advertiu, mas sem força suficiente para impedir o sorriso da ruiva.

— O que posso dizer? Algumas tragédias sociais têm excelente iluminação.

Bella quase sorriu. Quase.

Mas a imagem se formou rápido demais: Irina ao lado de Laurent, oferecendo ao mundo uma resposta pública à indecisão de Edward. Edward vendo. Edward calado. Edward escondendo qualquer coisa que sentisse atrás da mesma expressão que Bella conhecia tão bem.

— Como ele reagiu? — Bella perguntou.

Dessa vez, percebeu tarde demais o erro. Victoria parou de sorrir por um instante. Camille olhou para Sulpicia. Naomi abaixou os olhos para a própria xícara. Sulpicia observou Bella como se a pergunta tivesse revelado mais do que a resposta revelaria.

— Edward? — disse a esposa de Aro.

Bella sustentou o olhar dela. Não havia como recuar agora.

— Sim...

Sulpicia demorou um pouco antes de responder.

— Como se espera de um Cullen.

Victoria riu baixo.

— Ou seja: não reagiu.

— Publicamente, não — Camille disse.

— Ele nunca disse nada — Naomi completou. — Nenhuma declaração. Nenhum confronto. Nenhum escândalo.

Victoria girou a taça entre os dedos.

— Edward raramente precisa falar quando decide encerrar algo. Ele simplesmente retira presença, atenção, possibilidade. Algumas pessoas chamam isso de elegância. Eu acho mais próximo de execução silenciosa.

Bella sentiu um frio descer pela coluna. Execução silenciosa. Era fácil demais acreditar nisso. Edward destruía sem levantar a voz. Cortava sem parecer mover a mão. Ela mesma já havia sentido algo parecido quando ele transformava conversas difíceis em frases práticas, quando convertia dor em logística, quando reduzia vidas inteiras a cláusulas e resultados.

Mas também havia outra coisa... A rigidez nos ombros naquela manhã. O cuidado com que ele se mantinha composto. O modo como dissera “boa sorte” antes de beijá-la. Bella não sabia mais se queria entender Edward. Entender tornava mais difícil odiar. E ela precisava odiá-lo. Pelo menos um pouco. O ódio era uma fronteira útil.

As mulheres continuaram caminhando até uma área onde cestas de vime, tesouras de poda e fitas de seda estavam dispostas sobre uma mesa baixa. A atividade floral, aparentemente, começaria ali. Funcionários aguardavam a certa distância, prontos para oferecer qualquer coisa antes que alguém tivesse que pedir.

Sulpicia pegou uma tesoura de poda. O gesto foi elegante demais para parecer ameaçador. Por isso, pareceu ainda mais.

— Podemos escolher flores para a composição — disse ela. — Rosas mais abertas para volume. Botões fechados para promessa. Ramos de oliveira para continuidade. Lavanda para memória.

Victoria se aproximou das flores vermelhas.

— E espinhos para honestidade.

— Espinhos são inevitáveis — Sulpicia respondeu.

Bella pegou uma rosa clara. O caule tinha espinhos pequenos, mas duros. Ela segurou com cuidado.

Sulpicia observou o gesto.

— Irina nunca gostou muito dos espinhos — ela disse, como se retomasse a conversa naturalmente. — Queria a flor já arranjada. O nome. A posição. O anúncio. A segurança.

Bella olhou para a rosa em sua mão. E disse:

— Talvez ela tenha esperado tempo demais para fingir que não queria nada.

O silêncio ao redor veio rápido. Bella sentiu o próprio coração bater. Droga. Falara antes de calcular. Mas a frase era verdadeira demais para ser retirada.

Sulpicia não pareceu ofendida. Ao contrário. Seu olhar ácido ganhou uma camada nova de interesse.

— Uma leitura generosa de Irina Denali.

Victoria arqueou uma sobrancelha.

— Inesperadamente generosa.

Bella sustentou a rosa entre os dedos.

— Não acho que querer ser escolhida faça de alguém uma vilã.

Camille ficou em silêncio. Naomi olhou para Bella com algo que poderia ser aprovação. Victoria pareceu prestes a responder, mas Sulpicia ergueu uma mão pequena, interrompendo sem esforço.

— Não — disse a esposa de Aro, suavemente. — Não faz.

Isabella percebeu tarde demais que havia defendido Irina. A ex-companheira de Edward. A mulher que, em outra versão da história, poderia estar ali no lugar dela, usando roupas adequadas, sorrindo sem esforço, entendendo as regras do jardim antes mesmo que Sulpicia as explicasse. A mulher que talvez pertencesse. E Bella não.

Ela abaixou os olhos para a rosa e se concentrou em cortar o caule na diagonal, como uma funcionária havia demonstrado. Precisava de algo concreto. Um gesto simples. Uma tarefa que não envolvesse Edward, Irina, contratos, beijos falsos ou a sensação cada vez mais incômoda de estar ocupando um lugar roubado.

— Ainda assim — Sulpicia disse, aproximando-se —, Edward não a escolheu no fim.

Bella ficou imóvel. A frase foi dita em tom baixo. Só para ela, talvez. Ou para todas, mas de um modo que parecia íntimo demais.

Victoria observava. Camille fingia selecionar lavandas. Naomi permanecia silenciosa. Sulpicia continuou:

— E então você apareceu, Isabella.

Dessa vez, não havia passeio, fonte ou comentário casual para disfarçar o golpe. Bella ergueu os olhos. Sulpicia estava muito perto. O perfume dela era suave, floral, frio. Seu rosto permanecia sereno, mas o olhar parecia atravessar o conjunto marfim, a postura controlada, o anel, as respostas cuidadosamente medidas.

— Confesso que foi inesperado — continuou Sulpicia. — Não apenas o relacionamento. Mas a rapidez. A intensidade. A forma como Edward parece assumir você diante de todos.

Assumir você. As palavras tocaram Bella de forma estranha. Como se ela fosse algo a ser exibido. Ou protegido. Ou usado.

O beijo daquela manhã voltou com força brutal. A boca dele. O aviso. O funcionário comovido. A encenação perfeita. Isabella sentiu calor no rosto e odiou.

— Edward não é um homem que faz algo pela metade — Bella respondeu.

Era a frase certa. Parecia certa. Segura. Elegante. Vaga. Mas Sulpicia não pareceu satisfeita.

— Não — disse ela. — Ele não é.

Isabella respirou devagar. Olhou ao redor. O jardim continuava perfeito. O sol continuava agradável. As fontes continuavam cantando como se nada ali pudesse machucar. Sobre a mesa, as frutas brilhavam, os pães exalavam calor e as flores esperavam para serem cortadas, escolhidas, organizadas, transformadas em algo bonito o bastante para esconder o fato de que haviam sido arrancadas do lugar. Olhou brevemente para a residência ao longe.

Em algum lugar dentro daquelas paredes antigas, Edward participava da conferência, cercado por homens que falavam sua língua. Talvez estivesse discutindo contratos, riscos e alianças. Talvez estivesse impecável, frio, intocado. Talvez nem pensasse nela. Ou talvez pensasse apenas como parte do resultado. A ideia deveria ser reconfortante. Mas não foi.

Bella baixou os olhos para as flores diante de si.

Irina Denali agora tinha rosto em sua imaginação, mesmo que inventado. Tinha história. Tinha infância com Edward, expectativa, pressão, escândalo, dor. Tinha algo que Bella não tinha: passado.

Bella, por outro lado, tinha o presente. Falso, comprado, instável. Mas presente.

E, naquele jardim dos Volturi, cercada por mulheres que sorriam como se cada palavra fosse apenas conversa, Isabella percebeu que talvez essa fosse a parte mais perigosa de todas. A mentira começava a ocupar espaço onde uma história real havia terminado. E todos ali queriam saber se ela conseguiria sustentá-la sem sangrar nos espinhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.