Contrato de Amor e Ódio
8 Capítulo 07
Era difícil descrever o quão surreal era a mansão da família Cullen. Bella já havia visto casas grandes antes. Mansões cercadas por jardins impecáveis, residências escondidas atrás de portões altos, fachadas projetadas para anunciar riqueza antes mesmo que alguém cruzasse a entrada. Mas aquilo estava em outro patamar.
A propriedade se erguia como um castelo moderno, austero e elegante, protegida por muros altos e portões de ferro trabalhado que se abriram lentamente quando o carro se aproximou. O caminho até a entrada principal serpenteava por jardins meticulosamente cuidados, com arbustos esculpidos, árvores iluminadas por focos discretos e fontes de água cristalina que murmuravam em perfeita harmonia.
Nada ali parecia existir por acaso. Cada luz. Cada pedra. Cada flor. Tudo era calculado para impressionar. Ou intimidar.
Bella sentiu isso com força ao atravessar o jardim: a noção sufocante de que aquele mundo jamais fora feito para alguém como ela. A riqueza dos Cullen não era apenas visível. Era esmagadora, silenciosa e onipresente. Estava no brilho do mármore, na simetria dos jardins, no silêncio dos funcionários que se moviam com discrição treinada. Estava no tipo de luxo que não precisava se anunciar porque já nascera certo de sua própria importância.
Na escadaria principal, diante da entrada da mansão, Edward Cullen aguardava. Impecável, como sempre. O terno escuro parecia feito sob medida, acompanhando cada linha de seu corpo com precisão. O cabelo bronzeado estava alinhado, o maxilar rígido, a postura ereta demais para alguém confortável com a situação. Havia impaciência em sua expressão — não nervosismo, mas o cansaço contido de quem detestava o papel que precisava desempenhar e, ainda assim, sabia desempenhá-lo com perfeição.
O motorista desceu primeiro e abriu a porta com a precisão ensaiada de quem estava acostumado àquele tipo de evento. Alice saiu em seguida, quase saltando para fora do carro, radiante demais para a atmosfera carregada da noite. Parecia se alimentar da expectativa, como se aquilo fosse um espetáculo montado especialmente para ela.
Bella veio logo depois. O ar frio atingiu sua pele como um aviso. Um choque breve, mas suficiente para fazê-la inspirar fundo, tentando se ancorar no presente. Assim que colocou os pés no chão, ainda ajustando o equilíbrio nos saltos, sentiu — antes mesmo de ver — que estava sendo observada.
Então seus olhos encontraram os de Edward Cullen. Por um segundo. Apenas um. Rápido demais para qualquer outra pessoa perceber, mas longo o bastante para que Bella sentisse o impacto. Algo atravessou o olhar dele. Um brilho escuro, intenso, avaliador. Não havia desprezo ali. Tampouco indiferença. Era pior. Era cálculo. Como se ele estivesse medindo não apenas sua aparência, mas o quanto ela se encaixava naquele papel, naquela noite, naquela mentira cuidadosamente construída. E então, como sempre, ele se recompôs. A expressão se fechou. A muralha fria voltou ao lugar.
— Você está… aceitável — ele comentou, passando os olhos por ela de cima a baixo com atenção demais para que a palavra soasse casual.
A palavra cravou fundo. Bella revirou os olhos, sentindo o desconforto subir pela garganta como um gosto amargo.
— Aceitável? — Alice repetiu, rindo, genuinamente divertida. — Edward, ela está linda. Sério, às vezes eu me pergunto se você nasceu sem senso estético.
— Se você diz… — respondeu ele, com um desinteresse tão bem ensaiado que quase parecia real.
Quase. Ainda assim, Edward estendeu o braço. Bella hesitou. Apenas um segundo. Um intervalo microscópico em que cada instinto gritou para que ela não o tocasse. Mas o acordo — e as consequências de quebrá-lo — estavam vivos demais em sua mente.
Então ela aceitou. O contato foi imediato. A mão dele era firme, segura, possessiva demais para alguém que mal fingia afeto. Um lembrete silencioso de que, gostasse ou não, aquela noite tinha regras. E ela já havia concordado em segui-las.
— Vamos — disse Edward, baixo. — Todos já estão esperando.
Assim que atravessaram as portas de entrada, o mundo mudou. O salão principal se abriu diante deles em uma exibição calculada de luxo: amplo, imponente, elegante sem ser ostensivo. Lustres de cristal pendiam do teto alto, lançando uma luz dourada sobre o mármore polido. Quadros antigos ocupavam as paredes, silenciosos testemunhos de tradição e poder. A música ambiente era suave, precisa — feita para preencher o espaço sem jamais roubar atenção das conversas.
Mas as conversas cessaram assim que eles entraram. Uma a uma. Bella sentiu o ar se tornar mais denso. Olhares se voltaram. Sorrisos surgiram — educados, curiosos, famintos. Murmúrios começaram a se espalhar como ondas discretas. Ela reconheceu rostos importantes de Seattle. Todos ali tinham o mesmo objetivo, ainda que fingissem o contrário. Analisar. Julgar. Catalogar. A misteriosa mulher envolvida com Edward Cullen.
O estômago de Bella se contraiu.
— Isabella.
Uma mulher se aproximou com passos rápidos e sorriso aberto demais para ser falso. Havia algo caloroso em sua expressão — um afeto que não parecia encenado.
— Que bom finalmente conhecê-la, minha querida! — ela disse, envolvendo Bella em um abraço inesperadamente apertado, surpreendentemente acolhedor. — Você está linda.
Bella ficou rígida por um instante, pega de surpresa. Reconheceu a mulher de cabelos escuros e sorriso doce quase imediatamente. Esme Cullen.
— Obrigada, senhora Cullen — Bella respondeu, tentando soar educada enquanto tentava entrar em seu papel.
— Esme — corrigiu a mulher, sorrindo ainda mais. — Por favor. Seja bem-vinda à família.
Família. A palavra afundou em Bella como uma âncora lançada em águas profundas. Família era Charlie sentado à mesa da cozinha, tentando esconder a derrota atrás de silêncio. Era Renée sorrindo mesmo quando o corpo já não suportava. Era a gráfica cheirando a tinta fresca antes de tudo ruir. Aquilo ali não era família. Era cenário. Era contrato. Era sobrevivência disfarçada de conto de fadas.
Carlisle aproximou-se logo depois, o sorriso sereno e a postura tranquila demais para alguém que comandava um império empresarial. Seus olhos claros pousaram sobre Bella com atenção — e algo próximo de reconhecimento.
— Nós já nos vimos antes — ele comentou, reflexivo. — No evento da empresa.
— Sim — Bella respondeu, curta, tentando não deixar a frieza escapar demais.
— Fico satisfeito em revê-la — disse Carlisle. — O trabalho gráfico foi impecável.
Então, voltando-se aos dois, acrescentou:
— Planejamos esta noite especialmente para vocês.
— Obrigado, Carlisle — Edward respondeu de imediato, no tom perfeito.
Bella sentiu a irritação subir. A naturalidade com que ele interpretava aquele papel era quase ofensiva. Ele mentia sem tropeçar. Vestia a farsa como vestia o terno: com elegância, frieza e domínio absoluto.
Pouco depois, Jasper surgiu ao lado de Alice. O olhar analítico dele passou por Bella com rapidez calculada. Ele a reconhecia. Assentiu em cumprimento, discreto, atento demais.
O burburinho cresceu à medida que mais convidados se aproximavam, como mariposas atraídas por luz. Sem que Bella percebesse quando começou, formou-se um semicírculo ao redor deles — natural demais para ser casual. Taças de cristal tilintavam, passos se acumulavam, vozes baixavam de tom. Os flashes surgiram primeiro de forma esporádica, depois constantes, agressivos.
Edward apertou levemente sua cintura. Não foi um gesto de carinho. Foi um aviso. O toque fez um arrepio desconfortável subir por sua espinha. Ele a conduziu alguns passos à frente, guiando-a com precisão até um ponto estrategicamente iluminado do saguão. Bella percebeu, com um atraso inquietante, que aquele espaço havia sido escolhido.
Nada ali era aleatório.
Os jornalistas, antes diluídos entre os convidados, moveram-se com rapidez quase predatória. Câmeras foram erguidas. Microfones surgiram diante deles como extensões naturais de mãos treinadas.
— Boa noite — Edward iniciou, a voz firme, segura, perfeitamente modulada. Não precisou elevar o tom. Todos já estavam ouvindo. — Agradeço a presença de todos. Esta ocasião foi organizada para tornar pública uma informação importante, de forma clara e transparente.
Clara e transparente. Bella repetiu mentalmente, sentindo a ironia queimar na garganta.
Teve vontade de rir. Uma risada nervosa, quase histérica. Ou talvez de gritar, quebrar aquele cenário impecável com alguma coisa real.
Edward respirou fundo. Soltou sua cintura apenas o suficiente para se posicionar meio passo à frente dela. O gesto a deixou exposta, como se tivesse sido colocada sob um foco ainda mais intenso. Então, com um movimento calculado, levou a mão ao bolso interno do paletó. O tempo pareceu desacelerar quando ele retirou a pequena caixa de veludo preto.
O coração de Bella disparou antes mesmo de sua mente alcançar a compreensão completa do que estava prestes a acontecer. Uma pulsação forte demais, rápida demais, ecoando nos próprios ouvidos.
Edward abriu a caixa. A luz pareceu convergir para o interior daquele pequeno objeto.
O anel reluzia com uma presença quase intimidadora. O diamante central, lapidado com precisão impecável, capturava cada reflexo ao redor e devolvia tudo multiplicado. O aro de platina era delicado, elegante, ladeado por pedras menores que ampliavam ainda mais seu brilho. Nada ali era exagerado. Era clássico. Antigo. Carregado de tradição, expectativa e peso. Não era apenas uma joia. Era uma declaração pública de poder.
— Este anel pertenceu à minha mãe — Edward disse, o tom neutro demais para ser casual, firme demais para ser questionado. — Ela sempre disse que gostaria que fosse usado por alguém que representasse compromisso, estabilidade e futuro.
Cada palavra parecia cuidadosamente escolhida. Bella sentiu um aperto no peito, como se aquelas ideias — compromisso, estabilidade, futuro — fossem roupas que tentavam forçá-la a vestir sem que tivessem sido feitas para ela.
— Gostaria que fosse seu agora.
O mundo explodiu em luz. Flashes estouraram em sequência, agressivos, incessantes. O som era ensurdecedor, quase físico. Alice levou as mãos à boca, os olhos marejados, visivelmente tomada pela emoção. Esme sorria como se estivesse presenciando a materialização de um sonho antigo. Carlisle observava em silêncio, atento a cada reação, cada ângulo, cada consequência. Jasper mantinha a expressão neutra, mas o olhar se movia rápido — avaliando o impacto, medindo riscos, calculando danos e benefícios.
Edward voltou-se para Bella. E então ajoelhou-se.
O chão pareceu inclinar sob seus pés. Por um instante vertiginoso, Isabella teve a sensação de que tudo estava fora de eixo — o salão, as pessoas, o próprio corpo. Como se estivesse observando a cena de fora, deslocada, incapaz de interferir.
— Isabella Swan — disse Edward, alto o bastante para que todos ouvissem. — Você aceita se tornar minha noiva?
Por dentro, Bella gritava. Um grito mudo, desesperado, que ricocheteava contra as paredes da própria mente. Não. Não aceito. Mas por fora, apenas sorriu. Um sorriso contido, educado, perfeitamente calculado. Um sorriso que não tremia, não denunciava o pânico que se espalhava por suas veias como gelo. Ela sentia os olhos cravados nela, cada expressão pronta para ser interpretada, recortada, transformada em manchete.
Cada segundo de hesitação seria um erro. Cada silêncio, um escândalo. Então ela assentiu.
— Aceito.
O salão explodiu em aplausos e flashes. Edward se levantou e, com uma delicadeza estudada demais para ser espontânea, segurou sua mão. Colocou o anel em seu dedo com cuidado, como se selasse algo sagrado. O peso foi imediato. Não apenas físico.
Simbólico.
Bella sentiu vontade de arrancar o anel e jogá-lo longe. Em vez disso, sorriu. Antes que pudesse organizar os pensamentos, antes que o choque se transformasse em algo mais definido, os jornalistas avançaram.
— Senhor Cullen! — chamou um deles. — Como conheceu a senhorita Swan?
Edward não piscou.
— Nos conhecemos por meio de projetos profissionais ligados à empresa — ele respondeu com naturalidade assustadora. — Isabella é uma profissional extremamente competente. Com o tempo, a nossa relação evoluiu naturalmente.
Naturalmente? A palavra quase fez Bella engasgar.
— E o beijo flagrado na inauguração do restaurante italiano? — questionou outra voz, em tom malicioso. — O que foi aquilo?
Edward inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta fosse previsível demais para merecer surpresa.
— Foi um momento espontâneo — ele respondeu. — Apenas confirmamos algo que já existia.
A mão dele apertou a de Bella por um segundo a mais do que o necessário. Um lembrete silencioso. Continue sorrindo.
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
— O suficiente para termos certeza do que queremos — Edward respondeu, sem hesitar. — Preferimos manter detalhes privados… privados.
Murmúrios de satisfação se espalharam. As pessoas pareciam acreditar naquela narrativa.
Estabilidade. Coerência. Controle. Exatamente o que ele precisava entregar. Bella manteve a postura impecável. Sorria quando esperado. Inclinava a cabeça no momento certo. Parecia, para qualquer observador externo, absolutamente no lugar.
Mas por dentro, afundava. O anel brilhava em seu dedo como um farol constante, lembrando-a de que algo havia sido cruzado naquela noite. Aquilo já não era apenas um acordo. Era um espetáculo público. E ela estava no centro dele — presa, exposta, oficialmente ligada ao homem que mais despertava nela ódio.
~*~
A manhã seguinte chegou cedo demais. Isabella atravessou a porta da agência de design com a sensação incômoda de que carregava um holofote invisível sobre a cabeça. O céu de Seattle estava cinza, como de costume, mas para ela tudo parecia excessivamente exposto.
O anel em seu dedo era impossível de ignorar. Grande. Brilhante. Desproporcional à sua realidade. O diamante capturava a luz fria do escritório a cada mínimo movimento, refletindo-a de volta com uma insistência quase cruel. Não havia como esquecê-lo. Não havia como fingir que fazia parte da sua vida. Era um peso constante, físico e simbólico, lembrando-a de que a noite anterior não fora um devaneio febril nem um pesadelo passageiro.
Bella caminhou até sua mesa tentando aparentar normalidade, mas a farsa começou a ruir antes mesmo de se sentar. Ela sentia os olhares. Um especulativo demais para ser educado. Outro prolongado demais para ser discreto.
Os funcionários fingiam concentração, mas os olhos deslizavam em sua direção como ímãs. Cochichos surgiam em ondas, estrategicamente baixos, cessando sempre que Bella erguia o olhar — o que só tornava tudo mais óbvio.
— É ela…
— A noiva de Edward Cullen…
— Você viu o tamanho daquele anel?
Cada sussurro era uma agulha.
Bella cerrou os dentes, sentindo a irritação tomar conta de seu corpo. Sentou-se, ligou o computador e tentou se agarrar à rotina como quem segura uma tábua no meio de um naufrágio. O arquivo aberto na tela — uma identidade visual qualquer — parecia distante, irrelevante, quase absurdo diante do caos interno.
O cursor piscava, insistente. Mas ela não conseguia focar. Sua mente repetia fragmentos da noite anterior: o brilho agressivo dos flashes, o som dos aplausos, a caixa de veludo se abrindo, a voz de Edward pedindo algo que jamais deveria ter sido pedido.
Droga.
Bella ajustou a mão, tentando esconder o anel atrás do teclado, atrás da xícara de café, atrás de qualquer coisa que pudesse servir de escudo. Mas era inútil.
Foi então que o som seco e decidido de saltos ecoou pelo escritório. Cada passo parecia uma sentença. Jessica Stanley surgiu como uma tempestade mal contida, atravessando o espaço com os ombros rígidos, os lábios comprimidos em uma linha fina. Nem precisou anunciar sua presença — o ar mudou. Tensionou. Silenciou.
— Bom dia? — a dona da agência disparou, com uma ironia afiada demais para ser casual, largando a bolsa sobre a mesa. — Ou melhor… deveria dizer parabéns?
O escritório inteiro pareceu prender a respiração. Bella inspirou fundo, mantendo os olhos fixos no monitor, como se aquilo pudesse ancorá-la.
— Bom dia, Jessica.
A chefe se aproximou lentamente, o som dos saltos marcando o ritmo do desconforto. O olhar dela desceu direto para a mão de Bella. Para o anel.
— Então é verdade — ela murmurou, com um sorriso torto carregado de algo que não era admiração. — Você e Edward Cullen.
Não era uma pergunta. Era uma acusação.
— Sim, mas não vejo como isso interfere no meu trabalho — Bella respondeu, a voz firme por esforço.
O riso que escapou de Jessica foi curto. Seco. Sem humor algum.
— Interfere quando você vira assunto em todas as colunas sociais da cidade — ela rebateu, a inveja nítida em seu olhar. — Interfere quando a minha funcionária decide se envolver com o homem mais influente de Seattle sem sequer me avisar.
A irritação subiu quente, queimando o fundo do peito de Isabella.
— Sinto muito por não incluí-la nos planos… — Bella murmurou, com sarcasmo, antes que pudesse se conter.
Jessica cruzou os braços, avaliando-a como quem mede fraquezas.
— Pois bem. Já que agora você parece ter tanta energia para eventos, escândalos e noivados milionários… — fez uma pausa calculada — imagino que não se importará em assumir mais responsabilidades.
Puxou um bloco de anotações com um estalo seco.
— Quero que revise os layouts do projeto da livraria até o fim do dia. Refaça a identidade visual do café novo. E ainda prepare uma apresentação para amanhã cedo. — Encarou Bella. — Sozinha.
Alguns funcionários trocaram olhares constrangidos. Outros desviaram o rosto, aliviados por não estarem no alvo. Bella a encarou, incrédula.
— Isso é impossível de fazer em um dia.
— Então fique até conseguir — Jessica respondeu, fria, implacável. — Afinal, imagino que alguém prestes se tornar parte da família Cullen deva aprender a lidar com pressão.
A frase veio carregada de veneno. E desprezo. Bella sentiu as mãos se fecharem em punhos sobre a mesa, as unhas pressionando a própria pele. Por um segundo perigoso, pensou em responder. Em gritar que aquele anel não significava escolha, nem privilégio, nem poder. Que não havia glamour algum em ser empurrada para uma vida que não queria. Mas engoliu. Ainda precisava daquele emprego. Haviam as contas. O aluguel atrasado. Charlie. E o contrato assinado com o estúpido do Cullen.
— Certo — Bella respondeu, tensa. — Tudo ficará pronto até amanhã.
Jessica sorriu, satisfeita demais.
— Ótimo. Ah… — acrescentou, com veneno, já se afastando — tente não distrair o resto da equipe com sua vida pessoal, está bem?
Ela se foi, deixando para trás um rastro de silêncio pesado e olhares que agora evitavam os de Isabella.
Bella voltou a encarar a tela. O maxilar estava travado. O peito apertado por uma mistura amarga de raiva, humilhação e exaustão. A presença dos Cullen parecia infiltrar-se em tudo — no trabalho, no olhar dos outros, no espaço que ocupava no mundo.
Como se estivesse sendo lentamente esmagada por um sobrenome que não era o seu. Baixou os olhos para o anel mais uma vez. O diamante reluziu, frio e indiferente.
— Eu odeio vocês — ela murmurou, com os dentes cerrados, de forma quase inaudível.
~*~
Bella saiu da agência quando o relógio já passava das dez da noite. O prédio estava vazio, os corredores mergulhados em sombras, luzes apagadas em andares inteiros. O eco de seus próprios passos no estacionamento soava alto demais, quase acusatório, contrastando de forma cruel com o dia caótico que ela acabara de sobreviver.
Os ombros doíam como se carregassem peso extra. Os olhos ardiam, secos de tanto encarar telas. A cabeça latejava num ritmo constante, consequência de horas seguidas refazendo layouts, ajustando apresentações e engolindo comentários passivo-agressivos disfarçados de profissionalismo. Trabalho redobrado. Punição mascarada de produtividade.
Ao chegar perto de casa, seu celular vibrou dentro da mochila. Bella franziu a testa. O cansaço se misturou a uma intuição desagradável enquanto pegava o aparelho. Esperava qualquer coisa — uma cobrança, um erro de projeto, talvez até uma mensagem de Alice Cullen. Mas não aquilo. Leu uma vez. Depois outra.
Assunto: Agenda — Sr. Edward Cullen
Remetente: Secretaria Executiva
Srta. Swan,
Informamos que o Sr. Edward Cullen terá uma viagem de negócios ao longo desta semana. Sua presença é requisitada. Pedimos, por gentileza, que esteja pronta amanhã às 16h. Mais informações serão enviadas oportunamente.
Bella soltou uma risada curta. Oca. Sem humor algum.
— Você só pode estar brincando comigo — ela resmungou, jogando o celular dentro da mochila como se ele queimasse. Viagem de negócios. Presença requisitada. Ela fechou os olhos por um instante, praguejando mentalmente — e em voz baixa também — a existência inteira dos Cullen. Suas secretárias impecáveis. Suas agendas cirurgicamente calculadas. Suas ordens disfarçadas de comunicados formais. E, acima de tudo, Edward Cullen e sua habilidade quase sobrenatural de invadir cada fresta da sua vida.
— É só por um tempo — repetiu para si mesma, como um mantra frágil demais para ser convincente. — Só até tudo se resolver.
Ao abrir a porta, percebeu que algo estava errado. O silêncio do apartamento era espesso, pesado demais para ser normal. A televisão estava ligada, um noticiário qualquer passando em volume baixo, mas Charlie não assistia. Estava afundado na poltrona, os cotovelos apoiados nos braços da cadeira, as mãos entrelaçadas diante do rosto, o olhar fixo em um ponto vazio da parede.
Ele já sabia.
O coração de Bella acelerou. Ela ficou parada por um instante na porta da sala, como se o corpo precisasse de autorização para avançar. Não havia fuga. Nem roteiro. Nem versão suavizada da verdade.
— Então… — Charlie começou, sem sequer olhar para ela. — Você e o Cullen estão noivos.
Não era uma pergunta. Havia incredulidade na voz, sim. Mas havia algo pior: um cansaço profundo, antigo, como se ele já tivesse gastado toda a raiva disponível e agora só restasse medo.
Bella largou a mochila no sofá e se aproximou devagar, sentando-se na beirada da poltrona ao lado dele.
— Pai… — tentou.
A palavra saiu fraca, quase engasgada. Ela respirou fundo e tentou de novo.
— Não foi planejado. Não foi uma escolha pensada. Aconteceu… de repente. Do jeito mais absurdo possível.
Charlie virou o rosto então. Os olhos estavam cansados, marcados por noites mal dormidas desde o fechamento da Gráfica Swan.
— Depois de tudo o que aquela família fez com a gente… — disse ele, baixo. — Você espera mesmo que eu acredite nisso?
Bella sentiu o peito se apertar.
— Eu sei — ela respondeu rápido. — Eu sei que parece loucura. Depois do que aconteceu com a gráfica, depois de tudo… eu também nunca imaginei.
Engoliu em seco.
— Mas isso não é para sempre. É só por um tempo.
— “Só por um tempo” — ele repetiu, amargo. — Foi assim que começou quando aceitamos o contrato com a Cullen Enterprises. E olha onde isso nos trouxe.
O silêncio que se seguiu era pesado demais para ser ignorado.
Bella puxou a mão dele, segurando com força, como fazia quando era criança e tinha medo de tempestades.
— Eu prometo que sei o que estou fazendo — ela disse, embora a própria frase parecesse frágil demais. — Eu só… preciso resolver algumas coisas. Depois disso, tudo acaba.
Charlie a observou com atenção, como se tentasse enxergar além das palavras, procurando aquilo que ela não estava dizendo.
— Você gosta dele? — perguntou de repente.
O frio que percorreu a espinha de Bella foi imediato.
— Não — ela respondeu rápido demais.
Então suavizou o tom.
— Não é isso. Não tem nada de romântico. Eu jamais faria isso com você. Nem comigo mesma.
Charlie fechou os olhos por um instante, respirando fundo, dividido entre a raiva que ainda ardia por causa dos Cullen e um medo muito mais primitivo — o de perder a única pessoa que realmente importava.
— Você confia em mim? — Bella perguntou, a voz quase um sussurro.
Charlie passou a mão pelo rosto, exausto com a própria vida.
— Confio em você, Bells. Sempre confiei.
Apertou a mão dela, observando atentamente o anel que cintilava ali.
— Mas não confio nele. Não confio naquela família. E isso é o que mais me assusta nessa história.
Os olhos de Bella arderam. Ela piscou, recusando-se a chorar.
— Eu sei me cuidar, pai. Eu prometo.
Charlie suspirou fundo, pesado, como se carregasse o mundo nos ombros.
— Então me promete mais uma coisa — ele disse, sério. — Se em algum momento isso sair do controle… se você se sentir pressionada, ameaçada, seja lá o que for… você vem falar comigo. Não importa a hora. Não importa a situação.
— Eu prometo — Bella respondeu, a voz embargada.
Seu pai a puxou para um abraço forte, protetor, como se pudesse afastar todo o resto do mundo dali. Bella apoiou o rosto no ombro dele e, pela primeira vez desde que aceitara participar daquele contrato, sentiu o medo se instalar de verdade. Não o medo vago do desconhecido. Mas a certeza silenciosa de que aquele noivado falso com Edward Cullen não era apenas um teatro corporativo. Era uma combinação perfeita de mentiras, ressentimento e perigo iminente.
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